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| Hosmany Ramos apresentou-se disfarçado, com gorro e óculos escuros |
| António Pedro Ferreira |
A cumprir uma pesadíssima pena de 46 anos, 11 meses e sete dias, Hosmany Ramos não regressou à cadeia de Valparaíso, em S. Paulo. Preso há já 27 anos, fora autorizado a sair para passar o Natal e o Ano Novo com a família. Deveria apresentar-se a 2 de Janeiro. Em vez disso, convocou, através de um assessor contratado, uma conferência de imprensa para um hotel paulista. Não compareceu, mas falou através de um telemóvel munido de alta-voz, para anunciar que não voltaria ao presídio.
Com um currículo vastíssimo de criminoso - que insiste teimosamente em negar, no essencial -, Hosmany já era um dos mais famosos prisioneiros brasileiros, na sua dupla qualidade de ex-cirurgião plástico da alta sociedade carioca e de escritor com oito romances publicados a partir do cárcere. Agora, passou a ser porventura o mais badalado dos 1519 foragidos que, tal como ele, aproveitaram a saída do Natal para se sumirem...
"Não voltei para protestar contra as condições carcerárias. Não quero retornar a um presídio de S. Paulo, onde as condições são extremamente degradantes e violentas" - explicou ao Expresso, na sua primeira entrevista presencial a um órgão de informação escrita. "Como intelectual e escritor, resolvi apresentar um manifesto sobre a realidade prisional paulista". O documento está na Internet e é uma denúncia arrasadora de uma situação que explode ciclicamente, quer na forma de crimes de violência inaudita, quer de levantamentos colectivos, liderados pelo famoso PCC - Primeiro Comando da Capital.
O advogado foi mandatado para negociar com as autoridades as condições para o seu cliente se entregar. Hosmany apresenta várias reivindicações. A primeira das quais é completar os três anos de pena que lhe faltam - até perfazer o máximo de 30 anos de prisão efectiva que qualquer preso no Brasil pode cumprir - "numa penitenciária fora do estado de S. Paulo". O argumento é poderoso: "Eu não devo mais nenhum dia de prisão a S. Paulo. A minha condenação naquele estado é de nove anos - e já cumpri 27! Os outros devem ser cumpridos no outro estado onde fui condenado, o de Minas Gerais".
Quanto às razões que invoca, são muitas. Primeira: "S.Paulo não me concedeu o direito a trabalhar, que tenho desde que passei ao regime semi-aberto. O meu editor dava-me sala, salário, secretária e computador para escrever os meus livros, mas não fui autorizado".
A segunda razão tem a ver com a saúde. "Contraí uma grave pneumonia, que quase evoluiu para uma tuberculose. Tive muita sorte e salvei-me. O mesmo não aconteceu com o preso que morava em frente e que, sem cuidados médicos, morreu. Tinha 53 anos".
Terceira: "Quando o meu irmão morreu, de cancro, nem me deixaram ir ao funeral. O mesmo aconteceu quando faleceu o meu pai. Recusaram-me esse direito elementar".
O rol de queixas e razões esgrimidas por Hosmany é infindável. A última das quais é a principal e mais importante de todas: a própria vida. "Se voltar a S. Paulo, corro risco de vida. Não sou bobo! O sistema prisional paulista está nas mãos de uma máfia que não me vai perdoar. São os mesmos dirigentes desde há 27 anos. Já passaram quatro ou cinco governos, mas os homens que controlam o sistema são os mesmos".
Um sistema em que "tudo conspira para que um indivíduo saia da cadeia, não melhorado, mas piorado: ladrão de supermercado sai assaltante de banco; o que foi apanhado com droga vira traficante; e quem provocou pequenas lesões corporais sai assassino... Esta é a lógica e a filosofia do sistema".
Irredutível na sua recusa em voltar a uma das 166 prisões paulistas, diz-se disposto a entregar-se "ou fora de S. Paulo, a qualquer hora, num presídio indicado por um juiz honesto, ou então num fórum internacional, como o Tribunal de Haia".
Reconhece que a sua fuga é ilegal. E punível. Se voltar, regressa inevitavelmente ao regime fechado por um período de seis meses. "Estou disposto a pagar esse castigo, desde que as minhas reivindicações sejam aceites".
Entretanto, admite concorrer às eleições presidenciais de 2010. "Vivemos num país democrático entre aspas", justifica. "Acredito que posso ser útil. O Presidente Lula não sabe o que está acontecendo - ou, se sabe, faz de conta e fecha os olhos".
Para caracterizar a situação do país, diz que "a frase que está inscrita na bandeira brasileira, ao invés de ser "Ordem e Progresso", deveria ser "Desordem e Processo"".
Nelson Mandela, cuja biografia devorou, é o seu "modelo". "Passou muitos anos na prisão, sofreu e depois revolucionou a África do Sul. Foi uma dádiva divina". Só que Mandela era um prisioneiro político, enquanto Hosmany é de delito comum... "Prisioneiro é prisioneiro" - contrapõe; "as condições são as mesmas. O que importa é a inteligência de cada um. E os meus livros estão aqui, para provar a minha capacidade".
O próximo está anunciado para Março. Chama-se "O Goleador" e inspira-se "nas maracutaias do futebol". Pelo menos dois dos seus romances já foram editados em França. O preferido chama-se "Sequestro Sangrento".
Envolvido no passado em célebres tumultos e rebeliões, Hosmany só tem palavras de elogio para o PCC. "Se fosse mais novo, entrava para o PCC, mas estou muito velho para isso". Se é certo que condena "determinadas acções feitas no passado", aponta a poderosa organização de prisioneiros do Brasil como "um interlocutor útil entre o Governo, as autoridades e o próprio sistema penal".
Diz até que, em certa medida, "o PCC até surgiu por minha causa". Conta que "o partido", como lhe chama, se inspirou no livro "Comando Vermelho", da autoria do jornalista Carlos Amorim. "Fora-me oferecido pela minha namorada na altura e emprestei-o ao Aparecido da Silva, que morava em frente da minha cela. Gostou imenso e acabou por me ganhar o livro, numa partida de xadrez. Foi assim que surgiu o PCC, de que o Aparecido foi um dos fundadores e líderes. Depois foi morto no pátio de sol por cinco colegas de cela: quatro agarraram nele, enquanto o quinto o enforcou com os atacadores de um sapato..."
Hosmay descreve a cena com toda a naturalidade. Será a banalidade do mal? "O mal não se banaliza! - protesta. "O mal existe, como existe o bem". Em reforço, cita Steinbeck: "O mal tem sempre uma cara nova, enquanto o bem é o que existe para sempre".
A rede que o apoia desde o dia 2, porém, não é do PCC, mas tão só de conhecidos e amigos, velhos e recentes. "Vivo circulando: aqui hoje, amanhã ali, mudando de cidade e de estado". As suas únicas armas, pelo menos visíveis, são um telemóvel e um computador, "por onde falo com o meu advogado, através do Skype".
O currículo de Hosmany dava para um filme. Preso em 1981, tentou fugir da prisão por três vezes, sem sucesso. Até que, em 1996, à beira de aceder à liberdade condicional, aproveitou a saída do Dia das Mães para se escapulir. Foi apanhado umas semanas depois, envolvido no rapto de um empresário em Minas Gerais, o seu estado natal.
Hoje, arrepende-se dessa aventura, que lhe provocou um ferimento de bala e engrossou ainda mais a pena. "Passei pelo crivo prisional e absorvi como uma esponja o mal do sistema" - é como explica essa "loucura". Depois, descobriu a literatura, a que se dedicou com afinco - e, pelos vistos, qualidade e proveito.
Com 61 anos, acusado de assassínios, roubo de automóveis e jóias, tráfico de droga e sequestro, o mais certo é que Osmane Ramos, de seu verdadeiro nome, regresse à prisão. Até agora, porém, não há sinais por parte das autoridades. "A Polícia não está interessada em me pegar. Ela sabe que eu não sou criminoso". É Hosmany porta-voz da população prisional? "Não tenho essa pretensão". Em vez disso, prefere a palavra "cruzada". "Eu só quero melhorar aquilo. Se servir para melhorar uns dez por cento, já ficarei satisfeito". E invoca Nabokov no livro : .
Os pormenores por trás da entrevista
A mesa de plástico branca está coberta por uma toalha amarela e verde - as cores da bandeira do Brasil. Numa das pontas, entre meia dúzia de copos vazios, uma garrafa de vinho do Porto Ramos Pinto, virgem na embalagem. É um sinal em código, que remete para a minha única conversa com Hosmany Ramos, via telefone móvel, em Abril de 2007, para a prisão de segurança máxima Presidente Bernardes, em S. Paulo.
Uma conversa a propósito do livro "Balada para Sérgio Varella Cid", o pianista português a cujo misterioso desaparecimento, em 1981, sempre se associou o nome do cirurgião plástico e seu sócio em negócios ilícitos. O telefonema acabara com Hosmany a prometer tomar um Porto em Portugal, assim que fosse posto em liberdade. A garrafa era um sinal. Hosmany forçara a liberdade, ao recusar-se a regressar à cadeia. O local, porém, ainda não era a prometida Lisboa - mas sim uma cidadezinha do interior do Brasil, que o sigilo profissional me obriga a não revelar.
Soube de mais esta rocambolesca aventura de Hosmany através da correspondente do Expresso no Brasil, Maria da Paz Trefaut, que me alertou por email. No próprio dia, procurei a confirmação junto de alguém especialmente bem informado das andanças do novel escritor. Foi através desse alguém - cuja identidade o sigilo me obriga igualmente a proteger - que passei a estar em contacto quase permanente com o foragido. Desafiado a dar uma entrevista de carácter biográfico ao Expresso, onde e quando quisesse, aceitou. Sem condições. Já a minha única condição - que justificava, afinal, o inusitado interesse de um jornal português na sua história - é que não se escusasse a falar da morte de Varella Cid.
Aceite este requisito, a equipa de reportagem do Expresso aterrou em S. Paulo na noite de segunda-feira. Sempre guiados de muito longe, através de emails e SMS, pelo citado intermediário, fomos em sua demanda, de avião e automóvel, até uma pequena cidade de um interior verde e montanhoso, cujo nome jamais ouvíramos falar. Sem um mapa capaz, devorámos centenas de quilómetros de estradas de curvas estonteantes e tráfego assustador. Alguém nos iria buscar, na terça-feira, pelas 17h30, a um hotel com nome de santo - talvez para que nos sentíssemos mais protegidos... Chegámos atrasados e tememos o pior. Sem senhas nem outros sinais identificadores, não foi fácil descobrir o nosso contacto. Ainda por cima, não era ninguém com ar façanhudo, criminoso ou sequer desconfiado. Era alguém com o aspecto mais pacífico e ingénuo que é possível imaginar, engenheiro de profissão, amigo e sobretudo admirador de Hosmany. Seguimos então um Volkswagen Gol vermelho, de vidros fumados, que nos guiou até um bairro incaracterístico, mas de ar tranquilo, típico de uma classe média baixa de um país do hemisfério Sul.
Entrámos num prédio de construção recente, protegido por dois gradeamentos e subimos até ao 3.º andar. Não sem que, antes, um telefonema avisasse alguém da chegada do Expresso. A casa era de um estudante universitário - o mesmo que nos abrira o caminho no VW, de aspecto ainda mais inofensivo que o companheiro. Discretos, levaram-nos para a sala de jantar, cujo único mobiliário era a tal mesa de plástico, três ou quatro cadeiras, frigorífico e microondas.
Numa extremidade da mesa, a garrafa de Porto. Na outra, sentado, Hosmany, que se ergue para receber os repórteres com um abraço - como se fosse um amigo, ou pelo menos um conhecido de velha data. Apesar do negro currículo, que chegou a dar-lhe direito a uma pena de 57 anos de cadeia, não vi forma de recusar o cumprimento... Hosmany apresenta-se de ténis azuis, calças cremes, camisa e casaco azul sem gravata e óculos escuros. Impróprio para o Verão brasileiro, um gorro da Nike tapa-lhe a cabeça. É um disfarce, mas também, a aceitar a sua explicação, uma forma de proteger uma feia ferida na cabeça, provocada por uma recente queda decorrente de um súbito desmaio. Atrás de si, colados na parede, vários papéis escritos à mão e a azul, em torno do mote "Hosmany 2010 para Presidente".
São quase três horas de entrevista, em que responde a todas as perguntas. Interrompida apenas para abrir o prometido Porto - uma bebida que nunca provara. Na hora dos brindes, cabe-lhe fazer as honras da casa: "À saúde do Brasil"...
No final, cansado e encharcado em suor, revela-se inquieto e apressado. São horas de partir. Há demasiado tempo que está no mesmo refúgio. Sabe-se como um foragido desconfia da própria sombra... Sem nada jantar, parte em direcção a uma cidade grande, capaz, por isso mesmo, de lhe dar mais segurança. Após novo abraço, parte nas traseiras do VW vermelho, de gorro e óculos escuros, sob a protecção da noite e dos vidros fumados...
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Janeiro de 2009