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João Pereira Coutinho

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João Pereira Coutinho
8:00 Segunda-feira, 16 de Fev de 2009
Inferno

Mário Soares

Gosto de ler o dr. Mário Soares: quando tenho alguma dúvida sobre a opinião média da esquerda antiliberal, o dr. Soares é o termómetro perfeito para medir a temperatura da tribo. Agora, na sua prosa semanal para o "DN", o dr. Soares informa-nos que o Presidente Barack Obama "continua a não perder tempo" na construção do mundo fraterno e glorioso que prometeu no seu discurso inaugural. E, a título de exemplo, o dr. Soares cita as nobres intenções do Presidente em controlar os gastos da sua equipa e a forma contumaz como verberou as roubalheiras da alta finança.

Curiosamente, e talvez por esquecimento, o dr. Soares não parece ter reparado nas duas medidas mais importantes da nova administração Obama até ao momento.

A primeira foi a intenção de encerrar Guantánamo (aplausos), mas não a de abolir a tortura por completo (o quê?). Verdade que, na sua deliciosa retórica, Obama deseja limpar a imagem moral da América, proibindo a tortura tout court. Mas, na prática, "técnicas de excepção" no interrogatório a terroristas perigosos (uma forma simpática de tortura a la carte) continuarão a ser autorizadas pelo Presidente. O dr. Soares, pelos vistos, não deu por nada.

Como também não deu pela intenção da nova administração em continuar o rapto secreto e a transferência de prisioneiros para países aliados dos Estados Unidos - as célebres "rendições" que tanto indignaram o dr. Soares no passado.

Percebe-se. Uma coisa era ter Bush a torturar e a raptar por aí. Outra, bem diferente, é ser Obama a fazê-lo com a pinta cool que manifestamente faz as delícias do nosso Mário.

Purgartório

Charles Darwin

Passaram 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin e a imprensa nativa, fazendo eco das festividades internacionais, dedicou algumas páginas ao senhor. Nada mais justo: Darwin alterou radicalmente a nossa visão sobre o Homem. Sobre as suas origens, comportamentos e capacidades. Pena que, no meio das celebrações, algumas perguntas tenham ficado por fazer.

São precisamente essas perguntas em falta que podemos encontrar num dos melhores livros sobre o evolucionismo e os seus limites; um livro que, infelizmente, não vi citado na revisão da bibliografia especializada. Intitula-se "Beyong Evolution" (Oxford University Press), foi escrito por um antigo professor meu (Anthony O'Hear) e pretende defender que alguns aspectos da nossa humanidade não encontram resposta nas teorias evolucionistas, centradas em questões de sobrevivência e reprodução. A nossa busca desinteressada de conhecimento; o nosso amor pela verdade; e até a abertura do humano para o belo e o sublime são comportamentos que parecem desmentir Darwin e, em certos casos, remam directamente contra ele.

Um dos exemplos mais caros a O'Hear é Sócrates (o filósofo), condenado à morte na Antiguidade helénica. O'Hear pergunta: porque motivo Sócrates aceitou as leis da cidade, recusando-se a fugir de Atenas? O'Hear responde: porque a fuga seria desonrosa para o próprio. E são precisamente conceitos tão antidarwinistas como este - conceitos de "honra", "sacrifício", "nobreza de espírito" - que, 200 anos depois, continuam a intrigar os símios.

Paraíso

Expresso

Hoje é dia dos namorados e eu, rapaz romântico, termino aqui uma relação de cinco anos por decisão estritamente pessoal. Falo da minha relação com o Expresso, claro, e não posso deixar de partir com alguma frustração à mistura. Entendam: eu faço parte de uma geração que cresceu com o semanário "O Independente". E fazer parte dessa geração implicava olhar para o Expresso como o "saco de papel" institucional e cinzento, onde a liberdade criativa não abundava. O Expresso era o inimigo: na filosofia e nas vendas. Abominar o Expresso era o dever de qualquer colunista "conservador" que se prezasse.

Pois bem, estes cinco anos de colaboração com o Expresso foram a prova semanal de que estava errado. Com José António Saraiva, primeiro; e com Henrique Monteiro, depois, o Expresso foi, ironia das ironias, um prolongamento natural da doce liberdade, e da doce inconsciência, que eu bebi no "Independente". Sim, era bom bater com a porta, armar barraca, acusar o Expresso de maldades várias. Mas o Expresso é um desmancha-prazeres: nesta casa, escrevi sempre o que quis, como quis, onde quis. E, pior, directores e editores foram permitindo e apoiando, sem pressões, sugestões ou hesitações de qualquer espécie, os meus recorrentes números jornalísticos. Se falhei, falhei por mim. Se acertei, foi por minha conta e risco. É pouco?

Não, leitores. É tudo. A liberdade é a condição básica de que vive qualquer colunista. Hoje, cinco anos depois, saio como entrei: grato e de cabeça limpa.

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8:00 Segunda-feira, 9 de Fev de 2009
Inferno

José Sócrates

Comecemos pelo básico: em nenhum momento me passa pela cabeça que José Sócrates enfiou dinheiro ao bolso quando era ministro do Ambiente. O meu cepticismo é inteiramente racional: pactuar com a corrupção no caso Freeport não teria sido apenas um acto grave, a merecer punição criminal; teria sido um acto de uma clamorosa e quase inacreditável estupidez. Uma coisa é assinar uns projectos na província ou sacar uma licenciatura no mínimo bisonha. Outra, bem diferente, é hipotecar o futuro político com um acto tão rasteiro e, a prazo, tão obviamente explosivo. Acreditar nisto seria passar um atestado de imbecilidade ao primeiro-ministro que eu nem sequer reservo para o meu cágado.

Dito isto, é no mínimo confrangedor assistir ao espectáculo que o eng. Sócrates tem oferecido ao país: uma gritaria contra "poderes ocultos" que, no essencial, se limita a atirar lama sobre partidos, órgãos de informação e sobre o próprio sistema judicial de que ele devia ser o primeiro defensor. A gritaria, para além de indigna, é deslocada: a investigação em curso, moribunda por obra e graça dos indígenas, ressuscitou por iniciativa inglesa.

De Sócrates esperavam-se duas atitudes: serenidade e, já agora, uma total abertura para, como escreveu Henrique Monteiro, disponibilizar as suas pessoalíssimas contas ou negócios. Sem falar do resto: um esclarecimento detalhado sobre a celeridade no licenciamento do Freeport, a mudança da Zona de Protecção Especial e as reuniões que teve, ou não teve, com os responsáveis pelo outlet. Começa a ser hora de Sócrates se comportar, verdadeiramente, como um inocente.

Purgatório

Simone Weil

Na passada terça-feira, passaram cem anos sobre o nascimento de Simone Weil. Não dei pelos festejos. Felizmente. Não que Simone Weil não tenha algumas virtudes que seria absurdo negar: nos inícios da década de 30, quando a maioria da intelectualidade francesa olhava para Moscovo com os olhos rasos de admiração e louvor, Weil recusava-se. O estalinismo, dizia ela, era uma tirania sanguinária e desumana, à imagem da tirania sanguinária e desumana que um certo cabo austríaco, de bigodinho ridículo, se preparava para construir na Alemanha. Hoje, ver o comunismo e o nazismo como duas faces da mesma moeda pode parecer um truísmo. Não era na França de 1930.

Infelizmente, as condenações antitotalitárias de Simone Weil não foram ao fundo do problema. E não deixa de ser desconfortável que, nas inúmeras páginas dedicadas às monstruosidades do Reich, o pormenor do anti-semitismo lhe tenha escapado. A ela, judia de ascendência, que sempre olhou para esta desconfortável identidade com uma repugnância só comparável à de Marx (et pour cause...).

Não admira que, neste nojo de si própria, o que mais tenha perturbado Weil no colaboracionismo de Vichy não tenha sido necessariamente a legislação anti-semita emanada do governo; mas a intolerável hipótese da França, a sua França, a tratar a ela como judia. A vida de Simone Weil foi uma recorrente identificação com o sofrimento dos outros - o proletariado que ela praticamente "santificou" num processo de mimetismo masoquista que a levou à morte por inanição. Mas nesta partilha do sofrimento, a compaixão de Weil parou às portas da sua própria tribo.

Paraíso

José Saramago

Para os intelectuais portugueses com espaço na imprensa ou nos blogues sofrem de um mal recorrente. É o síndroma Idi Amin. Em que consiste essa terrível maleita? Como o nome indica, ela retoma um comportamento assaz bizarro de Idi Amin, o antigo ditador africano que não ficou na História, apenas, pelas suas tendências canibais. Idi Amin tinha o hábito de enviar aos grandes do mundo alguns bilhetes da sua lavra, com conselhos económicos ou políticos. Se a economia americana abrandava, por exemplo, Idi Amin escrevia a Ronald Reagan e exortava-o a poupar. Se a insegurança crescia na Grã-Bretanha, o canibal Amin aconselhava a sra. Thatcher a investir nas forças policiais.

Morto Idi Amin, seria de temer que os grandes do mundo se sentissem perdidos sem uma voz amiga disposta a socorrê-los. Mas o espírito de Amin sobreviveu ao próprio e não existe plumitivo português que não escreva os seus bilhetes com a certeza de que eles serão lidos em Washington. O último cultor desta escola é José Saramago, que no seu hilariante blogue fala directamente para Hillary Clinton, convidando-a a abandonar o nome do marido e a assumir o seu Rodham de nascença. Saramago deplora a subjugação da mulher ao poder onomástico do homem e não tem pudor em dizê-lo, directamente, à sra. Clinton, perdão, à sra. Rodham.

Infelizmente, e como o próprio reconheceu em momento fugaz de lucidez, a Casa Branca não se pronunciou sobre os conselhos de Saramago. Uma desfeita que, em nome do riso, não deverá inibir Saramago de continuar o exemplo de Idi Amin. O canibalismo, claro, é opcional.

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8:00 Segunda-feira, 2 de Fev de 2009

Inferno

Assembleia Municipal de Lisboa

Ninguém nega que o estado de conservação patrimonial de Lisboa já conheceu melhores dias. Em certas ruas, para não falar de bairros inteiros, Lisboa lembra Gaza, sobretudo depois da passagem do exército israelita pela Faixa. Mas talvez seja excessivo procurar geminar a capital portuguesa com a cidade palestiniana, ao contrário do que pensa a Assembleia Municipal de Lisboa. Segundo sei, a dita Assembleia resolveu aprovar uma proposta lunática do Bloco de Esquerda para o efeito. Para além do Bloco, o PC-PEV também votou a favor. E o PS, o PSD e o CDS-PP, provavelmente para não estragarem a festa, ficaram-se pela abstenção.

Longe de mim vergastar a iniciativa do Bloco e o apoio dos comunistas e dos verdes. Metaforicamente falando, faz parte da natureza das coisas não desejar que uma mula se converta num cavalo. Mas o que mais impressiona nesta edificante história é a abstenção de três partidos políticos alegadamente "responsáveis". O PS, o PSD e o CDS-PP, pelos vistos, não consideraram bizarro, ou até ofensivo, que a capital portuguesa seja equiparada a uma cidade onde reina um grupo terrorista, financiado e treinado pela teocracia iraniana, e que serve de rampa de lançamento de rockets para que a quadrilha possa matar indiscriminadamente o maior número possível de civis israelitas.

Em condições normais, eu diria que os lisboetas mereciam melhor. Mas, atendendo à composição da Assembleia que os próprios elegeram, o mais certo é eles terem o que merecem.

Purgatório

Richard Nixon

Escrevi há tempos que Bush será julgado pela história. E a história nem sempre coincide com a opinião transitória dos homens. Exemplos? Warren Harding deixou a Casa Branca (na horizontal) sob aplausos. Hoje, Harding é consensualmente considerado um dos piores presidentes americanos. O inverso também acontece: figuras que partiram sob assobios e regressaram, décadas depois, pela porta grande da história. Truman é um caso. Nixon é outro. Sim, houve Watergate e a resignação. Mas também a abertura de relações com Pequim e o fim do Vietname, essa sangria iniciada por Sua Alteza Real, John F. Kennedy.

Mas se a história já começou a reavaliar a presidência de Nixon, falta ainda um retrato cinematográfico capaz de lidar com a complexidade psicológica do homem, provavelmente só comparável à de Lincoln.

Infelizmente, Nixon não tem um John Ford para o filmar. Não teve em Oliver Stone. E não tem em Ron Howard, que em "Frost/Nixon" encena, com competência mediana, o entrevista-combate entre David Frost e o presidente. O resultado é tépido e Frank Langella, que tive a sorte de ver nos palcos da Broadway como Thomas More em "A Man For All Seasons", é uma colecção de tiques e esgares que jamais consegue revelar as profundezas de Nixon. Dizem que Langella, pelo boneco, foi nomeado para o óscar respectivo. Incompreensível. E tardio. Langella já devia ter recolhido a estatueta há dois anos, com um filme que, inexplicavelmente, não estreou em Portugal. Intitula-se "Starting Out in the Evening" e é o mais perfeito retrato que vi em cinema sobre a vida de um escritor.

Paraíso

Paul Johnson

Terminei há tempos uma biografia de V.S. Naipaul escrita por Patrick French ("The World Is What It Is"). Verdade que Naipaul, de passagem por Lisboa, verberou essa biografia, apesar de French a designar por "autorizada". Mas, para o caso, tanto faz: o livro é um prodígio narrativo e, ao contrário do que se escreveu, não macula a importância da prosa de Naipaul. Saber que o escritor era infiel à mulher e espancava regularmente a amante pode alegrar a curiosidade dos simples; não atinge a obra porque a obra não pretende ensinar à Humanidade (com maiúscula) nenhum tipo de conduta virtuosa. Esse, aliás, é o teste supremo para a pergunta suprema: a vida privada de um intelectual é importante para qualificar a obra? Depende do intelectual. Se ele veste as roupas de um moralista e procura ensinar aos outros o que é incapaz de praticar em casa, eu, confesso, não sou cliente da hipocrisia.

Por isso aplaudo a publicação portuguesa do clássico de Paul Johnson, "Intelectuais" (Guerra & Paz). Recuando ao século XVIII, ou seja, ao momento em que o declínio do clero fez emergir a figura imponente do "intelectual" secular, Johnson vai analisando o papel público de nomes como Rousseau, Marx, Brecht ou Sartre à luz das suas condutas privadas.

O retrato não é bonito. E não é bonito porque, ao negarem em privado o que procuravam impingir aos outros, a obra destas personagens surge sob uma luz postiça e vulgar.
A conclusão de Johnson é certeira e glacial: quem espera pelo papel salvífico dos "intelectuais" esquece-se de perguntar que tipo de gente se esconde por trás dos seus sermões.

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8:00 Segunda-feira, 26 de Jan de 2009

Inferno

Cristiano Ronaldo

Saio para a rua e descubro que a cara de Ronaldo está em todos os jornais: um rosto vulgar, adiposo, deslumbrado - e o cabelo em forma de crista galinácea, uma agressão estética que faz sucesso entre os lusitanos. Parece que o mundo andou a discutir seriamente se Ronaldo era o melhor jogador de futebol. E respondeu que sim. A ideia já é suficientemente infantil para merecer comentário: centenas de adultos, mergulhados em reflexão aturada, em busca das chuteiras geniais.

Mas o pior veio a seguir: páginas e debates com declarações embaraçosamente homoeróticas. São as pernas de Ronaldo. O tronco. A elegância. Não sei se alguém falou dos mamilos, mas é possível. Verdade que o futebol sempre serviu para isto: para que os homens pudessem expressar as suas pulsões homossexuais sem sentimento de culpa. Só assim é possível explicar a paixão masculina por rapazes de calções curtos, a correrem pelo campo e, em caso de golo, a abraçarem-se e a acariciarem-se com os seus corpos suados.

Com Ronaldo, Portugal voltou a relembrar a natureza "gay" do futebol. Mas também lembrou outro aspecto da história pátria: a forma como nacionalizamos feitos individuais para efeitos de propaganda patriótica. Durante 48 anos, não houve atleta, cantor ou artista que a ditadura não tenha usado como símbolo colectivo.

Veio a democracia. Mas, com ela, não veio a atitude saudável de conceder aos indivíduos o que apenas lhes pertence por talento, sorte ou trabalho. O 25 de Abril, pelos vistos, não passou por aqui.

Purgatório

Barack Obama

Obama começa a sua aventura com expectativas que não são deste mundo. Onde é que eu já vi este filme? Precisamente: em 1997. Blair era o rosto da "mudança". Deu no que deu. Sem falar de outros salvadores que não são do meu tempo, como Jimmy Carter, que durou um miserável mandato.

Não desejo igual sorte a Obama e, mais, tenho certa simpatia pelo homem. Obama entendeu, e entendeu bem, que a sua vitória não o autorizava a refundar a América com os delírios radicais da praxe. Os americanos estavam cansados de Bush; mas não estavam cansados de um certo "pragmatismo" que faz parte da identidade nativa. Obama agiu em conformidade. Facto: a Energia ou a Educação, por exemplo, foram parar a mãos reconhecidamente "liberais". Mas nas pastas pesadas, como a Segurança, Obama enxotou a ideologia e optou, sensatamente, por uma certa continuidade do segundo mandato de Bush. Que o mesmo é dizer: retirar gradualmente do Iraque; não perder o Afeganistão; abrir os olhos para o Paquistão e para o Irão.

E a Economia? Os especialistas falam de um retorno a Roosevelt e à despesa federal maciça como alavanca da economia. Duvido. Obama parece propor, na verdade, uma engenhosa mistura de Roosevelt com Reagan: despesa federal, sim, mas sem esquecer um corte nos impostos para famílias e empresas como forma de garantir o consumo e o investimento. Será que chega?

Não perca a resposta nos próximos capítulos.

Paraíso

Chesley B. Sullenberger

Recebo um e-mail do meu amigo Nelson Ascher, um excelente poeta e ensaísta brasileiro, que sublinha a ironia: a presidência Bush iniciou-se verdadeiramente em 2001, quando dois aviões derrubaram as Torres Gémeas em Nova Iorque. Terminou agora, também em Nova Iorque, quando um piloto americano conseguiu aterrar de emergência em pleno rio Hudson, salvando a vida de 155 pessoas. Em 2001, o mundo começou com morte. Em 2009, terminou com vida. Na mesma cidade. Com o mesmo meio de transporte. Se me permitem o momento místico, eu diria que Deus está a enviar-nos um sinal.

Mas não é preciso invocar o divino para entender o humano: o terrorismo islâmico, que definiu a presidência Bush no melhor e no pior, ama o martírio, a destruição e a selvajaria como forma de derrotar o Ocidente infiel e idólatra; nós, lamentavelmente, somos como o capitão Chesley B. Sullenberger III: preferimos a vida e estamos dispostos a actos heróicos para a salvar. Aliás, não apenas o capitão Sullenberger. Nos dias imediatamente seguintes à proeza, li as confissões dos passageiros e notei que todos eles, no momento agónico em que o fim era certo, dedicavam os seus últimos pensamentos para os seus vivos: pais, mães, filhos. Amigos.

Sim, Bush pode ter feito merda que chegasse. Mas nos últimos oito anos, nunca duvidei de que lado ele estava. E, já agora, de que lado eu estava: do lado dos vivos e da vida. Só pensa em 72 mulheres paradisíacas quem, na verdade, é incapaz de amar uma que seja.

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8:00 Segunda-feira, 19 de Jan de 2009

Inferno

Hamas

Israel invadiu Gaza e a opinião publicada repetiu a mesma conversa que se ouve há trinta anos: o conflito entre israelitas e palestinianos não tem fim à vista. Pessoalmente, sou capaz de concordar com a última parte. Mas não concordo com a primeira. A guerra corrente não é entre Israel e os palestinianos. É apenas a primeira fase de uma guerra mais longa, e que será ainda mais destrutiva, entre Israel e o Irão. O mundo já tinha presenciado a primeira parte deste filme em 2006, quando Israel invadiu o sul do Líbano e, lamentavelmente, não exterminou o Hezbollah como devia. Esse filme está a ser repetido em Gaza: trata-se de uma luta contra um dos braços armados de Teerão, uma quadrilha de terroristas que se recusa a aceitar a simples existência de judeus na Palestina, quanto mais de um Estado para eles.

E os palestinianos? Os palestinianos, e aqui falo dos palestinianos que não votaram no Hamas e não partilham os desejos genocidas que definem a quadrilha, depois de terem sido roubados e atraiçoados pela liderança de Arafat (esse herói), são agora escudos humanos que os terroristas usam na sua gloriosa luta contra a "entidade sionista". Sem falar do dia-a-dia desta pobre gente, submetida aos rigores conhecidos da "sharia" e, desde Dezembro, da boa e velha crucificação.

Israel está a combater um inimigo fanatizado que, a prazo e com acesso a armamento nuclear, não se ficará pelo Médio Oriente. Uma luta contra os palestinianos? Antes fosse. Um dia ainda teremos saudades desse mundo passado.

Purgatório

George W. Bush

Tenho uma certa compaixão por Bush. Dificilmente encontro político contemporâneo mais trágico, no verdadeiro sentido da palavra "tragédia": alguém que vê a contingência a desabar sobre a sua cabeça atordoada e impotente. Em 2001, o homem entrava na Casa Branca com uma agenda simpática (um "conservador compassivo", lembram-se?) e uma política internacional quase isolacionista, depois das aventuras de Clinton.

Coitado. Mal ele sabia que o 11 de Setembro vinha a caminho. E o Afeganistão. E o Iraque. E uma crise económica e financeira como não se via há décadas. Só faltou mesmo um Lee Oswald no retrato para que o retrato fosse completo. Intimamente, até acredito que Bush o desejou nos momentos de maior desespero: matem-me, por favor.

Perante tudo isto, o mundo não perdeu tempo e desatou a culpar a personagem pela violência do acaso. Faz parte do pensamento primitivo atribuir as desgraças terrenas aos caprichos das divindades. Lévi-Strauss explica. O que ninguém explica é se teria sido possível fazer diferente, ou melhor: antecipar o 11 de Setembro; não atacar o Iraque, quando toda a gente acreditava no perigo de Saddam; e, já agora, evitar a loucura geral de consumidores e banqueiros, uma febre que começou com Clinton.

Na próxima terça-feira, o mundo despede-se de Bush. Com um suspiro de alívio. Mas o mundo que não se iluda. Os problemas não começaram com Bush e não terminarão com Bush. É por isso que, na hora do adeus, eu acredito que o maior suspiro será o dele.

Paraíso

"Burker king"

Não consigo enriquecer. Durante anos, tentei vender duas ideias luminosas a qualquer empresário que estivesse disposto a financiá-las. Ninguém lhes pegou. A primeira ideia era fabricar chávenas de café comestíveis: o cliente bebia o líquido e, no final, comia a chávena. Toda a gente ficava a ganhar: o cliente e, obviamente, o vendedor, que poupava trabalho e água para lavar a louça.

A segunda ideia era ainda mais brilhante: copos de água lacrados. Depois de investigação apurada, descobri que ninguém à minha volta bebia realmente uma garrafa de água até ao fim. Donde, melhor reduzir a porção e embalar um copo com água mineral de qualidade.

A primeira ideia foi rotulada de "ridícula"; a segunda, de "ilegal" - parece que a ASAE, etc. etc. Pois bem, tenho uma terceira: um perfume que seja capaz de honrar a gastronomia portuguesa. Confesso que o projecto não é inteiramente meu: tal como a chávena (que vi em Itália) e o copo (que vi no Brasil), o perfume é invenção americana, mais propriamente da Burger King, que começou a comercializar desodorizantes com cheiro a hambúrguer. Chama-se "Flame" e, segundo sei, foi a sensação comercial do Natal passado. Parece que milhares de americanos sucumbiram aos encantos da vaca grelhada e desataram a perfurmar-se com ela. Repugnante?

Gostos não se discutem. E se a ideia resultou com os americanos, não há motivo para não resultar com os portugueses. Sobretudo se adaptarmos o conceito aos costumes nativos. Se houver por aí algum empresário que esteja disposto a investir num perfume com cheiro a bacalhau, contem comigo.

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8:00 Segunda-feira, 12 de Jan de 2009

1 Não cedo à nostalgia. Mas ainda me lembro do réveillon de 2008: eu tinha menos 20 anos, menos 20 quilos e menos 20 rugas. E incomparavelmente mais cabelo. Mas tinha, sobretudo, imenso medo. Quem não tinha? O ano de 2009, dizia-se, seria o ano de todos os desastres. Era a crise económica, nascida na América e a caminho da Europa.

Vinte anos depois, olho para um retrato desse tempo e sinto saudades. Vejo-me bem: eu, ar sério e composto, na companhia de pessoas que entretanto partiram, ou me deixaram, ou que eu deixei. Sinto saudades delas, sim. E também da taça de champanhe que tenho nas mãos, uma bebida que Bruxelas acabaria por proibir pouco depois por motivos de saúde pública: descobriu-se que os vapores alcoólicos do champanhe eram prejudiciais até para os abstémios.

Mas a maior ironia é que sinto saudades do próprio ano de 2009. Que não foi perfeito, é um facto. Mas foi sereno e praticamente não deixou marcas. O ano de 2009 simplesmente não existiu.

Verdade que a economia mundial arrefeceu, como se previa. Verdade que o desemprego subiu. Verdade que, aqui e ali, em Atenas ou Paris, houve contestação social e alguma violência juvenil. Mesmo Lisboa não ficou imune a estes circos e ainda recordo o saudoso Francisco Louçã a passear-se nu pelo Chiado, com o cartaz pungente pendurado ao pescoço: "O capitalismo leva-nos tudo." Mas nada que se aproximasse do medo irracional que habitava a alma apocalíptica dos contemporâneos.

Na Europa, e só na Europa, a baixa das taxas de juro sustentou a produção, o emprego e o consumo. Portugal, governado à época por José Sócrates, não ultrapassou os 8% de desempregados, uma cifra que, hoje, com o desemprego nos dois dígitos e nas duas dúzias, nos parece inacreditável.

E mais inacreditável nos parece que a crise económica, uma crise real mas não trágica, tenha tido implicações políticas positivas. Com a queda acentuada do petróleo, que nesse tempo ainda era usado como fonte principal de energia, 2009 foi o ano em que a Venezuela começou o seu divórcio de Hugo Chávez. Com o barril a 30 dólares, Chávez acabaria corrido de Caracas alguns anos depois. Terminaria os seus dias no Hospital Che Guevara, o asilo psiquiátrico cubano onde gostava de ser tratado por "Simón Bolívar".

Não foi caso único. Com o petróleo em baixa, também o Irão viveu tempos de pausa e alguma sanidade: nos 30 anos da Revolução Islâmica, os iranianos puniram a inabilidade económica de Mahmoud Ahmadinejad, um personagem menor que, à época, era conhecido pelo seu anti-semitismo genocida. Com a eleição de Muhammad Khatami, o mundo acreditou, pelo menos durante 12 meses, que o Irão iria abandonar a sua busca insana pela bomba, o seu apoio a organizações terroristas e o seu propósito de aniquilar Israel.

2 Mas lembrar 2009 é lembrar Barack Obama. Bem sei que, depois de Obama, a América já elegeu candidatos mais improváveis, como Sarah Palin (uma mulher) ou Danny DeVito (um anão). Mas a eleição presidencial do primeiro afro-americano teve um impacto brutal nos espíritos românticos de 2009. O mundo inteiro, e a esquerda inteira, rendeu-se a Obama, esperando que o homem fosse, no essencial, tão anti-americano como o mundo era nessa altura, ou seja, depois da presidência do actual secretário-geral das Nações Unidas, George W. Bush.

Obama, pelo contrário, foi um presidente equilibrado e o seu equilíbrio frustrou lunáticos e sossegou moderados. O seu consulado teve vitórias logo em 2009: o seu plano de recuperação económica voltou a injectar confiança nos investidores; na segunda metade desse ano, a economia americana voltava a crescer de forma continuada. Mas Obama não foi apenas importante para a saúde financeira da América; o encerramento de Guantánamo refrescou a imagem moral da República no exterior.

Infelizmente, e ao contrário do que imaginava, Obama não conseguiu retirar do Iraque: houve diminuição de tropas no país. Mas foi uma diminuição pífia que se converteu rapidamente em transferência: os 40 mil que Obama retirou do Iraque acabaram no Afeganistão, a lutar contra o recrudescimento da violência talibã. Os Estados Unidos aprenderiam que a pacificação do Afeganistão não se faria sem concessões às lideranças tribais.

3 E nós? Sim, nós, nesta Europa envelhecida e amedrontada?

Lembro-me que houve eleições por cá. Mas as eleições europeias só surpreenderam pelo desinteresse geral: apenas 31% dos eleitores deram-se ao trabalho de votar, uma queda brutal desde os 45,6% de 2004. Curiosamente, a Europa não se perturbou grandemente com a deserção dos europeus e até respirou de alívio quando a Irlanda, pouco depois e sob chantagem de José Manuel Durão Barroso, que ameaçou suicidar-se, aprovou o Tratado de Lisboa. Estavam abertas as portas para a efectiva criação do Estado Federal onde vivemos. Durão Barroso seria reconhecido como um dos pais dos "Estados Unidos da Europa" e ainda hoje, em Bruxelas, é possível admirar uma estátua em sua homenagem: um belíssimo tritão em mármore, metade homem, metade cherne.

E se houve alívio na Europa, houve também alívio em Portugal. Recordo agora que 2009 foi ano politicamente activo em terras lusas, com eleições legislativas e autárquicas. O país não arriscou na mudança e premiou Sócrates (no país) e António Costa (em Lisboa), reelegendo Rui Rio (no Porto), antes de Rio assegurar os destinos do PSD e, posteriormente, de São Bento.

Os especialistas ainda hoje se debruçam sobre as causas da vitória absoluta de Sócrates nas legislativas de 2009. Alguns afirmam que Sócrates venceu ao dramatizar o pleito. Outros defendem que Sócrates ganhou porque a oposição desapareceu do combate. Existe alguma verdade neste raciocínio e a demissão de Manuela Ferreira Leite, em plena noite eleitoral, ilustra a fraqueza da oposição e da direita em 2009.

Com 20 anos de distância, concordo com os especialistas. Mas também acrescento que Sócrates venceu porque surgiu aos olhos do povo como um salvador virtual num ano em que as expectativas de crise eram elevadas. A baixa dos juros e dos combustíveis, que Sócrates vendeu sempre como obra sua, conquistou plateias. E uma política de assistencialismo continuado a empresas e famílias comprou as plateias que faltavam. A factura desta insanidade continuaria connosco muito depois da partida de Sócrates, que teria carreira breve como galã em Bollywood.

Mas a vitória do engenheiro não reforçou apenas o PS como o grande partido nacional. Ela projectou-se sobre Lisboa, permitindo a António Costa derrotar o mítico Santana Lopes. A derrota, apesar de tudo, foi tangencial, para pasmo da opinião ilustrada. Mas pasmo maior viria a seguir, quando Santana se retirou da política para uma vida inteiramente dedicada à oração. O país, incrédulo e até entristecido com o desaparecimento do histriónico Santana, passou os anos seguintes na expectativa do seu iminente regresso. Espera inútil. Santana, hoje com 72 anos, permanece com os monges trapistas, onde se notabilizou na doçaria. O seu menino-guerreiro, célebre pastel de abóbora com recheio de licor, foi criação sua.

4 Repito: não cedo à nostalgia. Mas gosto de olhar para a fotografia que tenho nas mãos: eu, no réveillon de 2008, na companhia de alguns fantasmas. Rostos pesados, entristecidos, apreensivos. E equivocados.

O mundo sobreviveu a uma crise económica que se revelou mais psicológica do que propriamente real. Na América, Obama não foi nenhum revolucionário ou salvador; apenas um moderado que herdou duas guerras no Médio Oriente sem conseguir terminar verdadeiramente com nenhuma delas. De Cuba, não houve diálogo nem abertura. Do Zimbabwe, também não: seria preciso esperar pela morte de Mugabe e dos fabulosos irmãos Castro para que Cuba e o Zimbabwe entrassem novamente na realidade. Houve tréguas em Israel, que depois de Golda Meir elegeria a sua segunda mulher para o mais alto cargo do Estado.

Pensando bem, 2009 foi o último ano das nossas juventudes e passou com a gentileza de uma brisa. Não admira por isso que, no réveillon seguinte, os mesmos rostos assustados do passado surgissem agora com largos sorrisos de optimismo e esperança. Nenhum de nós sabia, naquele dia 31 de Dezembro de 2009, que a verdadeira tragédia só viria em 2010.

Lisboa, 10 de Janeiro de 2029

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8:00 Segunda-feira, 5 de Jan de 2009

INFERNO

José Sócrates

José Sócrates não cessa de nos surpreender: depois de garantir que 2009 seria um ano perfeito para as famílias portuguesas, o primeiro-ministro resolveu mudar de ideias e, em mensagem natalícia, prometeu um ano "difícil e exigente". É provável que, nos próximos dias, ou nas próximas horas, o primeiro-ministro volte a mudar de ideias, negando tudo o que disse até ao momento.

As piruetas são perfeitamente compreensíveis: o eng. Sócrates não faz a mais pálida ideia de como será 2009 e vai atirando ao sabor do vento. Uma ideia, porém, parece recorrente na esquizofrenia política do eng. Sócrates: aconteça o que acontecer, ele não será culpado de nada. Pelo contrário: ele está disposto a ajudar as famílias, os trabalhadores, as empresas; e, mais, foi precisamente a coragem do seu governo que, ao pôr as contas em dia, preparou a Pátria para as tormentas futuras.

Entendo que o primeiro-ministro tenha que dizer estas coisas em ano eleitoral. Mas também acredito que, lá no fundo, existirá um grilo na consciência do primeiro-ministro que lhe dirá a verdade: o défice foi mascarado a golpes de cosmética; o assalto contumaz ao bolso dos contribuintes foi um travão ao investimento e à criação de emprego; a despesa, essa gordura do Estado, não foi atacada com seriedade; o nosso endividamento esmaga-nos e paralisa-nos; a economia portuguesa, no fundo, não está preparada para coisa nenhuma porque o governo PS desperdiçou um mandato e uma maioria. Que o eng. Sócrates lave agora as suas mãos e prometa caridade aos nativos, eis um espectáculo que não redime quatro anos. Apenas os explica.

PURGATÓRIO

Velhos

Aqui há tempos, o escritor Francisco José Viegas lamentava publicamente o desporto de certas famílias portuguesas que, em plenas festividades, têm o hábito de despejar os seus velhos nas urgências hospitalares. Imagino que o Francisco desconheça a real proporção do fenómeno. Eu próprio desconhecia, mas uma pessoa de família encarregou-se de mo explicar. Só este ano, e no hospital onde ela labuta (como médica), três velhos foram largados no recinto. Um deles trazia bilhete colado ao peito, como se fosse uma criança recém-nascida e recém-rejeitada. Os médicos já nem estranham: recebem as encomendas e dão cama e comida aos pobres. No dia seguinte, começam as formalidades para encontrar os familiares ou, pelo menos, um lar "social" onde os estacionar.

Ouvi tudo isto com certo interesse antropológico e depois perguntei internamente se não haveria solução mais cómoda para o problema. Longe de mim moralizar as famílias e esperar que elas cuidem compassivamente dos seus estorvos; a minha loucura não chega a tanto. Mas questiono se não haveria forma de manter os velhos em casa, com vantagens para as famílias. Creio que sim. Bastava que as famílias deixassem de despejar os velhos no hospital e passassem a cozinhá-los. A medida não é inteiramente original: Jonathan Swift lidou com problema idêntico na Irlanda faminta do século XVIII. E, para Swift, os pobres podiam matar a fome desde que vendessem os filhos no talho. Bem sei que as crianças são mais tenras e saborosas do que carne envelhecida. Mas com o tempero certo, até a carne mais putrefacta pode gerar saborosos pitéus (lembrar a perdiz). Num ano que se adivinha de aperto, a poupança começa em casa.

PARAÍSO

Bento XVI

Bento XVI não tem descanso: sempre que o Papa abre a boca, o mundo entra em ebulição. E porquê? A julgar por certa imprensa, que faz gala da sua própria preguiça e ignorância, o Papa atacou os homossexuais e comparou-os às ameaças humanas e climatéricas que se abatem sobre a floresta tropical. No raciocínio do Papa, o heterossexual genuíno seria como as árvores, um produto "natural" que se vê dramaticamente ameaçado pelas bichas, perdão, pelos bichos da madeira.

Uma pessoa lê estas coisas e depois, meio trémulo, vai confirmar. Eu fui. E relendo a alocução de Bento XVI à Cúria Romana no passado dia 22, não encontrei rigorosamente nada que se afastasse um milímetro da tradicional, e secular, e assaz conhecida doutrina da Igreja em matéria sexual. Uma defesa da família e do papel específico que "homens" e "mulheres" têm no matrimónio como continuadores da espécie. Donde, a comparação: proteger a família é tão importante como proteger o ambiente. O que implica, segundo Bento, não aceitar as teorias de género que defendem uma sexualidade escolhida pelos homens, e não criada por Deus e sancionada pela Natureza. O discurso do Papa é, como habitualmente, um texto denso, erudito e, na sua ortodoxia, devia merecer melhor sorte: uma discussão civilizada sobre, por exemplo, a hipótese de a homossexualidade ser também "natural", como aliás se observa nas restantes espécies - um pormenor que parece desmentir o argumento central de Bento XVI. Mas o fanatismo anticatólico não pensa nem discute, preferindo reduzir tudo a uma farsa grotesca que seja compatível com a idade mental das patrulhas. As mesmas que desataram a berrar só porque a Igreja Católica continua a ter um católico a liderá-la. Quando cresce esta gente?

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8:00 Segunda-feira, 29 de Dez de 2008
INFERNO

Manuel Alegre

Manuel Alegre esteve na televisão. Gostei de o ver: "tweed" castanho; gravata de seda no mesmo tom; e, por falar em tom, a voz do homem melhora com a idade: grave, poética, com certo travo marialva. A barba é perfeita (ler Leite de Vasconcellos, in "A Barba em Portugal") e o rosto de Alegre adquiriu feições romanescas evidentes. Um Hemingway à nossa medida, que infelizmente não escreve como o Hemingway original. Pena que Alegre continue a alimentar a fantasia de que é "dr.", permitindo que os jornalistas o tratem por um título imaginário. Não precisava. E o resto? O resto não merece comentário. Falo das dúvidas, das inquietações, das "ambiguidades" de Alegre. Ele está triste com o PS? Ele aproximou-se da esquerda radical? Ele quer criar um novo partido? Razão tinha o outro: nasce um otário a cada minuto. E Portugal está cheio deles. Basta ler a imprensa das últimas semanas e verificar o número de plumitivos que "compraram" o partido de Alegre. Consta até que alguns já se filiaram na sede do Júlio de Matos. Infelizmente, ninguém formulou a questão decisiva: Manuel Alegre está interessado em concorrer novamente contra Cavaco? Não que Alegre respondesse à pergunta. Mas a pergunta bastava para esclarecer os namoros de Alegre com a esquerda. A exacta esquerda de que ele precisa para chegar a Belém, sobretudo se Cavaco não vencer à primeira. Não admira que, em mensagem natalícia, o actual Presidente da República tenha apelado à concórdia institucional. Cavaco não falava apenas da matéria conhecida (Açores, divórcio, etc.). Falava também da matéria desconhecida: do cerco socialista que já cresce à sua volta. Enganam-se os que acreditam que Sócrates tem insónias com as tropelias de Alegre. Eu apostava um dedo (o mindinho) em como Sócrates anda feliz da vida com o seu futuro Presidente.

PURGATÓRIO

Cuecas

A crise caminha para nós e os portugueses já começaram a poupar. Mas a poupar em quê? Segundo o "Público", os portugueses ainda não cortaram nos produtos essenciais; mas já começaram a usar a tesoura nos produtos supérfluos. É o adeus aos carros. Às viagens. Aos restaurantes. Às cuecas. Peço desculpa: às cuecas? Pelos vistos, sim: diz o jornal que o negócio da roupa interior teve um rombo considerável desde que a crise mostrou as garras. E os portugueses, amedrontados, deixaram de engalanar as partes. Meu Deus: o que dizer de um povo que considera as cuecas um produto de luxo? Não sei. Mas sei, ou presumo, que muitos portugueses já andam por aí sem cuecas. Ou, em alternativa, usando cuecas em lamentável estado de conservação.

São os dramas da poupança e eu juro que não faço comentários sobre a miséria alheia. Mas, se me permitem, gostaria de agradecer publicamente à minha família em nome da miséria própria. E então recordo os últimos natais, momentos particularmente repetitivos em que a família me esmagava com quilos e quilos de cuecas. Eu recebia os presentes, alguns já nem abria, e depois questionava os céus se tanta cueca representava, no fundo, um comentário sobre a minha personalidade. Ou, pior, sobre a minha higiene pessoal. Erro meu. Durante anos, a minha família, perfeitamente sintonizada com o espírito nacional, oferecia-me autênticas jóias, autênticos rubis, autênticos diamantes. E eu, na minha selvática indiferença, limitava-me a rosnar a um canto. Prometo redimir-me. E prometo também que as últimas cuecas deste Natal já têm um destino à espera: o cofre. Com a crise que se avizinha, a cueca é um investimento sólido.

PARAÍSO

Charles Dickens

Gosto de ler Charles Dickens no Natal. Dickens é, digamos, o meu Frank Capra literário e um escritor que, no seu genial sentimentalismo "kitsch", me conquista para a quadra. Também não admira: Dickens praticamente inventou-a. Brinco? Não brinco. O Natal, este Natal, o Natal "moderno", concentrado num único dia (e numa única véspera) e tido como acontecimento privado, familiar, em que se trocam prendas e "afectos" (peço desculpa pela aberração do termo) não existia antes dos vitorianos. Existia, sim, uma festa vagamente feudal, que durava 12 dias e que era comunitária no propósito e bastante estroina no espírito. Mas tudo mudou em 1843, quando Dickens escreveu "A Christmas Charol". Não existe criatura à face da Terra que não conheça a história: Scrooge, sovina e misantropo, é visitado por Três Espíritos e converte-se ao Natal.

Vale a pena ler realmente a novela de Dickens. Porque é um prodígio de criação literária, sim. Mas também porque seremos capazes de detectar nela os traços contemporâneos do nosso Natal: a sua intimidade fraterna, comum a ricos e pobres. E com peru a acompanhar. É esta visão, revolucionária para o tempo, que os Espíritos mostram a Scrooge. E é também por causa dela que Scrooge descobre, ou redescobre, a mais antiga das verdades cristãs: a ideia de que a redenção dos homens não está fora deles: está dentro, no limite último das suas consciências. Ao pretender acordar a sociedade inglesa do século XIX para os horrores da industrialização, Dickens, talvez sem o saber, "secularizava" o cristianismo para as massas e oferecia-nos um novo Lázaro, subitamente ressuscitado para a vida - e para os outros.

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8:00 Segunda-feira, 22 de Dez de 2008

INFERNO

Brian Cowen

EU sei que ninguém repara nestas minudências. Eu, lamentavelmente, reparo. E também recordo: há seis meses, os irlandeses foram às urnas e rejeitaram o Tratado de Lisboa. Foi uma rejeição expressiva (53,4%) e, segundo as regras do jogo, não seria necessário esperar pela resposta trémula de checos ou polacos para enfiar o tratado no caixote; a rejeição irlandesa chegava e sobrava para o efeito. Acontece que a União Europeia não funciona democraticamente, ou seja, não respeita a expressão livre dos povos que a compõem. Não respeitou franceses, não respeitou holandeses. Por que motivo haveria de respeitar a pitoresca Irlanda?

Não admira que o primeiro-ministro irlandês tenha agora prometido ao casal Barroso-Sarkozy que os irlandeses voltarão às urnas para responderem "apropriadamente" no próximo ano. Verdade que Barroso e Sarkozy decidiram dar umas migalhas aos eurocépticos (um comissário por país) e sossegar a Irlanda nos assuntos fiscais, militares e sociais (leia-se "aborto"), onde não tencionam mexer. Bruxelas faz e desfaz as suas próprias regras de acordo com a conveniência das quadrilhas. Mas a decisão de Brian Cowen não é apenas um insulto aos pobres irlandeses; é também a expressão mais acabada do político "europeu": uma criatura conspirativa e mendaz, indiferente à vontade soberana do seu povo e sempre disponível para ser um mero lacaio de Bruxelas.

No meio deste horror, resta-me apenas esperar que a Irlanda não se deixe intimidar pelos seus próceres e responda como lhe compete. Roma não pagava a traidores. Que Dublin também não o faça.

PURGATÓRIO

Deputados

O problema do PSD não está na qualidade política da sua liderança. Está na qualidade intelectual dos anões que a compõem: se Manuela Ferreira Leite e Paulo Rangel fossem leitores atentos de Maquiavel, os 30 deputados que não puseram os pés no Parlamento no passado dia 5 não estariam a ser grosseiramente ameaçados com vigilâncias e expulsões das listas. Pelo contrário: estariam a ser reconhecidos e até condecorados pela liderança laranja. A razão é simples e, de tão simples, devia dispensar qualquer explicação: no passado dia 5, uma proposta do CDS destinada a suspender a avaliação dos professores correu sérios riscos de passar no hemiciclo. A bancada do PS estava desfalcada e, pior, seis socialistas votaram ao lado da oposição.

Felizmente para a oposição, trinta gloriosos deputados do PSD não estiveram presentes no momento sacramental, enterrando assim a proposta do CDS. E, ao enterrarem o projecto dos populares, os trinta gloriosos permitiram que a maior fonte de desgaste para o governo continue a fazer estragos pelas ruas. Mais: com os médicos e os funcionários de Estado a prometerem unir-se aos professores, a ausência dos trinta garantiu, objectivamente, que o governo não terá sossego em 2009, ano de eleições.

Que o líder da bancada laranja venha agora prometer redenções morais pela apresentação de uma proposta similar à do CDS, eis um gesto que revela a completa ausência de sentido táctico ou estratégico da oposição. Fosse Paulo Rangel ligeiramente mais arguto e ele saberia que a ausência dos trinta e o consequente prolongamento da guerra entre o governo e os professores foi a maior vitória do seu triste consulado.

PARAÍSO

David Lean

Passo os dias com David Lean (1908-1991), um centenário de 2008 que 2008 fez o favor de ignorar. Perdoo-lhes, porque eles não sabem o que fazem. Mas eu sei o que faço. Para começar, sou um cliente dos épicos de Lean - sim, aqueles épicos presuntivamente vácuos, como Lawrence da Arábia ou Doutor Jivago. E só Deus sabe como eu gostaria de ter visto a adaptação que Lean prometia fazer do Nostromo, de Conrad, assim ele tivesse vivido um pouco mais para o filmar. Não viveu. Mas a herança chega e sobra. E mesmo que retirássemos os épicos da contabilidade final, bastaria evocar os filmes caseiros da década de 40 para reservar a David Lean um lugar eterno. Falo das adaptações de Dickens, em Oliver Twist ou Great Expectations: quem leu Dickens a sério sabe que é difícil fazer melhor. E falo também das colaborações com Nöel Coward. A propósito: haverá escritor mais perfeito do que Coward? Não digo mais profundo, ou mais relevante; digo mais perfeito porque capaz de cinzelar cada frase sem deixar uma aresta que seja. Duvido. Pensando bem, e pensando a sério, não existe escriba que eu tanto inveje como Coward. Mas divago. Ou não divago: porque vendo Blithe Spirit e revendo Brief Encounter, os diálogos de Coward levitam e levitam-me. Sobretudo em Brief Encounter, a história impossível de Alec e Laura, dois respeitáveis e casadíssimos anónimos que se encontram e apaixonam na mais cinéfila das estações ferroviárias. Com a excepção de As Pontes de Madison County, que obviamente não existiria sem Brief Encounter, desconfio que o cinema nunca mais filmou sacrifício igual: o sacrifício dos amantes pelo dever. Que o filme tenha sido rodado ainda durante a Segunda Guerra, eis um facto que talvez explique o tom digno e quase estóico de tamanha renúncia.

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8:00 Segunda-feira, 15 de Dez de 2008

PARAÍSO

José Sócrates

José Sócrates foi considerado pela imprensa espanhola um dos homens mais elegantes do mundo. Não sei a que tipo de elegância se referiam "nuestros hermanos" - mas, em termos de elegância política, é difícil discordar. Nos últimos tempos, Sócrates tem presenteado o país com recorrentes números de circo que, pessoalmente, me encantam.

Primeiro, começou por confirmar o Estatuto dos Açores, uma forma elegante de ignorar, para não dizer insultar, o Presidente da República. Depois, no discurso mais delirante de que há memória neste mandato, Sócrates subiu ao palco da fantasia e prometeu um 2009 glorioso para o bolso dos portugueses: com a descida das taxas de juro, da gasolina e da inflação, a crise não passará por cá.

Como explicar o estranho comportamento do primeiro-ministro, que irá a eleições no próximo ano? Os especialistas não têm dúvidas: Sócrates perdeu contacto com a realidade e, em relação à "cooperação estratégica" com Cavaco, o primeiro-ministro pretende contentar a esquerda do PS.

Curiosamente, as explicações ignoram o facto mais basilar: semana após semana, nas sondagens da praxe, Sócrates é a única figura do regime que não treme. Mais: se ele não treme, tudo treme à sua volta, a começar por um PSD em lento processo de deliquescência política.

Por outras palavras: Sócrates age como age não porque deixou de ter contacto com a realidade - mas porque a entende melhor do que ninguém. E sabe que cada afronta é uma exibição de poder.

Claro que esse poder, precisamente porque incontrolado, pode destruí-lo no limite: ironicamente, a única pessoa capaz de derrotar Sócrates em 2009 é o próprio Sócrates. Mas, até lá, ele avança sozinho, e o resto é paisagem.

PURGATÓRIO

Manoel de Oliveira

Manoel de Oliveira ressuscitou para o cinema, em 1979, com Amor de Perdição. O filme, que hoje se vê por razões cómicas, inaugurou a consagração oficial de Oliveira. Motivo simples: em 1979, Oliveira tinha 71 anos, e a crítica, que largamente o vergastara (sobretudo a partir de O Passado e o Presente), pretendia fazer as pazes na fase final da vida do cineasta.

Fatalmente para a crítica, ninguém imaginava que Oliveira chegasse aos 80, aos 90, aos 100, possivelmente aos 110 - e que continuasse a acumular filmes, uns atrás dos outros, ano após ano. Moral da história: o balão do engodo foi enchendo, enchendo, enchendo.

Hoje, é tarde para apontar o dedo e dizer que o rei, se não vai nu, pelo menos vai em trajes menores. Foi assim que Manoel de Oliveira se transformou no maior equívoco do nosso medíocre cinema e da nossa provinciana cultura. Isto não significa que Oliveira, "lui-même", não tenha méritos.

Como pessoa, as meditações do homem valem pela sua radical ausência de vassalagem à "modernidade". Oliveira é o típico produto do Porto burguês e da sua fortíssima consciência conservadora, ou seja, atenta à tradição e aos excessos destrutivos da liberdade humana. Basta ler Oliveira, a começar pelas suas entrevistas, para perceber o mundo (quase) fantasmagórico a que ele pertence.

Infelizmente, Oliveira não se ficou pelas palavras - e, ao pretender filmar esse mundo e os seus dilemas morais e metafísicos, o autor optou por uma forma de cinema que é a negação do cinema: um pétreo artificialismo narrativo e compositivo que apenas denuncia a inabilidade do cineasta para dirigir actores, contar uma história em imagens e seduzir uma plateia.

INFERNO

André Tchaikowsky

Li há tempos que as nossas escolas de Medicina não tinham cadáveres suficientes para que a pequenada estudantil mexesse neles. Os portugueses, pelos vistos, não têm o hábito de legar a carcaça à ciência. Preferem dar pasto aos vermes ou, em casos mais poéticos, conspurcar as águas do rio com as suas espirituais cinzas.

E eu? Eu, confesso, gostava de ser empalhado quando o momento viesse (tipo Lenine). Ou, pelo menos, ter a cabeça embalsamada na sala de estar, como acontece com certos animais de caça.

Mas que dizer da ideia peregrina de André Tchaikowsky, um judeu polaco, sobrevivente do Holocausto, que fez carreira breve como pianista em Londres? No seu testamento, Tchaikowsky legou o corpo à ciência, mas reservou a caveira para a Royal Shakespeare Company. Tchaikowsky tinha o sonho de estrelar uma produção do bardo; e, se não o fez em vida, pelo menos que as ossadas o fizessem em morte.

Finalmente, aconteceu: na última produção de Hamlet, o defunto Tchaikowsky encarna a célebre caveira que o angustiado príncipe segura na mão enquanto relembra a passagem do amigo Yorick por este mundo. Conta quem viu que Tchaikowsky está muito bem no papel (sorriso expressivo, imobilidade total, brancura fantasmagórica); tão bem que o director da peça teve de suspender o uso da caveira, porque a plateia, informada sobre a história do adereço, não se continha e desatava em risos nervosos ou vómitos de horror.

Se isto não merece um prémio de representação, eu não sei para que servem os prémios. Mas sei para que serve o meu corpo: para que as meninas da Faculdade de Medicina possam mexer nele à vontade. Mal por mal, antes isso do que ir parar às mãos de Luís Miguel Cintra e sua descendência.

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