Segundo Cyrillo Volkmar Machado, 1º visconde de Santo Tirso, a vida do porco não é tão má quanto se julga, quer enquanto o animal ainda vivo pasta bolota no montado quer, depois de morto, na fase de enchido. O que rala, dizia Volkmar Machado, é a transição.
Relembro este aforismo a propósito da Europa, da globalização e dos 86 anos de Robert Mugabe, ditador do Zimbabwe, completados no passado domingo. Na segunda-feira, sem respeito pela efeméride, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, lamentando a falta de progresso a caminho do Estado de direito, do respeito pelos direitos do homem, da reforma constitucional para partilha de poder, da reconciliação nacional, da reforma das forças de segurança e da protecção dos investidores, resolveram prolongar por mais um ano as "medidas restritivas" (isto é, as sanções) aplicadas ao país. Estas tinham sido afinadas para punir o poder e poupar o povo - embargo à venda de armas e mais material de repressão interna, recusa de vistos e congelamento de depósitos em bancos da União a uma centena de personagens do regime - e serão revistas se o Zimbabwe entrar no bom caminho. Em contraste com tal rigor moralista a embaixada da China em Harare celebrou a efeméride dando sumptuosa festa a mais de uma centena de convidados que Mugabe honrou com a sua presença (punha pela primeira vez pé numa embaixada em Harare desde a independência, em 1980). Um comunicado de imprensa do MNE em Pequim conta que o ditador agradecera à embaixada a exaustiva preparação da festa de anos e se declarara seguro de expansão futura cada vez maior da cooperação amigável entre as duas nações, em todos os campos de actividade. A China tem uma política africana simples: quer matérias-primas, paga bem e é-lhe indiferente a moralidade política dos regimes com quem trate. O seu próprio regime tem padrões morais diferentes dos estipulados pelos valores do Ocidente e, segundo aqueles, violações dos direitos do homem são questões de lana-caprina.
O crescimento do poder económico e financeiro da China não está para parar (já é hoje o maior exportador do mundo) e a falta de democracia, além de facilitar negócios em África, não tem provocado grandes sobressaltos políticos internos - ao contrário do que muito boa gente esperava. No "mundo multipolar" o pólo chinês vai ser cada vez mais forte e o pólo europeu irá perdendo força. Depois de amainada a tormenta económica, financeira e laboral (com sorte sem estragos duradouros para a estabilidade social europeia) e de encarrilada nas Nações Unidas ou no G20 coordenação mais ou menos eficaz de políticas plausíveis de luta contra o aquecimento global, talvez se chegue a um novo equilíbrio, tal como em 1815 ou em 1945. Entretanto, se não quiserem ir parar a prateleira baixa demais para o seu conforto e quiserem continuar a defender os seus valores contra mundo irreverente e agressivo, os europeus, como o porco do visconde, vão ter de se ralar muito.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010