O terramoto de Lisboa de 1755 provocou debates filosóficos na Europa sobre o mal e sobre os desígnios de Deus. O optimismo de Leibniz, à moda na época, levou um rude golpe. No seu "Candide", Voltaire pôs em dúvida que tudo fosse pelo melhor no melhor do mundos possíveis. Espíritos religiosos exaltaram-se. No último Auto de Fé celebrado em Lisboa foram queimados o reverendo Malagrida, velho jesuíta para quem o terramoto fora castigo de Deus por Lisboa ser pouco católica, e uma efígie do Cavaleiro de Oliveira, protestante exilado no estrangeiro, que escrevera que o terramoto fora castigo de Deus por Lisboa ser católica demais. O marquês de Pombal entendia que o terramoto tivera causas naturais.
Desde as guerras napoleónicas até à II Guerra Mundial, o homem foi fazendo a si próprio tanto mal - ou mais - quanto lhe faziam 'catástrofes naturais', que em inglês se chamam 'actos de Deus'. Mas sobre tais malefícios houve menos debates filosóficos - a menos que discussões de pacifistas com quem o não seja mereçam tal classificação. Já no século XX, o Holocausto única desgraças causadas pelo homem a suscitar perguntas e dúvidas iguais às levantadas por alguns 'actos de Deus', tornou a trazer o mal para o centro de especulações filosóficas.
A enormidade da tragédia do Haiti já terá provocado esse género de reflexões mas, neste século XXI de informação instantânea e comunicações rápidas, a possibilidade de mostrar desgraças em pormenor dentro da casa de cada um, de levar ajuda aos lugares sinistrados, de mostrar também as peripécias da entrega dessa ajuda e de explorar intrigas políticas tecidas a propósito tomam precedência na informação sobre meditações filosóficas ou teológicas. Salvo no caso do telenvangelista norte-americano Pat Robertson, homem de extrema-direita e pregador reputado, que afirmou ao seus fiéis que os haitianos não mereciam agora ajuda pois haviam feito um pacto com o diabo para conquistarem a sua independência da França em 1804. (A maioria dos habitantes revoltados eram escravos e o chefe da revolta que iria levar à independência, Toussaint l'Ouverture, era um escravo forro) Mais terra-a-terra, Rush Limbaugh, outro herói da extrema-direita americana, cujo programa de rádio tem audição de mais de 20 milhões, recomendou aos auditores que não mandassem dinheiro para contas abertas pelo Governo americano a favor das vítimas do terramoto, porque Barack Obama só queria ajudar os haitianos por estes serem pretos. Se quisessem auxiliar fizessem-no através de organizações privadas.
Entretanto soldados americanos puseram o aeroporto de Port-au-Prince a funcionar; estão, com a força das Nações Unidas, a estabelecer a ordem e, juntamente com ONG e contribuições internacionais, sobretudo francesas, iniciaram a reconstrução. (Num reflexo pavloviano, jornais, telefonias e rádios de Paris começaram a acusar os americanos de prepotência e abuso de poder. Até que Sarkozy felicitou publicamente Obama e eles se calaram).
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010