Não podemos abandoná-lo, como fizeram americanos e ingleses depois de terem armado os mujahidin.
Na província de Helmand, marines ingleses e americanos, ao lado de soldados afegãos, combatem o exército de sombras a que chamamos talibãs. É um duelo de morte que ninguém pode ganhar e que acrescentará corpos à pira funerária. De um lado, os cadáveres anónimos dos talibãs e das vítimas dos 'danos colaterais' e, do outro, os cadáveres nomeados de soldados que não chegaram aos 30. Uma guerra com adolescentes a morrer no que Kipling chamava as planícies do Afeganistão. Helmand, com aquela luz cor de areia e a neblina azul-rosada de calor, parece um cenário de cinema ou de um jogo de vídeo, as estradas de poeira, as casas e fortalezas de lama embaladas em estampidos e explosões. A única utilidade desta guerra seria, como foi no Iraque, o ensaio de novas armas e tácticas marciais. De resto, o Afeganistão, tal como aquilo a que chamamos talibãs, não existe. E nunca existiu.
Não passa de um tabuleiro áspero e rugoso onde os impérios russo e americano lançaram os peões de xadrez do Grande Jogo. O Afeganistão não é uma pátria de afegãos, é um país artificial cruzado por divisões tribais e étnicas, conforme os ocupantes de milénios, e civilizações e credos de milénios, do Zoroastro ao Corão. A única força de coesão actual é a religião corânica, que serve para tudo, embora os afegãos não sejam árabes e muito menos wahabitas como Osama. São tribos guerreiras que odeiam o estrangeiro e não suportam a ocupação. E são, no caso dos talibãs afegãos, pashtun afastados do poder em Cabul e da partilha de benesses pelos tajiques e uzbeques.
Os tajiques, persas, falam dari (farsi) e são os intelectuais e o grupo dos letrados, diplomatas e militares influenciados pelo Ocidente. Ahmad Shah Massud, assassinado pela Al-Qaeda, que os tajiques quiseram impor como herói 'nacional' a seguir à invasão americana de 2001, era o seu chefe, e o dr. Abdullah Abdullah o seu discípulo. Os uzbeques, mongóis de olhos fendidos, descendentes das hordas da Ásia Central e educados e treinados pelos sovietes, comandados pelo brutal general Dostum, são outro grupo dominante. Os hazara foram sempre ignorados e marginalizados por serem ismaelitas (xiitas) e não aspiram ao poder militar. Durante a guerra civil que se seguiu à retirada soviética, combateram os talibãs com bravura e morreram nas trincheiras ou de fome nos planaltos centrais. Os pashtun são a maioria. Belicosos, invencíveis, espalhados entre o Paquistão e o Afeganistão, divididos por essa fronteira pós-colonial de régua e esquadro à inglesa, a linha Durand, não se distinguem pela filiação à Al-Qaeda ou pelo desejo de interferir na geoestratégia mundial. Os pashtun são tribos e clãs que querem poder político e reconhecimento, e este é o momento para começar a ouvi-los e começar um sério processo de paz.
A guerra nunca será ganha no terreno, e os generais do Ocidente sabem-no. A vontade negocial no tempo de Cheney e Rice nunca existiu. Existe agora, tanto por parte da Casa Branca como por parte de Downing Street, que sabe que já perdeu demasiado no Afeganistão e que vai perder as eleições. Um encontro nas Maldivas, a Conferência de Londres e a movimentação diplomática em Riade, para onde Karzai (um pashtun oportunista) viajou esta semana, indicam que as conversações, encetadas há anos em segredo, entram numa nova fase. É um processo difícil, que regurgita batalhões de peritos e negociadores, agências e militares, e que só poderá ser conduzido pelo poder político. Tal como as conversações de paz do Vietname, arrastar-se-ão e serão negadas por todos os lados. Dois poderes que lutam pela hegemonia na região, a Índia e o Paquistão, vão interferir e jogar a sua versão colonial e, mesmo assim, este é o momento ideal para trazer os talibãs para a mesa e oferecer-lhes reintegração política e social e reconhecimento. Educá-los.
Não podemos abandonar o Afeganistão, como fizeram americanos e ingleses depois de terem armado os mujahidin. Esta política teria resultados desastrosos. Cabul, no seu ponto mais perigoso, tornar-se-ia palco de outra guerra civil, e os milhões investidos por potências estrangeiras, sobretudo o Japão (um dos grandes impulsionadores da reconciliação), perder-se-iam. A Rússia e a China, com fronteiras, também não querem o Afeganistão entregue ao caos e sabem que têm de ceder aos americanos e ingleses uma prioridade. E Karzai fará o que lhe mandarem, porque a sua eleição e a retirada de Abdulhah estão condicionadas por esta estratégia que cerca o que resta da Al-Qaeda de Al Zawahiri. O extremismo religioso e político não se joga no Afeganistão e sim nas madrassas e enclaves da Índia e do Paquistão, nos estados falhados da África do Índico, nos subúrbios miseráveis das Filipinas, do Egipto e do Magrebe e, evidentemente, nos campos do Líbano e na prisão de Gaza. Ou nas ruas de Teerão.
Texto publicado na edição da Única de 6 de Fevereiro de 2010