Miguel Graça Moura diz que aprendeu a viver com “os verdadeiros luxos do século XXI, tempo, espaço e silêncio”
O encontro com o Expresso estava marcado para as três e meia da tarde. O local, a quinta, nos arredores de Stº Estevão, a 40 km de Lisboa, o paraiso onde vive há cinco anos. "Há males que vêm por bem", diz, passeando pela casa e jardins. São 460 m2 de conforto, rodeados pela natureza, sobreiros a perder de vista, um lago à beira da piscina, e as galinhas "de estimação da minha mulher". Durante mais de hora e meia de conversa, Miguel Graça Moura regressa ao passado para "limpar o nome e sair da lama".
Diz que há males que vêm por bem. O mal a que se refere é, diz também, Santana Lopes. Pode explicar?
Quando escrevo o projecto que deu origem à Metropolitana e o apresentei ao então presidente da Câmara de Lisboa, Jorge Sampaio, ele disse-me que o achava extraordinário, que o queria levar a cabo em Lisboa, que me dava um edifício para o instalar e 30% do orçamento. O projecto estava estudado sob todos os pontos de vista, filosófico, pedagógico, artístico, administrativo, financeiro... Comecei à procura de parceiros. O primeiro foi, naturalmente Roberto Carneiro, era ministro da Educação à época e eu seu assessor.
Quando diz parceiro, diz Ministério da Educação, portanto Estado.
Sim Estado. A Metropolitana tinha cerca de 70% do seu orçamento assegurado pelo Estado, 20% por parceiros privados e 10% seriam receitas próprias.
E a Câmara Municipal de Lisboa?
É o principal, com cerca de 30%. Os parceiros iniciais eram a CML, os Ministérios da Educação, do Trabalho e as Secretarias de Estado da Cultura, Juventude e Turismo. A seguir entraram as câmaras municipais da área metropolitana de Lisboa e vários privados que foram mudando ao longo do tempo. Esses normalmente estavam só ligados ao projecto por um ano automaticamente renovável. Os fundadores, que eram o grupo do Estado estavam associados por períodos de cinco anos obrigatoriamente. O primeiro sinal do mal apareceu nessa altura.
Fala de Santana Lopes?
Sim. Ele era então secretário de Estado da Cultura. Era a pessoa que deveria ter mais a ver com um projecto deste tipo, mas foi o último a aderir. Tivemos uma primeira reunião. Ele mostrou-se sempre evasivo. Quando viu todos os outros a entrarem então percebeu que ficava mal na fotografia se não fizesse o mesmo. Foi um primeiro sinal. O segundo sinal, mais forte e mais grave, foi quando aconteceu a cena dos concertos para violino de Chopin. É bom esclarecer isto para que as pessoas saibam. Essa gaffe, eu pessoalmente acho-a estúpida porque foi dada numa entrevista por escrito, ou seja, ele teve tempo para responder. Não é obrigatório, mesmo sendo secretário de Estado da Cultura, saber que Chopin nunca escreveu concertos para violino, o que é estúpido é não perguntar a um assessor, que é para isso que eles servem. Percebi que foi isto que desencadeou toda a futura guerra, porque ele acusou o toque.
Como?
Encontrámo-nos poucos meses depois dessa frase se lhe ter colado à pele para a vida inteira. Eu entretanto tinha dado uma entrevista para uma revista estrangeira, sublinho que é uma revista que não se vende nas bancas, só por assinatura, em que eu respondia à pergunta da jornalista sobre o estado da Cultura em Portugal contando que um responsável político da área gostava dos concertos para violino de Chopin... Estávamos na inauguração oficial do CCB e ele veio ter comigo para me dizer que eu não devia ter referido o caso. Podia ter sido um arrufo, mas não foi. Logo nesse ano (1993), ele decide não pagar a sua contribuição, contribuição assinada no notário como todos os outros.
Que representava quanto?
Na altura eram 22 mil contos. Isto no início dos anos 90 era muito dinheiro.
A guerra
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| Com a carreira de maestro arruinada, Graça Moura dedica-se agora à leitura e à escrita |
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É a isso que chama guerra?
Sim. Esta foi a primeira batalha. Depois, quando Santana Lopes ganhou a presidência da Câmara em 2001, pressenti que ia haver problemas. Mas é preciso ainda referir que a SEC não era a única entidade a não pagar a sua contribuição. O Estado paga sempre tarde, a más horas e sem juros. E quando temos que recorrer a créditos bancários, temos que pagar juros.
Mas como é que percebeu que viriam aí problemas?
Percebi porque alguns dos meus amigos, que são também amigos dele, estou-me a lembrar de pessoas como Nuno Rogeiro ou António Pinto Leite, diziam-me que Santana Lopes era uma pessoa rancorosa e vingativa, uma pessoa que não esquece e que fica à espera de uma oportunidade.
Tentou falar com ele?
Várias vezes. Lembro-me que nessa altura até fui à tomada de posse. Ele deu-me um grande abraço e disse-me que falaríamos na próxima semana. Nunca mais falámos. Depois falei eu com Manuela Ferreira Leite, que me disse que o assunto já devia estar esquecido. Não estava. Tentei falar com ele, mas ele nunca me recebeu. Até o Nuno Rogeiro organizou, a certa altura, um lançamento de um livro dele e, sabendo que eu andava à procura de Santana Lopes, convidou-me para ir porque ele estaria lá. Assim fiz. Santana Lopes pediu-me desculpa por ainda não termos falado, alegou problemas com o orçamento da câmara, e prometeu-me um encontro para dali a dias, mas nada. A guerra estava declarada, mas ele esperava um pretexto para a iniciar.
Que pretexto?
O pretexto acabou por ter um nome. Cristina Ribeiro, minha secretária e posteriormente membro da direcção da Metropolitana. Quando estávamos a preparar o 10º aniversário da orquestra, no Outono de 2001, apercebi-me que essa senhora não tinha o estatuto intelectual para o cargo que ocupava e que uma obra daquela dimensão exigia. Ela foi a melhor secretária que tive até hoje, mas como membro da direcção, com pelouro dos Recursos Humanos não. Assumo esse erro de gestão. Avisei-a lealmente que lhe retirava a confiança para exercer essa função, esperando que se demitisse, disposto a compensá-la financeiramente e garantindo-lhe que não iria para o desemprego, voltando para o secretariado. Ela não quis. Aí é que eu fui descuidado, tenho que confessar.
Mas que relação é que existe entre Cristina Ribeiro e Santana Lopes?
A Cristina como minha secretária durante aqueles anos todos sabia da guerra toda, conhecia perfeitamente o tipo de personalidade de Santana Lopes e quando a avisei que se não se queria demitir proporia a sua demissão na assembleia-geral seguinte, onde tinha uma maioria confortável, subavaliei o que pode fazer uma mulher ferida no seu orgulho.
E?
Foi ela que umas semanas antes dessa assembleia-geral faz uma queixa para a câmara a dizer que está preocupada com a Metropolitana porque há gestão danosa, sumptuosa, etc., etc.
Gestão danosa
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| O passado ainda por resolver ainda lhe suscita ódios, Santana Lopes é o maior de todos eles |
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É ela que revela os gastos que faz com o cartão de crédito da Metropolitana?
É.
É ela que revela também a situação laboral dos músicos, todos a recibo verde e sem contrato de trabalho?
Isso são coisas distintas. Os músicos estarem a recibo verde é uma situação muito antiga, criada desde o início. Lutei em vários governos por uma coisa que nunca consegui que é o estatuto do trabalhador artístico. As artes e os espectáculos têm que ter uma carreira específica, são profissões de desgaste rápido, exactamente como as do desporto.
Mas neste momento os músicos da Metropolitana têm contrato.
Têm. Mas foi uma grande asneira porque nunca mais os tiram dali.
Preferia tê-los a recibo verde?
Não, preferia tê-los num contrato de que estava à espera que tivesse uma definição legal. E sempre lhes disse isso: Não têm que temer nada porque a segurança é total. Aliás, não há ninguém despedido porque não gostei da cara dele.
Mas houve vários despedimentos enquanto esteve à frente da orquestra.
Mas por razões artísticas e, é importante até que me faça essa pergunta, sancionados pelo conselho artístico. Todos os anos, o conselho artístico - o concertino, os chefes de cada naipe e eu, por inerência do cargo, e também o vice-director Paulo Gaio Lima - fazia uma apreciação dos membros da orquestra. Se alguém estava a desiludir sob algum ponto de vista tinha primeiro uma advertência. Passado uns meses voltávamos a falar. Se a situação não tivesse melhorado, então, era despedido.
A revolta dos músicos
O que criava uma instabilidade laboral enorme...
Pelo contrário. Uma estabilidade total. Claro que os músicos, como qualquer pessoa, querem protecção. Eu percebo. Para essa protecção estive sempre a lutar em reuniões quer no Ministério do Trabalho quer no da Cultura.
Mas como é que explica o descontentamento dos músicos em relação à sua direcção, muitos deles ainda na orquestra e ainda com uma memória muito negra desse período?
Penso que a situação era muito explorada pelo Sindicato dos Músicos. Isso porque do ponto de vista formal a segurança não estava garantida. Tínhamos que viver numa relação de confiança. Também não se pode ter contratos de trabalho numa equipa de futebol...
Mas há-os. Pode uma orquestra só ter músicos a recibos verdes?
Pode e deve. E não é recibo verde, é a tal coisa que estava por inventar na lei, que é um contrato em nome do estatuto do trabalhador artístico...
Portanto, manteve-os a recibo verde à espera da lei?
Exactamente. A resposta correcta é essa.
E porque é que é um erro os músicos da Metropolitana terem hoje um contrato?
Porque nunca mais na vida se conseguirá despedir um músico que tenha um contrato de trabalho. Como é que prova que ele não serve para o efeito?
Mas parte do princípio que ele não serve para o efeito?
Parto do princípio de que com a idade inevitavelmente ele tem que ser mudado. Repare o estatuto de trabalhador artístico a que me refiro não é para despedir pessoas é para as mudar de funções. Em todas as orquestras de dois em dois ou de três em três anos se faz o controlo de função. Aqui, fazia-o anualmente. Todos passavam por um crivo. Tocar música a alto nível é alta performatividade. Esta mensagem é que tem sido difícil de passar. É como a alta competição no desporto.
Nesse caso o ordenado de um músico também teria que estar ao nível do do desportista...
Já eram. Os músicos entravam a ganhar 450 contos líquidos em 1992.
O ordenado do maestro
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| Olha o presente sem medo da morte, mas é quando fala do passado que mais se emociona |
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E qual era o seu ordenado na mesma altura?
Cerca de 1300 contos.
Está a incluir os cachés como maestro titular?
Não. Isso é à parte. È exactamente o que fazia Paulo Ferreira de Castro quando foi director do S. Carlos, cada vez que encenava. E isto tem uma razão óbvia, se não fosse pago a mim era pago a outro, o que de economia para a instituição representa zero.
A esse valor acresce quanto da renda da casa no Restelo que a Metropolitana lhe pagava?
A casa começou por ter uma renda muito baixa, depois começou a subir. No início eram 200 contos.
Incluindo a luz, a água, os telefones...?
Não. Isso era só uma percentagem que tinha sido fixada.
Qual era a percentagem?
Era 70%. E é normal. Fizeram-se lá muitas reuniões. Por exemplo a reunião onde se decidiu lançar um projecto para fazer a futura sede da Metropolitana. A minha casa era residência de funções e isso estava no contrato.
Quem é que redigiu o seu contrato?
O meu contrato como presidente da direcção está nos estatutos da orquestra, como director artístico era competência da direcção.
Sendo o maestro o presidente da direcção...
Sim mas não em maioria. Eu era um voto em três.
E o cartão de crédito?
O cartão de crédito não era para mim. Era para todas as acções relacionadas com a orquestra.
Nomeadamente?
Tudo! Viagens, ofertas, almoços com jornalistas, com secretários de Estado, com presidentes de empresas. Claro! Tudo está lá descriminado por detrás de cada factura.
Nessa altura, não precisava sequer mexer no seu ordenado, uma vez que vivia a 100% para a orquestra e todas as despesas estavam cobertas pela instituição?
Todas não. Como lhe disse pagava 30% da água, da luz e do telefone. E tudo o que adquiria quando ia ao cinema, por exemplo, os livros que comprava para mim. Isso pagava com o meu cartão. É preciso que as coisas se separem. E faço questão de referir que as contas da orquestra eram passadas a pente fino pelo presidente do conselho fiscal, várias pessoas ao longo do tempo, o último foi o dr. Fernando Alçada que era catedrático na Católica e revisor oficial de contas. Ele e a contabilista é que analisavam os gastos do cartão da orquestra no fim de cada mês e diziam o que eu tinha que pagar e o que pagava a orquestra.
Quer dizer que não houve gestão danosa como alertou Santana Lopes a sua ex-secretária Cristina Ribeiro?
Todos os dados que ela forneceu e que serviram para tantos números mediáticos foi analisado depois pela auditoria a que a Metropolitana foi submetida e não deu em nada. A única coisa que os auditores acharam que devia ser alterado foi que não devia ser a direcção a fixar os seus próprios salários e passou a ser a assembleia-geral.
Por isso lhe perguntava quem redigira o seu contrato...
Ok. Mas ninguém me chamara a atenção para isso e tudo estava nos relatórios e contas que eram apreciados anualmente pelo conselho de fundadores e depois pela assembleia-geral. Foram todos aprovados unanimemente até ao meu último dia na orquestra e há dois deles com votos de louvor exarados em acta à direcção e em particular ao seu presidente. É por isso que me rio em relação à famosa queixa-crime que ainda não deu em nada.
O afastamento da orquestra
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| O piano e mais de dois mil livros são a companhia diária do maestro |
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Queixa-crime instaurada em 2003.
Certo, um ano depois de começar a guerra. E note-se mais uma vez o comportamento grosseiro de Pedro Santana Lopes. Depois da queixa apresentada pela Cristina Ribeiro, ele encarrega a vereadora da Cultura, Maria Manuel Pinto Barbosa, de falar comigo, mas antes dela ter tempo para o fazer, numa reunião pública de câmara resolve atirar para o ar que era preciso fazer uma auditoria à Metropolitana por isto, por aquilo e pelo outro. Um estardalhaço tal à volta de uma suposta gestão danosa que a comunicação social agarrou o osso. O comportamento dele é de tal forma que é a própria vereadora da Cultura que me telefona nessa mesma tarde da reunião de câmara a dizer que está incomodada com a situação. Se ela tivesse falado comigo, eu ter-lhe-ia dado as explicações todas para cada circunstância.
Mas é na assembleia-geral da Metropolitana que os fundadores decidem que se faça a tal auditoria?
Sim. E façam favor. Ela foi feita e feito o relatório de que já falei. E é curiosamente a seguir a isso que aconteceu outra coisa que também ninguém sabe. Como a auditoria não deu em nada, ao contrário do que eles esperavam, propõem-me uma nova direcção. Eu mantenho exactamente os mesmos salários, só aceitei uma pequenina redução no vencimento de presidente da direcção porque Jorge Vaz de Carvalho exercia a mesma função na Orquestra do Porto e recebia um pouco menos.
Qual é o valor da redução?
É minúsculo. Cem contos ou por aí.
E quem era a nova direcção?
É-me proposto o nome de Gabriela Canavilhas, professora do Conservatório Nacional, para a direcção pedagógica, e o de Luís Azevedo Coutinho, economista da Universidade Católica, para a direcção financeira.
Gabriela Canavilhas
Já conhecia Gabriela Canavilhas?
Já. A única vez na sua carreira que ela tocou como solista com uma orquestra foi a meu convite na Metropolitana. Foi um concerto de Haydn, nunca mais me esqueço.
Convidou-a porquê?
Porque o fazia com todos os portugueses, todos tiveram comigo uma primeira oportunidade. Às vezes não tinham segunda, quando a primeira não corria bem. A própria reconheceu no meu gabinete que ser solista não era a onda dela. Era melhor a tocar música de câmara e foi o que fez. Gravou alguns discos, muito bem. Nada a dizer.
E como correu a sua direcção pedagógica?
Ela era necessária. É preciso dizer-se que a orquestra já tinha quatro escolas. Eu já não podia estar nas frentes todas. Aliás, infelizmente, 90% do meu tempo era gasto a fazer telefonemas para o Estado a dizer que estavam atrasados nos pagamentos.
Como descreve a situação financeira da orquestra no momento em que essa nova direcção entra (final de 2003)?
Estava a entrar no terceiro mês de ordenados em atraso, porque os fundadores, comandados pelo dr. Santana Lopes - eu tenho a certeza absoluta disto porque ele é o nº 2 do partido e dá administrações aos três ministérios e às duas secretarias de Estado para que ninguém pague, e ele próprio, como presidente da câmara, também não paga.
Os ordenados estavam em atraso e havia mais de um milhão e duzentos mil contos de dívidas?
Esse era o dinheiro que eles deviam, um montante que cobria todos os salários em atraso e o que faltava até ao fim do ano e abatia ainda um pedaço grande do défice.
O défice
Qual era o défice?
Não sei precisar agora. Talvez várias centenas de milhares de contos. Mas é preciso que se perceba porque é que há esse défice, que é uma história que ninguém conta. A Metropolitana começou por ocupar o último andar da Standart Eléctrica, um edifício entregue em ruínas pela Câmara de Lisboa. Restaurou só o último piso porque chovia lá dentro e tinham que começar pelo telhado. Jorge Sampaio, na altura, disse logo em tom de brincadeira que já sabia que eu, revolucionariamente, ia acabar por ocupar o edifício todo. O que fiz. Quando o projecto arrancou a orquestra tinha 21 músicos e a escola 30 alunos. Quando saio, já há duas orquestras, uma com 33 músicos, outra com 90, e 750 alunos. Nunca houve orçamento para obras, ou seja, a recuperação dos outros três andares do edifício foi feita com dinheiro tirado do orçamento de funcionamento e nunca o orçamento foi aumentado apesar deste crescimento exponencial, excepto uma vez. Ao fim de três anos, ainda Jorge Sampaio era presidente da autarquia. Foi ele que se juntou com cinco outros parceiros, três ministros e dois secretários de Estado, numa reunião no Ministério da Educação, chefiava a pasta Manuela Ferreira Leite, e os convence a aumentar o orçamento. Nunca mais voltou a acontecer e estamos a falar em 12 anos de actividade, o tempo que estive à frente da orquestra.
Vendo o défice a aumentar sucessivamente, não se preocupou em controlá-lo?
Tanto me preocupei que a recuperação financeira começou antes do início da guerra. Os relatórios e contas de cada ano revelam-no.
Como é que explica as centenas de milhares de contos de défice?
Porque se foram acumulando. Se for ler os relatórios e contas, todos os anos vem lá uma resolução da assembleia-geral que mandata o maestro Graça Moura para negociar com todos os parceiros um aumento das suas contribuições. Mas depois ninguém o faz.
Se ninguém o faz, há que controlar os gastos, ou não?
Não se pode. A política da Metropolitana sempre foi pagar muito bem a toda a gente. Desde as empregadas da limpeza, aos homens da segurança, ao presidente da direcção, todos ganhavam bem. Isso é que é a boa gestão. Quem paga bem pode exigir. E a produtividade da Metropolitana, outro área em que acho que Gabriela Canavilhas se espalhou ao comprido, era incomparável. A Gulbenkian faz 50 a 70 concertos por temporada. O S. Carlos nem uma dúzia. A Metropolitana chegou aos 600 por temporada e tinha capacidade teórica para fazer 900.
Quantidade não é qualidade.
Mas a qualidade da orquestra nunca foi posta em causa. A genialidade, perdoe-me a falsa modéstia, do projecto é que contém na sua essência uma coisa que ao mesmo tempo que promove a quantidade promove a qualidade, a música de câmara. O que mantém a qualidade dos músicos é expô-los em situação de solistas e isso é outro concerto. Se o músico estiver só a tocar na orquestra, está protegido. Pode mandar uma bola fora que ninguém sabe quem foi. Se estiver a tocar sozinho num recital com um quarteto, tem que mostrar o que vale. Portanto estou a garantir a qualidade dele, mantendo-o sempre em forma. É por isso que ainda hoje o projecto da Metropolitana é falado no mundo inteiro. É o ovo de Colombo. É disto que eu me orgulho de ter descoberto.
Quando Santana Lopes "manda asfixiar a orquestra", para usar uma expressão sua, os seus salários também estavam em atraso?
O meu foi o primeiro. É evidente. Nessas coisas dou o exemplo. Só que eu tinha outros recursos e admito que o drama para mim fosse menor do que para as outras pessoas. De resto, o que me levou a sair, foi o perceber que havia dramas humanos terríveis.
A chantagem
Como explica então a solidariedade dos músicos e funcionários para que saísse da Metropolitana?
Foram aliciados. Disseram-lhes várias vezes que se ajudassem a pôr o maestro fora da orquestra o dinheiro devido apareceria no dia seguinte. Há testemunhas desta chantagem mais vergonhosa.
Quem é que faz essa "chantagem", novamente Santana Lopes?
Claro! É a mesma pessoa que dá a ordem de não pagar, que diz: Só pagamos quando aquele senhor não estiver lá.
E di-lo a quem?
A alunos, a professores, a músicos e a funcionários.
Mas fez alguma visita à orquestra?
Não. Fê-lo via Cristina Ribeiro, via Maria Manuel Pinto Barbosa e todos os seus homens de mão.
É o que leva ao chamado "sequestro"?
Sim. Mas aquilo não foi sequestro nenhum. Foi um dos músicos que me veio dizer que eu, naquele dia, quando saísse não voltaria a entrar. Estive fechado no meu gabinete porque sabia que não voltava. Os alunos queriam aulas, os professores queriam salários, os músicos e os funcionários também. É óbvio. Faz todo o sentido. Mas já não tenho idade para coisas dessas. Assumi ficar ali. Telefonei para os meus parceiros da assembleia-geral, todas as câmaras PS e CDU, que me disseram para tirar férias, que seriam eles a conduzir o processo e a dizer ao país que há pessoas que assinam acordos de fundadores e depois não cumprem e que para tirar uma pessoa de um sítio não se importam de pôr 160 famílias à rasca financeiramente. Isto é que é a verdade que tem que ser dita. A falta de respeito e a vergonha de utilizar processos tão monstruosos de chantagem.
Porque é que saiu?
Eu podia ter continuado. Só uma assembleia-geral podia demitir-me, se votasse em maioria, mas a solidariedade que eu tinha era total. Decidi sair, eu é que tomei a decisão por respeito pelas famílias. Não quis ficar com a responsabilidade em cima dos ombros de esses dramas não serem resolvidos.
Vida nova
Está arrependido?
Não. Tenho agora mais qualidade de vida apesar de viver com um sexto do dinheiro com que vivia, pois as reformas em Portugal são o que se sabe.
Isso significa o quê?
Significa um sexto, não precisamos de entrar em mais pormenores. Fica claro que não estava lá pelo dinheiro, que não admiti faltas de dignidade e que não me importo de perder regalias para dormir de consciência tranquila.
Continuo sem perceber o que significa o um sexto do ordenado com que vive agora...
Não é propriamente do ordenado porque estou a somar tudo. Tinha dois salários por cinco cargos, 1300 contos como presidente da direcção, 600 como director artístico, dá 1900 contos, depois ainda havia os cachés tanto dos concertos à frente da orquestra como da minha carreira internacional e lá fora ganha-se muito mais do que em Portugal... Mas a guerra com Pedro Santana Lopes também acabou com a minha carreira de maestro.
Porquê?
Porque as carreiras de maestros são feitas na base da troca. Os maestros que convidamos para dirigir a nossa orquestra, convidam-nos para dirigir a orquestra deles. É assim que isto se faz no mundo inteiro. É normal que quem deixa de ter moeda de troca, perde o comboio.
O talento não conta?
O talento é uma coisa muito subjectiva. Se pensarmos que há muitíssimos mais maestros do que orquestras, ou se quisermos, muitos mais cães do que ossos, percebemos que as carreiras se fazem de todas as maneiras e mais algumas. Dou um exemplo. Passou-se em 1986 no meu exame final do curso de direcção de orquestra em Estrasburgo. O presidente do júri perguntou-me o que ia fazer depois de ter passado o exame com a classificação máxima. Respondi-lhe inocentemente que ia procurar trabalho. Ele deu uma enorme gargalhada. E perguntou-me ainda: É rico? Não; é judeu? Não; é maçon? Não; é homossexual? Não. Então o que está aqui a fazer? Deu-me que pensar.
Daquela sua filosofia inicial de que há males que vêm por bem, tenho impressão que já decifrámos o mal. Qual é o bem que veio a seguir?
O ter provado a toda a gente, a começar por mim próprio, que é possível viver com qualidade com pouco dinheiro.
Volta a falar em pouco dinheiro sem dar uma referência.
Mas é fácil perceber o que é uma pessoa que se habituou a um determinado nível de vida, alto, vivia bem, sem ter que fazer contas a coisa nenhuma, de repente ver-se a viver com muito menos e a ter que fazer contas. Mas, mesmo assim continua a achar que vive bem, apesar de ter deixado de viajar, de não comprar todos os livros que me apetece... Não me faz diferença nenhuma.
O refúgio no campo
Mas vive com quanto? Olhando à volta, para a casa onde mora, não pode dizer que vive mal...
Mas esta casa já era minha. Por acaso não é assim. O terreno era meu e a mulher com quem eu casei vendeu a casa dela. Portanto, eu entrei com um terreno, ela entrou com uma casa. Vivo aqui há cinco anos, mas tenho o terreno desde muito antes da Metropolitana. E quando digo pouco dinheiro, falo de poucas centenas de contos.
É das viagens que sente mais falta?
Não. Viajei para os quatro cantos do mundo...
Há alguma coisa de que sinta falta, então?
Não posso dizer que sinta falta. Há é uma espécie de reeducação. Não é necessário, de facto, andar todos os dias num Jaguar. Tenho um jeepinho normalíssimo, um Honda. Chega. Este tipo de coisas é que são uma reeducação que faz bem. O que me dei conta é que a guerra com Santana Lopes, que me obrigou a contra-gosto a largar aquilo que é o meu verdadeiro filho, o meu legado para a história do país, o projecto da Metropolitana (apesar de Gabriela Canavilhas ter mandado apagar o meu nome de fundador da orquestra, como Estaline fez com Bakunine, já reposto pela actual direcção) veio-me permitir usufruir de paz.
Não tinha paz?
A minha dedicação a 300 à hora ao projecto da minha vida, um ano e meio a escrevê-lo, outro a montá-lo e 12 a dirigi-lo, tinha outra face da moeda. Tirava-me a vida pessoal. A realização no trabalho e o facto de ganhar bem, percebo hoje, não garantem qualidade de vida. Estava a caminhar, à distância posso dizê-lo, para um acidente grave, não se seria um AVC... Era evidente que não ia poder aguentar aquele ritmo de vida. Ganhei. O facto de ser ateu também ajuda a chegar a essa conclusão. Só temos esta vida e é para a gastar da melhor maneira. Estes milhares de livros que vê à sua volta não estão lidos, chegou a hora.
Foi disso que se apercebeu?
Não só. O que eu aprendi realmente foi que os grandes luxos do século XXI são, como escreveu António Mexia, tempo, espaço e silêncio. Agora tenho realmente tempo, espaço e silêncio. E, mais importante, agora mando eu no tempo. É preciso recordar que houve muitas mulheres na minha vida, muitas viagens, muitas aventuras...
Fala desse passado com muita saudade...
Sim. Mas é preciso que ele esteja arrumado no seu sítio.
Razões da quebra do silêncio
Porque é que resolve falar depois de seis anos em silêncio? É a indignação em relação à nomeação de Gabriela Canavilhas para ministra da Cultura e o facto de se dizer que ela salvou uma casa arruinada por si?
É a indignação por ela querer fazer currículo à minha custa. Não o facto de ela ser ministra.
É só isso ou também a necessidade de falar e promover o livro que acabou de lançar?
São três coisas. Essa também. Estive calado durante estes seis anos porque percebo que estou à espera que se faça justiça há demasiado tempo. Há dois processos de sinal contrário, que, segundo o meu advogado, podem demorar a ser julgados cinco ou seis anos.
Limpar o nome é o objectivo por que fala, então?
Sim. Sobretudo quando aparece uma pessoa que começa a dizer que tem experiência de gestora porque pegou numa instituição falida e a salvou. Não, ela pegou numa casa propositadamente descapitalizada e limitou-se a receber o dinheiro.
Isso não é também uma atitude de vingança ou de ressabiamento?
Não. Isto é contar a verdade. Quando alguém espalha mentiras, a reacção ainda que violenta do ofendido, não pode ser considerada vingança.
Um livro chamado "Prazer"
A quebra de silêncio que também coincide com o lançamento de "O Prazer", livro seu, não tem por objectivo vender mais exemplares?
Nunca tinha pensado nesse aspecto. Mas se vender mais não podemos deixar de frisar que será por outras razões, pois o livro tem 600 páginas e só 15 delas falam da história da minha saída da Metropolitana. O livro é verdadeiramente dedicado aos meus sobrinhos, 32, a quem eu quero deixar uma espécie de testamento.
Porquê?
Porque descobri que os sobrinhos a quem este tio era apresentado como uma figura um bocadinho fora do comum por ser artista e não era o melhor modelo para eles copiarem, afinal tinham um fascínio grande por ele. Este tio quer-lhes contar algumas coisas que eles não sabem e também a história do avô que eles não conhecem e ainda explicar-lhes as minhas próprias ideias que percebo que admiram. Quero confrontá-los com o que a vida me ensinou. Eu sou um tipo que está preparado para encarar a morte. Só porque acho que tive uma vida muito cheia, muito rica e muito interessante. Estou preparado para acabar amanhã a vida. Irei de papo cheio.
E a imagem que quer deixar aos seus sobrinhos é a do sedutor que conquista uma mulher 30 anos mais nova do que ele num comboio?
Não. Eles percebem perfeitamente que isso é a única coisa que é ficcionada. A razão é simples. Eu tenho uma vida para contar e umas ideias para expor. Como essa vida é rica, a tarefa vai ser longa. Um texto grande normalmente é chato. O truque para o tornar mais leve e mais digerível é transformá-lo num romance. Faço-o inventando uma história com uma rapariga encontrada num comboio 33 anos mais nova do que eu. É evidente que os diálogos são desequilibrados.
Mas é apenas a imagem do sedutor que perpassa o livro todo.
Um maestro tem que ser um sedutor. Eu não nego a minha faceta de sedutor, que aliás acho que todos os políticos têm.
Estamos a falar do maestro, do político ou do homem?
Do homem que é isso tudo.
Voltemos ao maestro.
Quando estamos a dirigir uma orquestra, temos à frente uma quantidade de gente que tem os mais variados problemas do mundo. Um anda com dores no fígado, outro tem o filho doente, outro a mulher fugiu com não sei quem. O maestro tem que pegar naquela gente toda e fazer com que durante umas horas esqueçam as suas vidinhas pessoais, dos seus dramas, dos seus problemas e entusiasmá-los por uma coisa que é a mais nobre arte de existir, fazer a obra colectiva, esquecendo-se de si próprios. O bom músico de orquestra não é o bom solista. Se pegarmos em 60 Maria João Pires não fazemos uma boa orquestra, fazemos um desastre, porque o individualismo ligado à figura do solista é mortal para uma orquestra.
Mas o maestro tem que ser o contrário?
Exacto. O maestro é o que tem o carisma, a capacidade de sedução para levar aquelas pessoas a esquecerem-se do seu dia-a-dia e transfigurarem-se, entusiasmados por algo que ele lhes propõe.
O maestro é um solitário?
Quem está numa situação de poder é sempre um solitário nesses momentos.
Aos 62 anos sente que foi um solitário?
Sempre que tive que comandar sim.
Este livro é outro dos meios que quer utilizar para limpar o seu nome?
Sim. Mas é sobretudo uma reflexão sobre o prazer. Entendo que o motor da curiosidade pode ser o prazer. A satisfação da curiosidade traz prazer.
Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009, 1.º Caderno, página 17.