Apesar de se encontrar na prisão e de estar impedido de contactar com os colaboradores mais próximos, arguidos como ele no processo 'Face Oculta', os negócios de Manuel José Godinho continuam em expansão. O último deles foi ganho esta quinta-feira pela empresa O2 - Tratamento e Limpezas Ambientais num concurso de sucatas do Exército. A O2 ficou com seis dos 14 lotes de material militar obsoleto.
"Não estávamos à espera de encontrar ninguém da O2", confessa Mário Luís, da Intersucatas, uma das empresas convidadas pelo Exército a participar no concurso. "Não sei se a declaração de finanças deles está limpa", questiona o empresário. A existência de dívidas fiscais impede a participação em concursos públicos.
A O2 chegou a oferecer um valor 13 vezes superior à base de licitação pedida pelo Exército, pagando cerca de 45 mil euros por um lote de camiões, quando o valor indicativo era de 3500. "Julgo que os valores apresentados foram inflacionados", admite Mário Luís.
Leandro Baptista, outro empresário que participou no concurso, diz que, mesmo assim, "desta vez as propostas da O2 não chegaram ao dobro das propostas concorrentes. Ao todo, a empresa de Manuel José Godinho vai gastar 100 mil euros na compra dos seis lotes de sucata.
Em Aveiro, onde os jornalistas continuam sem arredar pé do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) do Baixo Vouga, a semana foi dedicada aos nomes sonantes: Armando Vara, José Penedos e o filho Paulo Penedos. Embora tenha declarado publicamente a sua inocência, o juiz de instrução criminal terá dito a Armando Vara que não acredita nas explicações dadas por ele durante a inquirição que lhe foi feita na quarta-feira e que terminou já perto da meia-noite.
Confrontado com o alegado recebimento de 10 mil euros, o vice-presidente do BCP afirmou que Manuel Godinho nunca lhe entregou dinheiro algum, ao contrário do que vem detalhadamente descrito no relatório do DIAP de Aveiro, que justificou as buscas da operação 'Face Oculta'.
O Expresso confirmou que o arguido mais mediático do caso e os seus advogados ainda não encontraram nenhuma conversa directa entre Vara e Godinho sobre os 10 mil euros nas 15 escutas que lhes foram dadas a ouvir durante o interrogatório. É verdade que o ex-ministro socialista e amigo pessoal de José Sócrates tem pela frente outras 15 escutas à sua espera na próxima inquirição, prevista para quarta-feira da semana que vem, mas para já a única intercepção telefónica conhecida pela defesa que faz alusão a esse valor é uma conversa em que Godinho - dois dias antes de ir ao encontro de Vara no BCP - pede a uma funcionária das suas empresas, Maribel Rodrigues, que lhe levante o dinheiro em notas, o que veio a acontecer na véspera de o sucateiro ir à sede do banco.
Vara, que está indiciado por um crime de tráfico de influências, também ainda não foi confrontado com as fotografias que constam dos 20 volumes do processo, mas o Expresso apurou que em nenhuma delas está retratada a alegada entrega dos 10 mil euros, havendo no entanto fotografias de dois almoços entre os dois arguidos e de um encontro num estacionamento ao ar livre onde Godinho passa um saco de papel ao ex-ministro.
Negócios limpos em Lisboa
Em Lisboa, uma auditoria pedida pela Câmara Municipal às relações mantidas entre a autarquia e a mais conhecida das empresas do principal arguido do caso 'Face Oculta' concluiu que a O2 ganhou dois contratos de venda de sucata automóvel num total de cinco concursos em que foi convidada pelo município a apresentar propostas. Em ambos os casos, a vitória deveu-se ao facto de a O2 ter apresentado o melhor preço. "Aparentemente, não existem quaisquer indícios de prática ilícita nos contratos", diz o relatório da auditoria, a que o Expresso teve acesso.
A iniciativa de averiguar os contratos com Godinho tinha sido anunciada há duas semanas pelo presidente António Costa, na sequência da suspeita generalizada que contagiou todas as relações do universo de empresas do sucateiro de Ovar com entidades públicas. Os dois concursos em questão foram ganhos em 2008. No primeiro contrato com a Câmara de Lisboa, Godinho adquiriu 181 veículos ligeiros por €49.555; no segundo, por €49.723, comprou 179 ligeiros e quatro ciclomotores.
A Câmara ainda ponderou denunciar o primeiro contrato, pelo facto de a O2 desrespeitar muitas regras definidas para o transporte, tendo sido detectados o "derramamento de ácidos de baterias, combustíveis" e óleos e o "esmagamento dos carros", mas Godinho acabou por corrigir o problema e a má imagem que a sua empresa deixou não a impediu de ganhar o contrato seguinte.
Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009, 1.º Caderno, página 24.