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Clara Ferreira Alves

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 4 de Fev de 2010

Abro o jornal e o senhor Wolfgang Munchäu, que tem uma cara de confiança, abre o seu parágrafo a dizer que a gestão da economia grega tem paralelos inquietantes com o fim da Guerra do Peloponeso. A Guerra do Peloponeso, explica, acabou em 404 a.C., quando os vitoriosos espartanos impuseram a Atenas a regra dos Trinta Tiranos, que privaram os atenienses da maioria dos direitos civis e democráticos. A tirania acabou em revolta no ano seguinte, quando a democracia foi restaurada. Algumas décadas mais tarde, as orgulhosas cidades de Esparta e Atenas tinham desaparecido do mapa geopolítico. O sr. Munchäu, e eu concordo com ele, acha que algo semelhante pode acontecer na Zona Euro se uma austeridade for imposta, do exterior, como moeda de troca para o resgate da Grécia da bancarrota.

A história tem lições que ignoramos à nossa custa. Em Portugal, com séculos de uma nacionalidade estável, e orgulhosa, as lições da história nunca são obedecidas e são gloriosamente ignoradas. A passagem da Grécia, com os seus vastos problemas de contas deficitárias, para Portugal, com os seus vastos problemas de contas deficitárias, não é descabida. Neste artigo do "Financial Times", o sr. Munchäu aponta quatro cenários prováveis.

A Grécia vai à falência e a União Europeia corre em socorro, com condições rigorosas (a austeridade). Bruxelas enviaria os seus Trinta Tiranos para Atenas, e Atenas perderia soberania. Os "gnomos de Bruxelas", cito, tomariam conta do Ministério das Finanças e a população indígena veria isto como um golpe e um atentado à democracia. O sr. Munchäu diz mesmo que os gregos começam a tratar mal os estrangeiros que escrevem sobre as suas contas e que estão solidários com as classes políticas apesar de estas terem falhado aparatosamente. Um cenário destes poderia acontecer em Portugal, que nunca se interessou muito pelos "gnomos de Bruxelas" porque os "gnomos de Bruxelas" foram vistos como uma cornucópia de flores e frutos que colhemos com generosidade, como nos tempos de África e do Brasil.

O segundo cenário é a falência sem resgate. Neste caso, assegura o sr. Munchäu, a Europa recusaria ajuda financeira por causa do falhanço do país em observar as regras europeias. E, diz ele, a crise alastraria a Portugal. Portugal encontra-se numa situação semelhante à grega, repete o sr. Munchäu. E acrescenta que os mercados financeiros, se isto acontecesse, perguntar-se-iam se a própria Espanha poderá alguma vez retomar o caminho da sustentabilidade.

O cenário três é o que toda a gente implora: a UE conseguiria, com persuasão gentil, que o Governo grego fizesse tudo o que é necessário fazer. Cortes severos nas prestações sociais e de saúde, aumento dos impostos, cortes na despesa pública, congelamento de salários da função pública, e reformas laborais que autorizem os salários reais no sector privado a cair, para melhorar a competitividade. É uma lista cruel, diz o sr. Munchäu, e a solução para salvar a Grécia da bancarrota.

O último cenário é o mais assustador: fingir que se resolve o problema, argumentando aqui e ali para enganar as pessoas sem se chegar a resolver o problema. A União Europeia tem uma larga experiência nesta área (e Portugal também). O Governo grego produzia um pacote de reformas estruturais que não passariam de promessas, com títulos enganadores. A bancarrota, e a verdade, são adiadas, por enquanto. E, no futuro, o problema regressa. E será resolvido por uma nova geração de políticos, que enfrentarão uma completa disparidade entre a situação real das contas e a situação ficcionada, enfrentando a ira dos credores.

Temo que este quarto cenário seja o escolhido. Os gregos não apreciam, com a serenidade com que os portugueses as sofrem, medidas de austeridade draconianas. O caso grego é muito semelhante ao nosso, e partilhámos anos a chamada cauda da Europa. Quando houve dinheiro, os gregos espatifaram-no em estádios e campeonatos, Olímpicos e equipamentos dispendiosos, tal como nós. Estão falidos. Nós estamos quase falidos.

Não creio que seja bom para um país ser tratado como uma criança mal comportada, como um "bom aluno" ou um "mau aluno". Esta linguagem, inventada em Bruxelas, é ridícula. Menos ridícula é a realidade. Portugal terá, nos próximos anos, de fazer o que não foi feito até aqui, e fazê-lo numa altura de crise e de destituição e desemprego. O Partido Socialista tem a responsabilidade histórica, como sempre teve, de pedir aos portugueses sangue, suor e lágrimas. Este Orçamento pode ser bom para a paz entre os partidos, mas terá de ser mau para a paz social, necessariamente. Terá de ter cortes. E uma política fiscal que não penalize os do costume. E um combate sério ao desperdício e à corrupção. O exemplo grego pesa-nos. Lá como cá.

Texto publicado na edição da Única de 30 de Janeiro de 2010

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 28 de Jan de 2010
Um país não pode ser administrado pela ONU e por instituições de caridade.

Podemos não ajudar o Haiti mas o Haiti ajuda-nos todos os dias. Estas catástrofes têm o poder de nos fazer felizes por dar. E fazem subir as audiências. O Haiti não é no Haiti, é no ecrã. O jornalismo sentimental obtém efeitos - a voz embargada, a criança carregada nos braços, a operação salvadora - e nada contribui para a reflexão. O Haiti, na sua absoluta devastação, na sua constituição como um lugar distopicamente distorcido, sem estado, sem governo, sem estruturas, entregue à ajuda humanitária internacional e ao caos e anarquia que o sofrimento gera, deixou de ser um país. Se é que alguma vez foi. Em 2010, com a ajuda existente, com os fundos existentes, com os programas e boas intenções existentes, existe no planeta um país como o Haiti. Onde, a avaliar pelas testemunhas, pessoas iam passar férias e praticar a evangelização e a caridade, sem que o Haiti tivesse uma escola, um hospital, casas, água potável, saneamento básico, um mínimo de estado, um mínimo de governo e de solução política.

Afinal, não estamos no tempo de Papa Doc e dos "Comediantes" de Graham Greene, quando a dinastia Duvalier fez do Haiti um cenário de ficção e vodu, útil aos filmes de James Bond. As Nações Unidas tinham uma brigada de funcionários no Haiti, e o Presidente Clinton e a mulher, antes de ser secretária de Estado, tiveram pelo Haiti um interesse político que os levou a apostar num cavalo coxo, o exilado Aristide. A França, com o cinismo da sua política de interesses, interessou-se pelo Haiti e, além de construir hotéis, viu o seu ministro dos Estrangeiros quando não era ministro, Bernard Kouchner, viajar várias vezes para o Haiti e sustentar os Médicos sem Fronteiras no território.

Nicole Richie, famosa por ser filha de Leonel e a parceira de Paris Hilton num reality show em que ordenhavam vacas, está no Larry King a perorar sobre o Haiti. Ouço-a explicar o programa para levar água limpa ao Haiti. E "a outros lugares de África". Seal canta, Mick Jagger canta, Nicole Kidman (estamos no dia das Nicoles) explica a sua acção no Haiti ao serviço das Nações Unidas. Larry King berra: dêem dinheiro, já temos mais de um milhão de dólares. Uma estrela do futebol americano, cuja filiação com os haitianos é a cor da pele, quase chora. King resplandece. Tilintam moedas comovidas no saco da pornografia humanitária.

Entretanto, no verdadeiro Haiti, onde a CNN tem um jornalista neurocirurgião que opera uma menina ao cérebro e se deixa fotografar a operar, o saque começou. A polícia dispara sobre os saqueadores e o repórter Anderson Cooper, aliás excelente, no intervalo de salvar um miúdo com a cabeça partida, e filmar-se a fazê-lo, diz que não são haitianos como deve ser, são haitianos criminosos. Existe, na pobreza, uma distinção entre bom e mau comportamento. No verdadeiro Haiti, o único hospital que funciona é o dos israelitas. O único que está montado, que tem máquinas de diagnóstico, que está equipado para cirurgias. Os americanos, no meio do bando de repórteres e do-gooders, e a França, protestando contra a "ocupação" do Haiti pelos americanos, não conseguiram montar um hospital de campanha.

O secretário-geral da ONU diz que estão a ser feitos todos os esforços. As vítimas resgatadas dos escombros com tanto esforço e tanta câmara a filmar, morrem das lesões. Outros morrem de fome e sede e o êxodo começou. No aeroporto, a ajuda empilha-se e apodrece no calor. Clinton desembarca, com as câmaras atrás, muito corado e dorido.

Dirão alguns, este não é o melhor momento para discutir como é que o Haiti chegou a isto. Este é, seguramente, o melhor e o único momento para pensar como é que o Haiti chegou aqui. Para repensar os mecanismos e a lógica da ajuda humanitária, e, sobretudo, a sua incapacidade logística apesar dos meios e das pessoas. No Afeganistão, pude observar como a logística da ONU era um pesadelo de ineficiência e desperdício, recorrendo a empresas privadas pagas a peso de ouro. Milhões serão entregues a quem? E com que fim? A actual solução humanitária cria vícios em quem dá e em quem recebe. É o velho problema do peixe e da cana de pesca. A ONU, com todas a suas virtudes, criou uma estrutura humanitária burocrática e, nalguns casos, corrupta, que é replicada pelas ONG. As brigadas de benfeitores podem ser heróicas mas não constroem países. Mais trabalho tem sido feito por soldados ignorantes da história e da geografia. Não creio que a América vá 'ocupar' o Haiti. Para o Haiti chegar a ser um país precisa de uma estrutura que terá traços políticos de neocolonialismo. Podemos chamar-lhe muitos nomes mas esta será a única solução. Um país não pode ser administrado pela ONU e por instituições de caridade. E não deve.

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 21 de Jan de 2010
Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão.

Desconfio de gente que gosta do inverno. No meio de Agosto, quando sopra aquele vento da estiagem que cheira a terra seca e pó do deserto, o vento que dá na cara devagar, andam pelos cantos a esgalgar-se contra o verão e a pedir frio. Apontam a brancura esplêndida do ar como quem está no meio do inferno. Eu odeio, detesto, abomino com um sentimento enraizado, o inverno. Quem não gosta do verão está como em frente ao mar e aproveita para apertar os atacadores.

Os animais também não gostam do inverno. Nem os poetas. Basta ler o modo como T.S. Eliot usou, ou plagiou, no poema 'The Journey of the Magi', 'A Jornada dos Magos', a famosa frase "A cold coming we had of it. A cold coming we had of it/Just the worst time of the year/For a journey, and such a long journey/The ways deep and the weather sharp/The very dead of winter".

Este "the very dead of winter", o meio do inverno, o mais morto do inverno, o fundo sem fim do inverno, exprime o sentimento para com a estação. Percebem a ideia. "A cold coming we had of it" podia ser traduzido, liberalmente, democraticamente, um pouco estupidamente, incultamente: apanhámos com um balde de água fria, água gelada. É a minha sensação do inverno, um longo balde de água gelada que impede a viagem (the worst time of the year for a journey) e nos leva a prescindir de Belém e da estrela. No meio do inverno estão duas coisas absolutamente desinteressantes: o natal e a sua cauda de manifestações de cretinismo, incluindo o kitsch natalício e os saldos. Os saldos estão associados ao natal. São o brinde para quem sobrevive. Eliot não previu a jornada do consumidor global. No presépio, teriam que dar brindes; em vez de os Magos empreenderem a jornada da mirra e do incenso (qual a terceira oferenda? Ouro?) o menino punha anúncios e os pais enviavam sms. Em Belém, a 25 de Dezembro, não perca grandioso evento nunca visto, o filho de Deus vai nascer. O telemóvel acaba de tocar com um sinal de mensagem a oferecer descontos e percentagens, reparações mecânicas, faqueiros, malas de senhora. E por aí fora. Janeiro é isto.

Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão. Alguém já reparou que os pássaros, não os grandes pássaros dos grandes poemas e sim os pardais modestos de jardim e quintal, deixaram de ir para sul? Com o calor retardado de outono esqueceram-se de voar e ficaram aqui à cata da minhoca e do lixo dos caixotes. Pardais plásticos urbanos, vítimas das alterações climáticas.

Perdi-me. Ia no inverno. Olho pela janela e chove há dias, chove há semanas. O frio é como uma noite sem luz. Uma floresta dos contos infantis. Faz tanto frio que o sem-abrigo da esquina desistiu de chamar as pessoas pelo nome, encostado às paredes, coçando os dedos avermelhados no casaco coçado. Nem um sem-abrigo aguenta a rua. Como não hão-de velhos morrer de frio? Os velhos são pássaros que deixaram de voar.

Há os que procuram epifanias no frio. Na Lapónia com as renas ou nas montanhas da Escócia com os veados e os lobos talvez houvesse epifania, a versalhada de bilhete-postal sobre o manto frio e branco e os regatos de gelo, as árvores petrificadas de neve e o céu de chumbo a pingar farrapos. E por aí fora. Eu nunca fui à Rússia por causa do inverno, e pressinto que deve ser a única altura do ano sem turistas no saldo do transiberiano.

No verão estive numa aldeia escocesa chamada Braemar. Braemar tem a distinção de ser um dos lugares mais frios no inverno. Vinte negativos. Em Agosto, oito positivos. Ao entardecer, que me colheu numa paragem de autocarro sem abrigo e ao lado de frondoso arvoredo e um regato (não concebo paisagem mais deprimente e prescindo do veado) fazia tanto frio que os nativos estavam enterrados no pub a beber whisky. E não se percebe o inverno escocês sem whisky e o russo sem vodka. Detesto whisky e vodka. Oito graus. E eu a sonhar com o Rio, o Calçadão a faiscar ao sol e as mulatinhas de Copacabana regadas por negros esqueléticos com camisetas que dizem nas costas "Fiscal da Natureza". Aquilo é que é um país. Pois em Braemar, agora, vinte e um abaixo de zero. Dizem que os lobos e os veados descem à aldeia à procura de comida. E caminham juntos pelas ruas.

E se querem saber porque é que o Eliot plagiou foi porque o inventor da frase "a cold coming we had of it", e outras, foi um tal bispo Lancelot Andrews, no dia de natal de 1622, em Whitehall, perante o rei Jaime I. "It was no summer progress. A cold coming we had of it. (...) The ways deep, the weather sharp, the days short, the sun farthest off in the solstitio brumali, the very dead of winter".

O "solstitio brumali" lixou tudo. O Eliot percebeu. É isto um poeta.

Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2010

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 14 de Jan de 2010

Estar em guerra com o terror é tão estúpido como estar em guerra com o medo ou com o cancro

Afinal ainda estamos em guerra com "o terror" e acabamos de arranjar um novo inimigo, o Iémen. Tudo o que Susan Sontag escreveu sobre a doença como metáfora a propósito da sida podia agora ser escrito a propósito desta guerra antiterror e da histeria mediática que ela causa, destinada a causar ainda mais terror do que o terror propriamente dito. Estar em guerra com o terror é tão estúpido como estar em guerra com o medo ou com o cancro. São factos, não são declarações de guerra. São, às vezes, sentimentos.

Vamos ter mais medidas de segurança em aeroportos, mais scanners, mais restrições e aflições, mais investigações, mais detenções e arbitrariedades. E, como se calcula, nada disto fará, exactamente, parar a guerra com o terror que é uma guerra que por definição é intemporal e infinita. Em rigor, só acabaria quando todos os terroristas estivessem mortos e como nunca saberemos quantos são, como são e quantos restam, nunca veremos o fim desta guerra. Da sua toca, Dick Cheney esboçou o sorriso cínico e ameaçou a América de Obama de ser um país fraco e impotente, à mercê de um nigeriano da classe média que resolveu usar umas cuecas explosivas.

Nunca será possível impedir a doutrinação de um jovem da classe média-alta que está entediado com a vida e sente a mesma repulsa patológica pela sociedade que os seus companheiros brigadistas dos anos 70. Nunca será possível prever todos os terroristas, todos os desocupados, todos os recrutados, todos os anarquistas, todos os psicopatas, todos os extremistas, todos os socialmente desadequados, todos os vingadores e todos os vingativos. Todos os agentes duplos. O terrorismo, tal qual o conhecemos desde o 11 de Setembro, faz parte das nossas vidas. E continuará a fazer. Se Obama ouvir o canto das sereias e dos falcões, estragará uma boa parte do trabalho que tem sido feito, e com êxito, contra actos terroristas. Se existe uma coisa que a América não suporta é o "terror", sem saber bem o que é o "terror".

O caso do nigeriano, como o dos sauditas de classe alta implicados em manobras terroristas, não faz parte dos livros e dos manuais antiterroristas. A razão pela qual o aviso do pai junto da Embaixada americana e da CIA não foi levado em conta é simples. Desde que começou a guerra antiterror que ameaças e denúncias de "terroristas" chegam às instâncias e são filtradas. Isto acontece todos os dias. A maior parte das denúncias são falsas ou pedidos de ajuda para encontrar um membro da família que desapareceu. Quando se trata de um membro de uma classe social elevada, o desconto dado é maior. Na imaginação, o terrorista não anda em colégios particulares nem usa andares luxuosos em Londres enquanto estudante. Não é filho de banqueiros e antigos ministros. No entanto, muitos dos terroristas da definição clássica, ideologizados por opção e não por imposição (como os órfãos das madrassas do Paquistão) são jovens da classe média, educados em universidades do mundo europeu ou americano.

A histeria trará consigo o desnorte. Desde o dia de Natal, data do atentado, a América esqueceu-se da crise económica, do sistema de saúde, de tudo. A gritaria nos media é tanta que Obama será empurrado para produzir afirmações inventadas pela Administração Bush para justificar o statu quo. Desde o 11 de Setembro, europeus e, sobretudo, ingleses, já abortaram e preveniram vários atentados, sem ameaçar países nem justificar guerras preventivas. Cabe aos serviços secretos e militares destes países conduzir na sombra um trabalho que deve permanecer na sombra e que, desde o 11 de Setembro, tem tido assinaláveis sucessos. Que nunca são mencionados nem devem sê-lo porque a histeria conduz à irracionalidade e à retórica republicana que condensa o pior e o mais primitivo do Partido Republicano, a níveis "palinianos" para quem se lembra da senhora. O mesmo partido que privatizou a guerra e criou task forces de extermínio, dependentes de gente como o senhor Erik Prince, o patrão da Blackwater, a empresa de mercenários que resolveu substituir o Estado e os agentes do Estado na "guerra contra o terror" usando métodos terroristas, justamente. Numa entrevista dada à "Vanity Fair", Prince (lembram-se de Ollie North?) produz afirmações que num estado de direito o deveriam levar à prisão e julgamento. Armado em cowboy, Prince construiu um serviço privado de extermínio e rapto de presumíveis terroristas, the bad guys, que vai contra a Constituição americana. Protegido pelo seu conhecimento das práticas da Administração anterior, sabe que jamais lhe tocarão. Nenhum Presidente ousa pôr em causa outro Presidente. E Cheney vive e prospera à custa disto. Este será o teste maior de Obama.

Texto publicado na edição do Expresso de 09 de Janeiro de 2010

 

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 7 de Jan de 2010

Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais

A década, pois. Tenho de fazer o balanço. Mais logo. Agora tenho de verificar se as reservas estão ok e fazer um print. Não preciso. Está tudo em G-mail. Faço o check-in online e faço o print do cartão de embarque. Chega. O passaporte é electrónico, por causa da alfândega americana. Uma consequência do 11 de Setembro. A propósito, convém não levar aquelas botas compensadas para o aeroporto, a segurança manda descalçar. Mais uma consequência do 11/9. E a mala? Se for de cabine, nada de tesourinhas ou limas, e tenho de arranjar frasquinhos e enfiá-los numa saqueta. E a roupa? Vou checar (checar? Isto é Acordo Ortográfico, que é o ciberportuguês), dizia eu, checar (isto é acima de tudo um americanismo, o anglicismo morreu), checar o tempo no Weather Underground ou na CNN. Fiz o print da factura? Isto dos prints é obsoleto. Agora tenho duas licitações finais no Ebay e tenho de me despachar. Uma das coisas vem da Austrália, ver o fuso horário. E quanto é um dólar australiano? Abro o XE Currency Converter, o euro aguenta-se, finalmente pertenço ao clube da moeda forte. A Europa. O tempo vai estar tempestuoso. Odeio aviões em tempestades. E parece que um avião se partiu ao meio por causa da chuva. Chuva na Jamaica? Vai uma pessoa para a Jamaica para apanhar sol. Vou ver ao YouTube o que aconteceu. O pior é que abro o Youtube e fico por lá. O tempo corre. E tenho ainda de comprar uns presentes de Natal e ir ao supermercado. Abro a Amazon, os livros devem estar a chegar. A Amazon não falha. E fartei-me de comprar presentes, embora o site UK nunca seja tão bom como o USA. Montes de promoções. O Nordstrom e outra loja em Seattle têm umas ofertas incríveis, tenho de fazer o cálculo. Talvez compense. Ou espero por Janeiro. Se não fossem as taxas alfandegárias comprávamos tudo fora da Europa. Venha daí um Blackberry. Ou o novo Chocolate da LG, mais giro que o iPhone. Esta coisa do i em caixa baixa faz lembrar o ee cummings. Ninguém lê poesia. No Kindle, talvez. É como beber um Nespresso, whatelse? Ah, o supermercado, compro online, escuso de tirar o carro. Poupo o ambiente. Ah, os bilhetes. Fiz o print da reserva? Sem bilhetes não se consegue ver uma ópera, um teatro ou uma exposição. Reserva-se online, no dia vai-se à bilheteira. A única maneira de ver o tecto da Capela Sistina ou a "Última Ceia" do Leonardo em Milão (Dan Brown é o autor mais lido da década, culpa dele) é assim. Ou de comer no Adriá. Toda a gente viaja. As low cost e o Lonely Planet, culpa deles. Que fazem as agências? Os pacotes, claro. Para a Jamaica. Onde chove a potes. Deve ser do clima alterado. Abro o NY Times. Pode estar a perder dinheiro mas ainda é o melhor site de jornal do mundo. A década. Que aconteceu de mais importante esta década? Eles sabem. O 11 de Setembro, as alterações climáticas, Obama, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irão. Etc. Bush e os neocons, como é que se chamava aquele tipo que não tinha dúvidas e nunca se enganava, o accionista do Tamiflu? Rumsfeld. O que andará o Rumsfeld a fazer? O Google sabe. A propósito de Tamiflu, tenho de ver se aquelas acções dos fabricantes de líquidos antibacterianos estão a render. Abro os índices, ok, venha a gripe A e o dinheirinho a ganhar. Qual crash capitalista. E o Bush? O executor de Saddam, a quem Rumsfeld se fartou de apertar a mão noutra década. Deve estar no Google Images. Estamos todos no Google. E no GoogleEarth. Não é só o Rumsfeld. Obama também é uma consequência do Rumsfeld. Foram precisos oito anos de Bush para aqui chegar, ao Presidente Nobel da Web. Tenho de ir ao site da Atlantic, será a New Yorker?, ler o artigo que vinha reproduzido nuns blogues. O das novas guerras e armas de destruição. Maciça? As novas Daisy Cutters. Microondas. Lasers. Drones. Talvez dê para falar disso no balanço da década. O tempo corre. Ainda nem abri o mail e limpei o spam. Tenho de checar o extracto bancário. Já não há pachorra para o mail, nem para blogues. O Twitter. É mais fast. Twitto boas festas. Dantes, as pessoas escreviam postais. Coitadas. Com a Wikitude podemos aprender física quântica. E reproduzir o Big Bang, como o LHC. Ou fabricar uma arma de destruição. Maciça. Se inventarem uns robôs canalizadores, o mundo será perfeito na próxima década. Como dizia o Woody Allen, provar a existência de Deus é mais fácil que arranjar um canalizador ao domingo. Tenho de rever este dinossauro no video on demand. A década? Olha, o melhor é dizer que tudo foi uma consequência do 11 de Setembro. Será que dá para ir hoje ver o "Avatar"?

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009

 

 

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta-feira, 31 de Dez de 2009
Desde que o pobre maior atleta chocou com a viatura paga pelos Patrocínios, as moscas não o largam.

Ele há momentos em que até uma feminista está com os homens. Com os homens que enganam, com os homens que mentem, com os homens que enganam as mulheres e mentem às mulheres e até, pasme-se, com os golfistas. Com o melhor golfista, o maior atleta do mundo. Embora esta última disposição seja pouco fiável, porque os desportivos e afins estão sempre a arranjar um maior atleta do mundo. Ou é o nadador Mark Phelps (droga-se), ou é o ciclista Lance Armstrong (divorciou-se), ou é o tenista Federer (perdeu com Nadal e chorou), ou é o Cristiano Ronaldo (Paris Hilton). Neste caso, e para efeitos tablóides, Tiger Woods é o maior atleta do mundo. O mais bem pago. O mais rico. O mais Patrocinado. O mais limpo. O mais puro.

É também, ao que consta, o maior adúltero do mundo. Quem tramou Tiger Woods? As mulheres. Repare-se que eu não disse a mulher, a mulher dele. Disse: as mulheres. A mulher, uma loira sueca que seria o sentimento de todo o ocidental e todo o menos ocidental, não disse uma palavra sobre o assunto. Não abriu a boca. Parece que fugiu para a Suécia com a respectiva e respeitável mãe para passar o Natal numa mansão paga com os milhões dos Patrocínios. Parece que deu com o taco de golfe na cabeça adúltera quando o marido chocou com uma árvore às duas da manhã. Parece que o expulsou da Patrocinada mansão conjugal na Florida. Parece que não fugiu para a Suécia com a mãe, visto que a mãe, uma ex-ministra (dado fundamental), deu entrada no hospital com problemas causados pelo adultério inveterado do genro. Ou do genro inveterado. Parece que fugiu para a master suite do iate pago pelos Patrocínios e que tem o nome de "Privacy", por causa das moscas. Parece que disse ao Patrocinado que ele devia tratar-se. Terapia, especularam as moscas.

Desde que o pobre maior atleta chocou com a viatura paga pelos Patrocínios, as moscas não o largam. Sufocadas pelo silêncio sepulcral da família Woods, as moscas resolveram dar um dinheirinho a ganhar a todas as senhoras interessadas em revelar um caso "íntimo" e "secreto" com o maior atleta do mundo. O homem da Gilette. O homem da Accenture. O homem da Gatorade. O homem da AT&T. O homem da Nike.

Aqui, a alma feminista envergonha-se. Os homens não fazem isto, com excepção daquele cavalheiro com quem Lady Di se correspondeu telefónica e intimamente. Um tal James. O amante. Há sempre um Jamie por perto. No caso de Tiger, surgiram da obscuridade, ululantes e ávidas, senhoras com nomes como Jamie, Minty e... sim, Jaimee, Jaimee Grubbs, Mindy Lawton e Jamie Jungers, entre outras. Uma bela colecção de atletas sexuais: strippers, modelos, aspirantes, criadas de cocktail, bailarinas de clubes, actrizes e meretrizes.

Todas interessadas em vender informações tão interessantes para as moscas e os Patrocinadores como: Tiger Woods pagou a minha lipoaspiração; Tiger Woods adora ver-me de cuecas vermelhas; a nossa relação era mais para o espiritual; Tiger Woods estava na cama comigo quando o pai lhe morreu. Etc. Esqueçam os 15 minutos de celebridade do Warhol. Isto rende uns 15 dias. O homem vai ser espremido. Enxovalhado. Enquanto houver um cêntimo a ser ganho, Tiger vai ser acusado de ter seduzido todas as mulheres do mundo, coisa que o Jorge Amado dizia que talvez não fosse possível mas devia ser tentado.

Comparadas com estas senhoras, as cabeleireiras e strippers do Clinton eram um modelo de sobriedade. E, nem de propósito, a Lewinski dos charutos foi ressuscitada esta semana.

O pecado de Woods é não saber escolher as amantes. Pensando bem, quem sabe? As mulheres cometem os mesmos erros que os homens, que não são os únicos a ter amantes. Quem não tem, nunca teve e nunca terá amantes são os senhores da Accenture, essa multinacional saudável e fidelíssima que veio dizer que Tiger Woods não era o modelo de atleta que eles queriam. Não era suficientemente limpo. Nem quimicamente puro. Cortaram-lhe o Patrocínio. Pensavam eles que ser o maior atleta do mundo era assim uma coisa fácil e sem stress. Umas tacadas e dá cá o cheque. Tiger (Tiger???) casadíssimo, a beber água e a confessar-se. E a viver com a sogra na Florida.

Tiger disse que abandona o golfe para ser melhor pai e marido. Aqui, as moscas disseram: isto não nos convém. Acrescentaram: o tipo vai continuar a valer milhões quando regressar aos greens porque é o maior golfista do mundo. E remataram: isto é uma desgraça, o golfe perdeu a graça. As moscas e as meretrizes acrescentaram a sua perdição: sem Tiger não há escândalo e sem escândalo não há cheta. As moscas remataram: quem conseguir tirar uma foto dele agora está milionário. Espremam o limão até ao fim.

Corre, Tiger! E não ponhas os pés na Oprah nem peças desculpa. Dá-lhes taco a taco.

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:01 Quinta-feira, 24 de Dez de 2009
Comer melhor não significa comer mais caro. Significa tempo e paciência.

Tornei-me uma foodie. Uma foodie é alguém que gosta muito de comida, de ver, de preparar, de comer. Gostar é quase amar, é assim como um fogo que arde sem se ver. Ou seja, foodie não apenas como paixão platónica e funcional, desconstruída e abstractizante, e sim como lírico e camoniano amor. Se, depois do abstractizante e do desconstruído, os leitores ainda estão comigo, podem continuar, prometo que não volta a acontecer.

Foodie. Ou, como diriam os ingleses vistos na perspectiva do saudoso Laurodérmio (ressuscitado no DVD da série do "Herman Enciclopédia", de longe a melhor coisa que se fez em Portugal em humor, a mais inteligente, a mais revolucionária, a mais obscenamente livre), "da fóóóodai". Ou, como diriam os verdadeiros ingleses, "da fuuuedie". Um foodie, ou uma foodie, não pode ser confundido com o guloso ou a sua forma mais extrema e prevaricadora, o glutão. O foodie não é gordo, não é gorduroso e não é fácil de aturar, porque é exigente. Não é vegetariano, nem biológico, nem macrobiótico, nem orgânico. Não é verde, nem vermelho, nem ecologista, nem transgénico. É alguém que compra alimentos frescos, que aprecia mercados como La Boqueria, de Barcelona, e que foge de hipermercados e ultracongelados. É alguém que não gosta muito de muitos restaurantes, a não ser, como na anedota, pelo convívio. Quando digo restaurantes não estou a falar de estrelas Michelin nem de listas elitistas, estou a falar de restaurantes normais, sendo certo que prefiro uma tasca de ruela e vinho da casa e um restaurantezinho familiar escondido no meio do sobrado e da cal do Alentejo às espumas e rendas carbónicas de Ferran Adrià. Embora um Château d'Yquem seja um Château d'Yquem. O foodie tem geografia sentimental. E hábitos. Um foodie prefere passar fome a comer depressa e em pé.

Muitos restaurantes nem sempre estão à altura da gastronomia portuguesa, com reconhecidas excepções. Não sabem temperar uma salada, não sabem usar especiarias, não sabem usar o frigorífico, não sabem prescindir do pão eléctrico e vácuo, não sabem a diferença entre cru e curado, não sabem comprar peixe nem carne, não se interessam pelos pormenores. E os pormenores são a substância. Cavam-se abismos entre frango de aviário, galinha do campo e pintada, entre vazia, lombo e bochecha, entre captura e aquicultura, entre sol e estufa, entre azeite virgem e óleo, entre manteiga e margarina, entre sal e flor de sal, entre orégão seco e orégão ressequido, entre pimenta em grão e moída, entre café brasileiro e colombiano, entre tripa e morcela, entre linguiça e farinheira, entre chocolate preto e manteiga de cacau, etc., etc.

Comer melhor não significa comer mais caro. Significa tempo e paciência. A comida orgânica teve anos de má reputação. Tudo era murcho, amarelado e decadente. A maçã era pequenina e bichada, a uva era aguada, a carne era incolor, insípida e inodora, os ovos eram brancos e brancos em vez de amarelos e brancos. Hoje, a comida orgânica, sem aditivos nem conservantes, sem químicos nem pesticidas, é de grande qualidade. Pode ser cultivada numa escala de jardim. Dois palmos de terra bastam para as ervas. Manjericão (o tomate sem o manjericão fica viúvo), estragão, salsa, hortelã, rosmaninho, funcho, segurelha... e cuidado com os caracóis.

Em Londres, existem várias lojas do empório Whole Foods, uma cadeia que nasceu na Califórnia e que pertence a uma filosofia foodie que descende da senhora Alice Waters, fundadora do restaurante californiano Chez Panisse. Waters dedica-se agora a fazer com que as escolas americanas comecem a adoptar menus saudáveis em vez de fast food e doces de fábrica. Os foodies, bem entendido, são adeptos da slow food, da comida com vagar e sem linhas de montagem.

Nos mercados Whole Foods encontra-se tudo e tudo é bom e fresco. Os fornecedores, da carne à fruta, do peixe aos secos e molhados, contam a história das suas quintas e da sua relação com o que fazem. Há revistas, receitas, cursos de cozinha, provas de vinhos, encontros de foodies, palestras e viagens. Como um clube, exactamente. Com site na Internet.

Uma educação sobre o que comemos sem o proselitismo desagradável. Na minha infância, quase toda a comida era assim. Whole. Uma gema de ovo batida com cerveja preta, canela e açúcar amarelo dava um lanche. Os pêssegos sabiam a néctar e no Outono confeccionavam-se compotas com a fruta mole. Quem provou um doce de figo e paus de canela ou de abóbora amarela, sabe do que falo. Morno. Espalmado em fatias de pão de trigo. Huummm. Ver o filme "Julia e Julie", de Nora Ephron, sobre Julia Child, é o presente de Natal do foodie. Delicioso. Delicious. Ou, como diriam os ingleses, "delaichoses".

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009

 

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:01 Quinta-feira, 17 de Dez de 2009

Nas fotografias, Aminetu Haidar nem sempre aparece com a cara e os óculos severos, o véu na cabeça. No Google, surge com a cara ensanguentada, como se tivesse sido vergastada, espancada. Nos anos em que esteve desaparecida nas masmorras marroquinas que punem e torturam os sarauís que se recusam a aceitar a ocupação como um facto consumado, Aminetu deve ter sofrido a privação de todos os direitos, liberdades e garantias tão caros ao Ocidente e que são constitutivos da nossa democracia e sistemas político e judicial. Agora, num vão do aeroporto de Lanzarote, em greve da fome apenas quebrada por água e açúcar e recusando assistência médica e alimentação forçada, Aminetu espera a morte.

Disto nada percebemos. Podemos escrever milhares de páginas sobre direitos e deveres, liberdade ou morte, vítimas e carrascos, e continuaremos a não perceber de que falamos quando falamos de greves da fome em nome de causas, ou do direito a morrer por um símbolo. Uma luta. Uma terra. Percebemos melhor a escolha de matar por um princípio de liberdade do que a escolha de morrer por ele. Nos tempos que correm, estas escolhas são mal entendidas e reputadas como inúteis ou encenadas. Muitos comentam, do conforto da almofada, que o facto de Aminetu ter escrito Sara Ocidental no formulário de entrada no aeroporto de El Aaiún (regressava de uma viagem ao estrangeiro com passaporte marroquino, o único que possui) e assim ter visto o passaporte e documentos confiscados e ter sido empurrada para dentro de um avião de regresso a Espanha, Lanzarote, é um disparate. Um disparate e uma teimosia que lhe custarão a saúde ou a vida. Nos movimentos de libertação e nas revoluções, são justamente estes disparates que lançam a luz sobre as causas e os silêncios das causas. Há quem ache, como achou Arafat na juventude, que o silêncio ensurdecedor que rodeia as causas perdidas justificam o terrorismo e o assassínio de inocentes. Aminetu prefere morrer de fome.

O sacrifício pacífico fará dela não uma mártir, palavra idiota, e sim um altifalante, um megafone, uma voz que está a ser ouvida em muitas partes, pela primeira vez em décadas. A luta do povo sarauí, e sobretudo a incapacidade de se arranjar uma solução politicamente negociada para este problema, é uma das vergonhas do século XX. Marrocos, com a cumplicidade activa da Espanha, sabe que não poderá fazer parte de uma Europa democrática enquanto este problema não for resolvido ou discutido. Não se trata apenas da sua integridade territorial, trata-se de dar direitos e representação política a um povo que foi abandonado no deserto e colocado atrás do muro. Muito mais fácil de resolver do que o conflito israelo-palestiniano, este conflito mantém-se porque ninguém se preocupa. E porque os sarauís são, no contexto internacional (leia-se americano), coisa pequena, coisa pouca. Um povo de pedintes que vive da ajuda internacional. Podemos dormir descansados.

Noutro lugar, um lugar civilizado, uma mulher foi condenada pelo homicídio de outra mulher. A jovem americana Amanda Knox, à qual foi concedida uma cara angélica, foi considerada culpada pelo júri italiano de ter assassinado, com dois cúmplices, uma colega, a inglesa Meredith Kercher. Duas estudantes estrangeiras em Perugia. Um mistério de Agatha Christie deu episódio do "CSI". O caso tem os ingredientes do escândalo sexual e do hedonismo. A inglesa teve a garganta cortada e terá padecido uma longa e sangrenta agonia. O caso contra Amanda, o namorado italiano (de duas semanas) e um nacional da Costa do Marfim, dealer de drogas e ladrão, é um caso de alguma solidez. Sendo americana, os media e organizações americanas trataram do assunto.

A América, com um sistema que autoriza a pena de morte, sente-se no direito de julgar os italianos por causa de um dos seus cidadãos que foi apanhado por outra ordem jurídica. Não se trata tanto de saber se a prova é conclusiva ou o veredicto sólido, trata-se da espuma de arrogância que vem ao de cima neste caso. Disto, eles percebem tudo. Nos media americanos, Amanda foi retratada como um anjo, a vítima foi ignorada e, como sempre, reconduzida ao papel da culpada. Gente que devia saber melhor, causídicos e jornalistas, procuradores, peritos, opinam que Amanda é vítima de um sistema penal inferior e que nada autoriza um não americano a julgar um americano. Extraordinárias afirmações xenófobas foram produzidas. Os italianos seriam, enfim, uns primitivos. Incapazes de uma decisão justa. "Le monde c'est moi", grita a América no púlpito. Nesse lugar utópico e narcísico, Amanda Knox existe, Aminetu Haidar não existe. E o que não existe para a América não existe para o resto do mundo.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009

 

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:01 Quinta-feira, 10 de Dez de 2009
Moore é um produto da liberdade do sistema. Isso não o torna menos lúcido nem mais estúpido.

A democracia e a tecnologia aliaram-se para nos dar a ilusão de que controlamos o mundo à nossa volta. De que somos parte dele, de que condicionamos as suas decisões maiores, de que participamos na marcha da história. Na democracia digital e na sociedade de informação, com tempos reais e virtuais equivalentes, e com uma aceleração brutal dos acessos aos acontecimentos e da produção de acontecimentos, criou-se o milagre da interactividade e da produção de informação para dar ao cidadão a ilusão de que ele tem poder sobre o que lhe acontece. Na verdade, esse poder é reduzido todos os dias.

O cidadão digital pode tudo: criar falsidades, cometer crimes e aliciar criminosos, inventar factos e religiões, comprar e vender coisas e seres humanos; pode vigiar, copiar, mentir, devassar, arquivar, identificar. Pode ser jornalista, juiz, polícia, político, general, assassino, espião, mafioso, ladrão, traficante, burlão, proxeneta. Pode ser o que quiser e quem quiser. Anonimamente. A sua liberdade e impunidade estão asseguradas. Pode matar, pode recrutar, pode vingar-se. Pode produzir o caos ou a ordem. E o que nos resta? O protesto e a indignação, que são geridos por uma indústria rentável, de que o jornalismo, o cinema, a literatura, as artes, a publicidade fazem parte. Vivemos na era da indignação que esconde a ausência de controlo e, pela infinita réplica e repetição, gera a indiferença. Debaixo de um indignado está muitas vezes um cobarde.

As ordens jurídicas ainda não estão na era digital. E, quando lá chegarem, tudo o que fizerem estará irremediavelmente obsoleto. Somos devorados pelo ecrã, como no filme de Cronenberg.

Não se trata de lutar contra o estado das coisas. As novas ferramentas são atraentes. Trata-se de saber que nós não controlamos o processo. E esperamos que os que o controlam saibam o que estão a fazer. O nosso problema, o das democracias civilizadas e das sociedades de abundância e direitos humanos, é o da aprendizagem com os erros e do estabelecimento dos limites. Não aprendemos e desconfiamos dos limites. Porque o ethos do tempo se resume a uma frase: quero o mundo e quero-o agora. Jim Morrison, que gritava isto, estoirou. Eram outros tempos. Agora, twittava para aliviar o stresse.

Num mundo virtual, nada mais virtual do que o dinheiro. Dantes, nos filmes policiais, os bandidos tinham malas com dólares. Agora, fazem transferências para contas secretas e paraísos fiscais. Há um ano, diziam-nos que tínhamos de poupar (dinheiro, combustível, papel, água, etc.) e que os ricos estavam a ficar pobres. Um ano depois, o que aprendemos com o crash? Nada. Os bancos continuam a fazer as trapaças que sempre fizeram, os que controlam o sistema financeiro (e a regulação) continuam a controlá-lo, os que corrompem e se deixam corromper continuam a fazer negócios, os que administram o mundo (com direito a bónus) continuam a administrá-lo. Nós continuamos sem perceber e sem querer perceber.

Envolve matemática. E pensamento. Envolve controlo. Sarkozy, um propagandista, falou em acabar com os offshores, etc. A Europa de Barroso tem uma agenda climática e digital. E deixem os bancos em paz. A crise passou. O capitalismo triunfa. Pena tantos desempregados. Madoff, o Bibi americano, foi preso. E nós, europeus insolventes, enquanto o aumento das taxas de juro, a inflação e o défice não nos comem, continuamos a pagar tudo. Os desempregados, os capitalistas, os gastos dos nossos representantes, as reformas milionárias, os privilégios corporativos, os salários dos administradores e reguladores. A crise. Nós, os contribuintes, gostamos de temas frívolos ou policiais (o drama judicial português é um reality show) para nos entretermos. Nós, os media, estamos no infotainement. E ninguém sabe muito bem o que se passa.

O filme de Michael Moore, "Capitalismo, Uma História de Amor", é muito claro. Faz a luz sobre a obscuridade. Mostra pessoas feias, gordas, pobres, desprotegidas, expulsas. Pessoas que Hollywood ignora e o sistema aniquila. Moore é um produto da liberdade do sistema, é certo. Isso não o torna menos lúcido nem mais estúpido. Nem o impede de dizer e provar que o rei vai nu. Ia nu. Irá nu.

Nota: Circula na Net mais um FALSO texto com a minha assinatura; truncado, com frases de uma crónica publicada no Expresso, uma crítica ao sistema de Justiça. A coberto de um FALSO endereço de Gmail com o meu nome, as pessoas pensam que sou eu que envio o texto. E o texto FALSO é citado, linkado, recitado, relinkado. O FALSO texto usa termos truculentos e idiotas. Que fazer? Entregar, por ironia, o caso à Justiça? Não me parece.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009

 

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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:01 Quinta-feira, 3 de Dez de 2009
Nada me enraivece mais do que a violência contra gente que não se pode defender. Contra animais.

"Primeiro levaram os comunistas, eu calei-me, porque não era comunista. Quando levaram os sociais-democratas, eu calei-me, porque não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque não era judeu. Quando me levaram, já não havia quem protestasse".

A frase, ou o poema, é o que resta de um conjunto de declarações avulsas e obscuras de Martin Niemöller (1892-1984), um pastor luterano alemão que foi internado pelos nazis em campos de concentração. Niemöller, que começou por ter sintomas de anti-semitismo e tentou 'dialogar' com Hitler, acabou um dos mais vigorosos críticos da indiferença do povo alemão perante a política de extermínio. Na vulgata, aquelas palavras circulam mais ou menos assim, um brevíssimo tratado da indiferença. E são erradamente atribuídas a Bertolt Brecht, que escreveu contra essa indiferença. A indiferença que prefere voltar as costas à acção. A indiferença da cegueira voluntária.

Quantas vezes ficaremos em silêncio perante a atrocidade? Não a atrocidade que vem descrita nos media e impele ao julgamento ou linchamento colectivo. A atrocidade do vizinho do lado. A atrocidade vulgar e quotidiana, com o sarro da crueldade repetida.

Uma pessoa conta-me uma história: tem uns vizinhos (imigrantes brasileiros) que têm um cão, há mais de um ano. O cão está sempre abandonado no quintal, sem comida e sem água, e alguns vizinhos têm pena do animal e atiram-lhe comida, ou um pouco de água que ele possa lamber, pela janela. Ouvem-no "chorar". Espiam-lhe os ossos saídos. Os brasileiros são agressivos e não admitem maltratar o cão. Por terem atirado comida ao cão, os donos do cão arrombam uma das caixas do correio. Deixam na caixa arrombada um hambúrguer cru. A pessoa não tem meios para colocar uma nova caixa de correio, o prédio é modesto.

Os donos do cão acabam por dizer-lhe que não era para ela, o hambúrguer. Enganaram-se. A caixa fica arrombada. Ninguém denuncia, não vale a pena, acham.

Um dia destas, alguns vizinhos ouvem o cão ganir. Alguns. Estendido no quintal com um pano por cima. Parece estar a morrer. Não se mexe, sem forças. Outra pessoa vai inquirir, a medo, o que se passa com o cão. Foi atropelado. E não o levam ao veterinário? Vão deixá-lo morrer assim? Não conseguiram telefonar, ninguém atendeu os telefones, etc. O cão morre lentamente. Horas depois, levam o cão, embrulhado no pano, e metem-no na bagageira do carro. Vivo. O cão desapareceu. Ninguém sabe se foi internado ou abandonado para morrer.

Quando me contam a história sinto que qualquer coisa deve ser feita. O quê? A pessoa pede-me que nada faça. Uma denúncia à Sociedade Protectora dos Animais? O Código Penal não prevê tutela destes casos. Decido falar com os donos do cão. A palavra dono é importante. A pessoa que me conta a história diz que não tenho nada que intervir, nem causar-lhe problemas com "os brasileiros" que ameaçam toda a gente. Eles são os donos. Talvez o cão regresse.

Lembro-me como detestava ouvir a "carroça dos cães", que vinha de noite apanhar os cães vadios. Matavam-nos com uma injecção no canil oficial. Os cães gemiam aterrorizados dentro da furgoneta sem janelas. Chamavam-lhe "carroça dos cães". Um dia, há muitos anos, vejo um cão ser apanhado. Com uma rede. O rafeiro debate-se, dão-lhe com um pau. Eu era uma criança, nada podia fazer. A sensação de impotência ficou-me. Os tempos mudaram. Hoje, os cães são recolhidos e alimentados no canil da Câmara Municipal. Podem ser adoptados.

Nada me enraivece mais do que a violência contra gente que não se pode defender. Contra animais. São casos em que, muitas vezes, as mulheres, as crianças e os cães têm um 'dono'. E têm medo. Num restaurante de luxo do Algarve vejo um grupo de homens ligados ao futebol sentados com mulheres. Uma delas não é muito nova e tem a cara esmurrada, olhos negros, lábio inchado. Tapa-a com as mãos. Os olhos lacrimejam de vergonha. O dono ri-se, diz-lhe que pode comer com metade da boca. O restaurante assiste, como eu.

Vejo um pai bater no filho perante a indiferença da mãe. Bofetadas e socos. A criança deve ter uns 4 anos e é arrastada pelos cabelos. Há testemunhas. Intervenho e o pai diz que me bate. Falo com a mãe e começa a chorar, pede-me que nada faça. Chamo a polícia. A polícia encolhe os ombros. As testemunhas fugiram, alegando afazeres. Se quiséssemos ir à esquadra... O dono do filho diz que me meti numa birra de criança que não era da minha conta. Diz que me processa. Na despedida, ameaça passar-me com o carro por cima. A criança treme nos braços dele. Sinto-me insuficiente. A claridade moral não nos cega, nós é que escolhemos fechar os olhos. Ainda não sei como termina a história do cão.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009 

 

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