Na semana passada, ocorreu no Parlamento uma das cenas mais penosas e caricatas da política portuguesa recente: aquela em que o ministro das Finanças bradava contra o 'regabofe' e 'os devaneios financeiros' do Governo Regional da Madeira, ao mesmo tempo que a bancada do PS viabilizava um empréstimo de 79 milhões a contrair pelo mesmo Governo Regional. A cena é especialmente penosa por ter resultado na humilhação pública de alguém que, à parte o 'esconde-esconde' do défice, merecia ser tratado com mais consideração pelo PS. E que, pelo seu lado, também tinha a obrigação de fazer respeitar o cargo que ocupa, não se prestando àquele papel.
Estivesse ou não informado sobre o que se passava nos bastidores, Teixeira dos Santos saiu do Parlamento desautorizado pela bancada do próprio partido que apoia o Governo. Ou que é suposto apoiá-lo, pois, a partir deste desacerto chocante entre o que pensa o ministro sobre as finanças da Madeira e o que decidiu a bancada do PS, levantam-se legítimas dúvidas sobre a coerência, para não dizer já a coesão, entre maioria e Executivo.
Num momento em que o primeiro-ministro tanto se queixa de entraves e embaraços das oposições, a maioria socialista assume, afinal, o mesmo tipo de comportamento. É verdade que quando o Estado central se endivida mais todos os dias perde autoridade moral para impedir a Madeira de o fazer também. Mas o que está em causa é o modo e o contexto em que a decisão de viabilizar o empréstimo acaba por ser tomada. Permitindo a desautorização pública do seu ministro de Estado e das Finanças, o próprio chefe do Governo e líder do PS fica em xeque, pois transmite uma imagem de fraqueza perante o partido, ou de duplicidade perante o país. Num caso ou no outro, a confiança esboroa-se porque entre o discurso e os actos convém que haja alguma conformidade.
Este caso é apenas mais um indício da insegurança e do desnorte de que o PS e o Executivo vão dando mostras e que se manifestam noutras atitudes. Quando deviam estar concentrados na busca de soluções políticas mobilizadoras para o combate à crise, os socialistas parecem mais interessados em dividir as águas do que em congregar esforços e energias. As pressões para que o Presidente da República tome partido a favor ou contra o Governo são outro sinal de que, em vez da cooperação necessária, o PS busca a confrontação, sem que se perceba qual o objectivo útil dessa manobra táctica, visto que forçar eleições seria absurdo e irresponsável. E ao trazer a regionalização para debate neste momento reforça ainda mais a ideia de que, entre a sua agenda política e as prioridades do país, há um fosso que está a alargar-se. Neste quadro, o novo Governo aparece-nos como se já fosse um Governo velho e esgotado, à procura do rumo que lhe falta.
Desavenças estéreis
Agora é um festival aéreo a provocar ondas de choque entre os autarcas de Lisboa e Porto. E até na "Quadratura do Círculo", programa da SIC-Notícias onde, para gáudio geral, António Costa e Pacheco Pereira quase chegavam a vias de facto.
A improvável dupla Rio/Menezes (PSD) acusa Costa e o Governo (PS) de terem roubado para o Tejo a Red Bull Air Race que há três anos decorria no Douro. Costa diz que foi a empresa promotora do festival a propor-lhe a mudança, jurando ela que, em qualquer caso, não o faria no Porto. Rio e Menezes, cada um no seu estilo, sugerem que Costa lhes disputou o Red Bull e queixam-se de uma capital centralista que não suporta os êxitos do Porto. Pinto da Costa saiu a terreiro para declarar Rio incapaz de fazer valer os interesses da cidade. E é nisto que estamos, com os deputados a tentarem meter também a sua colherada.
Há cidades que sabem aproveitar rivalidades herdadas da tradição ou da história e usar, a seu benefício, as energias que delas resultam. Com Lisboa e o Porto, passa-se o contrário: nada se faz para as aproximar e todos os pretextos servem para desavenças estéreis.
'Titulares pagam factura'
Na edição da semana passada errei ao escrever que os ex-titulares vão pagar a factura do recuo do Governo na avaliação dos professores. De facto, não são só os ex-titulares que podem voltar para escalões abaixo daquele em que antes se encontravam; isso acontece também com os não titulares. Aos leitores de boa fé, apresento as minhas desculpas, como costumo fazer quando cometo erros factuais.
Entretanto, um leitor atento e vigilante, que se apresenta como professor, escreveu ao director do Expresso a denunciar os meus "interesses" nesta matéria. Explicava ele que a minha mulher (referia-se a uma "familiar" para fingir um certo pudor), era professora titular, encontrando-se na situação descrita no artigo. O queixoso entende que, perante este terrível conflito de interesses - e embora sejam talvez milhares os professores em situação idêntica à da minha "familiar" - é "deontologicamente incorrecto" eu não ter feito uma declaração prévia a explicar com quem sou casado. Informo, pois, os zeladores da opinião e da deontologia alheias de que, além de a minha mulher ser professora e ex-titular, também tenho dois filhos estudantes. Assim, poupo-lhes a maçada de fazerem investigações sumárias e de as comunicarem à direcção do Expresso quando eu voltar a escrever sobre qualquer assunto relacionado com o ensino. Ficam a saber: sou parte interessada.
Fernando Madrinha
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009