Hamida Ben Sadia, militante conhecida do esquerdismo feminista e anti-racista francês que um cancro levou em Paris na quinta-feira, 29 de Outubro, e foi a enterrar na terça-feira, 3 de Novembro, no cemitério de Malakoff, em cuja Câmara decorreu a seguir uma sessão de homenagem à sua vida e à sua memória, nascera a um casal de imigrantes pobres, muçulmanos não praticantes vindos da Cabília argelina, em Clamart, nos arredores de Paris, onde fora à escola e de onde aos dezasseis anos, quando era aluna brilhante do ensino secundário oficial e delegada de curso na estrutura associativa do seu liceu tinha sido abruptamente mandada de volta para a Argélia pelos pais que, embora integrados sem aparente sofrimento ou rebelião no canto suburbano onde a sociedade francesa os acolhera tinham grande cuidado em não ofender as susceptibilidades da família que ficara lá na terra, do outro lado do Mediterrâneo, e aceitaram o marido que, segundo o costume tradicional, aquela tinha arranjado para sua filha Hamida.
Com a morte na alma a rapariga, que já lera os filósofos e estava a viver a liberdade de uma adolescência parisiense, não se recusou a partir e não teve na altura remédio senão consentir no casamento, mas o que encontrou na Cabília excedeu em desconforto cruel e absurdo o que de pior antecipara. Confinada à casa e às relações de família femininas, em poucos anos mãe de dois filhos, sofrendo maus tratos do marido, resolveu apesar das dificuldades sociais e legais da Argélia - o Código da Família argelino de 1984 confere à mulher estatuto tão pouco satisfatório que já lhe chamaram o Código da Vergonha - procurar libertar-se e acabou por impor o divórcio ao marido, embora com um custo pesado. Livre dele, pôde voltar a França, treze anos depois de de lá ter sido forçada a partir, desta vez para Épinay-sur-Seine, mas teve de deixar para trás os filhos, Camel e Samy, o mais velho com sérias deficiências física e mental, por cuja guarda se continuou a bater mas só se lhe vieram juntar doze anos depois em França onde passou a tomar conta deles.
Contou a sua história num livro a que deu o nome de "Itinerário de uma Mulher Francesa - Clamart, Bab El-Oued, Épinay-sur-Seine", publicado em 2008. Tem havido ao longo dos anos vários livros semelhantes, escritos por mulheres que tal como ela se libertaram com maior ou menor dificuldade de família, aldeia, sociedade muçulmana onde tinham um estatuto de menoridade e sofriam variadas formas de opressão. Para Hamida, cujo combate político visava alvos mais amplos do que os de um feminismo estreito, o problema desses livros era que muitas vezes resvalavam, talvez sem que as autoras dessem por isso, para estereótipos e caricaturas malevolentes das tradições muçulmanas. Assim, na introdução ao seu texto autobiográfico, Hamida contou o mal-estar sentido perante alguns desses sucessos de livraria em que os destinos trágicos das autoras iam servir "para promover visões injustas, desdenhosas e às vezes racistas do mundo" e acrescentou que embora soubesse não estar em posição de negar a essas mulheres o direito de contarem as frustrações, humilhações e violências que haviam sofrido, não podia impedir-se, logo no começo do livro, de formular uma pergunta: "Até onde se pode falar da realidade das mulheres de tradição muçulmana sem abrir caminho aos propagandistas do ódio? Como conciliar anti-racismo e feminismo?"
Depois de ter passado pelo Partido Socialista Hamida, no caldo de cultura das extremas-esquerdas francesas, abraçava várias outras causas. Numa lista com o Partido Comunista - 'Europa sim, mas não essa!' - tentara o Parlamento Europeu em 2004. Agitara-se contra a lei que proíbe o porte do véu em França; contra leis repressivas depois dos distúrbios de 2005; contra a caça aos 'sem-papéis'. Era de esquerda - logo era contra - mas era também patriota. Nas suas exortações evocava muitas vezes o povo francês "possuído pela justiça e a liberdade".
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009