Gene D. Cohen, que morreu faz hoje duas semanas na sua casa de Kensington, Maryland, Estados Unidos, de complicações causadas por metástases de um cancro da próstata contra o qual se batera durante catorze anos, especializara-se nos problemas de saúde mental dos velhos - psiquiatria geriátrica, em jargão médico - incluindo a doença de Alzheimer, depois de se ter formado em história de arte em Harvard e em medicina na Universidade de Georgetown e contribuiu mais do que qualquer outra pessoa para a maneira como a psiquiatria, bem como a neurologia e outras profissões e negócios que se ocupam da velhice humana, passaram nas últimas décadas a considerar o que fazem não só como assistência a uma sequência de problemas por resolver mas sobretudo como uma fonte de oportunidades abertas quer a eles próprios quer antes de mais aos velhos, consumidores e beneficiários principais da sua actividade.
Os instrumentos de que Gene Cohen se servia para mudar o foco de atenção de todos os participantes, passando dos problemas da decrepitude - provectos como o mundo mas mais visíveis hoje, que se morre muito mais tarde - com toda a sua carga negativa para o potencial até então quase insuspeitado da velhice, eram o trabalho de investigação rigorosa e da divulgação dos resultados desse trabalho ao público não especializado - que ia incluindo mais e mais velhos e velhas - em livros escritos para leigos, programas de televisão e planos de actividades de associações nacionais que inspirara e ajudara a criar. Como disse quando soube da sua morte um colega da Universidade de George Washington, onde ensinava, graças a essa cruzada conseguira praticamente sozinho transformar a imagem do envelhecimento que, em vez de um período de senescência em antecâmara lúgubre da morte, começou a ser olhado como um período de criatividade nas artes e de engenho revigorado nos estratagemas da vida. A respeito destes, no começo do seu último livro, Gene Cohen contou a história da chegada a uma visita a Washington dos seus sogros, já entrados na idade, durante uma tempestade de neve em que se perderam à saída do metropolitano, não passavam táxis e não conseguiam telefonar para a filha e para ele. Viram do outro lado da rua uma pizaria aberta que fazia entregas ao domicílio, foram lá encomendar uma para casa do genro e convenceram o motorista que a foi levar a levá-los também.
Gene Cohen tinha uma personalidade exuberante, uma enorme simpatia e grande capacidade de convencer os outros. Mas tinha também imaginação científica e perseverança: quando exortava velhos e velhas a desistirem de mezinhas, naturais ou sintéticas, que nenhum efeito benéfico causavam e a melhorarem com "o suor das suas mentes", metendo-se a aprender coisas novas, fazia-o baseado em estudos aturados que fizera do bem-estar e da doença em cérebros que envelheciam. Descobrira que os anos mais tardios da vida podiam ser um tempo de grande criatividade. Se as pessoas fossem encorajadas a tentar novas iniciativas o cérebro criava células novas, em vez de se limitar a destruir as velhas. Inventou ele próprio jogos que estimulam velhos com - ou sem - Alzheimer. As suas investigações mostraram também que quem na velhice se metesse a praticar artes tinha menos doenças e mais independência do apoio dos outros.
Toda coisa com razão tem sezão. Com a esperança de vida a crescer (para o meio deste século há quem a estime em 120 anos) a curiosidade da ciência acompanha; por exemplo, investigações sobre um enzima que demora o envelhecimento das células deram este ano o Prémio Nobel da Medicina a duas americanas e um americano. O talento vital de Gene Cohen chegou na altura certa. Veio tornar menos fundada a apreensão daquele velho que dizia: quando eu era pequeno os meus pais tinham sempre razão; quando os meus filhos eram pequenos já havia Dr. Spock e tinham eles sempre razão; só espero que não descubram um dia destes que o melhor para os velhos é matá-los sem dor.
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009