Terminam amanhã os Jogos Olímpicos de Inverno sem que se tenha dado pelo evento. As televisões generalistas e imprensa ignoraram praticamente o que se passou em Vancouver - apenas a RTP 2 transmitiu uns resumos - segundo a lógica que desportos de neve não fazem parte do quotidiano dos portugueses, como se o lançamento do martelo ou a natação sincronizada dos jogos de Verão arrastassem multidões de hooligans. Mas estão a desprezar um naco geracional de audiências criadas a apreciar os folhos e purpurina dos vestidos e a ouvir o rasgar das lâminas no gelo... a verdade é qualquer quarentão português do interior rural sabe bastante de técnica de patinagem artística e de combinado nórdico e teria ficado satisfeito em rever estas modalidades que estão esquecidas num vale idílico das suas memórias.
É daqueles mistérios para o qual nunca teremos uma resposta convincente. Mas quando só havia um canal de televisão em Portugal, as tardes de domingo de Inverno deste país meridional eram enchouriçadas com longuíssimas horas de esqui alpino, saltos e - meu deus - patinagem artística. Não estamos a falar de resumos de meia hora, mas da totalidade da transmissão, desde que a ZDF montava as câmaras até ao anoitecer na montanha com os hinos da Eurovisão. Fomos testemunhas do momento em que os saltadores deixaram de planar com os esquis paralelos para os abrir em V em pleno voo e assim ganharem mais uns metros (Hop! Hop! Hop! Hop! Hop!). Isto na vida do Alentejo nos finais dos anos 70 não teve um impacto brutal de um penálti não marcado ao Benfica, mas foi largamente discutido em vilas e aldeias médias. Os esquis em V, mais aerodinâmica... mais um copito?
Bom, a patinagem tem uma complexidade multidisciplinar. As minissaias das patinadoras noruegueses eram o mais aproximado de uma miúda kinky numa pré-pré-adolescência no Portugal profundo e o patinador a levantá-la colocando a mão ali a mão por baixo e, mas, eeer, como é que é possível anatomicamente? - isto sim era tema de debate aceso. E os tipos soviéticos em spandex com penas e de olhos pintados e de crista no cabelo e deslizar arisco só podiam ser de facto a incarnação do Império do Mal, ou um sinal de liberdade artística que se vivia na União Soviética? Todo um despertar político. Quando a patinadora da Alemanha comunista (DDR) tinha uma escorregadela no triplo axel e no momento antes da pontuação em alemão (funfcomasechs-funfcomanoin), ofegante a fazer adeus para a câmara, chegava a treinadora, seca e inexpressiva, passava-lhe o copo de sumo, e pousava a mão no ombro e ela gelava, como se soubesse: vais para a fábrica de comboios, pois vais...
No fim-de-semana passado estive pois a ver os Jogos num canal do cabo. As mulheres da velocidade no gelo parecem fabricadas por peças e quero jurar que têm a perna que faz a curva ainda mais musculada que a outra. Os homens da patinagem artística continuam a parecer estorninhos alucinados com LSD a fazer triplos lutz, seguidos de axel invertidos e os estilos Flash Gordon e General Zod - o arqui-inimigo do Super-Homem - ainda não saíram de moda. Um olhar treinado na RTP emissão Inverno 1978 consegue facilmente detectar a química de ódio\ódio nos pares que existe por trás dos sorrisos dramaticamente falsos. Quando desmontam o esgar e julgam que as câmaras já não os estão a filmar - entreolham-se com um profundo desprezo. A comentadora portuguesa do Eurosport, que passa a coreografia toda a ler as regras e regulamentos e de como são compostos os movimentos em vez de estar calada, tem então um desabafo: "É... ela vai-se ver livre dele... já é o terceiro que larga...". Terminados os tempos para os conflitos medalhísticos entre os dois blocos geopolíticos, resume-se tudo ao básico: relações humanas no gelo.
Texto publicado na edição da Única de 27 de Fevereiro de 2010