|
|
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
0:00 Quarta-feira, 27 de Jan de 2010
|
Quando morava na Holanda, nos anos oitenta, lembro-me que Amesterdão tinha a divisa - "Amesterdam heeft het!" (o que quer dizer - "Amesterdão tem-no/a!"). Que a cidade tinha e tem qualquer coisa... percebemos nós todos, embora o enigmático pronome deixasse no ar infinitas suposições. É evidente que, dentro da língua holandesa e navegando no aquário desse tempo, qualquer mortal percebia de imediato a mensagem, ou seja: 'a cidade tem um espírito raro' ou 'tem algo de único, mágico ou singularíssimo'. E, no entanto, para além destas traduções forçadas, a verdade é que o simples pronome falava - e ainda fala - bem mais alto, como metáfora económica e extremamente eficaz que é.
A conhecida divisa de Obama "Yes, we can!", tendo embora o mesmo espírito elíptico do holandês - "Amesterdam heeft het!"/ Amesterdão tem-no/a!" -, acaba por não ser descodificada com a mesma simplicidade. De facto, quando nos perguntamos - "Podemos o quê?"-, o pasmo adensa-se e a ideia de uma metáfora económica e eficaz, como a de Amesterdão, dilui-se completamente. Tudo porque as promessas de oratória, muitas baseadas no peso da palavra, estão hoje a transformar o milagre de Obama na imagem de um denso nevoeiro. Um pouco ao invés do nosso sebastianismo: primeiro a chegada do rei, depois a manhã nevoeiro que parece não ter fim.
Em Portugal, o desejo de névoa faz parte intrínseca da história e do mito. Manuel Alegre, em Portimão, no dia em que anunciou a sua candidatura presidencial focou bem este aspecto. Leiam-se as suas palavras: "...as pessoas precisam do direito à esperança, do direito ao sonho e do direito à beleza". Mas o candidato foi mais longe, ao reafirmar "que Portugal vale a pena", sendo vital "proclamar aos jovens" ... "que têm direito a outra forma de realismo: exigir o impossível". O Maio de 68 tê-lo-á dito de modo mais eficaz e económico, é um facto, mas Alegre não deslustrou e bem podia ter sintetizado o seu discurso com a leveza do "Alegre heeft het!" / "Alegre tem-no!" ou com o repetitivo e oco - "Yes, we can!".
Sabe-se que o primeiro aniversário da investidura de Obama serviu para desconsolar puristas e anjinhos. A realidade acabou por obrigar o promissor presidente a colocar as mãos na massa, passando muitas vezes ao lado das convidativas correcções da realpolitik. Em 2012, se Alegre viesse a comemorar um ano em Belém, de certeza que a beleza, o sonho, a esperança e o impossível se converteriam, não em névoa a murmurar no Tejo, mas no fio do abismo chamado realidade. As pessoas sabem que assim é, mas só gostam de o reconhecer no momento. Quando dói. Em geral, preferem a exaltação, a espuma e o langor da sedução. Talvez tenham razão. E Alegre, como qualquer marca que cuida bem do seu core, conhece como poucos essa razão profunda.
Enquanto Cavaco reflecte o tempo da pasta medicinal Couto, Alegre reflecte a poética da Lavazza. É neste contraste que a campanha presidencial vai ser vivida nos próximos meses. Entre produtos opacos de carne e osso e metáforas económicas, fluidas mas cristalinamente eficazes.
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
0:00 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010
|
O editor de ciência da Folha de S. Paulo e um repórter do mesmo jornal decidiram criar uma igreja. Fé? Não, nada disso. O objectivo dos jornalistas nada teve que ver com predilecções proféticas, nem como fragilidades existenciais, muito menos com pagamento de promessas. Não, o que Cláudio Ângelo e Rafael Garcia quiseram questionar, ao criar a sua própria igreja (designada "Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio" - assim mesmo), foi a razoabilidade da isenção de impostos às igrejas e o sentido da existência de "tantas regalias a grupos religiosos".
É de salientar a grande facilidade com que uma 'manobra' destas pode ser realizada no Brasil. Burocracias à parte, é um facto que a lei não coloca condições de ordem teológica, nem tão-pouco exige a prova de um dado número mínimo de fiéis. De qualquer modo, com o registo da novíssima igreja, os jornalistas da Folha ficaram livres de um inusitado número de "Is" - para utilizar a económica expressão de Hélio Schwartsman (IR, IOF, IPVA, IPTU, ISS, ITR, etc.) - e os seus sacerdotes, logo que "ungidos", se alguma vez o forem, ficarão automaticamente livres do serviço militar e sujeitos a requisitos penais especiais.
Em Portugal, a regulamentação da Concordata que data de 2004 parece (o verbo adequa-se) ter terminado com a isenção generalizada de impostos e de segurança social. De qualquer modo, o Artigo 26 (nº 3) da Concordata entre a Santa Sé e a República Portuguesa fixa algumas isenções (imposto de selo, impostos sobre a transmissão de alguns bens, actos de instituição de fundações ou ainda, entre outras, actividades de solidariedade social e educação).
Já o artigo 27, na sua ambiguidade críptica, refere (no nº 1) que a "Conferência Episcopal Portuguesa pode exercer o direito de incluir a Igreja Católica no sistema de percepção de receitas fiscais previsto no direito português", especificando-se, na continuação (no nº 2), que a "inclusão da Igreja Católica no sistema referido no número anterior pode ser objecto de acordo entre os competentes órgãos da República e as autoridades eclesiásticas competentes".
Nada me move contra a igreja, como é evidente. A liberdade deve comandar o barco do novo século. Acima de todos os valores. Vai mesmo ser muito curioso ver as comemorações da República a falarem dos receituários de ouro, da ética maior e das 'nobres' ideias, porventura obliterando aquilo que foi o apanágio menor - ou mesmo rarefeito - do sistema: a liberdade.
Contudo, não deixa de ser curioso como, entre a abertura infinita à isenção, caso do Brasil, e a enigmática 'quadratura do círculo' tão habitual na Lusitânia, a fiscalidade se torna, deste modo, em tema tabu. Ou quase. Entendendo-se por tabu tudo aquilo que carece de explicação ou de sentido e que, por isso mesmo, é, por natureza, dir-se-á, avesso à inquirição, à pesquisa e à definição. É tabu o que vale por si próprio sem regra que o possa descrever, decifrar ou tecer. E sem que dele se deva falar.
É como se as religiões navegassem num mundo para além do 'vil metal', embora nele se funde muito do que alimenta as múltiplas actividades que levam a cabo. Acredito que uma aventura, como a de Cláudio Ângelo e Rafael Garcia, mas agora protagonizada, entre nós, por dois jornalistas do Expresso teria outros efeitos. Com toda a certeza interessantes. Fica o repto. Até porque é nos interstícios do sistema que ele melhor nos ilumina.
Fontes:
Folha:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u660688.shtml
Concordata:
http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=8896
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
0:00 Quarta-feira, 30 de Dez de 2009
|
Primeiro Episódio
Há quarenta anos, os raros programas de TV que faziam o balanço do ano apareciam carregados de fascínio. Arrastavam o imponderável caudal das imagens a preto e branco, durante uma hora, e desse modo passavam em revista o que se sentia já como distante, inocente, fotogénico e único. A compulsão criada pelos media era quase nula. Hoje, esses mesmos programas aparecem carregados de uma redundância enjoativa. Mobilizam o que já havia sido desenterrado reiteradamente, cortando ou alargando partes do fluxo de imagens durante uma hora, como se quisessem anestesiar a nossa memória através de uma banalização galopante. E sem fim. A felicidade poderá assim confundir-se com o estado puro de zapping, com o vaivém, com o torpor.
Segundo Episódio
Nas últimas semanas, o menino Jesus apareceu bordado numa bandeira de cores cardinalíceas em muitas varandas e janelas das nossas cidades. Não são muitas as casas que ostentam estas figurações ternas, pois o povo deixou de ligar às militâncias, mesmo católicas, e prefere o Pai Natal made in China com barbas de nylon a cambalear nos corredores iluminados dos Shoppings. Mas a lição ficou dada: este é o tempo para celebrar o nascimento do menino Jesus, os reis magos e a impoluta manjedoura e não o tempo para apenas consumir os muitos ópios liofilizados do povo. A felicidade poderá assim confundir-se com a alegoria de um menino que passou de deus a humano, passando a dar sentido a tudo. Até mesmo ao belo calor proporcionado pelo calorífero Amstrad que, por acaso, é tipo alogéneo.
Terceiro Episódio
No próprio 25 de Abril também há dedos em riste. O PCP, sobretudo, também decora o país com as suas bandeiras e os seus muitos meninos Jesuses para dizer ao povo que há coisas com que não se brinca. Só que o povo, tão malcriado na Primavera como no Natal, gosta é de saborear os feriados revolucionários com uma bela "ponte" a caminho do Algarve das mil praias e dos Shoppings de segunda classe. Mas a lição fica dada: o PCP imagina que a liberdade é uma coisa que se dá - de cima para baixo - aos pobres mortais e há, portanto, que agradecer aos libertadores o sacrifício e a redenção. O que é que se há-de fazer? A felicidade poderá assim confundir-se com uma nuvem que alguns carregam às costas, como se todos os outros tivessem que nela reparar. Como se todos os outros tivessem, além disso, que a adular.
Quarto episódio
O sol - muito tímido - a esquecer tudo o resto. E há ainda, nestes últimos suspiros de 2009, a buganvília amarelada e, mesmo ao lado, a ameixoeira que agora vive apenas da nudez dos troncos e dos ramos. É como a escrita no osso, tão depurada, sem letras, tão esquecida de si que quase se confunde com tudo o resto. Bom ano novo a todos!
|
|
|
Luís Carmelo
|
0:01 Quarta-feira, 16 de Dez de 2009
|
Vasco Pulido Valente escreveu - há duas semanas, no Público - que o problema era afinal Sócrates. No fundo, nada nem ninguém suportaria a incapacidade de o PM não ser senão capaz de governar em maioria absoluta. Sem grandes tensões. Sem ter que passar pela discussão ininterrupta de tudo e de nada. Qualquer disfarce destoaria sempre tanto como pelo menos a Veneza construída em Macau, entre casinos e simulacros de pastéis de Belém.
A irritação e a crispação tomaram conta da Assembleia da República e este novo Sócrates - perfil 'Veneza em Macau' - está prestes a dar origem à maior e mais impensada coligação de que há memória em Portugal: nem mais nem menos do que do PP ao BE. Delírio ou contingência, vertigem ou manigância, a verdade é que o "suicídio", a que recentemente Balsemão se referiu, poderá não abarcar apenas baleias alaranjadas; o estigma do "desaparecimento" do próprio país atravessou, há dias, a cordata linguagem - subitamente apocalíptica - de António Barreto (em longa entrevista ao diário i). Sintoma de que algo de muito errado se está a passar na nossa terra.
Na arena política, a oposição passou a reclamar vingança e, o que é pior, está disposta a praticá-la até aos limites. Unida como rocha na gruta. Nem o inefável Poirot ousaria descobrir o móbil do grande crime que acossa o governo diante do novo e destemido oceano. Repare-se: a vingança começou pelo orçamento, perseguiu a já rodada rota das escutas e prepara-se agora para avaliar o teor da real circum-navegação do Magalhães. Nada de vingança fria; quente e destemperada. Exposta à luz do dia e sem qualquer vergonha. A política como Carnaval e o Carnaval como limbo que distribui maldições entre as névoas da justiça e as popotas que se agitam no dia-a-dia dos media. Tudo isto, para mais, numa pequena praia onde toda a gente se conhece.
É claro que a insónia irá tomar conta de S. Bento e nem o flirt de caixão à cova da nova ministra da educação com os sindicatos vai ser capaz de alterar o ciclo de inusitada fervura que tem evoluído entre nós, neste Outono-Inverno, ao jeito de um buraco negro, cujo vórtice parece começar a inscrever-se no horizonte. Porventura, Sócrates cairá no ano de dez. E com ele, cairão vários plintos que pensávamos bem edificados e já implantados. Talvez nos espere o suave destino que a Itália viveu no início dos anos noventa: refundação de todo o espectro político e advento de sidonismos democráticos com juízes e reis ainda mais inflamados do que aqueles que socraticamente hoje conhecemos.
Nada melhor do que caminharmos de vez, sem apelo nem agrado, para o lado mais macaense do Venetto: o universo popota. Haja esperança!
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
0:01 Quarta-feira, 2 de Dez de 2009
|
Os assessores do presidente da república queixavam-se de escutas. O director de um matutino sugeria, numa bela manhã de verão, que a secreta saltitava entre os mails internos da sua redacção. A palavra Caso ia tratando por tu as sessões solenes da democracia: Freeport antes das eleições, Face Oculta depois delas. Sem esquecer o Caso BPN, uma espécie despertador a tilintar à hora que o gongue subprime soava em todo o planeta. Sem esquecer as escutas, a TVI, a PT, o FCP e tantas outras siglas respeitosas e musicais. Sem esquecer, claro está, o cenário de fundo de toda esta mitologia do século XXI: o Caso Casa Pia.
O novo século, agora já no termo da sua primeira década, é, sem dúvida nenhuma, o século dos Casos. E ainda dizia José Gil que os portugueses "não inscreviam". Basta olhar para o rasgo do olhar de Penedos Jr. para perceber que vivemos num país de heróis e talentos que "inscrevem" e afirmam as suas marcas na história. E nos Casos.
Pina Moura dedicou unção e baptismo a esta pioneira década do século. Dizia o economista (com suma inspiração) que, na República, a ética era a lei. A frase é provavelmente a que melhor metaforiza os primeiros anos do Milénio. Ainda que o labirinto dos Casos e a espuma do 'diz que disse' (que inunda a santa deontologia dos media e a cerviz incerta da maior parte dos políticos) se assemelhe a um campo de lava.
Uma lava viva e errante, capaz de queimar seja o que for que lhe apareça pela frente. Até o próprio 'boomerang' interpretativo de factos e normas que, em jeito de carrossel, desliza ao longo da sereníssima cadeia da justiça. Capaz de queimar, sobretudo, a confiança mínima que cada um de nós tem no sistema. Ou no regime. Ou na quadratura da lava onde ironicamente ardemos "com aquele fogo que arde sem se ver".
O Portugal pós-Expo é o espelho quase preciso do Portugal pré-CEE. A imagem de ambos tem, no entanto, uma diferença sensível. No primeiro, o rato mickey vê gatos por todo o lado e um pequeno queijo no horizonte; no segundo, o rato mickey convenceu-se de que não há gatos no sistema solar e passou a entender a abundância de queijo como uma normalíssima dádiva dos deuses. A governança dos Casos só se tornou possível neste novo aliciante mundo da ilusão.
A ilusão da abastança tornou o país numa perversa cena de prestidigitação. O ilusionismo em estado quase puro - 'tira aqui, põe ali, 'escuta aqui, confessa ali', 'mente aqui, acossa ali' - só tem futuro, quando actores e espectadores passam a confundir regime com ética à Pina Moura e "inscrição" com cerviz de lava. Em 2010, vão-nos inflamar e metralhar com a "República". Os catecismos já se abriram, os santinhos já se encenam e as pratas já se areiam. Ao fim e ao cabo, sabe bem ouvir os contadores de histórias, enquanto os Casos rufam tambores e cortam cabeças tal como Méliès, na longínqua infância do cinema, adorava fazer.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
8:00 Domingo, 15 de Nov de 2009
|
Esta é a oitava de uma série de crónicas em que venho analisando alguns dos personagens em que votamos. Há sete semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o sétimo caso em análise: o de Pedro Santana Lopes.
Ter mundo
Santana é o tipo de personagem que um escritor - seja que escritor for - desejaria ter planeado, descrito e inventado. A energia do personagem parece sempre exceder a oficina de quem o narra e esse facto, só por si, torna-o deslumbrante. Se há personagens que não necessitam de apresentação prévia é Santana Lopes, porque tudo o que faz e tudo o que não faz estão ininterruptamente a descrevê-lo da primeira à - sempre adiada - última linha do relato. Santana tem a garra dos jogadores, o mimo dos bem amados, a ira dos solitários e a frivolidade dos sedutores de palavra fácil. O seu mundo é feito de magma imponderável - por vezes lava - e, apesar dos despojos e paixões que já acumulou, é único a poder pronunciar, como num ritual, a expressão "PPD/PSD". É verdade que Santana semeia ventos e tempestades, mas acaba sempre por ressurgir como se nada fosse. Neste particular, sabe dar a outra face e não receia o ruído - ou o furacão - que o possa cercar. Foi por isso que, em 2003, na inauguração do novo Estádio da Luz, após vaia a Durão Barroso, então PM, Santana fez um discurso tão empolgante quanto benfiquista, recebendo a maior ovação da noite. Antes da política, já Santana cultivava todos os dons que trouxe para a política, não tendo criado para tal um autómato programado. Entre a casa da política e as outras - muitas - casas da agitada vida de Santana, a mesma corrente de ar carregada de pulsões domina a atmosfera. O que talvez seja único em Santana é que o personagem tende sempre a ser ele mesmo. Daí o fascínio e o cansaço - os extremos pactuam de forma singular - que Santana concede a quem o acompanha e a quem o segue nos media.
Ter futuro
Tal como More descreveu o 'melhor dos mundos' numa ilha que apenas existia na sua imaginação, também Santana é capaz de tentar expressar um futuro quase luminoso (baseado na tal radical mudança de "sistema político") que teria lugar, um dia, numa ilha que só ele conhecerá e de que tão bem metaforizou o território: "Vou andar por aí". Um território vago, sem ruas, sem corredores e sem nome. Mas com um território mais ou menos fixo para poder ser pisado: "andar por aí". Apesar de ter protagonizado um dos governos mais hilariantes de que há memória, Santana nunca baixou os braços e, a par de algum lamento à James Dean, a verdade é que uma grande fatia da população sempre nele confiou como milagre da política. As presidências da Figueira da Foz e de Lisboa (após derrota de João Soares) deram-lhe essa aura, aliás repartida noutras áreas como no futebol. Ou nas franjas do jet set. Santana não inspirará nunca um futuro sólido e bem definido no horizonte, mas saberá sempre criar um suspense e um certo tipo de fé ficcional à Sousa Martins que não tem par em Portugal. O futuro pertence quer à frieza dos calculistas, quer ao súbito encanto da prestidigitação.
Ter estrela
Santana brilha com naturalidade numa mesa de café ou nos estúdios de televisão. Mas o brilho de Santana não é nunca o brilho de um herói. Bem antes pelo contrário, o arrebatamento de Santana advém sobretudo da capacidade de se apresentar como um homem comum que podia ter sido esquematizado por P. Roth ou por D. Lodge. Não é verdade que Santana seja o apanágio da simplicidade ou da ausência de afectação, pois o que nele realmente sobressai é uma quase instintiva recusa em encenar, em ludibriar ou até em fingir. Para o bem ou para o mal, disso não é capaz. Quando Santana é porta-voz de uma posição política, fá-lo dando a ver o que diz e o seu contrário. A pulsão sobrepõe-se quase sempre à posição e é isso que encoleriza os calculistas e, ao mesmo tempo, apaixona meio mundo que aprendeu a viver em democracia no meio da emoção mediática. A estrelinha de Santana vive desta magnetismo: um palco que fica à mostra, mesmo quando a sombra o desejou encobrir. É evidente - sublinhemos bem o facto - que a ingenuidade não cabe nesta atmosfera. Santana sabe muito bem clicar com os dedos, quando pressente que o deve fazer. Pode então - umas vezes mais do que outras - ser o ouro sobre azul. É por isso que criou tanta predilecção numa certa fauna do mundo do teatro.
Ter um desejo mobilizador
Santana é um político movido essencialmente pelo desejo. Desejo puro. Desejo sem objecto. Freud gostaria de ter conhecido o escritor que o tivesse criado. Mas o desejo de Santana não é um desejo que mobilize, com carne e osso, com consistência ou com argumentos. Não, o desejo veiculado por Santana vive de um complemento quase perfeito entre a compaixão e o vigor. Ou seja: saber inspirar - ainda que involuntariamente - piedade e, ao mesmo tempo, afirmar-se como o arquitecto mais desafiante do universo. Por outras palavras ainda: Santana sabe lamentar o que lhe fizeram (ou terão feito) como se cantasse com a voz de Amália, mas é, também, capaz de falar do Túnel do Marquês como quem fala de um Titanic que podia ter sobrevivido aos glaciares. E fá-lo com glamour. Com garra. Como se fosse o treinador de uma equipa de futebol (lembro-me do famoso Meirim) que conseguisse dominar o balneário, não com desenfreada brutalidade, mas com o discreto poder da intuição. Para o melhor ou para o pior, a mobilização de Santana é especialmente instintiva.
Ter retaguarda
Santana é o tipo de personagem que vive com a corrente de ar à mostra. Os filhos, os amores, as casas, as glórias e as infelicidades. Os passeios no mar, os jantares, as recepções, as separações, as confissões e as capas de revistas. Mas se se cruzar tudo isso - sem grandes intermitências - com os cargos que já desempenhou (PM, presidente de duas câmaras municipais e de um clube, para além de ter dirigido a cultura durante anos), entende-se que não há propriamente, em Santana, uma diferença entre produção e realização. Ele habita em todo o lado, anda de facto e com naturalidade "por aí", e dá a cara pelos mais distintos ofícios que vivem diante da objectiva dos media. Sem medo e sem compulsão. Mesmo quando se sente ferido, expressa-o com a (aparente) espontaneidade dos equilibristas que trabalham sem rede.
Estar aberto à contingência
Santana trata por tu a imprevisibilidade. E não responde ao imprevisto através de cenários prefixados. Nada disso. Santana é um nadador do destino: atira-se para a curva da onda, como se a inspiração fosse a chave da política. Sob este aspecto, Santana é um romântico sincero: um apaixonado que tanto pode naufragar, como pode vestir a pele de Lord Byron por uns tempos. O eclectismo de Santana não está tanto neste seu pendor romântico, mas sobretudo no modo como sabe invariavelmente renascer das cinzas que ele próprio cria. Cria e recria. Uma maleabilidade difícil de adjectivar. Mas que lhe dá uma singularidade que, essa sim, é indiscutível no panorama político português.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
8:00 Domingo, 1 de Nov de 2009
|
Esta é a sétima de uma série de crónicas em que venho analisando alguns dos personagens em que votamos. Há oito semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o sexto caso em análise: o de
Ter mundo
Criado como personagem, António Costa seria fácil de conceber na oficina dum escritor interessado em tramas de cariz realista. Costa é assertivo, sabe fazer render sorrisos e afeições enquanto argumenta, embora tenda a fugir ligeiramente para a frente quando se sente pressionado. Mas mantém sempre um ar convicto, atento ao prefixado e não consegue disfarçar um olhar de supremacia que confunde, muitas vezes, os adversários com o risível. Seja como for, Costa é um personagem com espessura e talento, vem de uma família e de uma atmosfera cultas, teve um escritor marcante como pai. Já não é da geração que passou pela extrema-esquerda na sua rota de Santiago. Mais jovem, Costa é homem de opção única, consistente e acabou por aportar no cais da política através de um desafio ainda hoje lembrado: o burro da Calçada de Carriche (o seu 'mergulho no Tejo de Marcelo'). Não era difícil imaginar Costa como secretário-geral do PS, mas o calculismo que não é alheio à prudência que alimenta tem-no feito percorrer outras vias e outras travessias. Como quem guia tranquilamente na circunvalação com o intuito de chegar, no momento certo, à praça central. O sorriso primaveril de Costa tem escrito esta ambição. Esta sagração do seu mais íntimo mundo.
Ter futuro
Costa é dos poucos políticos portugueses que evidenciam futuro. Não um futuro que se possa descrever astrologicamente ou através de catecismo, nem um futuro que possa desenhar-se no tempo. Costa é de um campeonato em que os jogos se ganham um a um, com a vantagem de que qualquer derrota alheia fará sempre parte da sua vitória (ainda que lamente maquiavelicamente o facto com real compaixão). Costa não convive com a intranquilidade ou com os escândalos e prefere, se possível por muito tempo, um bom bastidor de onde a sua voz se faça ouvir e a partir de onde a sua estratégia acabe por ter influência na pilotagem da nave. Costa é um verdadeiro corredor de fôlego e tem a sagesse de um ancião, embora, naturalmente, não o seja.
Ter estrela
O mais ávido aristocrata da comunicação pode, de um momento para o outro, tornar-se no maior dos derrotados. Costa sabe isso como a figueira sabe dos seus figos. Não enjeita, pois, aparecer - e fá-lo com determinação e bastante naturalidade -, embora não se exceda no comentário, na opinião e na exposição desmesurada. A estrelinha de Costa passa - sempre passou - por algum silêncio e pelo relativo afastamento do espaço público mediatizado. É desse modo que 'aquilo que se diz' não precisa de ser sublinhado, nem sobretudo gritado. A densidade de Costa tem origem neste tipo - dir-se-ia cuidado e trabalhado - de carisma que é capaz de escolher a leveza de um amorti em vez do gesto de fachada precipitado e vibrante, mas inútil. Sem se contrapor à natureza fantasmática da comunicação actual, como é - de certo modo - apanágio de Ferreira Leite, António Costa gere as suas reservas de modo também comedido. Mas consegue tornar-se no maior dos aristocratas da comunicação sempre que Hermes o convoca para o centro dos holofotes. E aí, no coração dessa encenação táctica, raramente perde.
Ter um desejo mobilizador
Costa não é homem de sonhos. E se fosse não os expunha e não os revelaria à luz do dia. Costa é o tipo de político que poderá acreditar em sonhos, mas apenas como consequência de factos muito materiais e tangíveis. Quando chegar a sua hora, aparecerá num registo chão - muito terra a terra - e tudo fará para encarnar perante quem o apoiar a ideia de um sonho. O cenário imaginado pelo escritor para o seu personagem pode nunca vir a concretizar-se, mas este seria o cenário lógico de todo o agir de Costa: a frieza como móbil do sonho.
O sonho mobilizador de Costa não surgirá, pois, espelhado nos lábios ou na mácula do olhar. Até porque Costa não é Sarkozi, nem mesmo Zapatero. O sonho mobilizador de Costa terá sempre - paradoxalmente - o seu quê de Opus Dei: trabalho, muito trabalho. Terapia de corredor de fundo.
Ter retaguarda
António Costa é daqueles políticos que pode dizer - mesmo a sorrir - que está na política "para servir" sem que toda a gente se ria de imediato. Há em Costa uma espécie de pacífica cascata que separa a esfera pública da privada. Sabe-se tudo sobre a sua mãe, o seu irmão e a sua mulher (que esteve na famosa manifestação dos professores de Março de 2008). Um tudo com sabor a nada. Um nada com sabor a tudo.
Costa manterá sempre o mesmo sorriso ao dizer 'tudo' ou 'nada'. Como se, neste caso, lhe fosse igual. O que verdadeiramente lhe interessa como que está sempre no alhures. Noutro lado. No vértice silencioso de um propósito porventura maior. Costa não o esconde. É essa a sua real retaguarda.
Estar aberto à contingência
Por vezes Costa pode ser um tanto radical. Limitar o trânsito a duas pistas no Terreiro do Paço não é algo apenas simbólico, ou feito à pressa para eleitor ver. É como - diria José Gil - uma "inscrição".
Costa pode deixar-se iludir pelo seu próprio vigor e ver-se abruptamente a falar a sós. E a repetir teimosamente a mesma ordem e a mesma deixa para os demais personagens. É dessa irascibilidade que as duas pistas do Terreiro do Paço são sintoma. Uma máquina segura de si pode vacilar e, quanto maior for a contingência que se lhe atravesse no destino, tanto maior será a probabilidade da impetuosa "inscrição".
A solidez e a complexidade do personagem têm destas coisas. Sobretudo quando a maleabilidade se torna numa urgência essencial. Um ser por mais pensado que seja pode, a qualquer altura, ser apanhado por um meteorito. É esse o perigo real da contingência para personagens que têm - ou parecem ter - o fado já todo traçado.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
8:00 Domingo, 18 de Out de 2009
|
Esta é a sexta de uma série de crónicas em que venho analisando - até ao fim deste mês - alguns dos personagens em que votamos. Há cinco semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o quinto caso em análise: o de Jerónimo de Sousa.
Ter mundo
Jerónimo de Sousa é o tipo de personagem que qualquer escritor gostaria de criar. Afável, sorridente e sem grandes conflitos psicológicos. Um personagem liso, previsível e íntegro, cuja tranquilidade é alimentada pelo ininterrupto caldear ideológico. A oficina do escritor limitar-se-ia, portanto, a conceber e a imaginar uma personalidade cúmplice e leal a muitos outros que, tal como ele, estariam sempre prontos a partilhar as mesmas frases, os mesmos gestos e até um idêntico tom de voz. Este fascinante mimetismo (de funcionários e militantes indefectíveis) podia ser trabalhado de modo paródico - fazendo-o contrastar com a normalidade do dia-a-dia - ou intensamente realista, dando ao leitor toda a latitude interpretativa que a atmosfera criada acabasse por suscitar. Eu preferiria esta última abordagem e iniciaria o relato dentro da fábrica onde Jerónimo foi metalúrgico... numa homenagem que lhe seria dedicada. A partir daqui, com diversos vaivéns no tempo ficcional, o mundo de Jerónimo surgiria, não através de uma sequência linear, mas do emergir de diversas e - se possível imprevistas - facetas (que ligariam o sorriso folgazão à impetuosidade da palavra). O mundo de Jerónimo é um mundo feito sempre da mesma matéria. Como se fosse praticante de uma inconsolável mediação de certezas. Como se toda a sua vida tivesse o sentido de uma travessia quase religiosa.
Ter futuro
O futuro que Jerónimo apresenta a quem o escuta é o futuro que o comunismo pode vaticinar hoje em dia. A ideia de um futuro paraíso terreno, que foi matéria de fé fortemente partilhada ao longo de décadas, não passa, nos nossos dias, de uma amálgama de cinzas e poeiras. É por isso que a palavra de Jerónimo é uma palavra doce, se comparada com o que foi, noutros tempos, o incisivo e mordaz profetismo de Cunhal. Jerónimo é um santo que ritualiza com abluções suaves todas as iras passadas. Nada já nele reflecte a tirania estalinista da antiga União Soviética. Mas também nada nele projecta seja que futuro for. Jerónimo une os comunistas como um mártir uniria os sobreviventes de um cataclismo. Só que Portugal viu o comunismo revelar-se no preciso momento em que uma ditadura caía por terra. E esse dado histórico e geracional sempre perfumou a substância dos credos leninistas. Jerónimo tudo tem feito para apenas simbolizar a continuidade desse perfume. Com sucesso, diga-se. É essa sobretudo a sua valia. E também, por consequência, a sua capacidade de criar empatia e simpatia.
Ter estrela
Jerónimo não é do tempo da comunicação. É, sim, do tempo em que a "Agitprop" se praticava com unicidade. De cima para baixo, a partir dos líderes iluminados e dirigindo-se ao povo. E, curiosamente, em nome dele. Esta capacidade de falar pelas massas (interpretando 'com perfeição' os seus interesses) faz dos comunistas seres que se transfiguram, quando vêem quinhentas mil pessoas na rua. As "massas", essas sim, são as agentes exclusivas do grande carisma. São elas a única estrela da política. Mesmo que numa manifestação caiba meio por cento da população total do país, para os comunistas, essa "festa colectiva" será sempre sinónimo de uma força sem comparação. Que nasceu "encarnando o querer do povo". "Que nasceu do povo". Esta teologia que acredita na essência e, ao mesmo tempo, na aparência é, toda ela, fonte de permanente convocação. Uma teologia que começa e acaba num grupo. Uma teologia que aprendeu, com os anos, a ser menos autista do que outras igrejas e do que outros cultos. De qualquer modo, para essa aprendizagem tem sido importante o modo como Jerónimo de Sousa expressa afectos, sorrisos e até algum humor. Jerónimo não é do tempo da comunicação, mas tem-se moldado a esse tempo. Não por entrega deliberada, mas sim por espontânea disposição. Um perfume que atrai com o fulgor da autenticidade.
Ter um desejo mobilizador
Um desejo partilhado por milhões é coisa que não existe na mensagem de Jerónimo. O desejo proposto pelo secretário-geral do PCP é um desejo limitado à frase "uma nova política" e já não às antigas preces - "um mundo novo e um homem novo". Trata-se, pois, de um desejo que - desdobrado de maneira pragmática a múltiplas situações - se destina a perpetuar a existência de uma barricada (muitas vezes imaginária) onde, de um lado, se encontrarão os justos e, do outro lado, os exploradores. Por outra palavras: de um lado, os comunistas (ou, recorrendo a outro léxico, a "esquerda" - numa extensão dos próprios comunistas) e, do outro lado, tudo o que é abominável (ou, recorrendo a outro léxico, a "direita" - numa extensão a tudo o que não sejam os comunistas e uma pequena orla envolvente). Esta imagem apocalíptica da imagem de Deus, de um lado, e da ameaça e dos castigos terríveis, do outro, alicerça a visão dicotómica e mobilizadora dos comunistas. Já teve melhores tempos, como é óbvio. A rede acabou por nos trazer, entre outras coisas, um mundo aberto que desfez a ordem vertical e indiscutível dos receituários e suratas.
Ter retaguarda
Jerónimo funde-se com a militância dada a natureza mesma do comunismo. Ter ou não retaguarda, para Jerónimo, é algo que não tem qualquer sentido. Nem é tema que motive a imprensa cor-de-rosa ou as entrevistas 'normais' dos media. Conhecem-se as fotografias dos netos e o itinerário das férias de Verão, mais por perfume do personagem do que por apetência em esconder ou não esconder seja o que for da vida privada. Um comunista submete a esfera pessoal aos princípios maiores da salvação militante. Por isso, a única retaguarda que um comunista pode salvaguardar é a que lhe garantirá a sobrevivência em meio e tempo hostis. Nada mais do que isso. Aliás, é ainda dessa salvaguarda que é feita a maior parte da história do PCP. Facto que era particularmente emblemático no discurso de Cunhal (e até de Carvalhas), mas que afecta já muito pouco o discurso de Jerónimo. O tempo faz esquecer. Jerónimo paz parte de uma aura que sabe muito bem separar o que deve ser esquecido do que deve ser lembrado. É essa a sua inteligência. É esse, também, o seu perfume pessoal.
Estar aberto à contingência
Em democracia, os comunistas trocaram o tacticismo da clandestinidade por um pragmatismo que se tem sempre tornado perceptível na população. Por outras palavras: o PCP conseguiu, ao contrário do que aconteceu em Espanha ou em Itália, por exemplo, ser uma quota-parte relativamente estável do cenário político português. A maleabilidade e o eclectismo de Jerónimo têm sempre em vista, no entanto, para além da tensão entre percentagens e oportunidades mediáticas, a capacidade de 'alterar a ordem' como forma de pressão. A influência nos sindicatos é importante para a afirmação do PCP na onda da contingência. Jerónimo tem sido, neste quadro, um esteio de estabilidade para a organizadíssima 'máquina de células' que dá corpo ao pragmatismo comunista. Jerónimo é, pois, um ser que sabe navegar na contingência. A sua escola é antiga, matreira e hábil. Neste particular, não se lhe conhece concorrência.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
8:00 Domingo, 4 de Out de 2009
|
Esta é a quinta de uma série de crónicas em que venho analisando - até ao fim deste mês - alguns dos personagens em que votamos. Há quatro semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o quarto caso em análise: o de Francisco Louçã.
Ter mundo
Ao contrário de Manuela Ferreira Leite, Sócrates e até Paulo Portas, qualquer escritor que tivesse a ideia de criar o personagem Francisco Louçã ver-se-ia obrigado a um enquadramento histórico das últimas quatro décadas portuguesas. Teria, pois, muito... mas mesmo muito trabalho pela frente. Poderia iniciar a sua longa marcha pelas carteiras do Liceu Padre António Vieira e depois pelos corredores (cheios de cartazes) do antigo ISE. De resto, o personagem seria menos complexo do que os restantes adversários políticos. Trotskista, adepto da quarta internacional, habituado a lidar com pequenos grupos e a acreditar em grandes causas, Louçã tem o recorte exigente do estudioso emocionalmente contido, cuja descrição física - depurada e estriada - encarna na rebeldia activa do pós-sixties. Louçã é indiscutivelmente um caso interessante, pois sempre viveu dentro do aquário da política. E o seu mundo - e todos os que nele desaguam - fazem parte da mesma convicção, direcção e insistência. Mais do que crença pela crença, Louçã incorpora o devir biográfico da crença. Como se o seu itinerário pessoal se fundisse com uma espécie de auto-cumprimento profético. Daí, por exemplo, a interpretação radical (do quase sucumbir do capitalismo) que fez à crise dos mercados do passado Outono. Mais do que um lutador, Louçã é um praticante da palavra implacável. Da palavra que, por si só, mudaria a face da realidade. Um xamanista marxista, se se preferir.
Ter futuro
O futuro que Louçã pode prefigurar é o mesmo que prefigurou até hoje. Com uma diferença: até 1999, os pequeníssimos grupos políticos onde militou (LCI e PSR) não tinham qualquer visibilidade; depois de 1999, à medida que o Bloco se foi posicionando em áreas sobretudo urbanas (substituindo o que antes era a disseminação de partidos comunistas de dimensão mínima), Louçã tornou-se em líder inquestionável. Hoje em dia, com um discurso muito diferente daquele que proferia há mais de uma década, Louçã projecta o descontentamento e diagnostica as inevitáveis falhas de uma democracia aberta, livre e sempre imperfeita. O futuro de que Louçã é anfitrião tem as características de vigilância e protesto que fascinam os mais jovens habitantes do coração do presente. Mas o futuro que cabe na retórica política de Louçã continua a ser tão impetuoso quanto essencialmente vago: tal como a névoa que ornamenta a palavra 'igualdade'.
Ter estrela
Carisma, sim. Capacidade comunicativa, também. Louçã passou de criador de performances de jovens liceais do PSR, no fim das quais falava para a televisão como sacerdote idolatrado, para o papel de temível parlamentar. Muito trabalhador, bem preparado tecnicamente, repentista formado nas antigas RGAs e superlativo nas atitudes (como se a ética se iniciasse no seu próprio arrojo), Louçã tornou-se num sedutor e deixou de ser um mero protestante. Para quem nasceu depois de 1980, Louçã foi sempre o irmão mais velho que era capaz de pôr em causa o establishment entretanto criado. Como se fosse o director de uma espécie de Independente pensado à esquerda e com muito mais experiência e fôlego "histórico" (para a esquerda, a história navega em direcção a uma verdade) do que as jovens direitas. O carisma de Louçã identifica-se com o desconforto que é próprio de um sistema aberto. E onde as rupturas - ao contrário do que acontece numa ditadura - estão sempre expostas.
Ter um desejo mobilizador
Imaginar um sonho de Louçã com o qual se identificassem vários milhões de pessoas parece-me algo sem sentido. A mobilização que Louçã propaga é difusa, parcelar e própria de franjas que se revêem em círculos restritos onde tudo, ou quase tudo, faz sentido (ou deveria fazer sentido). Os crentes na palavra de Louçã pressentem, de algum modo, que existe um conjunto de respostas para todas as grandes questões. O vazio atormenta-os. O desejo que o Bloco expande é um ininterrupto desejo de revolta. Uma intranquila vontade de ajustar, a todo o tempo, a medida das coisas. O desejo de apontar o dedo aos culpados pelo desconcerto. O desejo de mobilizar para equilibrar os desníveis injustos do mundo. Um desejo indiscutível na perspectiva de quem o deseja.
Ter retaguarda
Não se conhece mundo para além do mundo político a Louçã. A esfera privada é encarada, por um personagem à imagem de Louça, como algo sem importância e com um significado, cuja natureza não não se enquadra minimamente no domínio público. De tal modo assim é que rara também é a prospecção mediática de Louçã fora do aquário político. Mesmo se a reportagem vai a sua casa, sobrevive ao feito o mesmo assertivo e decidido tom de voz. Nada que espelhe uma emoção desencontrada se descortina. Nada que espelhe uma ironia espontânea e sem referências políticas imediatas se descortina. Louça é um personagem frio e secundário que fecha a sete chaves a sua retaguarda.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009
|
|
|
Luís Carmelo (www.expresso.pt)
|
8:00 Segunda-feira, 28 de Set de 2009
|
Esta é a quarta de uma série de crónicas em que venho analisando - até ao fim de Outubro - alguns dos personagens em que votamos. Há três semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o terceiro caso em análise: o de Paulo Portas.
Ter mundo
Imagino muito trabalho para o escritor que tivesse a ideia de criar um personagem como Paulo Portas. Abundantes rascunhos, tentativas frustradas, sobreposição de dados. Enfim, imagino que seria sobre a candura original do (pessoano) "menino de sua mãe" que a figura do lutador apareceria. Muito antes do Independente já Portas era, de facto, um livro aberto sobre o qual se iam encenando diversos talentos. As suas vocações de cinéfilo, jornalista, esteta, comunicador ou político sempre acabaram por contrastar com o pano de fundo - um bordado bem mais brando - em que se desenhavam. Daí que o escritor que concebesse Paulo Portas como personagem tivesse que deixar o pano de fundo demasiado à mostra. Sobre esse livro aberto - que todos vêem, mas que ninguém descodifica até ao fim -, brotaria então a imensa energia do personagem. E o seu multifacetado e complexo mundo. Não, não é um personagem fácil. Pelo menos, é bem mais intrincado do que Manuela Ferreira Leite ou José Sócrates.
Ter futuro
Paulo Portas é um personagem relativamente misterioso. Não se entenderá nunca bem o futuro que lhe está reservado nas narrativas que (ele próprio - ao arrepio do criador) percorre. O personagem teria que ser daqueles que rapidamente descobrem os seus próprios caminhos, deixando o escritor (que o inventou) ligeiramente perdido. É por isso que um pequeno partido se adequa a este tipo de perfil. Uma voz que protesta e que se ouve no presente, mas que, por natureza, dificilmente poderá preencher a palavra que mais jus faz ao futuro: a confiança. Portas é um personagem de catarse, de inspiração, de clímax. Ao contrário de um personagem que propusesse um futuro em que todos acreditam (ou seja: alguém correcto, tranquilo e com afeição para um desenlace melodioso), Portas denota clara inclinação para um ininterrupto vórtice em jeito de clímax. Se Portas se adequa a um pequeno partido, duvido, no entanto, que esse partido seja o PP. Sempre duvidei.
Ter estrela
Se há papel a que Portas se adapta como peixe na água é o da comunicação. Seja em que perspectiva e em que lugar for. O personagem nasceu no meio da frase bem recortada e faz da proporção - afirme o que afirmar - o seu território pleno. O que diz, diz bem. Muitas vezes, há alguma ira que reflecte vestígios de extrema solidão. Mas essa valia é própria dos actores e personagens que desvelam várias intrigas num único plano. É por isso que nem sempre o que diz corresponde ao que parece querer dizer. Embora - repito-o - o diga bem. Personagem complexo, claro. Nem sempre persuasivo, mas inevitavelmente apelativo. É um personagem que não gerando crença, gera adrenalina. A energia da cena. Para o melhor ou para o pior. E nem sempre sabe perder, por causa do mimo do seu mito original (e algo pessoano).
Ter um desejo mobilizador
O misterioso e o encanto vivem, muitas vezes, sem se entenderem. Paulo Portas não conseguiu nunca propor um desejo em que milhões se revissem, pelo simples facto de que ele é a mobilização. Pelo simples facto de que ele é o desejo. Neste caso particular, Portas não é um político como os outros, mas um esteta. Quando surge em público, a prestação começa e acaba em si e raramente se transpõe para além do que comunica. A comunicação que cria cabe apenas na comunicação criada. Nada parece sobrar que projecte mobilização. O que deve ser fantástico para os seguidores indefectíveis. Mas o que é terrível para quem poderia - um dia - vir a ser um seu seguidor. O misterioso e o encanto apenas pactuam na arte, não - ou raramente - na política.
Ter retaguarda
Paulo Portas expõe-se, mas controla como poucos o que mostra. O que não mostra torna-se forçosamente parte do imaginário: do 'diz-se diz-se'. Um 'diz-se diz-se' geralmente pejorativo, próprio dos mortais. Qualquer coisa com que o personagem vive bem. É essa, aliás, uma das suas maiores forças. Mas também de alguma ferida (visível).
Estar aberto à contingência
Este é outro campo em que Paulo Portas é mestre: maleabilidade quanto baste. Aparece e desaparece de cena, como muda ou transfigura (nem sempre da melhor forma)... quer o nome do partido, quer aquilo que advoga. Mas tenta, de modo persistente, manter incólume uma mínima base comum. O que lhe permite ligar os passados e o presente com coerência. Face à contingência, Portas brilha como poucos outros da concorrência. Personagem de clímax é assim mesmo.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Setembro de 2009
|
|
|
|
|
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
|
|
|