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Harold Pinter (1930 - 2008)

15:12 Terça feira, 6 de janeiro de 2009

Harold Pinter, morto em Londres na véspera de Natal de um cancro do esófago que desde 2001 lhe dera saúde precária, deitando-o às vezes abaixo (não pudera ir receber o Prémio Nobel a Estocolmo em 2005, tendo o tradicional discurso sido feito de sua casa numa cadeira de rodas e transmitido por circuito de televisão) mas, de outras vezes, sem força capaz de minar a sua energia vital (em 2006 interpretara num teatro londrino Krapp, único personagem de uma peça do seu amigo Samuel Beckett, com críticas ditirâmbicas), foi um homem de letras genial e versátil que escreveu versos toda a vida, um romance, numerosos ensaios, argumentos e diálogos de filmes (geralmente sobre romances alheios, metendo-lhes uma pungência sem igual), mas antes de tudo e da cabeça aos pés foi um homem de teatro na grande tradição europeia, começando como actor, mister que nunca abandonaria, e pondo peças em cena, de outros e também suas, de entre as vinte e nove que escreveu. Foi também o maior dramaturgo de língua inglesa do século XX - tendo Beckett como único paralelo plausível - e um dos maiores do mundo. Por razões que não se entendem bem, o teatro dramático europeu dos últimos cento e tal anos conhece ao Norte do continente os seus primeiros cumes, na passagem do século XIX ao século XX, com Tchekov, Strindberg e Ibsen. Poucas décadas depois, é a Sul que a grande mestria se afirma, com Pirandello e Lorca. De meados até ao fim do século passado volta-se ao Norte - mas não tão ao Norte: com Beckett em Dublin e depois em Paris, e Pinter em Londres. Um grande escritor nunca deixa a sua língua como a encontrou; mas no caso de Pinter foi mesmo inventada uma nova palavra inglesa - "Pinteresque" - que entrou no uso corrente (e no 'Oxford Dictionary') para significar aquele silêncio incómodo, sugestivo de ameaça oculta, em que tantas vezes os seus personagens estão mergulhados.

Nascido num bairro pobre do Leste de Londres a um casal de judeus emigrados, leitor inveterado desde a infância, cedo se meteu à arte dramática, mas só começou a ser conhecido com 'Festa de Anos' (1957), que aguentou apenas meia dúzia de noites no cartaz e críticos reputados acharam nula mas de que outro crítico escreveu, profeticamente: "Vê-se nesta obra que o sr. Pinter possui o talento mais original, perturbador e marcante do teatro londrino". Pinter diria depois que essa crítica lhe recompusera o moral e lhe permitira continuar, mas só com 'O Porteiro' (1960) veio a ter sucesso geral quer da crítica quer do público.

Entretanto, com uma versão para a televisão de 'Festa de Anos' e com quadros de revista para o West End, a sua maneira própria fora ganhando reconhecimento e ressonância. 'O Porteiro' retomava o entendimento das pessoas e do teatro de 'Festa de Anos', e cada vez mais espectadores iam encontrando nas peças de Pinter vozes da realidade confusa, dos medos, da fantasia irracional das suas próprias existências, caldeadas por humor cortante, génio cómico e domínio único do silêncio e do som das palavras.
Vieram a seguir 'O Regresso a Casa' (1965) e 'Terra de Ninguém' (1975) - com John Gielgud e Ralph Richardson nos dois personagens principais, dos quais Richardson disse: "Não sabem bem quem são. Mas isso de certa maneira é natural. Sabemos nós exactamente quem somos? E não conhecemos mais ninguém completamente... Somos um mistério para nós e para os outros'.

Depois de vida amorosa atribulada, Pinter fez um segundo casamento, feliz, com lady Antonia Frazer, historiadora, mãe de seis filhos, nascida na mais literária das famílias aristocráticas britânicas. Inglês até à medula, era fanático de "cricket", jogo tão misterioso para o não iniciado quanto algumas das suas peças. A política como cruzada moral apaixonava-o, sem subtileza nem perspicácia. Ambiguidades e incertezas eram para o dramaturgo, o cidadão tinha outras obrigações. No discurso de Estocolmo atacou descabeladamente os Estados Unidos, que considerava causa dos maiores males do mundo.

Palavras-chave  opinião, cutileiro, memoriam, harold, pinter
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