A Venezuela está desde ontem em estado de emergência energética, por decreto do Presidente da República. O que surpreende não é a decisão, inevitável num país onde os cortes de electricidade e água são quotidianos, mas o meio escolhido para anunciá-la: um novo programa radiofónico que será emitido "a qualquer momento, inclusive às três da manha", conforme explicou o líder bolivariano.
"Quando ouvirem um toque de harpa, poderá ser Chávez de repente", foi a frase utilizada para abrir o programa, que o chefe de Estado venezuelano classifica de "guerrilha pela rádio".
Este espaço vem somar-se ao programa televisivo semanal "Aló Presidente", difundido ao domingo, com uma duração média de seis horas, e à transmissão obrigatória por todos os canais nacionais, públicos ou privados, dos discursos oficiais do Presidente.
Tempos difíceis para Hugo Chávez
Em 2009, estas alocuções ao país somaram o equivalente a 58 dias seguidos, sem contar com o programa semanal. Na última emissão de "Aló Presidente", no domingo passado, Hugo Chávez passeou pela Praça Bolívar, no centro de Caracas (onde ficam a Assembleia Nacional e a catedral), expropriando vários edifícios em directo.
O programa de rádio é mais uma iniciativa mediática de um líder que atravessa tempos difíceis. No torneio de basebol Série das Caraíbas, que terminou domingo na ilha de Margarita - a maior do Estado de Nova Esparta, um dos poucos governados pela oposição -, os críticos do Governo repetiram a divisa "Chávez tas ponchao", aludindo a três "ensaios falhados" que lhe valeriam um lançamento nulo num jogo daquela modalidade.
Electricidade, água e segurança são as áreas em causa. O mesmo mote tem-se ouvido nos protestos estudantis, que Hugo Chávez considera "fascistas".
Cubano Ramiro Valdés mal visto
Os protestos têm subido de tom desde que o chefe de Estado da Venezuela convocou, para ajudar a resolver a crise económica, o ministro da Tecnologia cubano, Ramiro Valdés. A oposição acusa-o de não ter credenciais na área energética, e sim na da repressão e controlo da Internet na ilha de Fidel Castro.
O convite a Ramiro Valdés é visto como uma afronta à soberania da Venezuela - onde há cerca de 65 mil cubanos em vários postos da administração pública -, até porque a Ordem dos Engenheiros venezuelana não foi ouvida.
Hugo Chávez, no entanto, considera estas críticas "estúpidas e loucas". O Presidente convocou para sexta-feira uma marcha de estudantes em apoio do Governo, afirmando que a maioria dos universitários está consigo.