Inferno
Hamas
Israel invadiu Gaza e a opinião publicada repetiu a mesma conversa que se ouve há trinta anos: o conflito entre israelitas e palestinianos não tem fim à vista. Pessoalmente, sou capaz de concordar com a última parte. Mas não concordo com a primeira. A guerra corrente não é entre Israel e os palestinianos. É apenas a primeira fase de uma guerra mais longa, e que será ainda mais destrutiva, entre Israel e o Irão. O mundo já tinha presenciado a primeira parte deste filme em 2006, quando Israel invadiu o sul do Líbano e, lamentavelmente, não exterminou o Hezbollah como devia. Esse filme está a ser repetido em Gaza: trata-se de uma luta contra um dos braços armados de Teerão, uma quadrilha de terroristas que se recusa a aceitar a simples existência de judeus na Palestina, quanto mais de um Estado para eles.
E os palestinianos? Os palestinianos, e aqui falo dos palestinianos que não votaram no Hamas e não partilham os desejos genocidas que definem a quadrilha, depois de terem sido roubados e atraiçoados pela liderança de Arafat (esse herói), são agora escudos humanos que os terroristas usam na sua gloriosa luta contra a "entidade sionista". Sem falar do dia-a-dia desta pobre gente, submetida aos rigores conhecidos da "sharia" e, desde Dezembro, da boa e velha crucificação.
Israel está a combater um inimigo fanatizado que, a prazo e com acesso a armamento nuclear, não se ficará pelo Médio Oriente. Uma luta contra os palestinianos? Antes fosse. Um dia ainda teremos saudades desse mundo passado.
Purgatório
George W. Bush
Tenho uma certa compaixão por Bush. Dificilmente encontro político contemporâneo mais trágico, no verdadeiro sentido da palavra "tragédia": alguém que vê a contingência a desabar sobre a sua cabeça atordoada e impotente. Em 2001, o homem entrava na Casa Branca com uma agenda simpática (um "conservador compassivo", lembram-se?) e uma política internacional quase isolacionista, depois das aventuras de Clinton.
Coitado. Mal ele sabia que o 11 de Setembro vinha a caminho. E o Afeganistão. E o Iraque. E uma crise económica e financeira como não se via há décadas. Só faltou mesmo um Lee Oswald no retrato para que o retrato fosse completo. Intimamente, até acredito que Bush o desejou nos momentos de maior desespero: matem-me, por favor.
Perante tudo isto, o mundo não perdeu tempo e desatou a culpar a personagem pela violência do acaso. Faz parte do pensamento primitivo atribuir as desgraças terrenas aos caprichos das divindades. Lévi-Strauss explica. O que ninguém explica é se teria sido possível fazer diferente, ou melhor: antecipar o 11 de Setembro; não atacar o Iraque, quando toda a gente acreditava no perigo de Saddam; e, já agora, evitar a loucura geral de consumidores e banqueiros, uma febre que começou com Clinton.
Na próxima terça-feira, o mundo despede-se de Bush. Com um suspiro de alívio. Mas o mundo que não se iluda. Os problemas não começaram com Bush e não terminarão com Bush. É por isso que, na hora do adeus, eu acredito que o maior suspiro será o dele.
Paraíso
"Burker king"
Não consigo enriquecer. Durante anos, tentei vender duas ideias luminosas a qualquer empresário que estivesse disposto a financiá-las. Ninguém lhes pegou. A primeira ideia era fabricar chávenas de café comestíveis: o cliente bebia o líquido e, no final, comia a chávena. Toda a gente ficava a ganhar: o cliente e, obviamente, o vendedor, que poupava trabalho e água para lavar a louça.
A segunda ideia era ainda mais brilhante: copos de água lacrados. Depois de investigação apurada, descobri que ninguém à minha volta bebia realmente uma garrafa de água até ao fim. Donde, melhor reduzir a porção e embalar um copo com água mineral de qualidade.
A primeira ideia foi rotulada de "ridícula"; a segunda, de "ilegal" - parece que a ASAE, etc. etc. Pois bem, tenho uma terceira: um perfume que seja capaz de honrar a gastronomia portuguesa. Confesso que o projecto não é inteiramente meu: tal como a chávena (que vi em Itália) e o copo (que vi no Brasil), o perfume é invenção americana, mais propriamente da Burger King, que começou a comercializar desodorizantes com cheiro a hambúrguer. Chama-se "Flame" e, segundo sei, foi a sensação comercial do Natal passado. Parece que milhares de americanos sucumbiram aos encantos da vaca grelhada e desataram a perfurmar-se com ela. Repugnante?
Gostos não se discutem. E se a ideia resultou com os americanos, não há motivo para não resultar com os portugueses. Sobretudo se adaptarmos o conceito aos costumes nativos. Se houver por aí algum empresário que esteja disposto a investir num perfume com cheiro a bacalhau, contem comigo.