Se quiser ter uma boa ideia de como a política internacional está a mudar preste atenção ao que vai acontecer no Estoril.
A cimeira Ibero-Americana não é normalmente um bom lugar para termos uma ideia realista das grandes tendências internacionais. Quem não se lembra do oportuno "Por qué no te callas?" do rei Juan Carlos para o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em Santiago do Chile há dois anos? Suspeito que toda a gente se lembre. Mas tenho dificuldade em relembrar uma única cimeira Ibero-Americana que tenha tido algum impacto na política internacional.
E, se olharmos com atenção, vemos que as expectativas dos países latino-americanos para a cimeira no Estoril não parecem ser muito elevadas. O pessimismo em relação à vastíssima região que vai do México ao Chile parece ser enorme. Como é infelizmente costume, passámos a última semana a ouvir falar de governos espectacularmente incompetentes (Venezuela), do problema da pobre Honduras, da fome na Guatemala, do conflito entre a Venezuela e a Colômbia e da crescente militarização da América do Sul. Nada parece ter mudado na América Latina. Do outro lado do Atlântico, o passado parece continuar a afogar o futuro. O que é que me leva então a pensar que vale mesmo a pena prestar atenção ao que se vai passar no Estoril? Quatro coisas acima de tudo.
A primeira tem a ver com a convicção de Lisboa e Madrid de que é mesmo preciso fortalecer o eixo com a América Latina para preservar um espaço de manobra e influência diplomática na União Europeia. Os decisores portugueses e espanhóis sabem muito bem que a alteração na distribuição do poder internacional a que estamos a assistir terá consequências importantes em termos internos em Bruxelas. A construção e desenvolvimento de uma comunidade ibero-americana vibrante nas próximas décadas é importante para Portugal e Espanha.
A segunda razão para prestarmos atenção à América Latina tem a ver com o que está a acontecer na área da energia. Alguns países da região - a Venezuela é o melhor exemplo - são extremamente ricos em petróleo, gás natural e recursos hidroeléctricos mas têm-se revelado péssimos na gestão destas riquezas. Outros - como o Brasil - prometem vir a ser potências energéticas nos próximos anos. A evolução tecnológica sugere que nos próximos 15-20 anos será possível ter acesso ao petróleo que tem vindo a ser descoberto nos últimos anos nas costas do Brasil. O mais interessante para nós deste lado do Atlântico é que para tirar pleno partido destes novos poços de petróleo a grande profundidade, Brasília necessitará de enormes investimentos e de tecnologia muito sofisticada. A maioria do capital e da tecnologia, todavia, não estão na Europa mas sim em Washington.
A terceira razão tem a ver com a explosão do número de pessoas que nas próximas décadas passarão a fazer parte da nova classe média mundial. Esta classe irá alimentar-se de uma forma muito mais rica e alguns países da América Latina estarão bem posicionados para tirar partido deste importante desenvolvimento na economia internacional.
Nas próximas décadas o Brasil ou o México têm boas possibilidades de ver as suas economias crescer a seis por cento ao ano. Crescimentos destes terão importantes consequências regionais e tornarão óbvia a necessidade dos países da América Latina investirem nas suas infra-estruturas, educação, capacidade de atracção de investimento e competência dos seus governos.
A comunidade ibero-americana pode desempenhar um papel interessante na cena internacional. Só precisa de menos folclore político e mais substância.
Yiwu
Em que assentam as relações comerciais entre a China e o Golfo Pérsico? A resposta tende a ser o petróleo mas Yiwu, uma cidade de dois milhões de habitantes, 300 km a sul de Xangai, é a melhor prova de que as coisas estão a mudar depressa. A cidade tem um mercado com mais de quatro milhões de metros quadrados, uma mesquita e atrai todos os anos mais de 200 mil comerciantes árabes. Yiwu faz parte da nova "estrada da seda" entre a China e o Golfo Pérsico.
Número
11
anos depois, Portugal acolhe nova cimeira Ibero-Americana . Apesar do pessimismo em relação à América Latina, várias razões sugerem que vale a pena prestar atenção ao que se vai passar no Estoril este fim-de-semana.
Soluções
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A crise financeira internacional de 2008/2009 não impediu reformas na Europa de Leste, Ásia Central, Médio Oriente e Norte de África
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A deterioração das relações entre o Egipto e a Argélia por causa de um jogo de futebol
Miguel Monjardino
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009