13/02/2012 atualizado às 11:27
Página Inicial » Opinião » Luís Freitas Lobo » Ideias: A origem do melhor futebol

Ideias: A origem do melhor futebol

Existe um lugar ideal para começar a construir o bom futebol? O centro ou os flancos? O passado e o presente.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
13:26 Quarta feira, 13 de janeiro de 2010

Os sistemas não se inventam, mas funcionam sempre do meio-campo para a frente em função das características dos jogadores. No seu aproveitamento racional e da dinâmica que sob o ponto de vista físico e táctico eles possam proporcionar, resulta a expressão adequada de um tipo de futebol. O nosso 4x4x2 valeu um 2º lugar e duas taças. Numa análise detalhada, o '4' do nosso meio-campo era um '1x2x1'. Era a figura geométrica do losango que ressaltava a todo o momento da dinâmica que esse quarteto impulsionava".

Eis um treinador explicando o seu futebol. Táctica, momento, losango, dinâmica. Terminologias modernas, dirão. Sem dúvida. Ditas, no seu tempo, por um homem avançado no... tempo. José Maria Pedroto. Era o "Mestre do boné" a explicar, em 1977, como jogava o seu Boavistão, equipa inolvidável.

Desde esse tempo, uma pergunta permanece: qual é a posição (e espaço) mais importante por onde uma equipa deve começar a jogar? O futebol mudou muito através dos tempos e, com isso, a resposta também sofreu evoluções. Pensemos no presente. Mas, mesmo hoje, a 'doutrina' divide-se.

O mais natural, ao imaginar o organizador clássico, é pensar no meio-campo e no médio-centro estilo nº 10. Os anos 70/80 terão sido o auge deste tipo de jogador (estilo Platini, que jogava quase de mãos nos bolsos). Ordenava a equipa, quase como uma placa-giratória da bola. Dava a ideia de que até poderia treinar sentado em cima de uma bola no centro do relvado, apenas imaginando as coordenadas ideais para fazer os passes longos certos. Já não é assim.

O tal organizador de jogo é hoje quem estiver na... posse da bola. Tanto pode ser o central, como o trinco ou o médio ofensivo. Mesmo assim, existem referências indispensáveis numa equipa para começar a pensar o 'jogar bem'. Pensar nas melhores equipas deste campeonato (os três grandes e o Braga) é um bom exercício para reflexão. Para isso, recordo a tese cruyffista que ouvi de Guardiola, muito antes de ser treinador do Barça: "O futebol começa nos extremos". Mas como - pensei -, se os extremos são uma espécie em extinção, se quase já nem existem no futebol actual? Fui percebendo, porém, que era preciso agilizar o conceito.

Assim, adaptem extremos ao espaço onde eles se movem: os flancos. Depois, porque ninguém começa a jogar logo em cima da área adversária, recuem no terreno e encontram os... laterais. Eles moram no espaço, por natureza, menos congestionado do relvado. A "zona de pressão" suprema está no corredor central. O espaço de transição mais aberto estará nos flancos. E quem joga desde trás nos flancos? Os defesas-laterais. Por isso, a importância destes jogadores (a sua posição) cresceu muito dentro de uma equipa. Em muitos casos, são eles que 'saem a jogar' enquanto o pivô (trinco moderno) serve prioritariamente para equilíbrios defensivos. Será uma boa forma de explicar o sucesso do Braga. Teve até agora os melhores laterais, João Pereira e Evaldo, a 'sair a jogar' (levar a bola) até ao meio-campo (entrando depois, mesmo, em combinações ofensivas). Agora pensem nos laterais dos três grandes: Maxi Pereira-Peixoto; Fucile-Pereira; Abel-Grimi. É difícil descobrir aqui uma grande referência para esse bem jogar.

É então que volto a recordar a explicação de Pedroto. Aquela sua dinâmica táctica de jogo tinha um momento decisivo de construção que era dada pelos laterais. Trindade e Taí, o carequinha. Havia, claro, o 'maestro' Alves, mas o princípio do jogar (o seu momento de origem) era outro. A partir dos flancos. E como jogava. Mesmo que, no papel e relvado, não existisse nenhum extremo. O bom futebol não vive de posições ou referências fixas. Vive de boas ideias e sábia utilização dos espaços. Hoje, como antes, como daqui a 50 anos.

25 anos: uma frase


Fez 25 anos que Pedroto partiu. Penso o que teria sido diferente no futebol português neste tempo se não tivesse partido tão cedo. Pedroto era um mestre da táctica, mas antes disso era mestre do estudo do 'comportamento humano'. A sua percepção do futebol era global.

Recordo, ainda miúdo, de o ouvir na Casa de Desporto no Porto. Em 1981. O nosso futebol vivia um terrível complexo de inferioridade em relação ao resto da Europa. Pedroto dizia que lhe faltavam "30 metros". Acusavam as suas equipas, como a selecção, de também serem responsáveis por isso. Não acho. Penso é que ele entendeu, desde cedo, o que era o "jogador português" no plano estilístico internacional e, para o bem e para o mal, moldou, ao tempo, a sua identidade. De contra-ataque, mas sempre com personalidade. Isso é que era importante. Hoje os tais complexos já parecem distantes, mas foi por isso que me recordei dessa noite de 81. Perguntaram-lhe se aquele então triste Portugal poderia evoluir ou se só com outro 'Eusébio'. Lembro-me de ficar incrédulo com a resposta: "Temos dos melhores jogadores do mundo. Também podemos ir a Mundiais e ganhar taças europeias. Com estes, sim, sem ficar à espera de Eusébios!", dizia veemente. A plateia perguntava: "Mas como? Com quem?". E Pedroto insistia: "Com o nosso estilo, a nossa forma de jogar. Não somos inferiores a ninguém!". Dizer isto quando não íamos a lado nenhum parecia heresia. Mas não era. Pedroto sabia o que era o nosso futebol. Forças e fraquezas. A ideia era manter a identidade mas libertá-la do complexo de inferioridade. Como fez no FC Porto à dimensão nacional. Resgatar o orgulho. Revolucionar mentalidades. Por isso, também na arte do conflito era mestre.

O 'coelho'e a equipa


A primeira volta chega ao fim. Olha-se para os 15 jogos passados e, na busca por jogadores que mais empolgaram, é impossível não destacar o renascimento do Benfica. Um central imperial, David Luiz, um meio-campo equilibrado (Javi Garcia-Ramires) e avançados complementares (Saviola-Cardozo). De Braga, o onze que abalou o poder instituído, dois laterais que fazem o campo todo. Evaldo e João Pereira, um 'rato atómico' em forma de lateral-direito. No meio-campo, uma revelação madeirense, Ruben Micael, e um velho caminhante que continua a jogar muito, Nuno Assis.

É 'estranho' encontrar poucos jogadores do FC Porto nesta reflexão. A máquina azul-e-branca tem sentido a falta de estrelas com luz própria. Emerge Bruno Alves , por terra e... ar, e, na caça ao golo, o melhor de Falcão.

Se, no entanto, tivesse de dizer um nome para jogador da primeira volta diria Saviola. Pelo que joga (corre, desmarca-se, passa e remata) e faz jogar (recua e liga com Aimar, avança e liga com Cardozo). Por isso, a diferença deste campeonato é simples: há um 'coelho' a mais!

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




As substituições não são 'ciência oculta'
0:00 Sábado, 1 de outubro de 2011,
O futebol primeiro do que a ciência
0:00 Sábado, 24 de setembro de 2011, 1
A vantagem de ser 'vagabundo'
0:00 Sábado, 17 de setembro de 2011,
A importância de ser o centro do mundo
0:00 Sábado, 10 de setembro de 2011,
'Por favor, não pise o relvado!'
0:00 Sábado, 3 de setembro de 2011,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP