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Gene Cohen (1944 -2009)

Médico e psiquiatra, contribuiu, mais do que ninguém, para a forma como a Psiquiatria, bem como a Neurologia e outras profissões e negócios, passassem a encarar a velhice humana.

José Cutileiro (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 25 de novembro de 2009

Gene D. Cohen, que morreu faz hoje duas semanas na sua casa de Kensington, Maryland, Estados Unidos, de complicações causadas por metástases de um cancro da próstata contra o qual se batera durante catorze anos, especializara-se nos problemas de saúde mental dos velhos - psiquiatria geriátrica, em jargão médico - incluindo a doença de Alzheimer, depois de se ter formado em história de arte em Harvard e em medicina na Universidade de Georgetown e contribuiu mais do que qualquer outra pessoa para a maneira como a psiquiatria, bem como a neurologia e outras profissões e negócios que se ocupam da velhice humana, passaram nas últimas décadas a considerar o que fazem não só como assistência a uma sequência de problemas por resolver mas sobretudo como uma fonte de oportunidades abertas quer a eles próprios quer antes de mais aos velhos, consumidores e beneficiários principais da sua actividade.

Os instrumentos de que Gene Cohen se servia para mudar o foco de atenção de todos os participantes, passando dos problemas da decrepitude - provectos como o mundo mas mais visíveis hoje, que se morre muito mais tarde - com toda a sua carga negativa para o potencial até então quase insuspeitado da velhice, eram o trabalho de investigação rigorosa e da divulgação dos resultados desse trabalho ao público não especializado - que ia incluindo mais e mais velhos e velhas - em livros escritos para leigos, programas de televisão e planos de actividades de associações nacionais que inspirara e ajudara a criar. Como disse quando soube da sua morte um colega da Universidade de George Washington, onde ensinava, graças a essa cruzada conseguira praticamente sozinho transformar a imagem do envelhecimento que, em vez de um período de senescência em antecâmara lúgubre da morte, começou a ser olhado como um período de criatividade nas artes e de engenho revigorado nos estratagemas da vida. A respeito destes, no começo do seu último livro, Gene Cohen contou a história da chegada a uma visita a Washington dos seus sogros, já entrados na idade, durante uma tempestade de neve em que se perderam à saída do metropolitano, não passavam táxis e não conseguiam telefonar para a filha e para ele. Viram do outro lado da rua uma pizaria aberta que fazia entregas ao domicílio, foram lá encomendar uma para casa do genro e convenceram o motorista que a foi levar a levá-los também.

Gene Cohen tinha uma personalidade exuberante, uma enorme simpatia e grande capacidade de convencer os outros. Mas tinha também imaginação científica e perseverança: quando exortava velhos e velhas a desistirem de mezinhas, naturais ou sintéticas, que nenhum efeito benéfico causavam e a melhorarem com "o suor das suas mentes", metendo-se a aprender coisas novas, fazia-o baseado em estudos aturados que fizera do bem-estar e da doença em cérebros que envelheciam. Descobrira que os anos mais tardios da vida podiam ser um tempo de grande criatividade. Se as pessoas fossem encorajadas a tentar novas iniciativas o cérebro criava células novas, em vez de se limitar a destruir as velhas. Inventou ele próprio jogos que estimulam velhos com - ou sem - Alzheimer. As suas investigações mostraram também que quem na velhice se metesse a praticar artes tinha menos doenças e mais independência do apoio dos outros.

Toda coisa com razão tem sezão. Com a esperança de vida a crescer (para o meio deste século há quem a estime em 120 anos) a curiosidade da ciência acompanha; por exemplo, investigações sobre um enzima que demora o envelhecimento das células deram este ano o Prémio Nobel da Medicina a duas americanas e um americano. O talento vital de Gene Cohen chegou na altura certa. Veio tornar menos fundada a apreensão daquele velho que dizia: quando eu era pequeno os meus pais tinham sempre razão; quando os meus filhos eram pequenos já havia Dr. Spock e tinham eles sempre razão; só espero que não descubram um dia destes que o melhor para os velhos é matá-los sem dor.

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009

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geoterror (seguir utilizador), 1 ponto , 9:25 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
Mas você só sabe falar de gente que morre? Não nenhuma opinião sobre os vivos? Umazinha?
 
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