Em 2005 José Sócrates disse, em voz grave, que 7,1% de desemprego eram "a marca de uma governação falhada". Tinha razão. Acontece que desde então até à crise internacional começar, o desemprego subiu e nunca mais se aproximou daquele valor. Olhando para o défice, Sócrates explica-nos que o que se fez antes de vir a crise permitiu ter folga para agora a poder combater. Não teve o mesmo raciocínio em relação ao emprego. E quando a crise rebentou havia muito mais desempregados do que no início do mandato. Assim, e não apenas através da crise internacional, se explicam as previsões de 11% para o ano que vem. A obsessão do défice e a falta de estratégia económica deixaram o país desprotegido.
Sempre que pensamos em desemprego pensamos na sua dimensão financeira: dificuldades nas famílias e despesas acrescidas para o Estado. Mas há uma dimensão mais profunda: o emprego é a forma mais poderosa de inclusão social. Hoje, mais do que a família. As pessoas definem-se, quer gostemos quer não, por o que são enquanto profissionais. É assim que sentem fazer parte de qualquer coisa, ter um propósito na sua vida em sociedade. Deixar uma em cada dez pessoas activas sem esse propósito é, além de todos os problemas financeiros, muito mais perigoso do que parece. O desemprego não é apenas um problema económico e social. É um grave risco para a democracia.
A manta de Sócrates
Na entrevista à SIC e no último debate mensal José Sócrates tentou seduzir a esquerda do PS, os professores e os jovens, concentrando-se nas questões sociais, nos 'costumes' e na educação. Quer, nesta fase de pré-campanha, recuperar parte do voto que perdeu para o Bloco de Esquerda. Faz sentido. Já não estamos a falar, como no passado, de um ou dois por cento. Se antes as eleições se ganhavam apenas ao centro, agora ganham-se ou perdem-se também à esquerda.
Mas a preocupação com o Bloco não se fica pelo curto prazo. O BE roubou ao PS o seu eleitorado 'natural'. Sem ele, não bastará aos socialistas baterem-se pelo voto eternamente indeciso do centro. Têm que captar os eleitores de centro-direita, afastando-se ainda mais do seu ponto de partida. E, mesmo vencendo as eleições, terão na pressão do Bloco um elemento de permanente instabilidade.
Apesar de perceber a táctica, parece-me que Sócrates não está a ver o retrato completo de todos os seus problemas. Não se chega aos 10 por cento com voto jovem urbano e de professores. Basta analisar com atenção os resultados das últimas europeias para o perceber. O BE entrou no voto popular do PS. E, para esse, os números de última hora terão pouco efeito. É gente que está muito zangada.
O primeiro-ministro está num beco sem saída: se se vira para o voto do centro perde à esquerda sem ter a certeza de ganhar qualquer coisa; se se vira para a esquerda não ganha à direita e provavelmente não consegue recuperar o suficiente para vencer. Se puxa a manta para os ombros destapa os pés. Basicamente, resta a Sócrates fazer figas para que Ferreira Leite se espalhe ou para que, pelo menos, não mobilize. Isto, partindo do princípio que na abstenção das europeias está escondido muito voto PS. As coisas não estão fáceis e Sócrates pouco pode fazer. Não se mudam quatro anos em dois meses.