Os Jogos Olímpicos são sempre acontecimentos ímpares por estabelecerem uma "paz" cínica de quatro em quatro anos e permitirem, numa competição justa, reconhecer o esforço e aclamar os melhores atletas provenientes de todos os cantos do mundo.
Desde o seu início os Jogos Olímpicos têm sido sistematicamente utilizados para fazer política, e o século XX foi pródigo na sua utilização (in)devida por estados e regimes.
Dada a natureza do Homem, o Século XXI não será excepção.
Com a sua aproximação em 2008 crescem as tensões e, como não podia deixar de acontecer, iniciou-se o exercício sazonal de mediatização das mensagens políticas.
Para já, e de forma "habilidosa", os defensores da causa Tibetana, conseguiram colocar na agenda mundial um assunto que só pontualmente é abordado pelas razões que todos sabem.
A enorme visibilidade que as Tecnologias de Informação e Comunicação oferecem, surpreendem, desta vez, um dos regimes mais fechados, provando ser quase impossível esconder, hoje em dia, massacres e barbáries.
Estas acções deviam merecer um respeito "reverencial", uma vez que, ao contrário do que acontece nos regimes democráticos, desafiar o poder na China é sinónimo de morte, prisão ou exílio.
Infelizmente, a solidariedade com o movimento Tibetano desencadeia, apenas, uma "febre" de declarações e acções de manifestação e indignação contra a China, neste momento muito concentradas na passagem da Chama Olímpica.
No momento seguinte, o assunto é pragmaticamente esquecido e o acto compulsivo da compra, impele muitos dos contestatários a adquirirem todo o tipo de produtos de baixo custo que invadiram o nosso mercado, asfixiando o tecido industrial Europeu e fortalecendo, deste modo, a política Chinesa.
Assim, e apesar de todos os actos de indignação, quando começar o Europeu de Futebol, muitos dos críticos que em Portugal apoiam a causa Tibetana, voltarão a hastear bandeiras Portuguesas, quase todas fabricadas na China à custa de trabalho que escraviza crianças, mulheres e homens.
Por cá continua tudo na mesma: a memória é curta e a chama do consumismo continua em alta.
Pedro Sousa
Professor Universitário na FCT/UNL
e Director de Inovação da Holos