Linha D do metro de Buenos Aires. Na estação Congresso de Tucuman, o trem está pronto para sair. Percebe-se facilmente uma diminuição na quantidade de passageiros.
Muitos passaram a usar carros particulares para não respirar o mesmo ar com pouca circulação. Protegem-se com máscaras. Entre os passageiros sentados, mais espaço do que o de costume. De repente, um homem sem máscara tosse de forma contínua. As pessoas olham-se entre si. Algumas se levantam e mudam de assento. Outras, aproveitam que o trem ainda não partiu e preferem esperar pelo próximo. Nas bilheteiras, álcool em gel para os passageiros. Empregados com máscaras, cobram os bilhetes com luvas nas mãos.
Pela comercial avenida Cabildo do nobre bairro de Belgrano, não se vê tantas pessoas com máscaras. Nas portas dos bancos, filas. Os clientes só entram à medida que as caixas do lado de dentro ficam livres. Um segurança coordena a longa fila do lado de fora. As pessoas olham entre si para ver se o de trás mantém certa distância. A psicose colectiva
aqui é alimentada, agora, por dados oficiaia.
O novo Ministro da Saúde, Juan Manzur, num ímpeto de honestidade, admitiu que "o número acumulado de contagiados pela gripe A chega a 100 mil" e que "a curva de contágio é ascendente". Os mortos chegam a 52, mas o Ministério da Saúde mantém sob estudo uma quantidade semelhante de falecimentos que poderia engrossar a lista de vítimas fatais. Manzur esclareceu que os casos confirmados em laboratório são "uns 2.800".
Segundo o Ministério da Saúde, 85% do vírus da gripe que circula na área metropolitana de Buenos Aires é da gripe suína. A projecção permite calcular que 20% da população nesta região podem ser contagiados. Se os números se confirmarem, são 2,5 milhões de pessoas.
O vírus do medo
A presidente Cristina Kirchner ficou furiosa com a divulgação de 100 mil contagiados. Pediu aos meios de comunicação "muita responsabilidade e prudência" para "não gerarem pânico na população".
As grandes lojas e farmácias também limitaram a entrada de clientes em pequenos grupos. Quem entra nas farmácias tem como prioridade comprar máscaras, luvas e álcool em gel.
A cada dois dias, segundo os comerciantes, acaba o stock previsto para o mês inteiro. Faltam produtos enquanto os preços disparam.
Pelas ruas, já existe venda ambulante de álcool em gel e máscaras com os escudos de equipas de futebol. Diante da falta de produtos, muitos atravessam o Rio da Prata para comprar o medicamento Tamiflu no Uruguai.
A província de Santa Fe decidiu adiar as eleições de domingo para vereador e presidentes de câmaras. Na cidade de Mar del Plata, o Exército instalou barracas de campanha para atendimento ao público.
Para os estudantes, um clássico nas férias de Inverno na Argentina é viajar a São Carlos de Bariloche, na Cordilheira dos Andes. Todas as viagens de qualquer grupo de estudantes a Bariloche foram adiadas por 15 dias.
Metade dos turistas que chegam Bariloche anualmente são brasileiros (cerca de 900 mil por ano). As operadoras de turismo amargam uma queda de até 30% nas reservas desde que o governo brasileiro aconselhou evitar a Argentina como destino.
Medidas mais drásticas
Os governos nacional e provinciais declararam o estado de emergência sanitária com suspensão das aulas, mas não decidiram pelo fecho de espaços públicos. As autoridades não descartam medidas mais drásticas durante o fim-de-semana à medida que o actual combate ao vírus mostrar-se insuficiente.
"Aconselhamos à população não frequentar lugares de presença maciça de público. Proibimos o que é obrigatório como as escolas e deixamos na consciência de cada um a presença em lugares que não são obrigatórios como shoppings e cinemas. Isto não quer dizer que dentro de 48 ou 72 horas não possam haver medidas mais drásticas", explicou o Ministro da Saúde, Juan Manzur.
Vários municípios da província de Buenos Aires, porém, decidiram avançar de forma isolada com medidas impopulares. Nessas cidades, clubes, teatros, cinemas, shoppings, discotecas estão fechados. Em quase todas as cidades do país, actividades sociais, recreativas e artísticas foram suspendidas. Cursos e palestras, cancelados.
A iniciativa privada, independentemente das decisões oficiais, implementou medidas de higiene. Nas casas de banho de bares, restaurante e cinemas, há álcool el gel. Pelos shoppings, as pessoas ainda fazem compras, mas não passeiam. Os locais de alimentação estão semi-vazios.
Um diferencial nos casos argentinos tem sido o número de grávidas contagiadas. O governo concedeu uma licença especial de trabalho de 15 dias para todas as grávidas, para as pessoas com problemas oncológicos ou imunodeprimidas e para os pais com filhos menores que não têm quem os cuide durante a suspensão das aulas.
Pronto para enviar esta peça, recebo uma mensagem de texto pelo telemóvel. A companhia avisa que, como medida preventiva para a gripe A
, recomenda que tudo seja tramitado pela Internet. E esse é outro dado: mesmo famosos por preferirem o uso de dinheiro a qualquer outra forma de pagamento, os argentinos começaram a mudar de hábito.
Para evitarem sair de casa, as pessoas passaram a fazer compras pela Internet. As vendas online aumentaram em cerca de 30% e algumas páginas não dão vazão a tantas visitas. Num país onde até os homens se beijam, os cumprimentos passaram a ser distantes. A saída é a tecnologia em vez do contacto humano.