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Hipátia na Ágora

Nuno Crato (www.expresso.pt)
13:11 Quarta feira, 6 de janeiro de 2010

Conta-se que era uma mulher atraente, que resistia aos seus numerosos pretendentes e que mantinha ostensivamente o celibato. Conta-se que era uma grande matemática e filósofa, que estudara em Atenas e vivia na agitada Alexandria, na época em que o helenismo, o judaísmo e o cristianismo se digladiavam no Império. Conta-se que foi morta violentamente por uma turba de religiosos fanáticos, quase certamente instigados pelo bispo Cirilo, Patriarca de Alexandria. Tudo isto que se conta sobre Hipátia de Alexandria (c. 355-415) é a verdade histórica, ou seja, o que se conhece com a segurança possível.

É sobre isto que fala, com bastante fidelidade, o filme "Ágora", actualmente em exibição entre nós. Retrata uma época em que as discussões civilizadas da praça pública grega, a ágora, tinham dado lugar à violência das turbas. As personagens, nomeadamente Amónio, Orestes, Cirilo e Sinésio, são figuras históricas, retratadas com alguma veracidade. Igualmente fidedigna é a descrição de Theon, o pai de Hipátia.

Theon foi um matemático famoso. Era bibliotecário em Alexandria e deixou vários comentários, ou seja, textos clássicos rescritos e desenvolvidos de forma a poderem ser difundidos e estudados. Não se lhe conhecem criações matemáticas originais, mas a qualidade dos seus textos impôs-se ao longo dos séculos, tendo chegado até aos estudiosos árabes. Sabe-se que Hipátia colaborou com ele em algumas edições, nomeadamente nas "Tabelas Práticas de Ptolomeu" e na "Aritmética de Diofanto". Terá sido ela quem fez e corrigiu alguns cálculos de várias obras. Sabe-se ainda que escreveu um comentário aos livros "As Cónicas", de Apolónio. Pouco mais se sabe sobre esta figura romântica da história da matemática, mas quem quiser conhecê-la melhor poderá ler Hipátia de Alexandria (Relógio D'Água), um breve estudo de Maria Dzielska que é a melhor fonte moderna sobre a cientista alexandrina.

O filme, que noutros aspectos tem preocupações históricas bastante louváveis, apesar de ser tão primariamente crítico do cristianismo primitivo que perde por esse primarismo, abandona aventurosamente a realidade quando fala das investigações de Hipátia. A matemática e astrónoma alexandrina aparece como tentando conciliar o modelo heliocêntrico de Aristarco com o modelo geocêntrico de Ptolomeu. Não há nenhuma base para essa presunção. O modelo de Aristarco era então apenas uma curiosidade algo absurda, e só em 1543 foi reavivado com o trabalho de Copérnico.

Entre outras desproporcionadas referências, o filme coloca Hipátia num navio, explicando ao prefeito romano Orestes a relatividade do movimento, um conceito avançado por Galileu 12 séculos mais tarde. Noutra cena, Hipátia discorre sobre a variação da distância da Terra ao Sol e tenta criar um modelo que consiga explicar essa variação sem círculos sobre círculos, os célebres epiciclos. Aí, os consultores do realizador esquecem os círculos excêntricos, com que Ptolomeu resolveu admiravelmente esse problema cosmológico. Numa das cenas mais exageradas da película, Hipátia conclui que as órbitas dos planetas devem ser elípticas, uma conclusão que escapou a Copérnico, a Galileu e a tantos outros e que demorou a Kepler uma vida de cálculos laboriosos para poder ser formulada.

É pena que estas invenções se juntem a outras falhas que tornam o filme menos interessante e menos credível. É pena, pois Hipátia é uma grande figura. É a primeira mulher matemática e os historiadores associam a sua morte ao fim da matemática helénica. Séculos passaram até que na ágora se voltasse a amar a ciência.

Palavras-chave  opinião
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Amando a Ciência
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 15:12 | Quarta feira, 6 de janeiro de 2010

Hoje mesmo, entre as 11:00 e as 13:00, dei a minha última aula de Antropologia Social e Cultural deste semestre.

Para a última aula desta minha disciplina, reservo sempre uma hora dedicada à exibição do 13º e último episódio da série COSMOS, de Carl Sagan.

Entre outros aspectos relevantes, é neste último episódio que Sagan nos fala de Hipátia, da sua dedicação ao ensino, ao conhecimento, ao estudo, à Ciência... assim como contextualiza a forma como esta foi morta, pelos seguidores do Bispo Cirilo, que mais tarde seria elevado aos altares pela "Santa" Madrasta Igreja (pouco ou nada) Católica Apostólica Romana. Cirilo não só foi santificado como foi elevado à condição de Doutor da Igreja.

Quando assisti ao filme Ágora, reconheci imediantamente a tentativa de impitar a Hipátia avanços científicos que ela dificilmente poderia ter alcançado, nomeadamente os que o Nuno Crato aqui refere; o mais evidente de todos diz respeito à descoberta da relatividade do movimento, realizada por Galileu, passado mais de um milénio.

Enfim, tendo sido destruídos a obra e o legado de Hipátia, é aceitável o exagero dos argumentistas, dado que o filme se destina ao grande público e não tem por que seguir critérios históricos absolutamente rígidos.

O que é certo, isso sim, é que os fundamentalismo religiosos destruíram um legado absolutamente incalculável, de uma riqueza e de um valor inestimáveis.

Ainda bem para alguns: sempre ganharam um santo a mais a quem podem rezar!
 
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Hipatia..., e o que "conta"...
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 15:32 | Quarta feira, 6 de janeiro de 2010
Hipatia é (foi) uma figura da Filosofia profundamente ligada ao pensamento neo-platónico, na linha de Plotino e Porfírio.

Se existe alguma "coisa” que importa relevar não será, não é, certamente, aquilo que "consta", mas aquilo que “conta”como contributo para a História do pensamento filosófico fundamental, a que Hipatia pertence.

O aspecto ontológico mais relevante, em termos de rememoração, é o da sua base de pensamento "formatada" pelo carácter apolíneo do "Uno" de Plotino com raiz em Parménides.
 
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ÁGORA
José Telhado (seguir utilizador), 1 ponto , 23:06 | Domingo, 10 de janeiro de 2010
Fui ver este belo filme que chama a atenção para os erros do fanatismo e das suas consequências maléficas para a humanidade. Considero o seu comentário muito pertinente e apraz-me reconhecer que em Portugal haja cada vez mais interesse pela descoberta dos Clássicos.
Cumps.
 
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