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E pluribus unum

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 24 de novembro de 2009

Há duas razões para prestarmos atenção às últimas três semanas europeias. A primeira tem que ver com o passado. A segunda com o futuro.

Começando pela primeira, as duas primeiras semanas de Novembro mostraram que a maioria das sociedades, governos e instituições europeias está empenhada em relembrar o seu passado. As comemorações de mais um aniversário do final da Primeira Guerra Mundial e as celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim são os exemplos mais visíveis deste empenho europeu. O mais curioso é que em 1914 e em 1989 aquilo que era considerado improvável e impossível aconteceu.

O nível da integração económica e financeira entre as principais potências levou muita gente a concluir que uma guerra entre as principais potências europeias em 1914 era um acontecimento altamente improvável. No que toca à queda do Muro de Berlim, o que infelizmente não faltou na Europa ocidental durante a Guerra Fria foram políticos, professores universitários e intelectuais que nunca se cansaram de prever o colapso das democracias liberais. Por tudo isto, os anos 1914-1918 e 1989 merecem ser relembrados e discutidos. Os países europeus, é bom recordar esta semana, não vivem apenas do seu passado mais ou menos recente. Isto leva-me ao segundo ponto, relacionado com o futuro.

A semana que agora acaba foi importante. O caos, as divergências e as intensas negociações à volta dos nomes do presidente da União Europeia e do alto representante para a política externa escondem uma tendência que devemos ter presente - a transformação do sistema político europeu continua a avançar. Após 1989, a grande ambição dos membros da União Europeia foi alargar o mercado único e criar o euro. Durante estas duas décadas, Bruxelas transformou-se numa potência comercial internacional ao mesmo tempo que a globalização conheceu um grande desenvolvimento.

Este facto não impediu que os últimos anos tenham sido de grande ansiedade para os governos e sociedades europeias. Esta ansiedade está associada à sensação de crescente irrelevância internacional de países europeus que ao longo de séculos se habituaram a fazer história. Em Washington, a União Europeia é vista como um 'gigante coxo'. Barack Obama foi recebido em triunfo em Berlim no Verão de 2008, mas agora parece olhar para os países europeus como o passado e para a China como o futuro. Em Washington, Pequim é bem mais importante do que o Muro de Berlim. Quando os americanos falam em G2 não estão propriamente a pensar nas capitais europeias. E do outro lado do mundo, em Singapura, o influente Kishore Mahbubani vê em Bruxelas uma 'minipotência' diplomática. O resultado de tudo isto é uma poderosa narrativa interna e externa de derrota e irrelevância europeia.

Esta narrativa de derrota ignora coisas fundamentais como a evolução da segurança europeia, o alargamento da União Europeia das costas do Atlântico até ao Mar Negro, a riqueza da maioria das sociedades europeias - já viu qual é o PIB per capita da Rússia, China e Índia? - e as suas capacidades tecnológicas e industriais.

O Tratado de Lisboa é uma maneira de responder à ansiedade dos decisores europeus. A verdadeira motivação dos governantes e das elites europeias foi dotar a União Europeia - e as principais capitais do Velho Continente - de mecanismos para poder eventualmente vir a ser um actor de primeira grandeza a nível mundial. No passado, Bruxelas afirmou-se internacionalmente pela via comercial e económica. O objectivo agora é que esta afirmação venha a ser feita nos próximos anos pela via da política externa. A divisa do Tratado de Lisboa bem podia ser E pluribus unum.

O problema é que a narrativa da derrota e de fatalidade que nos rodeia é incompatível com uma divisa tão ambiciosa como esta. Será que conseguimos arranjar uma nova narrativa?

Washington e Luanda

Toda a gente parece estar muito interessada em Angola, um país com grandes riquezas naturais e ambições políticas regionais. Na segunda-feira, tiveram lugar em Washington as duas primeiras reuniões do Diálogo de Parceria Estratégia entre os EUA e Angola. A cooperação ao nível da segurança regional e da energia foram os temas em cima da mesa. Na terça-feira, a embaixada de Angola e o Woodrow Wilson Center organizaram um "Dia de Angola". Até onde vai evoluir a relação da Administração Obama com Luanda?

Número

20


anos depois da queda do Muro de Berlim, os países da União Europeia preparam-se para dar um importante passo político com o Tratado de Lisboa. A narrativa da derrota que nos rodeia é incompatível com as ambições dos decisores europeus

Soluções

+
671.616 alunos estrangeiros estudaram nas universidades americanas em 2008/2009. O maior contingente é indiano - 103.260 alunos

-
A morte de Sergei Magnitsky, um advogado especializado em questões fiscais, após 11 meses na prisão de Butyrskaya, em Moscovo

Miguel Monjardino


Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009

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Eu não diria gigante "coxo", diria "Tetraplégico"
Xico Taxista (seguir utilizador), 2 pontos , 11:55 | Sexta feira, 27 de novembro de 2009

 
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Xico Taxista (seguir utilizador), 2 pontos , 12:00 | Sexta feira, 27 de novembro de 2009
Enquanto assim não for...
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 11:47 | Quinta feira, 26 de novembro de 2009
Notas marginais:
1. Será muito difícil copiar o lema nacional dos Estados Unidos da América (“E pluribus unu”, “de muitos, um”) sem que a União Europeia atenda a pelo menos cinco condições necessárias à equiparação dos dois conglomerados político-económicos, a saber: a) Uma língua comum, o que obrigaria a um bilinguismo Europeu efectivo; b) Um sistema de ensino universal, isto é, com idênticas obrigações, oportunidades e habilitações para todos os cidadãos; c) Um poder de compra equiparável entre as populações dos estados-membros; d) Um entendimento aceitável, por todos os indivíduos, das leis comuns que os agregam e dos propósitos que os unem; e) Acesso fácil e generalizado das populações aos necessários e suficientes objectos políticos, sociais, económicos e culturais de todos os países que integram a União.
Enquanto assim não for a União Europeia sofrerá sempre de uma ansiedade latente, funcionando como um caracol de pesada casca, sem uma vontade sólida, já que se vai alimentando apenas do desejo e da conveniência de algumas elites que acreditam que as massas semi-ignorantes se deixarão por elas conduzir de uma maneira ou de outra…
2. A China está em força em Angola já há alguns anos. É de crer que os jogos entre as empresas, ansiosas por trabalho e rendimentos, e entre os estados, sedentos de recursos naturais, se façam no plano político e “para-político”, uma vez que as vantagens nuas e cruas que os chineses são capazes de oferecer são dificilmente superáveis.

 
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O casamento de conveniência
CondestavelXXI (seguir utilizador), 1 ponto , 17:31 | Quinta feira, 26 de novembro de 2009
A UE, os EUA e o Japão têm PIBs per capita cerca de 10 vezes superiores aos BRIC. O mundo globalizado não parece aguentar crescimentos de 3% para os primeiros e dois dígitos para os segundos por muito tempo.
Se os três gigantes económicos do sec XX conseguirem adaptar-se a viver em relativa estagnação e em paz, já não seria nada mau. É certo que dos três, a UE é o gigante mais coxo devido ao facto de se assemelhar mais a um conjunto de casamentos de conveniência do que uma união séria para o bem e para o mal. É difícil que a UE resista ao primeiro embate em que os europeus tenham que sofrer realmente juntos esquecendo-se de nações.
 
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