Nas fotografias, Aminetu Haidar nem sempre aparece com a cara e os óculos severos, o véu na cabeça. No Google, surge com a cara ensanguentada, como se tivesse sido vergastada, espancada. Nos anos em que esteve desaparecida nas masmorras marroquinas que punem e torturam os sarauís que se recusam a aceitar a ocupação como um facto consumado, Aminetu deve ter sofrido a privação de todos os direitos, liberdades e garantias tão caros ao Ocidente e que são constitutivos da nossa democracia e sistemas político e judicial. Agora, num vão do aeroporto de Lanzarote, em greve da fome apenas quebrada por água e açúcar e recusando assistência médica e alimentação forçada, Aminetu espera a morte.
Disto nada percebemos. Podemos escrever milhares de páginas sobre direitos e deveres, liberdade ou morte, vítimas e carrascos, e continuaremos a não perceber de que falamos quando falamos de greves da fome em nome de causas, ou do direito a morrer por um símbolo. Uma luta. Uma terra. Percebemos melhor a escolha de matar por um princípio de liberdade do que a escolha de morrer por ele. Nos tempos que correm, estas escolhas são mal entendidas e reputadas como inúteis ou encenadas. Muitos comentam, do conforto da almofada, que o facto de Aminetu ter escrito Sara Ocidental no formulário de entrada no aeroporto de El Aaiún (regressava de uma viagem ao estrangeiro com passaporte marroquino, o único que possui) e assim ter visto o passaporte e documentos confiscados e ter sido empurrada para dentro de um avião de regresso a Espanha, Lanzarote, é um disparate. Um disparate e uma teimosia que lhe custarão a saúde ou a vida. Nos movimentos de libertação e nas revoluções, são justamente estes disparates que lançam a luz sobre as causas e os silêncios das causas. Há quem ache, como achou Arafat na juventude, que o silêncio ensurdecedor que rodeia as causas perdidas justificam o terrorismo e o assassínio de inocentes. Aminetu prefere morrer de fome.
O sacrifício pacífico fará dela não uma mártir, palavra idiota, e sim um altifalante, um megafone, uma voz que está a ser ouvida em muitas partes, pela primeira vez em décadas. A luta do povo sarauí, e sobretudo a incapacidade de se arranjar uma solução politicamente negociada para este problema, é uma das vergonhas do século XX. Marrocos, com a cumplicidade activa da Espanha, sabe que não poderá fazer parte de uma Europa democrática enquanto este problema não for resolvido ou discutido. Não se trata apenas da sua integridade territorial, trata-se de dar direitos e representação política a um povo que foi abandonado no deserto e colocado atrás do muro. Muito mais fácil de resolver do que o conflito israelo-palestiniano, este conflito mantém-se porque ninguém se preocupa. E porque os sarauís são, no contexto internacional (leia-se americano), coisa pequena, coisa pouca. Um povo de pedintes que vive da ajuda internacional. Podemos dormir descansados.
Noutro lugar, um lugar civilizado, uma mulher foi condenada pelo homicídio de outra mulher. A jovem americana Amanda Knox, à qual foi concedida uma cara angélica, foi considerada culpada pelo júri italiano de ter assassinado, com dois cúmplices, uma colega, a inglesa Meredith Kercher. Duas estudantes estrangeiras em Perugia. Um mistério de Agatha Christie deu episódio do "CSI". O caso tem os ingredientes do escândalo sexual e do hedonismo. A inglesa teve a garganta cortada e terá padecido uma longa e sangrenta agonia. O caso contra Amanda, o namorado italiano (de duas semanas) e um nacional da Costa do Marfim, dealer de drogas e ladrão, é um caso de alguma solidez. Sendo americana, os media e organizações americanas trataram do assunto.
A América, com um sistema que autoriza a pena de morte, sente-se no direito de julgar os italianos por causa de um dos seus cidadãos que foi apanhado por outra ordem jurídica. Não se trata tanto de saber se a prova é conclusiva ou o veredicto sólido, trata-se da espuma de arrogância que vem ao de cima neste caso. Disto, eles percebem tudo. Nos media americanos, Amanda foi retratada como um anjo, a vítima foi ignorada e, como sempre, reconduzida ao papel da culpada. Gente que devia saber melhor, causídicos e jornalistas, procuradores, peritos, opinam que Amanda é vítima de um sistema penal inferior e que nada autoriza um não americano a julgar um americano. Extraordinárias afirmações xenófobas foram produzidas. Os italianos seriam, enfim, uns primitivos. Incapazes de uma decisão justa. "Le monde c'est moi", grita a América no púlpito. Nesse lugar utópico e narcísico, Amanda Knox existe, Aminetu Haidar não existe. E o que não existe para a América não existe para o resto do mundo.
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009