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Henrique Raposo (www. expresso.pt)
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0:00 Sexta-feira, 5 de Fev de 2010
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Numa altura em que tudo parece negro, convém dizer que a democracia portuguesa deu um sinal positivo. As negociações entre PSD, CDS e PS, tendo em vista a aprovação do Orçamento do Estado, mostraram que, afinal, ainda existe algum tino institucional nas entranhas do regime. Portugal precisava de um momento como este; um momento em que a negociação do 'parlamentarismo' substituísse a arrogância do 'socratismo'. Ao contrário do que pensa o excelso Francisco Louçã, esta não foi uma "negociação pantanosa"; foi, isso sim, uma digna negociação institucional. E esta dignidade institucional abriu as portas a outra coisa: além do Orçamento para 2010, as negociações aprovaram um governo minoritário até 2013. Teixeira dos Santos, Paulo Portas e Ferreira Leite mataram, assim, o mito da ingovernabilidade. Ou seja, morreu a ideia de que 'governar' implica 'maioria absoluta'. É possível governar Portugal através do compromisso civilizado. Afinal de contas, não somos índios.
Logo no início desta legislatura, o PS começou a namorar este mito da ingovernabilidade. Muitos socialistas viam qualquer cedência ou derrota do PS como algo que colocava o país à beira do abismo. Passados uns meses, e passadas as negociações orçamentais, podemos dizer que o parlamento, um nado-morto no quadro de maioria absoluta, readquiriu dignidade num cenário de governo minoritário. Aquilo que o PS via como uma afronta ilegítima à vontade do glorioso líder era, na verdade, o normal funcionamento do Parlamento. E foi através desse Parlamento revitalizado que PS, PSD e CDS chegaram ao acordo orçamental. Por mais estranho que passa parecer, estes três partidos mostraram que nós, portugueses, não somos índios ingovernáveis.
No entanto, mesmo depois destas negociações, muita gente continuará a invocar o mito da ingovernabilidade. Quando afirmam que "só é possível governar Portugal com maioria absoluta", estas pessoas estão a desprezar a própria democracia. Uma certa elite habitou-se à ideia de que a democracia é uma mera imposição da vontade de um homem providencial (Cavaco e Sócrates), e, em consequência, essa dita elite considera que a ausência de maioria absoluta gera ingovernabilidade. A força que este raciocínio tem em 2010 mostra como a cultura política salazarista ainda não teve o seu enterro definitivo. O homem morreu em 1970, mas as suas ideias continuam por aí. A ideia de que "Portugal é ingovernável sem maioria absoluta" é uma 'salazarice' enfeitada com plumas democráticas. Anda por aí muita gente a pensar que os portugueses são índios inimputáveis. Velhos hábitos morrem devagarinho.
Neowestern
Uma nova geração de cineastas americanos está a refazer o western. Um dos grandes filmes da década, "O Assassínio de Jesse James" (2007), é o exemplo perfeito destas neocoboiadas. Andrew Dominik filmou e montou este filme de forma a desrespeitar a tradição. Os velhos westerns, de Ford a Peckinpah, tinham uma cadência acelerada. Este filme não é assim. Dominik filma com a souplesse de um Wong-Kar Wai, e oferece-nos a primeira coboiada em câmara lenta. Para terminar, convém dizer que Casey mostra aqui que ficou com todo o talento da família Affleck.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010
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Henrique Raposo (www. expresso.pt)
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0:00 Sexta-feira, 29 de Jan de 2010
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O país 'económico' só discute o duplo 'D': dívida e défice. Esta discussão é necessária, mas não resolve o nosso problema de fundo: por que razão não crescemos a um ritmo aceitável? E a resposta a esta pergunta tem uma simplicidade marcial, caro leitor: o investimento privado não gosta de nós. Portanto, a pergunta que deveria preocupar os nossos génios 'económicos' é a seguinte: por que razão o investidor privado foge de Portugal como Maomé fugia do toucinho? Bom, na minha cabeça de não-génio 'económico', o investidor privado evita Portugal, porque a nossa economia é patrulhada por dois exterminadores de investimento, a lentidão da justiça e o código laboral.
Em Portugal, não se consegue reaver uma dívida por meios legais. Como é óbvio, ninguém investe numa selva onde uma pessoa de bem é violentada por caloteiros. Para quê investir num deserto pré-legal (Portugal) quando existem belos jardins legais (Rep. Checa)? Muitas empresas portuguesas fecham as portas, porque os juízes são incapazes de funcionar a um ritmo decente. É isso mesmo, caro leitor: muitas pessoas vão parar ao desemprego por causa dos juízes (espero que isto atormente, sem piedade, o sono dos senhores doutores juízes). Como é natural, ninguém investe num país onde os tribunais desrespeitam a vida das empresas. De igual forma, ninguém investe num sítio que ilegalizou o despedimento individual. Em Portugal, despedir um trabalhador é um acto que comporta custos proibitivos. Isto sucede porque nós temos o código laboral mais rígido de toda a OCDE. No decisivo campeonato da flexibilidade laboral, Portugal joga na terceira divisão mundial. E, vá-se lá saber porquê, os investidores preferem apostar em países que não encaram o despedimento individual como um crime lesa-25 de Abril.
Caro leitor, enquanto não conseguirmos destruir estes exterminadores, a nossa economia continuará em coma. Ora, como primeiro passo para a recuperação, a minha cabeça de não-génio 'económico' sugere o seguinte pacto laboral: os empresários devem aumentar os salários mais baixos dos seus empregados, mas, em troca, Portugal tem de queimar o actual código laboral. "E o que fazer com a justiça?", perguntará o leitor atento. Os problemas da justiça, caríssimo leitor, não serão resolvidos com pactos, mas sim com a força bruta de uma revolução institucional que está por vir.
O desvio de Weber
Em Copenhaga, o moralismo europeu esbarrou na nova ordem mundial. Os EUA negociaram com a China e Índia. Com orelhas de burro enfiadas na cabeça, a Europa ficou num canto a fazer birra. A Cimeira de Copenhaga foi assim a oficialização mediática do desvio de riqueza de Ocidente para Oriente. O clássico contemporâneo de David Landes, "A Riqueza e a Pobreza das Nações" (Gradiva), ajuda-nos a perceber o 'porquê' deste fenómeno: nós vemos o tal desvio de poder material, porque, a montante, existiu um desvio da ética de trabalho da Europa para a Ásia. Os asiáticos trabalham mais do que os europeus. Na Europa, a velha ética de trabalho começou a ser desprezada pela cultura dos direitos adquiridos. Em simultâneo, os asiáticos transformaram-se em 'calvinistas' de olhos amendoados.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010
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Henrique Raposo (www. expresso.pt)
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0:00 Sexta-feira, 22 de Jan de 2010
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Meus amigos, temos uma direita muito sexual. A nossa direita vive da alcova e para a alcova. A direita portuguesa só é mesmo de 'direita' quando a conversa mete 'cama'. Nas grandes questões económicas (ex.: código laboral), PSD e CDS não têm coragem para rasgar com a lengalenga socialista. PSD e CDS só marcam uma ruptura em relação ao PS nas 'causas da cama' (casamento gay, aborto). Estas 'causas da cama' costumam ser vistas como bandeiras da esquerda-caviar que alimenta o BE e o PS. Lamento, mas tenho de discordar. Para serem de esquerda, o BE e o PS não precisam destas causas fracturantes. PS e BE constituem a versão 'legal' e 'ilegal' do socialismo. Mesmo sem causas fracturantes, a normalidade do PS e BE já é uma overdose esquerdista. Ao invés, o PSD e o CDS precisam das 'causas da cama' para serem de direita. Porque a nossa direita só existe nestes regateios de alcova. No resto, que é o essencial, o PSD e o CDS são cópias do PS. Meus amigos, as 'causas da cama' são bandeiras da direita, não da esquerda.
Há dias, uma bela balzaquiana do PSD dizia que o casamento só pode existir "entre um homem e uma mulher". Com este argumento, a deputada laranja estava a marcar uma legítima posição de ruptura perante o PS. O problema, meus amigos, é que esta ruptura com os dogmas socialistas nunca acontece nos assuntos realmente importantes. Há um ano, um deputado do PSD afirmou que o código laboral de Vieira da Silva era "neoliberal". Ora, mesmo com as mudanças de Vieira da Silva, o nosso código laboral continua a ser o mais esquerdista de toda a OCDE. Como é que o PSD pode dizer que o código laboral mais rígido do mundo civilizado é um código "neoliberal"? Bom, existem duas hipóteses de resposta. Primeira: o PSD é incapaz de sair do complexo de inferioridade ideológico, esse quarto dos fundos onde o PS colocou a direita. Segunda: os líderes do PSD são mesmo socialistas (hipótese que não devemos desprezar).
Seja como for, uma coisa é certa: a nossa direita só age com convicção quando o assunto é a moral que rege o interior das quatro paredes. Para lá das quatro paredes, já no espaço da 'coisa pública', o PSD e CDS não se distinguem do PS. E, assim, a direita partidária acaba por ser uma espécie de anexo incompetente da Igreja Católica. Em 2010, devido à inoperância de PSD e CDS, a Igreja é a líder da direita portuguesa. O que é triste. A direita não se importa de viver num Estado e numa economia de esquerda, desde que as pessoas continuem a fazer amor de luz apagada.
Europa
The Monopoly of Violence" (Faber and Faber) é a história de uma ninfomaníaca que se transforma numa freira. Passo a explicar este estranho enredo. James Sheehan conta aqui a história da relação da Europa com a guerra. Em 1900, as nações europeias tinham um ethos guerreiro. Coisa normal, diga-se: os Estados europeus foram feitos pela guerra, e os europeus conquistaram o mundo através da guerra. Porém, cem anos depois, descobrimos que a Europa é o único actor político que 'ilegalizou' a guerra. Não há memória de tamanha mudança de personalidade: a Europa de 1900, a ninfomaníaca belicista, deu lugar à Europa de 2000, a freira pacifista.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta-feira, 15 de Jan de 2010
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Cara leitora, estamos a criar uma geração de mariquinhas. Os nossos miúdos estão a crescer numa redoma pós-moderninha, longe das coisas mais simples. Há dias, uma menina dizia-me que os frangos vêm do supermercado. Ou seja, aquela criança não associa a galinha, que vê no galinheiro, à carne, que vê no prato. Deve achar que a comida vem de uma fábrica mágica onde o plástico inerte ganha a forma de bife suculento. Ontem, eu não conseguia entrar no meu bairro. Chovia uma carga que assustaria até Noé. Perante o dilúvio, os papás foram buscar os meninos ao liceu. A fila de carros era um espectáculo bíblico. Os meninos, claro, não podiam regressar a pé, porque não sabem o que é um chapéu-de-chuva (não deve fazer pendant com as camisas, ou assim), e porque não podem apanhar 'molhas', coitadinhos. No meu tempo, a malta apanhava violentas 'molhas'. Até era divertido: à chuva, elas ficavam mais permeáveis a beijos e afins.
Nos meus anos 80, a malta andava na rua, nos parques, nas matas, nos campos. Sabíamos o que era a terra, aquela coisa que está debaixo do alcatrão. A caminho da escola, descobríamos, e matávamos, a fauna local. Chegámos aos 10 anos com o vigor de uma tropa de assalto. Tínhamos, nas mãos, calos transmontanos. Tínhamos, no rosto, uma pele tisnada de alentejano. Tínhamos cicatrizes em todos os joelhos, os de baixo e os de cima (vulgo: cotovelos). Ora, tudo isto é ficção científica para a malta que nasceu nos anos 90. Os jovens de hoje não põem os pés na rua. Saltam da cama para o carro do papá. Do carro, saltam para a escola. À tarde, saltam do carro da mamã para a natação ou aulas de ballet. Nunca têm contacto com a rua. Não por acaso, estes miúdos têm medo de tudo o que está no exterior da sua redoma. Estamos a criar mariquinhas faraónicos, cara leitora. Mariquinhas que não sabem como é bom sacar um beijo à chuva.
Esta hiperprotecção dos jovens revela que a nossa sociedade entrou num triângulo das Bermudas familiar: os crianças mandam nos pais. Aliás, a criançada domina a sociedade. Como os cristãos na Roma de Nero, os adultos vivem na clandestinidade. A televisão é para adolescente ver. A sala de cinema é território juvenil. Na escola, o menino não tolera ser ensinado pelo professor. Em todo o lado, em qualquer lugar, o menino tem sempre razão, mesmo quando tenta bater no avô. Esta inversão da moral, sempre com o objectivo de manter o menino na Terra do Nunca, é algo profundamente perverso. E a consequência mais sinistra desta perversão social e moral é mesmo o abandono dos velhos. As famílias só têm olhos para as criancinhas, e acabam por desprezar os avós e bisavós das ditas criancinhas.
No domingo, enquanto pais e meninos passavam pela ressaca de ano novo, nove velhos morreram entre as dez da manhã e as dez da noite (só em Lisboa). Morreram devido à ressaca do abandono. Alguns suicidaram-se, porque já não suportavam a solidão. Cara leitora, nas traseiras da sociedade Peter Pan existe uma ruela escura, pestilenta e imoral: o abandono dos velhos. Os papás ficam a jogar jogos electrónicos com os meninos, e, depois, são incapazes de visitar os mais velhos. Perante isto, deixo-lhe aqui um repto, cara leitora: destrua a consola, castigue o seu marido, e, acima de tudo, deixe o puto ir para a rua, a ver se ele descobre o caminho para um beijo à Gene Kelly.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta-feira, 8 de Jan de 2010
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Portugal é um país de odiadores. O ódio é a moeda de troca do nosso comércio emotivo. Basta olhar à nossa volta. O primeiro-ministro, por exemplo, é uma destilaria de ódio. Aliás, o PS é a Via Láctea do ressentimento. Mas, atenção, a política é apenas a ponta do iceberg. Debaixo da capa do porreirismo sorridente, existe um manto de ódio a palpitar por toda a sociedade portuguesa. Nas estradas, há uma guerra civil. Na internet, a cultura do insulto campeia alegremente. Atrás do volante ou atrás do teclado, os portugueses vestem sempre a pele de odiadores profissionais.
A nossa alma colectiva, essa empoeirada cave metafísica, vive do ódio e para o ódio. E não estou a falar de um ódio contra os 'estrangeiros'. Não. Este ódio vai de português para português. Portugal é o pretexto para o Zé odiar o Chico, e vice-versa. Não existe patriotismo em Portugal, porque os portugueses - paradoxalmente - nunca têm contacto com o país. Os portugueses vivem no interior dos seus casulos tribais. As corporações e os partidos criam uma película peçonhenta que separa as pessoas do país. No seio destes casulos que flutuam acima da realidade, odiar as outras tribos flutuantes é a única identidade aceitável. Os partidos existem para odiar, com os decibéis da varina, os outros partidos (olhe-se para o Parlamento). As corporações existem para morder, como cadelinhas amestradas, as outras corporações (olhe-se para a justiça). Fazer bem ao país não interessa, porque só interessa fazer mal às outras tribos.
Por causa deste clima odiento, revi um filme que funciona, na minha cabeça, como um antídoto contra este hábito de odiar. Realizado por Joaquim Leitão, "20.13 - Purgatório" (2006) remete-nos para a guerra colonial. A personagem principal, o alferes Gaio (Marco d'Almeida), é um crítico da guerra. Este jovem oficial detesta o regime de Salazar. Porém, Gaio nunca abandona os seus soldados. Como diz o capitão, "deve ser duro combater com lealdade mas sem fé, não é Gaio?". Gaio não tem fé na ideologia salazarista, mas mantém a lealdade aos seus homens. Porque o amor que tem pela sua gente é superior ao ódio que sente pelo regime. Porque antes do nosso umbigo ideológico existe uma coisa chamada 'país'. Ora, esta humildade patriota, personificada por Gaio, é uma coisa raríssima em Portugal. Os portugueses nunca colocam o país acima das tribos. Portugal não é uma pátria. Portugal é um pretexto para o ódio que, não sei porquê, habita no peito dos portugueses. Vivemos consumidos por este ódio selectivo que apenas selecciona como alvo outros portugueses. O português é o lobo do português.
Mano
A relação entre irmãos é complicada. 'Abel e Caim' não veio do nada. Se o meu caro leitor tem um irmão, sabe bem do que estou a falar. É fácil dizer "gosto de ti, mana". Mas já não é assim com o mano. 'Abel e Caim' não veio do nada. Um dos grandes filmes da década, "Nós Controlamos a Noite", aborda este amor de mau feitio que une dois irmãos. E o filme até nos oferece uma saída para esta guerra fria fraternal: o realizador, James Gray, colocou 'Abel e Caim' de pernas para o ar. Nunca o desrespeito pelo argumento bíblico foi tão poderoso.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta-feira, 1 de Jan de 2010
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Quando li "A Estrada" (Relógio D'Água), pensei logo que este livro seria o pretexto ideal para a crónica do dia de Natal. "A Estrada", meus amigos, foi a minha estrada de Damasco.
Neste romance, Cormac McCarthy cria um cenário apocalíptico. Uma desgraça bíblica obliterou a vida na terra. Estamos num Inverno nuclear. É tudo gelado e inóspito. Mas no meio desta brancura agreste aparece um homem. Um homem sem nome. É o último Adão, um Adão ao contrário, um Adão no apocalipse. Ao lado do homem, vemos um menino, também sem nome. É, se quiserem, o último anjo de um Deus foragido. Pela estrada, caminham em direcção à costa. Passam fome e frio. Fogem de bandos de canibais num espaço sem qualquer rasto de humanidade. Não há lei. Não há ética. Não há deus. Não é possível ter esperança neste mundo, mas ele, o homem, continua a lutar, continua a andar, continua a proteger o seu filho. O mais lógico seria pôr um ponto final no sofrimento de ambos, mas ele continua a resistir. Porquê? Para quê?
Deus deixou de existir. Foi vencido, e alguma coisa governa no seu lugar. Mas, mesmo assim, o homem continua a lutar como se Deus existisse. E é esta a força que nos arranca pela raiz ao longo do livro. É esta a força que nos deita abaixo. É esta a força que funciona como uma revelação para um pobre descrente como eu. Não importa se Deus existe ou não, porque o único deus que interessa é aquele que cada homem transporta dentro de si. E esse deus existe mesmo. Tem, aliás, vários nomes: 'amor', 'ternura', 'honra', 'direito natural', 'fé', e, claro, 'Deus'. Mas o nome não interessa. O que interessa é o significado que está escondido em todas essas palavras: existe um 'dever' situado acima da lógica e da história. É esse dever que nos salva desse Inverno nuclear interior que é o mundo sem consciência individual.
Sou agnóstico. Não consigo dar o salto da fé. Não consigo suspender-me e entrar no deserto que, uma vez atravessado, vai dar à fé. Mas isto não quer dizer que sou insensível à presença do 'dever'. Mesmo perante a morte de Deus há uma centelha sagrada que não se apaga. Mesmo na ausência de Deus eu sei que devemos reforçar a trincheira da bondade e fazer fogo sobre tudo o que ponha em causa essa mesma bondade. E o Natal, meus amigos, é o renovar anual dessa centelha. Haja ou não haja Deus. Aos 30 anos, precisei de ir até ao apocalipse para entender o Natal. Talvez aos 40 tenha a coragem para atravessar o deserto. Bom Natal.
Guillul
O dr. Soares diz que "os protestantes evangélicos são muito fanatizados". Ora, eu tenho aqui uma pessoa que gostava de apresentar ao dr. Soares. Chama-se Tiago Guillul, e é o músico português mais cool desde António Variações. Guillul já tem, pelo menos, um clássico da coolness: "Beijas como uma freira". Mas Tiago Guillul também é Tiago Cavaco, um pastor baptista. Ou seja, a pessoa que personifica o 'gajo fixe' é, ao mesmo tempo, um protestante evangélico, para quem a Bíblia é uma terra dura que só pode ser amanhada por mãos bem ásperas. Não é fanatismo. É fé. E cada homem tem direito à fé. Soares acredita no PS; Cavaco acredita em Deus. E, meus amigos, não sei qual deles é o mais fanático.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:01 Sexta-feira, 25 de Dez de 2009
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Quando se soube que Manuel Clemente (MC) tinha recebido o Prémio Pessoa, uma turba bíblica começou, de imediato, a vaiar a decisão do júri. Li e ouvi, vezes sem conta, que MC não merecia o prémio. Esta posição crítica não assentava numa opinião negativa sobre o trabalho intelectual do premiado. Estamos a falar de pessoas que nem sequer leram os livros de MC. O alvo da fúria era mesmo algo exterior à escrita de MC: para a inclemente turba, MC não podia ser premiado, porque é o bispo do Porto. A causa da contestação era, portanto, o velho ódio jacobino.
Como é óbvio, a velha inclemência jacobina nunca admitiria que MC é um intelectual interessante. Para estes 'inclementes' de Afonso Costa, um bispo só pode ser um medíocre. Por isso, nem precisam de ler. Basta-lhes o ódio, essa poderosa fonte de conhecimento. O ódio tem várias origens, mas tem sempre o mesmo efeito: simplifica o mundo aos olhos do 'odiador'. Para o 'odiador' jacobino, o mundo é muito simples: há os bons (os jacobinos) e os maus (os católicos). Tenho a dizer que, por vezes, até sinto uma certa inveja desta clareza do 'odiador' jacobino. É que este ódio facilitar-me-ia a vida. Se possuísse esta raiva anticlerical, deixaria de ter dúvidas e, acima de tudo, passaria a ter à minha disposição um inimigo que legitimaria todos os meus disparates: a infame.
Se não fossem estes génios iletrados, estranhos ao hábito da leitura, os nossos jacobinos poderiam ter o prazer de descobrir uma surpreendente modernidade política no pensamento de MC. Em "1810 - 1910 - 2010" (Assírio & Alvim), por exemplo, o bispo do Porto desenvolve aquilo que pode ser descrito como uma laicidade à americana. Partindo da modernidade política do Concílio de Vaticano II (1962-65), MC critica a ideia de "estado confessional". Os católicos devem defender o "estado secular". Porém, a neutralidade do estado não deve invalidar a presença da religião na sociedade. 'Estado' e 'sociedade' são duas realidades distintas. O estado deve ser secular, mas a sociedade não deve ser secularizada à força. Por outras palavras, MC critica a laicidade à francesa (aquela que ainda temos), e defende uma laicidade à americana (aquela que deveríamos ter).
Ora, este livro de MC acaba por ser uma lição de história de Portugal, porque resulta de uma leitura atenta das 'guerras civis' que varreram o país durante os séculos XIX e XX. O Estado Novo foi uma 'reconquista cristã' do Estado depois do jacobinismo da I República. Nos anos 20 e 30, os católicos defendiam a ideia de um 'Estado católico'. Hoje, os ditos católicos, na senda de MC, criticam a ideia de 'Estado confessional', e defendem um 'Estado secular'. Ora, se os católicos deixaram cair a ideia de um 'Estado confessional', a esquerda é incapaz de abandonar o seu velho jacobinismo de 1910. Os nossos 'progressistas' exigem um Estado 'secular' (muito bem), mas também exigem uma sociedade 'ateia' produzida à força pelo Estado (muito mal). Isto quer dizer que, na sociedade dos 'progressistas' de 1910, os católicos não devem sair das suas catacumbas escuras e clandestinas. Julgando-se mui tolerantes, estes 'progressistas' são, na verdade, uma enorme fonte de intolerância. A esquerda está mesmo a precisar do seu Concílio Vaticano II. Porque, no ano da graça de 2009, os católicos são bem mais modernos do que os 'progressistas'.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:01 Sexta-feira, 18 de Dez de 2009
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A minha família é alentejana. Isto quer dizer que eu sou meio pagão. Um bárbaro, melhor dizendo. Eu andava em pelota pelos matos do bairro em vez de ir à catequese com o resto dos galegos (para um alentejano, a Galiza começa ali em Alcobaça). Enquanto a malta aprendia a rezar, aqui o adãozinho pagão lá ia fazendo genocídios na maçã alheia. É por isso que parte de mim fica contentinha ao ver o triunfo desse culto pagão chamado 'ambientalismo'. Meus amigos, sei do que falo: o ambientalismo é uma crendice retropagã. É um regresso ao passado feito de trevas e florestas célticas. É o regresso do culto da natureza, com duendes no lugar de anjos, com sexo no lugar do confessionário, com lendas nórdicas no lugar da "Bíblia", com a mãe terra no lugar de Cristo. Irmãos pagãos, estamos vingados.
Não, não estou a gozar. O ambientalismo é mesmo uma religião oficial, e até já tem personalidade jurídica. Há dias, um juiz inglês considerou que a crença ambientalista merece tanta consideração como qualquer outra crença religiosa. É oficial, portanto. Meus amigos, é aqui que o alarme dispara. É aqui que a minha outra parte (a parte boa) começa a ficar de pé atrás com a loucura 'verde'. Esta crendice é pagã no aspecto, mas é monoteísta na substância. Aliás, o ambientalismo tem muitas parecenças com o cristianismo. Para começar, também é milenarista; para acabar, também tem a mania de mexer no nosso prato. Na Quaresma, dizem os antigos, não se podia comer carne. Agora, os 'verdes' dizem que não podemos comer carne, porque os explosivos gases das vaquinhas fazem mal aos ursinhos do Pólo Norte. Se a Greenpeace mandasse, meus amigos, viveríamos numa gigantesca Quaresma de doze meses. Não contente com o ataque ao bife, o ambientalismo também embirrou com o peixe grelhado. O cristianismo era agnóstico em relação à sardinha, mas o ambientalismo não é. Nada de sardinha, dizem. E nada de bacalhau. Neste estranho mundo das Greenpeace e das Quercus, estamos condenados a uma dieta de duendes: bagas e frutos.
As exigências gastronómicas da agenda 'verde' reflectem a demência intelectual que se apossou da Europa. Na cimeira de Copenhaga, os delegados europeus afirmaram que, no fundo, as fábricas não passam de câmaras de gás, e que o C02 está a criar um campo de concentração à escala global (ofereço de borla esta metáfora à Quercus). Ora, não é aceitável que se tomem decisões políticas com base em crenças monoteístas. Devemos desconfiar sempre das intenções dos monoteístas, venham elas com anjos ou duendes, venham elas com freiras ou com a Quercus.
Pombal
O livro "D. José" (Círculo de Leitores) é essencial para compreendermos o perfil político que Portugal ainda apresenta em 2010. A história é sempre melhor do que a ideologia na hora de analisarmos o país. Nuno Gonçalo Monteiro descreve aqui a forma como o 'valido' de D. José, um tal de marquês de Pombal, mudou para sempre a relação entre o Estado e a sociedade. Foi com Pombal que o Estado começou a colonizar a sociedade.
Foi com Pombal que a ideia de limitar o poder do 'primeiro-ministro' passou a ser ilegítima. Em 2010, ainda vivemos nesse equívoco institucional.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:01 Sexta-feira, 11 de Dez de 2009
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Há dias, quando fui ver os meus pais, fiquei chocado com a minha antiga escola. O pátio parecia um estaleiro do Dubai, mas não era isso que me chocava. Uma tarja da Mota-Engil estava presa entre duas árvores. Por sinal, as árvores onde a Maria deixou gravada a inscrição que fulminou a Dulce: 'Maria loves Henrique'. Mas também não era isto que me inquietava. Ter o Jorge Coelho em cima das memórias amorosas é uma coisa que se aguenta em nome do PIB pátrio. O que me incomodava era outra coisa. Num dos mastros da escola erguia-se uma bandeira. Não era a bandeira de Portugal ou da UE. Era a bandeira da Mota-Engil. Ali estava o esplendor do regime no portão da minha escola. Não dava para dar menos bandeira, dr. Jorge Coelho?
Não pense, caro leitor, que estou a invocar o tema da corrupção quando falo no esplendor do regime. Não sei nada de corrupção, nem ia sujar a memória da Maria com esse assunto. Quando falo de 'regime' refiro-me a algo bem claro: a burrice económica do PS. Os socialistas, coitados, não fazem por mal. É mesmo burrice. Uma burrice pura, ingénua e quase inimputável. Eles acham mesmo que vamos sair do buraco fazendo obras públicas. O evangelho socialista assim o determina. O mundo, segundo esta crendice, começou quando o investimento público criou as obras públicas à sua imagem. Aliás, algures no Largo do Rato, deve estar escondido um velho papiro que reza assim: "No princípio, o investimento público disse 'faça-se luz', e a luz foi feita. Depois, o investimento público disse 'façam-se as construtoras civis', e as construtoras foram feitas. A seguir, alguém perguntou: 'mas quem paga isso tudo?'. Enquanto se queimava o herético perguntador, o investimento público disse 'faça-se a dívida pública, que deve ser consumida acima dos 100%'. E assim se fez o PS". Se procurarem bem, este papiro deve estar escondido na secretária de Sócrates. É o segredo que passa de secretário-geral em secretário-geral, tal como a maleta dos códigos dos mísseis americanos.
Caro leitor, fica assim a saber por que razão o PS olha para o Estado tal como a dona Fátima, a casta mãe da Maria, olhava para Deus. De forma piedosa, os socialistas acham que 'Política' é o mesmo que torrar dívida pública e espalhar betão pelo país. É por isso que eu não me importava de ver a Mota-Engil sair do país, tal como ameaçou o seu presidente há dias. Podem ir embora, sim senhor. Ide, meus amigos, ide. E não se esqueçam das tarjas.
Para os avós
Rentes de Carvalho escreveu o presente ideal para qualquer avó ou avô. Esse Olimpo natalício é um romance autobiográfico chamado "Ernestina" (Quetzal). Se os meus avós fossem vivos, este seria o presente que eu lhes daria este ano. Aos quatro. Se eles fossem vivos, compraria quatro exemplares de "Ernestina" (para que ninguém fizesse birra). Como eles não sabiam ler, teria de lhes ler o livro em voz alta. E faria isso com prazer. Porque este livro é a biografia dos meus avós. Este livro sou eu, no passado. "Ernestina" é a biografia de milhares e milhares de famílias portuguesas. Um livro terno, mas nunca lamechas. Um livro duro, mas que nunca corta a esperança. Um livro simples e obrigatório.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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0:01 Sexta-feira, 4 de Dez de 2009
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No Verão, o Expresso disse logo que Sócrates sabia que a PT estava a comprar a Media Capital. Ninguém desmentiu esta notícia. Assim, temos toda a legitimidade para fazer a pergunta indigesta: o primeiro-ministro (PM) mentiu ao país? Aliás, o omnisciente cata-vento do regime, o professor Marcelo, disse várias vezes que não acreditava que Sócrates não tinha conhecimento do negócio. Portanto, temos no poder alguém que é percepcionado como, vá, um Pinóquio aprumadinho. Mas o pior nem sequer é a - possível - mentira de Sócrates. O pior é mesmo a inércia da elite 'comentadeira'. Perante o - hipotético - nariz XXL de Sócrates, esta malta mediática encolhe mediaticamente os ombros.
Quando a inércia chega a este ponto, o problema já não está no PM. O problema está, isso sim, na cobardia da dita elite. Estamos a falar da gente que sovava Santana Lopes todos os dias (e Santana, ao pé de Sócrates, é um menino). Esta indignação selectiva tem uma explicação: bater em Santana não tinha custos; bater em Sócrates tem um preço alto. É por isso que ninguém quer ver o óbvio ululante: se mentiu, Sócrates não tem condições para continuar a ser PM.
E os factos que namoram a demissão de Sócrates acumulam-se. Aparece um todas as semanas. Num trabalho da "Sábado", ficámos a saber que empresas públicas retiraram publicidade de jornais que incomodavam Sócrates. No centro desta publicidade selectiva até está um banco - teoricamente - privado: o BCP, onde Armando Vara tinha o pelouro da publicidade, cortou 75% de publicidade no "Público" e 68% no "Sol" (um facto eloquente).
Depois, José António Saraiva afirmou que alguém próximo do PM tentou subornar o "Sol" no sentido da não-publicação de notícias sobre o Freeport; como não aceitou o suborno, o jornal sofreu uma retaliação económica liderada pelo BCP. Perante a gravidade destas acusações, o Ministério Público (MP), e não a ERC, tem de entrar em cena. Esta não é uma mera questão técnica de regulação dos media. Esta é uma questão política e potencialmente criminosa.
O MP só tem dois caminhos: ou prova que Saraiva é um 'ser' inimputável, ou descobre que Saraiva está mesmo a dizer a verdade. Mas, claro, o MP vai ficar quieto. E nós, mais uma vez, vamos ficar sem uma resposta para a pergunta que paira no ar: o nosso PM é um perigoso Berlusconi de esquerda, ou é uma pobre vítima de uma cabala cinematográfica saída da mente de Dan Brown?
Apesar de tudo, no meio deste pântano de impunidade e cobardia, há uma coisa que me dá prazer em doses tântricas: Sócrates já é o pior primeiro-ministro da democracia. Ninguém tem coragem para o demitir agora, mas Sócrates já foi demitido pela nossa memória colectiva.
O povo português associará sempre o nome de Sócrates a coisas pouco recomendáveis. Uma enorme e legítima desconfiança irá sempre pairar sobre o nome de Sócrates. E isso, meus amigos, dá-me um enorme prazer. Deus pode dormir, mas a história não.
O "B-A, BA"
Quando um ministro acusa magistrados de "espionagem", só tem duas saídas: ou tem o ás e a manilha de trunfo (isto é, prova o que diz) ou demite-se. Se não tiver a dignidade para se demitir, tem de ser demitido pelo PM.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009
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