Hillary Clinton incluiu na sua primeira viagem a África, dois países que se expressam em português: Angola e Cabo Verde.
O primeiro porque é, indiscutivelmente, uma potência regional, em termos políticos, económicos e militares, fundamental para a estabilização da África Austral e o segundo porque foi considerado um exemplo, em termos de governação política, económica e social a ser estudado e seguido por outros países africanos.
Na preparação e realização desta viagem, Portugal, que afirma ser um vértice do triângulo Europa-África-América, voltou a mostrar a sua completa irrelevância em termos de política internacional.
Portugal continua, assim, a não desenvolver uma estratégia consistente em relação aos Países Africanos que falam português, indispensável para o desenvolvimento económico nacional e para a consolidação de movimentos de internacionalização de um grande número de empresas portuguesas.
Estes novos mercados constituem a única grande oportunidade para a constituição, pelas empresas portuguesas em alianças com empresas africanas, de plataformas de intervenção estruturadas, na região de África que apresentará os índices de crescimento mais significativos no futuro próximo. Aliás, para lá dos lugares comuns e análises superficiais, as elites portuguesas, com raras e honrosas excepções, continuam a deter uma considerável ignorância sobre a cultura, os valores e a vivência daqueles povos, aspectos essenciais para o aprofundamento posterior das relações económicas e empresariais.
As elites portuguesas têm com Angola uma relação que oscila entre o paternalismo e a subserviência (o caso recente dos vistos é paradigmático) e tratam Cabo Verde com sobranceria e falta de consideração, confundindo pobreza com falta de qualidade daquele povo.
As afirmações produzidas por Hillary Clinton e os compromissos que assumiu nesta visita aos dois países referidos justificariam uma reflexão em Portugal sobre o comportamento actual e as alterações a introduzir.
Não há nenhuma evidência de que essa reflexão será feita.
E é pena porque, uma vez mais, a destruição de valor será enorme e gratuita.
*Professor associado convidado do ISCTE