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Impostos: culpas e desculpas

Quem pediu desculpas não tinha que pedir e quem tinha que pedir desculpas não pediu.

Vasco Campilho (www.expresso.pt)
17:45 Sexta feira, 14 de maio de 2010

Confesso que estou aborrecido. Por um lado, para o mês que vem já vou estar a receber menos um por cento. O que é mau. Por outro lado, não ganho sequer que chegue para me tirarem um e meio por cento. O que é pior. Mas não seja por isso: como o IVA também aumenta um por cento em todos os escalões, vou poder contribuir como gente grande, mesmo ganhando como gente pequena. A minha sorte é não ser político, senão levava uma patriótica talhada de cinco por cento para além do aumento de impostos. Fica no entanto a dúvida: estamos todos a contribuir para quê, exactamente? Para a redução do défice do primeiro-ministro que ainda-está-para-nascer-quem-faça-melhor -pior-que-ele-no-défice? Então mas não era o défice que nos ia fazer sair da crise? Agora é a crise que nos vai fazer sair do défice?

Reconheço que estas são perguntas retóricas: nunca acreditei que o défice nos ia fazer sair da crise, como dizia o PS durante a campanha eleitoral. Não estou por isso espantado que seja a crise a forçar-nos a sair do défice. Não podemos eternamente viver do que nos empresta o estrangeiro: em algum momento haveríamos de ter que começar a pagar. O momento chegou, sob a forma de um ultimato lançado a José Sócrates pelo Conselho Europeu: ou cortas a valer no défice JÁ, ou sais do euro. Agora que o momento chegou, a questão que se coloca é "como fazer para pagar"? Afasto propositadamente a opção do "não pagamos", bastante acarinhada por sectores político-opinativos abençoados pela circunstância de não terem sido nem serem susceptíveis de vir a ser chamados a assumir a responsabilidade de governar. Portanto, como fazer para pagar? Há dois modos de o fazer: aumentar a receita do Estado, ou reduzir a despesa.

Curiosamente, pela primeira vez desde há muito tempo, foi anunciado que vamos recorrer em igual proporção a esses dois modos para reduzir o défice. Não é costume: em geral temos de nos contentar em apertar o cinto enquanto o Estado alarga o seu. Não é costume nem era expectável: ainda há duas semanas o Governo rejeitava as propostas de corte na despesa do PSD. Não é costume nem era expectável, mas aconteceu. E aconteceu porque o maior partido da oposição fez para que assim acontecesse. Fê-lo com um custo, o de transigir com aquilo que realmente queria - que pela primeira vez em Portugal o ajustamento pudesse ser feito essencialmente pela despesa. Mas o custo da intransigência seria ver o PS a tentar um ajustamento apenas pela receita, e provavelmente falhar, atirando Portugal para uma posição de fragilidade ainda maior do que aquela em que se encontra.

Parece-me por isso que Passos Coelho não tinha que pedir desculpa pelo que fez. Quem tinha de pedir desculpa é quem deixou Portugal sem alternativa. Mas prefiro de longe quem perante a adversidade se sente culpado mesmo daquilo de que não é responsável aos que nem por aquilo de que são culpados se sentem responsáveis.

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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odagrom (seguir utilizador), 2 pontos , 19:34 | Sexta feira, 14 de maio de 2010
Concordo plenamente. Cavaco Silva já há muito que deveria ter vindo pedir desculpas pelos 10 anos da sua governação. Em tempo de vacas gordas nada foi feito para corrigir os problemas ancestrais da economia portuguesa (fraca competitividade e dependência energética). Agora resta-nos apertar o cinto e pagar os juros das asneiras. Enquanto isso, Aníbal continua a manjar que nem um lorde às custas do estado...
 
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Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 19:48 | Sexta feira, 14 de maio de 2010
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