Sua Tremenditá Giorgio I, príncipe de Seborga, morto a 25 de Novembro por esclerose lateral amiotrófica, que fora escolhido pelos seus pouco mais de trezentos súbditos com capacidade eleitoral - 304 por, 4 contra - e se fizera coroar, em 1963, soberano da aldeia de Seborga, oito quilómetros quadrados e quase dois mil habitantes numa colina da Riviera italiana, independente de Itália desde esse momento no espírito dos eleitores e dos eleitos, que havia sido um Principado desde a Idade Média, quando, em 954, condes locais a ofereceram a monges católicos para, em 1079, o Papa Gregório VII e o imperador Henrique IV a elevarem à dignidade de Principado Imperial do Santo Império Romano Germânico, até que a Casa de Saboia o comprou em 1729 mas, ignora-se porquê, se esqueceu de registar a transacção e talvez por isso Seborga não foi mencionada no Tratado de Viena de 1915, nem na unificação de Itália em 1861, nem na proclamação da República Italiana em 1946, não tendo assim, como S. Marino - ou o Vaticano - existência legal internacional, mas nem por isso o seu estatuto peculiar foi esquecido na tradição local onde aos factos conhecidos se misturam legendas incertas - lugar onde os Cavaleiros da Távola Redonda procuraram o Santo Graal; lugar predilecto dos Templários - e, nascido em Seborga numa família que produzia mimosas e as comercializava, Georgio Carbone, tal era o nome que recebera à nascença, formara-se em Medicina, abandonara a prática clínica e dedicara-se ao estudo histórico da sua terra e das suas credenciais de independência, pesquisando os arquivos de Seborga, de Turim e de Nice, tornando-se uma autoridade respeitada por outros investigadores devido ao seu conhecimento pormenorizado de certas características locais - mas levado menos a sério quando a partir desse conhecimento procurava fundamentar a independência de Seborga. Segundo Carbone, Seborga fora esquecida durante o século XIX quando os pequenos estados da península tinham sido juntos com os grandes para formarem a Itália moderna e por isso Seborga, "escorregando pelas rachas da história", permanecera uma nação soberana e deveria ser hoje um Estado independente.
Se os especialistas de direito internacional público deram pouco crédito às teses independentistas de Giorgio I, os seus conterrâneos, com outras preocupações e outros interesses, deixaram-se convencer pela actividade prosélita constante de Carbone e não foram desiludidos. Nos anos que se seguiram à declaração de independência e à entronização de Giorgio I, estampilhas postais com o seu retrato foram impressas e moedas cunhadas, também com o seu retrato, gravaram-se placas de matrículas de automóveis; o príncipe escreveu a Constituição, desenhou a bandeira e criou mesmo um Exército - embora este ficasse limitado a um tenente, amigo próximo de Carbone. Estampilhas foram coladas em sobrescritos endereçados a Roma que não foram devolvidos (embora o Mercedes imperial tivesse sido temporariamente apreendido por ostentar matrícula ilegal) e em geral a Itália, sem reconhecer o Principado, não lhe complicou a vida (reconhecimento, por assim dizer, só houve o de Burkina Faso que estabeleceu em Seborga um consulado honorário), assistindo-se a um enorme aumento de turistas, sobretudo americanos, vindos do norte de Itália e do sul de França visitar o Principado. Cem mil por ano. O presidente da Câmara, que de entrada se opusera aos planos independentistas de Carbone, passou a ser um entusiasta; a Carbone, por outro lado, a boa vontade oficial dava jeito.
Em 2006, a princesa Yasmine von Hohenstaufen Anjou Plantageneta apareceu de repente pretendendo o trono para o devolver a Itália. Ninguém lhe ligou em Seborga e pouco depois provou-se que a sua pretensão não tinha validade.
Solteiro e sem filhos, Giorgio I não recebia nenhum dinheiro de Seborga mas exercia a prerrogativa real de ir todos os dias buscar queijo e presunto à mercearia da aldeia.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009