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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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10:58 Sexta-feira, 5 de Fev de 2010
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A força da imagem: 'feira de vaidades' ou 'fogueira de competências'? Antes da táctica, o que faz um treinador estar na moda?
Leio uma entrevista com Paulo Sérgio, treinador do Guimarães, e quando lhe perguntam se é prejudicado por haver quem diga que não tem boa imagem, responde que "não dou muita importância a isso. Um bom casaco não faz um bom treinador, mas um bom treinador faz um casaco". Depois de alguns jogos e, principalmente, de vários bons resultados, é, de facto, assim. O maior exemplo é, claro, o sobretudo de Mourinho. Ficou famoso porque foi ele que o levou para o banco e não o treinador do Stoke. O mesmo casaco não é visto da mesma forma num treinador como noutro. Sempre se falou nos chamados "treinadores da moda". Na origem, antes de ganhar, essa entrada na moda (e nas preferências do mercado) resulta de um protótipo de imagem que, ciclicamente, se cria.
O boné de Pedroto já esteve na moda, o bigode farfalhudo de Artur Jorge também, tal como o chapéu da Macieira de Eriksson. As vitórias dão carisma. Mas, paralelamente, também existem mitos e fogueiras. Ora promovem treinadores ora destroem competências. Ou seja, não é, de facto, o casaco que faz o bom treinador, mas para os dirigentes existe uma pré-concepção da tal imagem de sucesso que condiciona a escolha. Por isso, a geração de pequenos 'novos Mourinhos' cresceu tanto após o sucesso do verdadeiro. O discurso assertivo, a autoconfiança quase arrogância, barba de três dias, sobrolho carregado. Só faltava... ganhar. E, em muitos casos, esse pormenor em falta raramente foi alcançado. Até a importância da imagem voltar ao seu verdadeiro local.
Poderá a imagem de Jesus esbracejando e mascando pastilha elástica ao mesmo tempo com a boca aberta tornar-se uma 'boa imagem' de marca para os novos treinadores da moda? Se ganhar, sim. Da mesma forma que, quando com o mesmo estilo ainda só esbracejava em clubes de segundo plano, se dizia não ter perfil (ou imagem) para ser treinador de um 'grande'. O que é isso?
Jesualdo permanece à margem de todos estes debates. Critica-se muito a sua postura 'esfíngica'. Diz-se que "não chega aos adeptos". Já ganhou três campeonatos mas a sua imagem continua sem cativar. Não se torna 'moda'. Como explicar? Não é fácil, até porque, vendo bem, o professor mudou muito nos últimos anos. Cortou o bigode do treinador português à moda antiga, actualizou o corte de cabelo, veste roupa de marca. Deixou até de fumar no banco. No plano do conhecimento futebolístico, nada disto faz sentido.
Afinal, que qualidades e características fazem, em teoria, um grande treinador? Os métodos de treino, a autoridade no balneário, o saber táctico, a astúcia em ler o jogo? Os livros ou a experiência dos relvados? Será uma mescla de tudo, com um pequeno (grande) pormenor no dia-a-dia da equipa: conseguir entrar na cabeça dos jogadores!
Trata-se, no fundo, de uma tese que defende estar sobretudo no 'invólucro' que reveste o discurso, o segredo do sucesso e da sedução. Mas nem todos podem ser D. Juan. Por vezes, sucede o treinador ter um conteúdo perfeito mas falhar nessa 'beleza exterior' com que 'vende' o projecto. O 'treinador da moda' tem as duas coisas. O curioso é que a primeira só se descobre depois de construída a segunda.
Tudo isto parece uma face oculta do jogo. Não é. Porque nela esconde-se o poder da comunicação (para jogadores, dirigentes, adeptos, imprensa). Mais do que um choque de conceitos, é um choque de personalidades. O mais cruel é que a imagem tanto pode ser uma 'feira de vaidades' como uma 'fogueira de competências'. A fronteira entre as duas é muito ténue. A diferença é feita por uma simples bola no poste ou dentro da baliza.
Passe+Remate
Um grande avançado vive da sua relação com o golo. Até chegar a essa última instância, porém, a bola passa por muitas outros atalhos dentro do relvado. A construção das jogadas tem como principais arquitectos os jogadores que melhor dominam o conceito de passe. Nesse ateliê futebolístico, os médios emergem, naturalmente, como os principais actores. A qualidade de passe numa equipa não pode, no entanto, ficar aprisionada a um sector. Os avançados no futebol moderno cada vez mais sentem a necessidade (para brilhar) de, além da simples relação com o golo, terem também uma relação afectiva com o jogo. É quando se confrontam com a exigência do passe, que chegam à essência do que se chama 'jogar bem'.
Cardozo é o tipo de jogador que imaginamos logo a rematar. É a imagem que ficou desde que chegou ao nosso futebol. Esta época, porém, com a equipa a jogar melhor, os seus registos, além das bolas metidas na rede (15), destacam outro dado: já fez 7 passes decisivos para golo! Na Luz, melhor só Di Maria, que rompe pela faixa e mete na área, com 10 passes 'mortais'.
Cardozo e Di Maria são distintos (ponta-de-lança e extremo) mas é exactamente este 'pormenor' do passe que, antes de serem simples 'avançados', faz deles 'jogadores' no sentido lato do termo. Em vez de verem o jogo quase em 'compartimentos estanques', têm dele uma leitura global (passe+remate).
Por isso, prefiro jogadores mais técnicos do que os físicos. Cardozo, apesar das aparências, é mais técnico do que físico. Porque esta avaliação não resulta só de ver o jogador sozinho no relvado. O segredo está na sua associação com a bola (jogo). O resto, são as características individuais que cada um tem.
Partir a bola
O bom médio é aquele que toca muitas vezes na bola mas detêm-na o menor tempo possível. Para perceber este conceito, tentem imaginar Aimar a jogar e pensem quais são os altos e baixos do seu jogo. O melhor sucede quando toca a bola e a solta no momento certo (passe). O pior sucede quando a quer conduzir excessivamente, perde tempo de passe e o melhor que consegue é sofrer ou 'cavar' uma falta. Pode parecer contraditório, porque é neste último caso que o artista tem mais tempo a bola consigo, só que o bom futebol tem outros desígnios. Ver jogadores capazes de 'unir' o jogo é o melhor sinal que uma equipa pode dar para se concluir estar no bom caminho para o golo.
Ruben Micael é o tipo de jogador que transmite essa boa sensação do 'jogar bem'. Bastaram curtos minutos no Estoril para voltar a perceber isso. Sabe dominar os excessos de condução de bola. Tem agressividade no espaço. Isto é, em vez de a canalizar para duelos com o adversário, direcciona-a para entrar decidido nos espaços vazios. E soltar a bola no momento certo. Depois, une passe e remate.
Unir o jogo
Parece a mesma coisa, mas existe diferença (e grande) entre o jogador que faz 'boas jogadas' e o jogador que 'joga bem'. O primeiro caso é quase como se estivesse no relvado para 'retalhar' o jogo. O segundo, é quando está nele para 'unir' o jogo. Hulk é um jogador que, mesmo nas suas cavalgadas explosivos, dá a sensação de jogar um jogo que só existe quando ele tem a bola. Depois, quando a jogada acaba e a bola vai para outros locais, já parece logo um jogo completamente diferente. Por isso, pode ser, sem dúvida, um grande avançado, mas até ser um grande jogador vai uma distância enorme. Falcão sabe dar os chamados 'toques burocráticos' de apoio ao colega que surge por perto, mas, de todos os avançados portistas, é Varela quem tem melhor entendimento conjunto da equação 'jogada+jogo'. Por isso, é ele que tem recebido mais elogios de ser quem está a jogar melhor.
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 27 de Jan de 2010
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Diálogo. No futebol não existe nenhuma 'pedra filosofal' táctica. Mudam os jogadores, muda-se a vontade da equipa...
0s dois baixinhos chegaram ao mesmo tempo. "Três anos, como passa o tempo...", diz Iniesta. "Tu antes eras o Andresito, agora chamam-te Don Andrés. Tens uma finta impressionante. Muitos ficam admirados de como melhoraste mas há três anos já eras o melhor", diz Xavi. "Sim, mas sabes como é ter confiança... Se vês que o treinador confia em ti, arriscas mais!", confirma Don Andrès. "Isso concordo. Repara, acho que neste tempo mudou mais a equipa que nós próprios", acrescenta Xavi. "Vês que não és assim tão importante individualmente e a equipa exige que sejas melhor cada dia que passa", conclui Iniesta.
Xavi e Iniesta, juntos, num encontro promovido pelo "El País". Acompanhando o diálogo, descobre-se muito do que o relvado esconde. As equipas, os jogadores e dúvidas existenciais. Ideias que podem tocar o nosso campeonato.
A transformação do Benfica, de Quique para Jesus, passa muito por esse novo entendimento táctico do que os jogadores podem dar à equipa. Como os conciliar em campo, respeitando os seus genes. David Luiz a mandar na defesa, Di María, o extremo rebelde, agora protegido pelas coberturas do trinco, Aimar no centro ofensivo do meio-campo, em vez de mascarado de segundo avançado, Cardozo na área mas apoiado por um avançado móvel. Três jogadores transformados pela táctica e pelas suas posições e interligação com os colegas. Agora todos olham para os três de forma diferente. Mas eles nunca foram assim tão diferentes. Aimar como médio foi um regresso à sua "casa táctica" natural. E, assim, pôde entrar um verdadeiro segundo avançado na equipa, Saviola.
"Evoluímos, claro, mas é o que te digo: tudo passa por ganhar. Mais nada. Agora olham para nós de outra maneira, porque ganhamos", diz Xavi. " Não duvides. Dá-te confiança no que fazes", acrescenta Iniesta. "Mais, muda a forma como olham para ti", recorda Xavi, quatro anos mais velho.
O argumento dos resultados é o único indiscutível no futebol. Se calhar, por isso, o FC Porto foi pouco discutido estas últimas épocas. O 4x3x3 parecia uma 'pedra filosofal' táctica. A equipa começou a perder pontos e agora todos olham para ela de forma diferente. Criar (ou recriar) um estilo é uma construção demorada. É a dificuldade de encontrar as peças certas para encaixarem nesse puzzle de bom futebol. Os treinadores têm tendência a desconfiar dos jogadores mais criativos para iniciar essa construção. Mais facilmente conciliam três médios recuperadores do que juntam dois médios mais criativos. O FC Porto dos 'três trincos' (Fernando-Meireles-Guarin) que jogou na Luz pode marcar a história deste campeonato. Mas ainda resiste Belluschi. E, agora, chega Ruben Micael.
"Digo-te outra vez, no meu caso é mais a confiança. Tu jogavas sempre, eu entrava de vez em quando. Agora já ninguém diz que não podemos jogar juntos", lembra Iniesta. "Sim, mas nós sempre soubemos que não éramos cromos repetidos!", sentencia Xavi com a autoridade que o êxito actual lhe dá.
O dilema de Jesualdo é descobrir agora como o encaixar na equipa. Mudar o sistema (adoptar o 4x4x2) pode ser a resposta para evitar o debate futebolístico mais absurdo: a discussão sobre o excesso de talento. Em ternos de jogadores, uma equipa são '11+3' (os titulares e suplentes). É uma ilusão, porém, concluir-se que os jogos se disputam com '14'. Sem descobrir o timing certo das suas entradas, a forma de olhar para a equipa muda logo outra vez.
"Sinto-me bem porque há ordem e mais do que nunca defendemos uma ideia de jogo. E, no balneário, muito ouvi dizer sobre mudarem líderes... Que líderes? A mim ninguém me disse o que tenho de fazer. Nunca existiu um líder. Fazemos o que manda o treinador!", diz Iniesta. "Queriam que fizéssemos uma reunião? Havia de ser uma confusão...", ironiza Xavi. E riem-se os dois...
Micael e o FC Porto
Olhando os 'onze' de cada candidato, o primeiro reforço que parece ser para jogar de imediato desembarcou no Dragão. Ruben Micael. É um médio com a chamada 'intensidade de jogo', isto é, sabe ocupar os diferentes espaços de jogo, recuando ou avançando. Não é um 8 nem um 10. Em vez de organizar, dá soluções construtivas (no passe e no remate) na fase de definição atrás dos avançados. Um médio completo.
Apesar deste cocktail de boas impressões, vindas das suas exibições na Madeira, é natural ter dúvidas se poderá fazer o mesmo num 'grande'. Ou melhor, se pode repetir o mesmo futebol num grau competitivo superior. Penso que sim. Porque detecta-se carácter no seu jogo e, tentando sair do relvado, até na forma como fala. Depois, porque tem um traço que distingue os grandes jogadores, tecnicamente ou mentalmente: joga sempre de cabeça levantada! Neste contexto, onde se poderá encaixar Ruben Micael no esquema do FC Porto de Jesualdo? Pensando no seu habitual 4x3x3 e no sentimento de vazio que permanece na era pós-Lucho, a tentação imediata é colocá-lo como interior-direito do vértice do meio-campo. É a opção que faz mais sentido.
Na Madeira, jogava noutro sistema (vértice 10 do 4x4x2, ou mais caído na ala, ou no centro de um 5x3x2). A sua cultura táctica permite pensar nele a jogar bem em diferentes sistemas, mas vendo o actual momento da equipa, a opção do 4x3x3 ameaça colocar-lhe, talvez, um peso táctico excessivo sobre as costas. Isto porque, em geral, no início, os jogadores sentem sobretudo o problema das equipas. Só depois é que começam a tentar resolvê-lo. Quase como um destino, um FC Porto desenhado em 4x4x2 ou 4x1x3x2 durante a maior parte do jogo faz cada vez mais sentido.
O novo Sporting
Após um período de ruptura, verdadeira revolução táctica, provocando um abalo nos hábitos, balneário e relvado, de um grupo talvez demasiado acomodado, o Sporting estabilizou o seu jogo. A tempestade, do banco para o balneário, entre o director desportivo e o ponta-de-lança, Sá Pinto e Liedson, foge à lógica do relvado. Falta saber porém, até onde pode alterar o estado emocional de um onze que em campo mostrava claros sinais de crescimento.
O losango é passado, o 4x2x3x1 não tem aplicação prática (faltam alas para dar profundidade), 4x3x3 é utopia sem extremos. Por fim, fica, preferencialmente numa espécie de 4x1x3x2 que é como uma solução de compromisso que mantém dois avançados na equipa (Liedson e o novo Saleiro) e, ao mesmo tempo, segura os grandes princípios do meio-campo. Solta mais Moutinho para a segunda linha, reinventa Veloso como falso ala-esquerdo que equilibra a equipa e firma Adrian a pivot. Com isto melhorou onde a equipa era mais vulnerável: a defender.
Muito do problema estava (e ainda está) no quarteto defensivo, mas nascia antes na pouca agressividade da transição defensiva. Está melhor nos dois aspectos. E nas bolas paradas. Marcando à zona em vez da marcação ao homem de Bento, passou a defender melhor.
A atacar tem mais dificuldade em criar novas soluções, mas a entrada de João Pereira, o lateral-direito atómico que faz todo o lanço direito e depois ataca muito bem, disfarça em muitos momentos do jogo essa lacuna de transição/construção ofensiva. Os resultados estão a acompanhar o melhor futebol. Conseguiu descobrir a sombra do FC Porto no terceiro lugar (está a seis pontos) e, com isso, a motivação da equipa ressurgiu apesar de se sentir que durante a maior parte do tempo dos 90 minutos joga como se caminhasse sobre arames. Sem rede.
O caminho das estrelas
É difícil imaginar hoje uma equipa a jogar melhor do que o Barcelona. Uma estética de jogo que começa pelo enorme respeito para com a bola. Um respeito que se expressa em campo pela técnica e pela qualidade de passe. Um futebol "circular" que apresenta a bola a todos os pedaços de relva dentro das quatro linhas. Inspirado pelos ensinamentos do maestro Cruyff, poeta holandês, Guardiola criou um estilo "rendilhado" de futebol, mas, ao mesmo tempo, objectivo, ganhador e com golos. Tem grandes craques, sublimados no pé esquerdo de Messi, mas o mérito supremo é elevar à categoria de estrelas jogadores que noutro projecto seriam "normais". São os casos de Xavi e Iniesta, os baixinhos que mandam a meio-campo.
É uma ideologia que contrasta com o projecto galáctico do Real Madrid. Cinco pontos de avanço à 18ª jornada não são definitivos, mas são já um sinal. Em Madrid, o Real busca construir outra forma de jogar. Kaká, Ronaldo ou Benzema não gostam tanto de circular a bola. Preferem antes "correr" directamente com ela para a baliza. Este Barcelona-Madrid é mais do que o duelo Messi-Ronaldo. É um verdadeiro choque de estilos.
Em Itália, o Inter, de Mourinho, é uma equipa que parece feita "à navalha", com demasiado músculo táctico a meio-campo, optando mais por bolas longas para a dupla Milito-Eto'o e procurando elevar a dimensão física do jogo. Só um jogador é capaz de, quando entra, transformar este estilo de jogo: o holandês Sjneider. Mete técnica e imaginação no jogo, transformando a fase de construção da equipa perto da área. Por isso, esta época, existe um Inter com Sjneider, e existe outro Inter, sem Sjneider. O primeiro é, claramente, mais sedutor. Será esse, em princípio, que irá desafiar, esta jornada, o Milan, de Ronaldinho, um jogador renascido, que revitalizou uma equipa onde é ainda Seedorf que manda no meio-campo. Seis pontos (o Milan tem um jogo a menos) separam-nos entre primeiro e segundo lugar, mas o Calcio continua demasiado agarrado às batalhas tácticas que aprisionam o talento.
Para encontrar emoções que à passagem de cada jogador deixam todos os cadernos de tácticas de pernas para o ar, o destino é Inglaterra. A melhor forma de entender esta frase é seguir o futebol de Rooney, em Manchester. O 11 de Ferguson continua a tentar reinventar-se sem Ronaldo. Não mudou de sistema, mas perdeu capacidade de desequilíbrio individual. Aberta a muitas influências vindas além-fronteiras, a Liga inglesa é, no entanto, um atraente confronto de estilos todas as semanas. O Arsenal, de Wenger, tem um ADN estilístico semelhante ao do Barcelona. Passe, toque, e a bola a andar alegre por todo o campo. Por isso, não admira que no leme deste belo futebol esteja um cérebro criativo vindo da Catalunha: Fabregas. O Chelsea, de Ancelotti, é a equipa mais táctica no sentido latino do termo. Com Drogba e Anelka sente-se que pode resolver o jogo a qualquer momento. Com Ballack e Lampard sente-se que o pode controlar sem pestanejar.
Viajar até Espanha, Itália e Inglaterra é como entrar numa diferente galáxia do futebol.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010
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10:00 Quarta-feira, 20 de Jan de 2010
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A liderança, por si só, não traz felicidade. Falta a alma. Os jogadores encontram a dificuldade que encontra a equipa e não vice-versa...
Uma equipa só agarrada à fria realidade dos resultados não pode ser verdadeiramente uma equipa. Pode até ser um modelo de sucesso mas falta-lhe mais qualquer coisa. Falta-lhe a alma. Terminou a primeira volta do campeonato. Quinze jogos com o mesmo líder. Mesmo assim, continuam a desconfiar dele. No fundo, quem olha de fora só vê os resultados. A liderança, por si só, não dá felicidade. Mas, basta ver um jogo seu para perceber que este líder é uma equipa que sorri em campo, na táctica e na técnica. O Braga é um intruso até agora quase 'acarinhado' por Benfica e FC Porto, os suspeitos do costume. Não o levam muito a sério porque são ainda incapazes de ver a sua alma. A pergunta, agora, é se irá aguentar a 'pressão' da aventura na segunda volta. Neste momento, dá a ideia que Domingos, sempre de pé no banco, tem pendurado no pescoço um fio com a chave para todos os problemas, mas a qualquer momento as portas vão ficar muito mais 'estreitas'. Será mesmo nos jogos contra os clássicos candidatos? Pode ser...
O actual FC Porto, aquele que vem hesitando e tropeçando desde o início da época, não é o melhor FC Porto que conhecemos. Ficou perdido em épocas passadas. Agarrado a melhores jogadores. Quando isto sucede, é comum dizer-se que a equipa 'está em construção'. É a melhor forma de iludir as razões para uma exibição mais fraca. Os treinadores refugiam-se muito nessa imagem. Jesualdo tem tocado nesse ponto. Na verdade, é uma explicação que 'mascara' as carências da equipa. O onze corre, sua, mas como que parece ter um problema 'eléctrico'. Ora se conecta, ora perde a ligação. Joga 'a espaços'. O maior problema está no meio-campo. Isto é, nas diversas ligações que nele se fazem (as transições). Saber construir com bola, saber reagir à sua perda. Sem nunca perder o equilíbrio a defender e a capacidade de desequilibrar a atacar. Chegar ao título jogando 'a espaços' é um projecto demasiado arriscado. Sem novos jogadores, só uma grande subida de forma de alguns (Fernando-Meireles-Rodríguez) poderá mudar o destino. Falta-lhe, ainda, o 'homem invisível', quem (como interior-direito do meio-campo) consiga que o jogador mais falado no final dos jogos não seja alguém que já foi embora há mais de meio ano.
Noutra perspectiva, outra pergunta corre no Dragão: onde poderá o Benfica perder pontos? A equipa de Jesus continua imperturbável. Está a interiorizar a 'rotina' de ganhar. O onze empolgante que atropelava adversários deu agora lugar a uma equipa de rosto mais 'humano'. Menos excitante, mais cirúrgico tacticamente. Percebeu onde estão as suas lacunas (ao mesmo tempo que também os adversários as detectavam) e aprendeu a defender-se delas. O meio-campo endureceu os processos defensivos. Pode entusiasmar menos, mas visto à 'lupa táctica', está mais 'equipa'. Nenhum campeonato se ganha em 'permanente velocidade'. O segredo está em saber manejar as mudanças de ritmo. Na classificação (diferenças pontuais) e na relva, onde o seu futebol se explica, a cada lance, através das diferentes conexões estabelecidas por Saviola, ora com o meio-campo, ora com o avançado mais fixo.
Braga, Benfica e FC Porto. Domingos, Jesus e Jesualdo. Cada qual com as suas virtudes e defeitos futebolísticos espelhados nas forças e fraquezas das suas equipas. Ao contrário do que parece, são os jogadores que se deparam (e sofrem) com as dificuldades que encontram nas equipas e nunca vice-versa. Por isso, saber ganhar os jogos mais pelas circunstâncias do que pela força do talento pode ser o segredo.
Problema 'canhoto'
Todas as equipas, quando se olham ao espelho, descobrem defeitos. É futebolisticamente humano. O desafio é, então, perceber a implicação desses 'pontos cinzentos' que turvam o seu melhor jogo e descobrir como os transformar (ou, pelo menos, disfarçar). O Benfica é a equipa que, esta época, tem jogado melhor durante a maior parte do tempo. A atacar e a defender. A pergunta que fará a si própria é onde (que posições) deve mexer e o que deve fazer (no jogo) para melhorar. Na capacidade de responder às questões mais difíceis está sempre a base do segredo que faz os campeões.
No onze de Jesus há, no plano do ideal da dinâmica táctica-total, uma posição que emerge como o 'maior problema': lateral-esquerdo. A contratação de Schaffer acabou por não ser mais do que resposta rápida (ou tentativa) à contratação de Pereira (o primeiro alvo 'encarnado') pelo FC Porto. Tentativa falhada. Com claras dificuldades defensivas, também revela pouca inteligência a atacar (centra de longe e custa-lhe entrar em tabelas). Colocar David Luiz nesse local é retirar do eixo um dos melhores centrais do futuro na Europa.
César Peixoto tem sido a solução mais equilibrada, mas, sem ser rápido, perde a posição defensiva facilmente perante extremos ou alas mais rápidos ou astutos a cair nas suas costas. É, nesse sentido, a aposta pessoal menos conseguida de Jesus na construção do seu onze. Não é um erro de casting, mas tornou-se, neste momento, um travão ao crescimento da equipa para a fase decisiva da época. Com o mercado aberto, esta seria a posição-chave para o Benfica buscar um reforço para o imediato. Depois disso, ver-se tacticamente ao espelho, em qualquer momento do jogo, seria sempre mais confortável.
Duelo da jornada
Domingos
Treinador
Sp. Braga
41 anos
o líder
Vilas-Boas
Treinador
Académica
32 anos
O desafiante
Vamos sair do relvado e procurar outra espécie de duelo. Dois treinadores, com percursos diferentes, mas com boas ideias de futebol como ponto de contacto. Diferentes os percursos. Ainda curto o de André Vilas-Boas. Procura fugir ao rótulo de "mini-Mourinho" mas, vendo o estilo e passado de fiel adjunto, a conexão é inevitável. Domingos já disse o que é o seu futebol, na União de Leiria e na Académica. Dois projectos com jogo tecnicamente perfumado e saber táctico. Defrontam-se nesta jornada, em Coimbra: Académica-Braga. Mais um teste ao líder.
Além deste duelo, existe o 'outro futuro'. Talvez seja excessivo (ou talvez não...) dizer já que poderá estar num desses dois bancos um futuro azul-e-branco. Partindo de pontos diferentes da carreira, ambos sabem que faz sentido essas cores estarem no seu horizonte. Mais tarde ou mais cedo.
O rato que muda
Ainda na passada semana escrevia sobre a origem do bom futebol. Ou melhor, sobre a posição em que ele começa numa equipa. Falei então no crescente protagonismo dos laterais em relação aos médios-centro. Mesmo assim, causa espanto ver como um simples defesa-lateral transforma tanto o jogo (ritmo e dinâmica defesa-ataque) de uma equipa em apenas dois jogos. Penso no efeito João Pereira no onze do Sporting. Porque é diferente dizer que o jogo (a saída de bola) começa num lateral do que dizer que este é a principal referência da equipa para, depois, perto da área adversária, assumir construção, desequilíbrios e último passe. Não sei se essa sensação nasce da velocidade com que joga, o que lhe permite chegar rapidamente a todos os lugares, mas ver como João Pereira pegou pela mão a equipa do Sporting, desde que nela entrou, diz muito de como ela estava órfã de referências.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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13:26 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010
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Existe um lugar ideal para começar a construir o bom futebol? O centro ou os flancos? O passado e o presente.
Os sistemas não se inventam, mas funcionam sempre do meio-campo para a frente em função das características dos jogadores. No seu aproveitamento racional e da dinâmica que sob o ponto de vista físico e táctico eles possam proporcionar, resulta a expressão adequada de um tipo de futebol. O nosso 4x4x2 valeu um 2º lugar e duas taças. Numa análise detalhada, o '4' do nosso meio-campo era um '1x2x1'. Era a figura geométrica do losango que ressaltava a todo o momento da dinâmica que esse quarteto impulsionava".
Eis um treinador explicando o seu futebol. Táctica, momento, losango, dinâmica. Terminologias modernas, dirão. Sem dúvida. Ditas, no seu tempo, por um homem avançado no... tempo. José Maria Pedroto. Era o "Mestre do boné" a explicar, em 1977, como jogava o seu Boavistão, equipa inolvidável.
Desde esse tempo, uma pergunta permanece: qual é a posição (e espaço) mais importante por onde uma equipa deve começar a jogar? O futebol mudou muito através dos tempos e, com isso, a resposta também sofreu evoluções. Pensemos no presente. Mas, mesmo hoje, a 'doutrina' divide-se.
O mais natural, ao imaginar o organizador clássico, é pensar no meio-campo e no médio-centro estilo nº 10. Os anos 70/80 terão sido o auge deste tipo de jogador (estilo Platini, que jogava quase de mãos nos bolsos). Ordenava a equipa, quase como uma placa-giratória da bola. Dava a ideia de que até poderia treinar sentado em cima de uma bola no centro do relvado, apenas imaginando as coordenadas ideais para fazer os passes longos certos. Já não é assim.
O tal organizador de jogo é hoje quem estiver na... posse da bola. Tanto pode ser o central, como o trinco ou o médio ofensivo. Mesmo assim, existem referências indispensáveis numa equipa para começar a pensar o 'jogar bem'. Pensar nas melhores equipas deste campeonato (os três grandes e o Braga) é um bom exercício para reflexão. Para isso, recordo a tese cruyffista que ouvi de Guardiola, muito antes de ser treinador do Barça: "O futebol começa nos extremos". Mas como - pensei -, se os extremos são uma espécie em extinção, se quase já nem existem no futebol actual? Fui percebendo, porém, que era preciso agilizar o conceito.
Assim, adaptem extremos ao espaço onde eles se movem: os flancos. Depois, porque ninguém começa a jogar logo em cima da área adversária, recuem no terreno e encontram os... laterais. Eles moram no espaço, por natureza, menos congestionado do relvado. A "zona de pressão" suprema está no corredor central. O espaço de transição mais aberto estará nos flancos. E quem joga desde trás nos flancos? Os defesas-laterais. Por isso, a importância destes jogadores (a sua posição) cresceu muito dentro de uma equipa. Em muitos casos, são eles que 'saem a jogar' enquanto o pivô (trinco moderno) serve prioritariamente para equilíbrios defensivos. Será uma boa forma de explicar o sucesso do Braga. Teve até agora os melhores laterais, João Pereira e Evaldo, a 'sair a jogar' (levar a bola) até ao meio-campo (entrando depois, mesmo, em combinações ofensivas). Agora pensem nos laterais dos três grandes: Maxi Pereira-Peixoto; Fucile-Pereira; Abel-Grimi. É difícil descobrir aqui uma grande referência para esse bem jogar.
É então que volto a recordar a explicação de Pedroto. Aquela sua dinâmica táctica de jogo tinha um momento decisivo de construção que era dada pelos laterais. Trindade e Taí, o carequinha. Havia, claro, o 'maestro' Alves, mas o princípio do jogar (o seu momento de origem) era outro. A partir dos flancos. E como jogava. Mesmo que, no papel e relvado, não existisse nenhum extremo. O bom futebol não vive de posições ou referências fixas. Vive de boas ideias e sábia utilização dos espaços. Hoje, como antes, como daqui a 50 anos.
25 anos: uma frase
Fez 25 anos que Pedroto partiu. Penso o que teria sido diferente no futebol português neste tempo se não tivesse partido tão cedo. Pedroto era um mestre da táctica, mas antes disso era mestre do estudo do 'comportamento humano'. A sua percepção do futebol era global.
Recordo, ainda miúdo, de o ouvir na Casa de Desporto no Porto. Em 1981. O nosso futebol vivia um terrível complexo de inferioridade em relação ao resto da Europa. Pedroto dizia que lhe faltavam "30 metros". Acusavam as suas equipas, como a selecção, de também serem responsáveis por isso. Não acho. Penso é que ele entendeu, desde cedo, o que era o "jogador português" no plano estilístico internacional e, para o bem e para o mal, moldou, ao tempo, a sua identidade. De contra-ataque, mas sempre com personalidade. Isso é que era importante. Hoje os tais complexos já parecem distantes, mas foi por isso que me recordei dessa noite de 81. Perguntaram-lhe se aquele então triste Portugal poderia evoluir ou se só com outro 'Eusébio'. Lembro-me de ficar incrédulo com a resposta: "Temos dos melhores jogadores do mundo. Também podemos ir a Mundiais e ganhar taças europeias. Com estes, sim, sem ficar à espera de Eusébios!", dizia veemente. A plateia perguntava: "Mas como? Com quem?". E Pedroto insistia: "Com o nosso estilo, a nossa forma de jogar. Não somos inferiores a ninguém!". Dizer isto quando não íamos a lado nenhum parecia heresia. Mas não era. Pedroto sabia o que era o nosso futebol. Forças e fraquezas. A ideia era manter a identidade mas libertá-la do complexo de inferioridade. Como fez no FC Porto à dimensão nacional. Resgatar o orgulho. Revolucionar mentalidades. Por isso, também na arte do conflito era mestre.
O 'coelho'e a equipa
A primeira volta chega ao fim. Olha-se para os 15 jogos passados e, na busca por jogadores que mais empolgaram, é impossível não destacar o renascimento do Benfica. Um central imperial, David Luiz, um meio-campo equilibrado (Javi Garcia-Ramires) e avançados complementares (Saviola-Cardozo). De Braga, o onze que abalou o poder instituído, dois laterais que fazem o campo todo. Evaldo e João Pereira, um 'rato atómico' em forma de lateral-direito. No meio-campo, uma revelação madeirense, Ruben Micael, e um velho caminhante que continua a jogar muito, Nuno Assis.
É 'estranho' encontrar poucos jogadores do FC Porto nesta reflexão. A máquina azul-e-branca tem sentido a falta de estrelas com luz própria. Emerge Bruno Alves , por terra e... ar, e, na caça ao golo, o melhor de Falcão.
Se, no entanto, tivesse de dizer um nome para jogador da primeira volta diria Saviola. Pelo que joga (corre, desmarca-se, passa e remata) e faz jogar (recua e liga com Aimar, avança e liga com Cardozo). Por isso, a diferença deste campeonato é simples: há um 'coelho' a mais!
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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13:15 Quarta-feira, 6 de Jan de 2010
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De Mourinho a Guardiola. A divisão do "mundo futebolístico" a partir de diferentes expressões, estilo e personalidade. Sagrado e profano.
A certo ponto de "Casino", há uma cena em que Robert de Niro deixa clara a sua personalidade: "Existem três formas de fazer as coisas: bem, mal ou... como eu as faço!" Pouco importa que a personagem não tivesse grandes escrúpulos. O que está em causa é perceber a chamada "terceira dimensão da vida" em que poucos entram. Pensemos, pois, em futebol.
A um treinador, como líder, exige-se que nos leve por caminhos que só ele conhece. Mourinho e Guardiola têm, no futebol, trajectos longos, desde locais distintos. Guardiola começou a apanha-bolas do Barça quando o 11 catalão ainda vivia da fúria. Depois, jogou muito e treinou a equipa B. O resto, é história. Mourinho surgiu como um mero tradutor de Robson e antes andara como adjunto na Amadora ou a dar aulas por Setúbal. Depois, estudou muito, mostrou o que podia ser em Leiria. O resto, também é história.
Hoje parecem viver em pólos opostos em termos de método e discurso futebolístico. Dentro e fora do campo. Guardiola seguiu os ensinamentos de Cruyff e fundou a sua própria "igreja futebolística". Os seus admiradores mais devotos vêem jogar o actual Barça com a bola girando por todo o campo nos pés de baixinhos (Xavi, Iniesta, Messi), ganhando títulos atrás de títulos e dizem que tudo aquilo é "guardiolismo" puro. A grande vitória da equipa é nunca deixar cair o estilo, mesmo quando bate o minuto 85 e o golo não aparece. Pep não desespera e de pé junto ao relvado ouve-se a sua voz: "Vamos, começamos outra vez!" E outra vez. Até ganhar.
Mourinho pisa terrenos mais "minados". Soube crescer em cada desafio que teve ou promoveu. Os chamados mind games não são mais do que o puxar do jogo para aquilo onde é forte: a arte do conflito. Cresce com os inimigos, reais ou imaginários. O perturbante, porém, é ver como as suas equipas endureceram o seu discurso (isto é, a forma de jogar). Ao contrário da obra de Guardiola, os projectos de Mourinho não têm qualquer hipótese de ganhar um concurso de beleza futebolística. O primado do músculo por cima do talento gera equipas que pisam forte, mas que têm dificuldade em falar "ao ouvido" da bola. A capacidade de sedução de Mourinho, que abria o guarda-chuva antes dos primeiros pingos começarem a cair, ainda permanece, mas, em Itália, perdeu aquela aura de estar a guiar-nos por caminhos que só ele conhecia. Como fez no Porto ou no Chelsea. A capacidade de reinvenção é o segredo para os grandes líderes (treinadores) manterem-se sempre no top.
Não sei se daqui a alguns anos, Guardiola, noutro casulo estilístico, também chegará a este "beco da personalidade". Hoje, os dois vivem, na transmissão de emoções, em pólos opostos. Mourinho joga "contra o mundo". Guardiola joga "empurrado pelo mundo". O Inter, criticado, joga de sobrolho carregado. Bolas mais divididas, músculo, pressão, arrombando defesas. O Barça, idolatrado, joga com um sorriso solto. Bolas que passeiam na relva, passe, desmarcação, hipnotizando defesas.
O fundamental, no longo caminho, é nunca trair um estilo, mesmo no dia em que, de repente, quando já sabíamos todas as respostas, a vida muda todas as perguntas. No futebol isso sucede muito. É então que não interessa fazer bem ou mal. Interessa, como a personagem de De Niro, fazer as coisas com voz própria. Estilo e personalidade. E, com ele, ganhar. Ou perder.
"cartoons"ao poder!
Não me lembro de o ver festejar um golo tirando a camisola. Astutas, as "pulgas" sabem bem que não é por causa da sua musculatura que conquistam atenções, fazem primeiras páginas ou seduzem olhares femininos. As suas armas são outras. No futebol e na vida, Messi é o exemplo perfeito.
O seu futebol saiu directamente da rua para os maiores estádios. Quando em miúdo tinha problemas ósseos que atrofiavam o seu crescimento, os seus pais duvidaram que pudesse sequer andar, quanto mais jogar futebol. Tudo mudou quando viu uma bola. Porque o futebol foge à lógica mais básica de todos os desportos onde ganha o mais alto, o mais forte ou o mais rápido. No futebol, ganha o mais inteligente, o mais "malandro". Porque não é um desporto. É um jogo. E, nesse campo de sonhos, uma "pulga" pode vencer Adónis.
Em Espanha, a partir dos 13 anos, nas escolinhas do Barça, ele foi moldando o seu destino: tornar-se um desenho animado em forma de jogador de futebol. É essa a essência de Messi. Um "gigante" de 1,69 metros!
Em cada arranque, cada finta ou cada remate, consegue-se ver quase uma parábola desta sua história de vida. Os seus olhares detectados num grande plano dão a ideia de que está fechado num mundo à parte. Sorri timidamente, o cabelo de "pibe" rebelde, as camisolas parecem ficar-lhe todas as grandes. Mas, de repente, parece atar a bola com uma corda à bota canhota.
A Bola de Ouro ou o prémio da FIFA para melhor do mundo são mais do que prémios dados a um futebolista. São, no fundo, prémios dados ao futebol, à sua verdadeira essência mágica que Messi, o craque "atleticamente impossível", personifica em cada jogada que entra, desafiando todas as leis físicas. Nada melhor do que ver um desenho animado chegar ao poder para ter esperança num futuro melhor.
Só no futebol isto é possível: Messi, é o triunfo dos cartoons!
2009 - o onze do ano
Procurar o melhor onze do ano é vasculhar em duas temporadas diferentes. O final de 2008/09 e o início de 2009/10. O FC Porto tetracampeão e o renascimento do Benfica. Imagens para 2009 que têm, no relvado, protagonistas de bom futebol. Alguns já rumaram a outras paragens, e a sua equipa (penso, claro, na máquina azul e branca) ressentiu-se disso. Apesar de já não estar no Dragão há meio ano, Lucho continua a ser dos jogadores mais falados quando um jogo do Porto acaba. Brilha até na ausência, porque percebe-se como tudo seria diferente com ele em campo, num sector onde o jogo se ordena, o meio-campo, e a equipa sofre agora para encontrar a dinâmica certa. Nesse espaço, Raul Meireles foi sempre o chamado herói discreto da época. Mesmo quando, na selecção, marcou, na Bósnia, o golo que garantiu a vitória e o apuramento para o Mundial, não ganhou o papel de protagonista. A equipa (e a selecção) sabe bem, porém, a sua importância táctica. No mesmo espaço, emergiu a revelação do ano, Ruben Micael, poeta madeirense do bom futebol, técnica fina, sempre de cabeça levantada, ainda no Nacional, à espera de dar o salto para um 'grande'.
Entre os postes, Eduardo ganhou a baliza da selecção, mas impressiona ver como Quim continua a sobreviver, na Luz, a todos os olhares desconfiados. Defende os remates dos avançados adversários e os dos próprios críticos, que todas as semanas falam que em breve vai jogar outro guarda-redes.
No centro da defesa, uma dupla muralha: David Luiz e Bruno Alves. Cada bola que atacam, para cortar ou sair a jogar, é uma afirmação de carácter. Intimidam avançados e dão personalidade à equipa. Nas laterais, ninguém jogou esta época tanto tempo como Evaldo, e sempre a um nível alto. Fucile cresce com as dificuldades, defende bem e quando ataca pensa como um ala puro.
No ataque, três homens que dificilmente poderiam jogar assim juntos, mas, como não pode existir debate mais absurdo do que aquele que coloca em causa o excesso de talento, eles têm de entrar os três no onze do ano: Liedson, Cardozo e Lisandro - três nomes que explicam como o golo é um bem de primeira necessidade para qualquer equipa com vocação atacante.
Bolsa de reforços
As suas exibições como ponta-de-lança do Brasil no Mundial Sub-20 revelaram que tanto pode jogar sozinho entre os centrais como com outro avançado ao lado, tendo assim mais hipóteses de se desmarcar, pois não sendo muito rápido custa-lhe sair das marcações mais apertadas. Tem instinto de golo e passada larga ao atacar a bola, mas não lhe vejo, como dizem, parecenças com Jardel. Apesar de poder ser útil em alguns jogos, Alan Kardec, na sua total dimensão, é sobretudo uma aposta para o futuro.
Costuma dizer-se que a melhor forma de fazer um plantel é garantir dois jogadores para cada posição. Pois bem, com Airton, o Benfica descobre o clone ideal de Javi Garcia. Airton é a sua 'fotocópia' brasileira. Uma 'âncora' à frente da defesa. Assegura os equilíbrios a defender, marca bem o espaço e sai para o corte na altura certa. Depois, tem processos simples na burocracia do chamado primeiro passe, quase sempre curto. Não é rápido de pernas, mas sim a pensar e a executar, sem tremer.
Este já todos conhecem. É o futebol em permanente alta voltagem, fazendo do flanco direito uma auto-estrada de duas vias: a ofensiva, quando sobe ao ataque, tabela, ganha espaços e cruza bem, e a defensiva, quando recupera, indo atrás do extremo, mordendo-lhe mesmo os calções se for preciso para o travar. Pequeno em estatura, tão provocador como lutador, cresce com os duelos individuais. A velocidade é a característica que faz a força do seu jogo. O carácter, a matéria que lhe dá corpo.
Quando surgiu nas selecções jovens francesas, campeão do mundo sub-17, era um avançado-centro puro que seduzia pela criatividade e remate. No Liverpool, com o tempo, ficou um jogador diferente. Fisicamente, também mudou. Ganhou mais peso e perdeu aquela agilidade inicial. Em Espanha (Huelva e At. Madrid) encostou-se muitas vezes ao flanco direito (em 4x4x2), quase como um ala. Ganhou mais consistência táctica, mas perdeu a fantasia inicial. Banalizou o seu jogo e, sem espaço em Inglaterra e em Espanha, ruma agora a Portugal. Vamos ver...
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta-feira, 30 de Dez de 2009
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Inverno O que verdadeiramente valem os quatro pontos de avanço do Benfica sobre o FC Porto? Apenas um momento ou um sinal do destino?
No ponto do mapa onde surge o Inverno, chuva, frio e vento, o futebol abre a sua porta competitiva mais traiçoeira. Esqueçam os oásis e as miragens. Chegou a hora da verdade. Onde nos jogos valem menos as especulações tácticas. Onde os jogadores deixam cair todas as máscaras. Sinceridade total. Também para os treinadores. Perante as palavras receio e coragem, eles não podem hesitar.
Seguindo estes indicadores, quatro pontos até podem ser "mentalmente" mais do que quatro pontos. Por isso, o exercício a fazer para perceber o momento actual das equipas deve superar essa simples constatação matemática.
Ainda existe muito caminho (muitos jogos) para percorrer. O importante é perceber como Jesus e Jesualdo podem conduzir cada equipa pelas trevas do Inverno até ao destino final. Pelo meio, um intruso também com quatro pontos de avanço. O Braga, de Domingos, o líder que ninguém ainda olha de frente.
No futebol, como na vida, demora tempo a perceber que um "desconhecido" (a chamada equipa sensação, futebolisticamente falando) está a falar a sério. Por isso, Benfica e FC Porto continuam a sentir-se (e a serem vistos) noutra dimensão na questão do título.
Primeiro ponto: este Benfica vale mesmo hoje mais quatro pontos do que o FC Porto. Claramente. Disse-o o jogo da Luz, tem-no dito o campeonato. Na origem da diferença, a construção da equipa. O treinador e o seu laboratório. Uma equipa é como um tubo de ensaio onde se vai metendo diferentes compostos químicos (leia-se estilo de jogadores) até formar uma fórmula eficaz (leia-se equipa e forma de jogar).
Por isso, faltaram os chamados titulares "indispensáveis" e o modelo de jogo (pressão alta, recuperação e saída rápida para o ataque) e o sistema (um 4x1x3x2 sempre altivo, mas sem qualquer pretensão de ser um losango) continuaram a funcionar. Com a invenção de Urreta a surgir numa ala. Com Saviola a surgir nos espaços da "casa vazia" de Aimar, o arquitecto ausente. Com Carlos Martins a lutar, descarregando as emoções na táctica. E ganhou. Naturalmente. Com um golo solitário, mas que nos caminhos dos 90 minutos marcou sempre uma distância maior.
Jesus à chuva. 90 minutos. Jesualdo no banco, escondendo-se dos pingos. 90 minutos, outra vez. São apenas duas imagens, claro, mas já se sabe como as imagens têm muita força. Não acho que valham por mil palavras, mas valem por alguma coisa. Isto é, podem dizer muita coisa.
Neste caso, disseram como o actual FC Porto vive longe, muito longe, da sua própria personalidade. A equipa estava a melhorar, sem dúvida, mas ninguém podia melhorar tanto em apenas uma, duas semanas. Não melhorou e o jogo da Luz mostrou a razão dos quatro pontos de diferença.
O 4x4x3 continua lá. É um bom princípio. A capacidade para o tornar em 4x4x2 é que é mais difícil. E isso, nos grandes jogos, é decisivo. Hulk vive o jogo como uma sucessão de aventuras individuais. Varela joga tão bem quando joga mesmo, no relvado, como quando fica no banco e todos imaginam o que seria com ele no jogo. É o pior sinal que uma equipa pode dar. Meireles não tem força para agarrar sozinho o meio-campo e Belluschi continua ser o o elo perdido que podia dar outra criatividade a toda esta cadeia futebolística.
O processo de crescimento da equipa passa pelo crescimento táctico colectivo, mas, neste momento, o maior drama para Jesualdo será ver as limitações em termos individuais existentes para dar essa "nova vida" ao jogo da equipa. Do outro lado, este jogo, permitiu ao mundo benfiquista (equipa, adeptos...) ultrapassar a "barreira psicológica" que, antes do jogo, parecia voltar a erguer-se em relação à muralha portista.
O campeonato, claro, ainda não acabou. Faltam muitos jogos. 16 "caixas" de 90 minutos para abrir e ver o que está lá dentro. Neste momento, porém, uma coisa é evidente: terá de estar algo de muito diferente para, falando da luta entre estes dois gigantes do nosso futebol, o destino final do campeonato ser diferente do que seria agora.
Escrevam "líder!"
Líder em tempo de chuva. João Pereira, Vandinho, Moisés, Hugo Viana, Alan. Futebolisticamente, porém, são filhos de um deus menor. O Sp. Braga continua primeiro. E já passaram 14 jornadas. Mesmo assim, a afirmação da candidatura ao título não pode ser feita pelo seu treinador (ou até presidente) em conferência de imprensa. Neste tipo de clubes (orçamentos, adeptos, jogadores, realidade que os rodeiam...) a única forma de responder é, a cada jogo, dentro do relvado. Até, por fim, formar-se o chamado "outro tipo de candidato". Aquele que não nasce antes do campeonato, mas cresce e afirma-se dentro dele. Como o Boavista (embora com outra realidade a suportá-lo) em 2001. Este Braga é muito diferente na correlação de forças que estabelece, dentro e... fora do campo, com os ditos candidatos oficiais.
Neste momento, a equipa tem a vantagem de se conhecer bem a si própria. Forças e fraquezas. Precisa de um nº 9 mais móvel para atacar melhor a zona de remate e de outro médio para entrar durante os jogos e reactivar os processos de construção criativa quando os espaços não aparecem. Terá capacidade para ir agora ao mercado desencantar dois jogadores destes? Entretanto, vive com a sua personalidade (4x2x3x1 e circulação de bola, com alas e a conexão Vandinho-Hugo Viana-Mossoró a encher o corredor central de uma área à outra).
Se lhe pedirem o que não tem, não encontrará o seu jogo e perderá o resultado. Domingos está a fazer o seu trabalho, que consiste em dar à equipa a forma correcta (táctica e técnica) de falar em campo. Por isso, depois de Sp. Braga, escrevam Líder.
O novo gladiador
Nunca existiu uma grande equipa sem que, para além dos artistas e dos operários, emergisse, por entre o 11, o chamado "jogador dos jogadores". Aquele que consegue uma relação especial com os adeptos, porque, no fundo, ele, em campo, joga como se fosse um deles.
No actual Benfica é David Luiz o novo "gladiador". Cada corte, carrinho, antecipação ou vez que sai com a bola, é, mais do que um gesto técnico, um estado de alma que agarra a bancada.
Cresceu a ideia de que estava a ultrapassar os limites da agressividade. Faltas a mais. Será? Penso que uma coisa é clara: os seus níveis de agressividade aumentaram incrivelmente. A confiança também. Por vezes, com "osso" a mais, a perna que se solta, mas não me parece futebolisticamente honesto colocar a essência do seu jogo nesse estilo. Este tem outras palavras para o definir e elas estão na personalidade, classe e autoridade. Traços imutáveis, com ou sem bola. É rápido e joga bem de cabeça. Ainda só tem 22 anos e já ninguém lhe dá ordens. Um "gladiador" para, no futuro, brilhar nas melhores "arenas de relva" da Europa.
Boxing Day, a lenda
Enquanto no resto da Europa a bola pára, em Inglaterra tudo está preparado para o período futebolístico mais intenso do ano. É o secular Boxing Day! O futebol de Natal. Duas jornadas em três dias, 26 a 28 de Dezembro! Uma tradição com raízes culturais e religiosas. A origem do nome nasce das caixas (box, em inglês) que, durante esta época, eram colocadas nas igrejas para recolher dinheiro para os pobres. Essas caixas eram abertas no dia de Natal e, apurada a colecta, esta era distribuída no dia seguinte, 26, o Boxing Day.
Várias teorias se formam acerca da sua evolução, mas só em finais do século XIX esse dia passou também a ser preenchido por eventos desportivos. Sem dinheiro para os desportos da elite (caça e equitação) as populações cativaram-se por um jogo que, embora vindo da universidade, já há muito que era visto nas feiras: o futebol. Existem registos de 1888 sobre jogos no Boxing Day, e até 1959 a Liga inglesa incluiu jogos no dia 25.
Em nenhuma outra data a alma inglesa está tão presente nos seus estádios. Uma tradição histórica, ou, como diria Lineker: "Oportunidade para sair de casa, farto de aturar sogras e conversas sem interesse, tomar umas cervejas com os amigos e ver futebol. O paraíso deve ser uma coisa assim!" Sem dúvida.
Futebol de salto alto
Pela quarta vez a brasileira Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo em futebol feminino. Confesso que, pedindo perdão às leitoras femininas, nunca descobri grande encanto em ver futebol praticado por mulheres. Será uma questão de sensibilidade estética corporal. Mas o problema é meu, de certeza. A única excepção terá sido num evento do Arsenal onde Gisele Bunchen surgiu ao lado de Henry e deu, em saltos altos, alguns pontapés numa bola. Mas as coisas podem mudar. Foi no dia em que descobri uma garota com estilo moleque (mas sempre com corpo de mulher) a tocar na bola com a mesma intimidade dos grandes craques masculinos. Fintas, remates, e ainda por cima ria-se e era esquerdina. A beleza futebolística era a Marta. Não percebo como Ronaldo ainda não lhe mandou um SMS.
Recordo quando, há anos, o Perugia quis contratar uma mulher, a sueca Prinz, os regulamentos proibiram. Então, achei lógico. Agora, já não seria assim. Porque se, como cantava James Brown, "isto é um mundo de homens mas não seria nada sem uma mulher ou uma rapariga", pois então o futebol também não. Para a Marta devia abrir-se uma excepção. E dar-lhe os melhores relvados. O auge do sexy football, de chuteiras ou saltos altos.
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 23 de Dez de 2009
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Jogo. No papel, são apenas três pontos. Na mente, porém, não é bem assim. Estes são os chamados três pontos "psicológicos". Que podem virar a época
Cada qual tem o seu encanto. Aimar, Hulk, Cardozo, Falcão. Eles podem ser os relâmpagos num jogo preparado em papel quadriculado por Jesus e Jesualdo. Num clássico, 90 minutos são muito longos. Mais do que num simples jogo. Porque são mais do que três pontos normais. Estes são os chamados "pontos psicológicos". Aqueles que definem poder, confiança e crença. Palavras e valores futebolísticos que entram na equipa que os souber ganhar. São pontos que, no futuro, garantem mais poder nos ditos jogos "normais". Os tais que valem "só" três pontos. Como eram os de Olhão, onde o Benfica jogou com a cabeça em "projecção acelerada" uma semana, com o subconsciente no clássico.
Antes do jogo, para o treinador, cada dúvida é um "adamastor" em forma de jogador e sua posição em campo. A táctica é um desenho. O Benfica em 4x1x3x2, o FC Porto em 4x3x3. Será o mais provável. Mas o FC Porto pode surpreender e surgir, como na época passada, num traiçoeiro 4x1x4x1. Tem jogadores para isso. E lançar Hulk desde o corredor central.
É mais difícil Jesus mexer. Sem Di Maria e Coentrão perde os relâmpagos das faixas que jogam "um-para-um" (isto é, encaram o defesa, fintam-no e vão embora). A lesão de Ramires e a interrogação sobre Aimar. Ele é o cérebro criativo. Mas, no jogo, a cada segundo, pode acontecer qualquer coisa. E tudo muda.
Um jogo destes tem muitas "portas secretas" e nem sempre são os melhores jogadores que as abrem. Os seus protagonistas favoritos são, muitas vezes, os chamados "operários". Discreto, mas com um tiro que sai como se tivesse um silenciador na ponta da arma (chuteira), Guarin segue os ponteiros do relógio táctico e está mais atento a ver o espaço livre à sua frente. No outro lado, a "trave-mestra" do edifício encarnado, Javi Garcia. É um "farol" permanente. Com o seu futebol curto, linear, dá segurança sem necessitar de gestos excessivos. O importante, depois, é a sequência da jogada à sua frente. O último instante da organização ofensiva tem sempre a presença de um "coelho", Saviola, mas a melhor emboscada pode estar no lado contrário, nas tatuagens de um médio que faz do jogo "corte e costura". É o estilo de Raul Meireles. O esforço que coloca no jogo parece secundarizar o talento. Mera ilusão. Ele nunca perde o seu guião táctico.
Perto da área, ou dentro dela, Cardozo parece estático, movimentos curtos, até que a bola se aproxima. No lado oposto, junto da outra área, Hulk lembra uma "avalancha" perto de eclodir. Controla a bola e arranca. Um homem sozinho contra o "mundo". A seu lado, os outros jogadores parecem feitos de "cartão". Olham para ele e nem reclamam mesmo quando, com espaço fechado e outra opção ao lado, não faz o passe e deixa a jogada perder-se. Nisso, Cardozo tem outra sensibilidade. Vê-se, até, nos grandes planos. Olhos em baixo, e, na próxima jogada, passa logo a bola. Entre os dois, no discurso e no método, está Falcão. O tipo de nº 9 que olha de lado toda a gente, defesas e colegas. Levanta voo na hora certa, sabe recuar para dar um toque burocrático (mas indispensável) na bola e logo depois voltar para o seu lugar na área.
Mas o campeonato não acaba na Luz. Depois deste jogo, ainda falta muita vida. Na mente, porém, ficarão as suas "cicatrizes". Três pontos "psicológicos" para carregar até ao fim da vida (campeonato). A "porta secreta" decisiva do título não estará neste clássico, mas será impossível de ser descoberta sem conseguir passar por ele com os chamados "olhos de póquer", a suprema capacidade de disfarçar emoções. E ganhar, naturalmente.
A melhor defesa
Em busca do "póquer" perfeito, para Jesus e Jesualdo cada jogador é como uma "carta". Quem terá, na relva, o "Ás" que pode decidir o jogo? Aimar, Hulk, Cardozo, Falcão, Saviola, Varela...
É inevitável, neste exercício de busca pelo jogador decisivo, pensar em avançados, no remate para o golo.
Mas a chave (o "Ás") pode estar no local oposto. Na frente desse caça-golos. É o "mundo privado" dos guarda-redes.
No clássico, Quim e Helton, os "eremitas" das duas balizas. Muito diferentes. No estilo e no gesto. Helton é samba sorridente. Para o bem e para o mal. Cada bola convida a um voo. Mas quando ela está longe, parece que lhe falta o violão.
Quim fez toda a carreira na Luz em contra-mão. Ainda hoje se diz que a qualquer momento vai mudar o titular. Insensível, mesmo sem aquela pinta galã de guarda-redes (meio entroncado, camisola por fora dos calções, cabelo desgrenhado) vai entrando, jogo após jogo, com íman nas luvas e defende, defende.
E, para este clássico, fica uma aposta: ganha a equipa na qual o guarda-redes fizer a grande defesa do jogo. Será esse o "Ás"?
Nas alas, os loucos
Sem Di Maria e Coentrão (ou Ramires) pode ser Carlos Martins o substituto de um desses jogadores? Poder, pode. Mas não é a mesma coisa. A frase não é um spot, é uma constatação futebolística. Carlos Martins é capaz, sem dúvida, de fazer coisas fantásticas no jogo, mas na maior parte dele, pela instabilidade emocional e táctica com que vive (joga), passa a maior parte do tempo à margem do funcionamento colectivo. Um estado de espírito que ultrapassa a táctica. Colocado numa faixa, em vez do centro (a casa dos cérebros), pode funcionar melhor. Isto é, o seu estilo pode encontrar melhor espaço. Porque é nas alas que, historicamente, jogam os jogadores mais loucos, no bom sentido futebolístico do termo. Carlos Martins não é um ala, mas pensa emocionalmente como um. Por isso, acho que o seu melhor lugar é lá. Depois, com o jogo, ele move-se!
Os bons amigos
Era Vinicius de Morais quem dizia: "Os amigos não se fazem. Reconhecem-se!" Filosoficamente, não sei se será bem assim. No futebol (ou melhor, numa equipa de futebol) não tenho dúvidas. É mesmo assim. Sempre foi. É uma questão de cumplicidade. Entender os espaços.
Pensemos no clássico. No Benfica há um jogador essencial para estabelecer essas relações no processo ofensivo da equipa. Saviola. É, no papel, o segundo avançado do 4x1x3x2. Nos movimentos, ele tem a geometria perfeita do avanço e do recuo. Quando recua, conecta com Aimar. Quando avança, conecta com Cardozo. Nessas manobras alternativas, faz tabelas e inventa espaços por entre adversários, daí dizer-se ser exímio a jogar entre linhas, sobretudo quando recua e fica entre os centrais e o médio mais defensivo adversário, um espaço oco que desequilibra as marcações.
No FC Porto, existem dois jogadores que, nos últimos jogos, têm demonstrado maior vocação para "fazer amigos". Um deles é Fucile. Faz todo o corredor direito. Vai até ao ataque "falando" (trocando a bola ou dando indicações de movimentação) com o médio mais interior desse lado ou, mais à frente, com o ala-extremo respectivo. O outro, é Varela. Não será um grande craque, mas é hoje, talvez, o jogador que melhor entende a equipa, isto é, que melhor entende e colabora com o resto dos jogadores que se movem perto dele. No flanco, como extremo, ou mais por dentro, como avançado solto, procura espaços através de tabelas, fazendo assim todo o ataque jogar em conjunto.
As grandes jogadas individuais até podem, por vezes, decidir um jogo, mas os campeonatos, esses, decidem-se com as relações colectivas que se estabelecem dentro de uma equipa.
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 16 de Dez de 2009
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Avançados. O síndroma de Liedson viajando por dentro da cabeça de um ponta-de-lança. Histórias onde também entram Cardozo e Falcão.
Dentro do relvado, vive quase como um ser especial. É para quem todos olham, até os espiões da bancada, quando o tempo passa e o golo não aparece. São, então, 'olhares que matam'. Desconfiados, no mínimo.
Em todos os jogos, o controlo colectivo complementa-se, a cada lance, com o instinto individual. Por isso, muitas vezes, quando o ponta-de-lança, o tal ser especial, marca o golo libertador, os seus festejos têm quase um ar de reivindicação. Como se resgatasse o seu lugar na ordem de valores em campo.
A relação afectiva entre o ponta-de-lança e o golo é dos melhores romances que se pode ver num jogo de futebol. É, porém, mais do que uma questão de pura inspiração. O futebol é cada vez mais um jogo de movimentos. Acredito, porém, que até o instinto, a intuição que leva a dizer 'adivinhou onde a bola ia cair', pode ser um trabalho com traços científicos. Para isso, está o treino. O ateliê da intuição táctica.
Desde sempre, os defesas-centrais não costumam ser pessoas com aparência de quem se possa ficar amigo facilmente. O ponta-de-lança chega perto deles e sente-os logo de sobrolho carregado, dentes cerrados, a respirar-lhes na nuca. Por esta simples descrição, puramente sociológica, é bom nestas alturas um homem não se sentir sozinho. Deseja, claro, uma boa companhia. Alguém com quem falar (com ou sem bola) e planear os tais movimentos que enganem a incómoda vigilância.
Há pontas-de-lança que vivem (movem-se) melhor sozinhos nesse mundo. Há outros que não. Nem é uma questão de medo. É uma questão de estilo e tipo de movimentos. O normal, porém, é todos eles terem apoio. Ele pode é ter diferentes formas de existir (ou chegar). Ou tem um companheiro fixo ou ele aparece quando é necessário.
Liedson, sempre foi um exemplo de quem não pode ou não deve (nem gosta) jogar sozinho. Por isso aparecia o 4x4x2, e a tal dupla de avançados. Agora que lhe apareceu um sistema onde ele surge, de início, solitário (4x2x3x1) disse que não se sentia bem e se calhar até era melhor jogar outro companheiro. É a tal questão dos movimentos.
Sem outro jogador próximo, os tais centrais duros só o vêem a ele, marcam-no em cima e tiram-lhe a amplitude de espaços para se mover. Antes, em 4x4x2, Liedson caía muitas vezes na faixa (tão longe da área), arrastava defesas e depois regressava (de novo perto da área), baralhando marcações. E fazia golos assim. Agora é diferente. Muda o sistema, mudam-se as vontades.
Veja-se, noutro ponto, a dupla do Benfica e como antes da época, com Cardozo (pelas suas características) fixo na área, se falava da necessidade de ter por perto outro avançado, diferente, mais móvel, que fugisse mais da área, arrastasse defesas. E surgisse depois outra vez por lá. É o que faz Saviola. E assim a dupla funciona. Eis, outra vez, o tal 'jogo de movimentos' interligados. Era por isso que Menotti dizia que, no campo, uma boa equipa é um conjunto de 'pequenas sociedades'.
No FC Porto, Falcão, em 4x3x3, parece jogar sozinho entre os centrais. Mas é mesmo apenas 'parece'. Porque, no jogo (nos seus movimentos) Hulk aproxima-se dele, Varela ou Rodriguez também. Não vivem é sempre a seu lado, nem ele quer ou pede. Porque tem um estilo diferente (de Liedson ou Cardozo). Joga em espaços mais curtos, faz tabelas, move-se rápido, mas, sem sair muito da sua zona, respira bem no 'aquário' da área.
O problema de Liedson é que ele não nasceu para viver sozinho, fixo dentro da área. Precisa de companhia e espaço para mover-se, viver (jogar) bem.
Não é uma questão do sistema. É uma questão de afinar movimentos, os seus e com os dos jogadores em seu redor, sobretudo os que vêm das faixas ou desde trás. Demora tempo. Porque no futebol não existe 'amor à primeira vista'. Enquanto não nasce uma nova relação, o leve solitário joga como quem mói um sentimento. Esperando companhia.
Mourinho: a 'sombra'
Antes do jogo, no ar, sentia-se a ameaça do "sorriso do diabo". Itália não gosta muito de estrelas tácticas intrusas vindas de outros mundos. É uma questão de cultura. Ou de 'trincheira' cultural. Mourinho abala as consciências do Calcio. Cada declaração sua é um desafio ao statu estabelecido. A equipa não tem qualquer hipótese de ganhar um concurso de beleza, mas, no campo, vence com tanta naturalidade que deixa de ser notícia. Por isso, a ameaça de sair da Champions despertou os instintos mais primários. Chegava o Rubin Kazan. E o jogo foi duro. O semblante fechado de Mourinho, de pé no banco, aguentou o impacto. Até que surgiu Balotelli, um jogador que, mais do que um caso de treino na relva, é um caso para um divã futebolístico. Joga entre o inferno e o paraíso. Surgiu com um remate-bomba que levava vida própria. Golo! 2-0 e o Inter segue em frente. Já não é notícia. Mourinho e o seu rude onze continua na Europa. Agora ele próprio com o "sorriso do diabo". Como o bom e velho histórico Calcio.
O coelho e a cartola
Saiu de Madrid sem ter encontrado o seu espaço. O que seria, afinal, um simples coelho (ainda por cima baixinho e argentino) num mundo tão galáctico de jogadores pop-stars? No campo, até podia ser muito, mas o Real Madrid tem hoje uma lógica que ultrapassa muito essa simples coisa dos 90 minutos. E o coelho foi embora. Até chegar a Lisboa. Outro mundo. Na relva da Luz, encontrou um habitat ideal. Fez amizade com uma girafa paraguaia e renasceu para o jogo. Nesta história, o poético chapéu que, sob chuva até pareceu mais bonito, fez ao guarda-redes da Académica, levando a bola mansamente até ao fundo das redes, é um conto de futebol fantástico. Saviola tem, dentro de si, o futebol mais puro. O que saiu da rua (os potreros de terra como lhe chamam os argentinos) para o relvado, sem perder os seus genes. Não é um ADN galáctico. É outra casta. O ADN do futebol de rua. Uma pop-star para seduzir a miúda da casa ao lado e, logo depois, com dentes de coelho, resolver jogos de futebol.
No céu da Europa
Há imagens que falam. Quando, na noite gelada de Madrid, Bruno Alves, logo no início, subiu às alturas e, por instantes, pareceu ficar mesmo parado lá em cima, cabeceando com força e precisão, enquanto todo o resto do mundo (entenda-se defesas espanhóis) ficava em terra, o onze portista sentiu que estava a passar para outra dimensão futebolística. É o chamado "céu da Europa", a elite da Champions. O jogo tornou-se num passeio. O Atlético de Madrid de Quique é hoje um onze fantasmagórico.
O FC Porto, diz-se, "está a crescer". O estranho será ver alguém crescer tanto em apenas uma semana. Ainda há pouco tempo eram só problemas. Agora, dois jogos, duas vitórias, e descobre-se o caminho. Não é assim tão simples.
Factores para a reabilitação: a entrada de um lateral que sabe subir e permite ao extremo desse lado jogar mais por dentro (fazer as tais diagonais) e não obriga o médio desse lado, por definição interior, a sair tanto da sua posição para ir até ao flanco. O lateral que entrou (regressou) foi Fucile. O homem da ala (mascarado de extremo) tanto pode ser Varela como Hulk. O médio interior tanto pode ser Belluschi como Guarin, Valeri ou até Meireles, quando passa para esse lado. Jesualdo sabe que, assim, a equipa pode voltar a poder variar de sistema (entre o 4x3x3 e o 4x4x2) sem ser obrigado a trocar de jogadores.
Fucile e Bruno Alves são muito diferentes. Na altura e no estilo. Mas se o central fez um golo perto do céu, o que o uruguaio raçudo trouxe ao jogo foi a chave que reabriu os novos horizontes tácticos à equipa. É a importância de Fucile. Na terra nacional (em Guimarães), como no céu da Europa (em Madrid), o FC Porto virou uma página decisiva da época. Tem tudo para, a partir de agora, escrever histórias (exibições) mais interessantes.
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 9 de Dez de 2009
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Sistemas. A nova táctica do Sporting de Carvalhal, as dúvidas que estarão na cabeça de Jesualdo e o dilema que, na Luz, se aproxima de Jesus.
Cada equipa tem a sua forma de jogar. A chamada filosofia de jogo. É ela que lhe dá a identidade que as distingue das outras. Cada treinador tem a sua. No meio deste conceito está o sistema ou a chamada estrutura que traduz a colocação dos jogadores em campo quando o jogo vai começar: 4x4x2, 4x3x3, 4x2x3x1, etc. Depois, surge a estratégia, como ganhar cada jogo.
Adoptando um sistema, a equipa aprende então a caminhar (jogar) a partir dele. Os jogadores criam hábitos. A equipa rotinas, os chamados princípios de jogo (conjunto de movimentos que dizem o que o jogador deve fazer em diferentes situações do jogo). O que pode, então, levar um treinador, com a época já avançada, a mudar o seu sistema táctico preferencial?
A resposta pode ter diferentes origens e nascer de diferentes locais. O treinador que entra de novo na equipa (caso de Carvalhal, no Sporting), o treinador que vê a ideia inicial não resultar (será o que se está a passar na cabeça de Jesualdo, no FC Porto), ou o treinador que embora tudo ainda esteja bem, sente que tem de encontrar alternativas pois os adversários já começam a conhecer o seu jogo. Este será o próximo dilema de Jesus, no Benfica).
Cada qual tem o seu processo. Mais complexo o de Carvalhal, porque ao mudar o sistema preferencial (de 4x4x2 losango para 4x2x3x1), muda a posição de quase todos os jogadores (médios e avançados) e a forma como se relacionam entre si. É este o ponto mais complicado, pois o sistema, por si só, é um mero desenho que não tem vida própria. Desde logo, porque ninguém joga em 4x2x3x1. Joga-se é a partir de 4x2x3x1. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente.
Neste sentido, o que Carvalhal consegue neste momento é apenas uma transformação no jogo do Sporting que muitos jogadores, como Liedson, até estranham. Outra coisa, o que a equipa verdadeiramente necessita, é de uma evolução na forma de jogar e, para isso, não é necessário mudar o sistema, apenas os tais princípios.
Mudar as duas coisas, simultaneamente, é o grande desafio (ideal mas para uma fase de pré-época) que Carvalhal resolveu assumir. A razão? Ele sente que tem apenas seis meses (meia época) para mostrar o que vale como treinador. Por isso, a necessidade de fazer uma revolução todos os dias, quando o ideal (para si, para a equipa, para os jogadores, para o clube) era uma evolução sustentada, construída com os degraus certos.
Um simples golo marcado no último minuto, como o de Grimi ao Heerenveen salvando a Europa, tem, assim, o maior perigo das ilusões futebolísticas. Uma boa equipa deve saber jogar em diferentes sistemas, mas a melhor é aquela que sentir menos vezes necessidade de mudar.
O ideal é mesmo conseguir mudar em pleno jogo, através do simples movimento dos jogadores, como fazia o FC Porto a época passada. Partia do 4x3x3, depois o ala-esquerdo Rodriguez recuava, o outro extremo, Hulk flectia, e era um 4x4x2. Agora, perdeu essa capacidade.
Para mudar a forma de jogar Jesualdo tem de mudar jogadores, o que na prática, se traduz em mudar o sistema táctico em que começa a jogar. Por isso, os próximos tempos podem tacticamente revelar o onze portista num sistema diferente.
Tudo isto pode parecer abstracto, mas o treinador sabe que sem essa capacidade de perceber e mudar a realidade, nenhuma equipa consegue evoluir. Apenas conseguirá, no máximo, transformar-se. É a força das chamadas "máscaras" tácticas.
A partir do guardião
O grande remate de Miguel Veloso, o voo, fantástico, de Quim, de um local onde parecia impossível chegar para desviar a bola das redes. No dérbi, a maior oportunidade foi do Benfica (Di Maria com tempo para tudo...), mas o melhor remate foi do Sporting... Não é a mesma coisa. Entre o remate que ficou perto do golo e a melhor oportunidade para fazer golo, existe a diferença que faz o jogo colectivo da equipa até colocar a bola perto da baliza. É então que surge o guarda-redes. Na Luz, Quim tem feito uma carreira "contra a corrente". Sempre com olhares desconfiados.
Não faz sentido. Porque as suas defesas "impossíveis" falam por ele. Será uma questão de imagem. Não é, de facto, o protótipo do guarda-redes elegante. Cabelo desgrenhado, camisola que parece grande... Não dá a sensação de 'encher' a baliza. Mas 'enche'. Vê-se quando a bola lhe chega perto. A imagem é uma ilusão estética. Basta tirar bem as medidas. Por isso, para ele ver hoje a selecção como uma miragem, é apenas mais uma página numa carreira feita a combater avançados e... fantasmas.
Jogando a correr...
Mais do que o estilo individual, quase brincando com o jogo de cada vez que pega na bola, parecendo feito de borracha, Targino é hoje, em Guimarães, o melhor exemplo de como a velocidade pode ser um traço capaz de, por si só, mudar o curso de um jogo. Olhando para ele, pensa-se primeiro na pura velocidade pernas. Falta, depois, a velocidade (com precisão) de execução. Saber parar no momento certo e passar, cruzar ou rematar. Quando o consegue, faz um passe mortífero (como em Olhão, no último jogo).
Este estilo de jogador veloz também existe noutras equipas dos nossos relvados. Cada qual como o seu estilo, qualidades e, sobretudo... defeitos. Sougou (Académica), Matheus (Braga), Luís Carlos (Setúbal), Di Maria (Benfica) e, claro, Hulk (FC Porto). Pensamos neles, pensamos em velocidade. Em Di Maria, pensamos também no drible um-para-um. Em Hulk, liga-se o poder físico. Em Matheus, o golo, agora que Domingos também o mete no centro, um facto estranho, porque, em geral, este tipo de jogador rápido joga num flanco. Nem precisa para isso de ser extremo de origem. Em geral, eles são vistos para sistemas de contra-ataque. Não é bem assim. Porque é antes de tudo uma questão de ter espaços para correr, e esse maior latifúndio de relva tende a surgir mais no flanco. O corredor central é sempre mais compacto.
Neste mundo de velocidade, Targino é hoje um jogador especial, renascido após algumas épocas meio perdido. Ainda precisa meter-lhe a tal precisão. Está nesse pequeno (grande) salto de técnica, a chamada táctica individual, a diferença entre uma carreira engraçada ou uma grande carreira, para daqui a alguns anos, quando já tiver deixado de jogar, ainda falarmos dele...
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009
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Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
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0:01 Quarta-feira, 2 de Dez de 2009
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Pode-se pensar no Benfica sem pensar no Sporting ou no Sporting sem lembrar o Benfica? Da táctica ao jogador é um superclássico porque...
Nos caminhos da vida futebolística existe a tentação dos seus principais intérpretes, treinadores e jogadores, dizerem que "o futebol é o momento". Faz sentido. Todos vivem numa montanha-russa que os faz ora heróis ora vilões, dependentes de uma bola bater no poste ou decidir ir para dentro. E todos sabem como a vontade da bola é caprichosa e insondável.
A chegada de um treinador novo é um momento em que tudo parece mudar. Carvalhal entra no Sporting quando ainda se ouve, nas trevas, a voz do seu antecessor, Paulo Bento. Quatro anos, um losango como herança e quatro segundos-lugares festejados sobretudo porque, como disse Bento, foi o Benfica que ficou atrás. É a forma perfeita de perceber como este duelo secular é mais do que clássico. Como diria um pensador de outros temas: "Eles são mais do que inimigos. São irmãos!".
Carvalhal entra com a intenção de causar uma boa primeira impressão. Pelo discurso, ninguém fica aos saltos na cadeira. A segunda opção, a mais importante, é 'falar' através do jogo da equipa. Para isso, é importante uma boa primeira impressão táctica. O início do jogo com os Pescadores da Costa da Caparica foi perturbante. A nova táctica, 4x2x3x1, e os jogadores hesitantes onde pisar para ver se estavam nos sítios certos. 0-1. Tudo voltaria depois ao 'normal'. Com tanto entusiasmo o onze da Costa não soube dosear o esforço e perdeu clarividência. 4-1. Uff...
Moral da história: não é fácil destruir um losango tão cimentado. Uma 'estrutura de pedra' que mora na cabeça dos jogadores quase como um dogma. O segredo passa então por, aos poucos, dar-lhes outros hábitos, outras formas de, em campo, se moverem. Chamam-se "princípios de jogo". Claro que isso é mais fácil mudando o sistema, mas, entrando a meio da época, ao treinador falta tempo para criar uma nova filosofia de jogo, algo que se começa a desenhar desde a pré-época.
O ideal é uma equipa ter sempre mais do que um sistema em que possa jogar. Manter o losango como opção e acrescentar outras ideias será o melhor caminho. Durante o jogo, recuar mais Moutinho, para ser ele a sair mais rápido com a bola desde trás. Adiantar mais Vukcevic para ser quase um segundo avançado junto de Liedson. E, assim, variar o 4x4x2 para 4x2x3x1 e, depois, de novo para 4x4x2. De fora destas notas tácticos estará o 4x3x3 mais puro, porque não existem extremos na casa leonina.
Por tudo isto o jogo será diferente para o Benfica na cabeça de Jesus. Não diria mais difícil. Diria mais improvável. No sentido de adivinhar o adversário e assim antecipar problemas e soluções para eles. A derrota na Taça devolveu a equipa à terra. Fê-la baixar da 'nuvem emocional' onde estava. Nesse percurso, um jogador regressa: Cardozo. Tornou-se o pilar do ataque 'encarnado'. Quer pela forma como se move (em espaços curtos) quer pela forma como está... parado (dando referências e espaços de movimentação aos outros jogadores, como Saviola e Aimar).
Em geral, para lá das tácticas, costuma ganhar o jogo a equipa que, durante os 90 minutos, nunca perde a fé em si própria. No fundo, aquela que aproveita melhor o 'momento'. A parte do jogo em que se sente que as coisas (tendências tácticas e emocionais) estão mais a favor do seu lado e, astuta, essa equipa não a deixa fugir. Porque o futebol, o jogo, é o 'momento'. O de um dérbi Sporting-Benfica dura uma vida inteira.
Sempre goleador
Sempre que vejo um jogador dito veterano a fazer golos recordo sempre o que dizia outro velho goleador, Hugo Sanchez: "O segredo está em, ao longo dos anos, ir adquirindo certa perfeição nos movimentos e a percepção certa entre o que se quer fazer e as capacidades do organismo. Assim, com o decorrer do tempo, fica-se capacitado para executar certos gestos com maior naturalidade. É como na ginástica olímpica, onde certos exercícios, dada a sua dificuldade, conquistam maior pontuação".
Desta vez, a memória surge vendo João Tomás manter, aos 34 anos, o poder goleador. Diria mesmo que refinou a relação com a baliza. Ele que nunca foi um poço de técnica. O melhor tempo da sua carreira foi passado no ar: no jogo aéreo, os cabeceamentos. Agora, está mais exigente nos movimentos. Escolhe melhor as bolas. E estuda cada remate com mais cuidado. Por isso, continua a fazer golos. Mais bonitos até, como se, nesta fase final, tivesse duas cabeças nos pés. Pensar na selecção é humano. Chegar lá seria como revirar o vento.
Espanha mágica
É um jogo da Liga espanhola, mas já se tornou um duelo planetário. Na era global em que vivemos, Real Madrid e Barcelona já não são meras 'equipas espanholas'. São 'equipas do mundo'. Cada jogo entre eles atravessa o lado desportivo do futebol. Ronaldo e Messi, o craque-atlético e a pulga-mágica, desafiam o impossível em cada jogada. No regresso do mago lusitano, os murmúrios do medo que a sua lesão reapareça. Nos toques do baixote argentino, o olhar esbugalhado para não perder um toque que seja da sua bota canhota. No meio de tudo, as tácticas não são coisa menor. São a moldura que pode dar, ou não, o melhor habitat ao génio. Nesse mundo quadriculado, o 4x3x3 de Guardiola é hoje mais forte.
Até porque tem Xavi e Iniesta atrás. O 4x4x2 de Pelegrini ainda vive sem mecanização, com Kaká a jogar como se tentasse agarrar o volante de um fórmula um. No meio de tudo isto, génios, pulgas e tácticas, está um grande jogo de futebol. Para ver com uma vela acesa. Porque esta é a única religião que não admite ateus!
O futebol tricô
Ele é baixinho, com uma barbinha belzebu e meio careca. Por isso, é El Pelado Belluschi. Por fim, surge como aposta séria na relva do Dragão. Do outro lado, a 'montanha' do Chelsea. No banco, o super-herói amuado, Hulk, um jogador entre o génio e a vulgaridade. Três factos, um jogo para decifrar alguns mistérios.
Primeira descoberta: o Porto ganha outra dinâmica, outra 'cor' criativa com Belluschi. Porque ele mete no jogo coisas (fantasia perto da área e velocidade com remate) como mais nenhum outro médio do plantel mete na equipa. Enquanto ele durou, durou o melhor Porto. Ou seja, o Porto com a face mais criativa. Foi fundamental num jogo frente a uma equipa musculada mas que, já apurada, nunca quis acelerar o ritmo. Quando o baixinho começou a cair (física e tacticamente) foi-se perdendo esse elo criativo e o onze voltou à sua previsibilidade combativa. Depois, entrou Hulk. Cada jogada sua é uma afirmação de personalidade. Aplicando-a ao jogo todo, porém, viveu sempre à margem da equipa. Até então (com Belluschi vivo e Varela atento a... defender, sem bola) o Porto esteve sempre seguro. Impôs-se a palavra-chave de uma grande equipa: organização. Sem eles, a equipa ficou um "castelo de cartas" táctico e sofreu o golo pelo lado esburacado pelas alterações feitas.
Os 60 minutos em que Belluschi jogou podem ser suficientes para dizer que tem lugar na equipa. A leveza do seu 'futebol-tricô' necessita, porém, de protecção táctico-física (robustez) que equilibre a equipa sem bola. Por isso, compatibilizá-lo com Hulk, em 4x3x3, é quase uma equação impossível. Mais uma pista para Jesualdo seguir o trilho do 4x4x2. Fazer a equipa variar entre os dois sistemas e, por fim, combinar criatividade com robustez, fantasia com disciplina.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009
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