Enquanto recebiamos os auscultadores para seguir a guia pelo Vaticano, um colega disse em italiano que ela levaria um casal de muçulmanos! Ouvi, e não gostei. Porque tenho de estar associada pelo nome a esse estigma social? Afinal, o Vaticano teria sido em tempos, o epicentro da Inquisição, da intolerância religiosa, e eu não estava nem um pouco preocupada com os católicos que me acompanhavam na visita, ou com os que me relaciono todos os dias. Porque pagam uns pelos outros?
Na verdade, quando falo como muçulmana, é para que se entenda que este é um mundo plural e diverso, e que é belo, por isso mesmo: pela diferença e singularidade da minha escrita. Não represento ninguém, nem posso responder pelos males no mundo. Procuro a Salaam, e revejo o Criador em tudo o que existe. No Alcorão Deus diz que "se sentia só e aborrecido, e por isso quis manifestar-se, através da criação". O Alcorão também diz: "para onde quer que olhes, aí encontras a Face de Deus". Assim, a minha "muçulmanidade" resume-se, mais ou menos, a isto: ao entendimento pacífico e ao respeito pela dignidade humana. E, sempre que possível, ao trabalho conjunto, com crentes e não crentes, no sentido da elevação da condição humana.
Seguindo esta filosofia tenho, tal como muitos dos que me lêm, uma enorme dificuldade em entender uma série de injustiças e incongruências no mundo, sobretudo nalgumas sociedades muçulmanas, marcadamente patriarcais e obsoletas. Tento, contudo, ler mais, informar-me melhor, e analisar com rigor académico e científico os fenómenos sociais.
O que pode motivar indivíduos com cultura, educação superior, e recursos financeiros, a cometer actos de criminalidade massiva, e dizer que essa é o fundamento da sua crença ou ideologia, ou religião? (Não sei porquê, mas de repente lembrei-me que Bush, Aznar, Blair e Barroso, também eles educados, etc., enveredaram por uma guerra que ainda não terminou. Chamaram-lhe "justa", e não "santa" - o objectivo é o mesmo: destruir, combater, matar; a finallidade é a mesma; o discurso usa outro vocabulário!) Mas, voltando aos muçulmanos, porque é esse que preocupa o Ocidente Cristão, o que motivará individuos jovens, aparentemente normais, à imolação e ao homicídio em massa?
A psicossociologia faculta ferramentas de análise interessantes e provávelmente válidas. Antes de mais, assume que a sociedade é pensante. Sugere que o individuo, na procura de um posicionamento social, organiza psicologicamente o mundo das representações e imagens. Constrói uma identidade social. Essa identidade é a forma de organizar o mundo que nos rodeia; de lhe dar sentido. Nesse processo, os valores, como os da justiça, ou paridade, guerra e paz, todos são importantes. E o facto é que vemos com frequência, paradoxos comportamentais ao nivel de quem nos governa: a bi-valência politica é um paradoxo. Somos hoje amigos de inimigos, negociamos com terrorristas, ou criminosos de ontem, que hoje estão no poder. Assistimos a guerras injustas, propriedades usurpadas, olhamos para mapas traçados pelo poder dominante; somos impotentes face a humilhações pornográficas filmadas ou fotografadas, e depois tornadas públicas (exs. Abu Ghraib; Guantanamo). Assistimos à impunidade de uns; resignamo-nos à pena de morte de outros. Mas, crime é crime, e deve ser punido! Não existe tal coisa como crime civilizado vs crime bárbaro!
Milhões de jovens e não jovens, muçulmanos e não muçulmanos, marcharam em contestação à guerra ao Iraque. Reconhecidos os erros, e os pedidos de desculpa, o mundo assiste ainda, à destruição e morte de vítimas inocentes; os perpretadores do caos vão passeando livremente, dando conferências internacionais pagas a preço de ouro, gerindo uma Europa islamofóbica, na impunidade que consentimos.
A juventude é particularmente permeável a ideologias políticas. Sem querer legitimar a criminalidade, sabemos que o jovem, na busca de autonomia e identidade, demonstra paixão pelos argumentos sobre justiça ou injustiça, o Bem e o Mal. Não espanta, por isso, que filhos de "gente boa" e "integrada", mesmo diplomatas, com educação superior, e dinheiro, se sintam motivados por ideologias subversivas. No caso de muçulmanos que enveredam pelo caminho do terrorrismo religioso, a ideologia que seguem assenta na leitura literalista e desinformada das escrituras sagradas. Em realidades de frustração ideológica e política, de ausência de educação sobre a antropologia das religiões nos curricula seculares, e experimentando a discriminação, parecida com a que senti à porta do Vaticano, está aberto o caminho para sociedades fracturantes.
As soluções que antevejo para sociedades deste tipo são 3: primeiro, as comunidades devem estar atentas perante qualquer propaganda religiosa. Segundo, precisamos de repensar a politica internacional bi-valente, incoerente e incongruente. E, finalmente, temos de abrir o horizonte da educação normal secular, que ocupa a maior parte do tempo útil dos jovens, incluindo nos curricula o saber sobre o islão e as sociedades muçulmanas, nas suas diversas dimensões civilizacionais; sem medos; sem dogmas; prevenindo o estigma.
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*A Salaam significa paz