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Luiz Carvalho
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23:39 Segunda-feira, 2 de Mar de 2009
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Na manhã seguinte à abertura do Congresso do PS, em Espinho, um assessor socialista mostrava-se radiante com a estratégia seguida para não terem deixado entrar os fotógrafos na zona reservada aos congressistas, na grande área do pavilhão. O que até hoje, em democracia, sempre aconteceu em todos os congressos de todos os partidos.
O resultado estava estampado nas páginas dos jornais da manhã de sábado: ali estavam as imagens neutras, bonitas, todas iguais, que davam a ver de frente o chefe projectado no grande vídeo-hall, a dimensão espectacular do congresso, sem haver fotografias intencionais que pudessem pôr em causa a solenidade da abertura.
Os fotógrafos, guardados por um assessor, foram autorizados a deslocarem-se ao meio do pavilhão, junto a uma câmara que dava de frente Sócrates a discursar. Puderam lá estar três rigorosos minutos, e voltaram escoltados de novo pelo assessor, para o lado mais distante do palco. No futebol está-se mais perto da baliza oposta do que ali durante a oratória de Sócrates.
A domesticação da imprensa visual funcionou. O Congresso foi visto de costas, não havia expressões de militantes enfadados, não se sabia onde estavam ministros e companhia, não havia retratos de conversas aos ouvidos, de olhares, de bocejos. Visto do alto da bancada, a mais de 100 metros de distância, Sócrates mal se via, encandeados que estavam os fotógrafos pela imagem gigantesca reflectida pelo video-hall. Melhor do que na Coreia do Norte, onde Kim Jong II consegue transformar a sua ridícula pequenes num homem aumentado a pantógrafo, de imagem fixa em tecnicolor comunista.
Foi tudo estudado ao pormenor no Congresso do PS. Depois de se ter salvo a brancura da abertura, Sócrates no sábado entrou, depois de almoço, pela frente do Pavilhão permitindo umas fotos rápidas no meio do povo. Depois não houve mais aproximação possível. Mas na manhã de domingo, quando a coisa estava a correr bem, os socialistas prepararam uma chegada triunfal de Sócrates.
Um grupo de velhinhas, que tinham viajado de autocarro socialista, esperavam Sócrates à saída do carro, os fotógrafos e cameramen podiam saltar-lhe em cima, entre atropelos e gritaria, sabendo os assessores que naquela altura a confusão ficava bem no retrato, mostrava envolvência, interesse, apoio, banho de multidão e dava a ideia que afinal Sócrates e congressistas tinham estado sempre acessíveis aos jornalistas. Competência, sem dúvida.
Na hora do encerramento os fotógrafos voltaram a ser escoltados até um canto do pavilhão e mais tarde conduzidos até ao meio, novamente junto a uma camara de televisão. Quando Sócrates era aplaudido os congressistas levantavam-se e os fotógrafos pura e simplesmente não conseguiam fotografar nada a não ser cabeças.
No final, eu e o Alfredo Cunha rompemos o cerco e avançámos para o palco. Um polícia da segurança de Sócrates agarrou-me um braço e empurrou-me, perante os meus protestos veio outro que me voltou a puxar pelo braço e um deles ameaçou prender-me. Claro que nada disto é grave porque é habitual a segurança tratar com este mimo os fotógrafos. É um clássico praticado por todos os gorilas de todos os partidos.
Mas o que aconteceu foi a menina que estrategicamente segurava num ramo de rosas avançou, numa marcação teatral perfeita, ao encontro de Sócrates, um grupo de congressistas jovens fez questão em posar com o líder para um telemóvel. Tudo decorreu num admirável plano sequência, num aparente caos, mas que estava controlado, marcado. Os fotógrafos nervosos, ansiosos por captarem um momento forte, também ali estavam como figurantes à volta daquele protagonista.
O Partido Socialista usou de uma arrogância e de uma falta de tolerância democráticas graves, intoleráveis num partido que gosta de falar em liberdade, mas que na hora preferiu usar aquela ideia de jerico de Pacheco Pereira há uns anos atrás, quando decidiu proibir a circulação de jornalistas nos corredores da Assembleia.
Luiz Carvalho, fotojornalista do EXPRESSO
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Luiz Carvalho
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19:34 Domingo, 22 de Fev de 2009
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Morreu o Mestre Lagoa. O meu Mestre.
Há pessoas, muito poucas, que se cruzaram connosco na vida e nos transformaram. Deram-nos um rumo, abriram-nos um caminho, serviram-nos de exemplo, embora nunca nos tivessem dado uma cartilha, obrigado a cumprir regras e normas, porventura nem terão falado demasiado da sua arte, do seu ofício. Limitaram-se a transmitir a emoção, que provoca na gente de talento o acto de criar, recriar, essa capacidade supra, que alguns têm, de refazer a vida com a gramática própria da linguagem artística.
Várias gerações de pintores, escultores, designers e arquitectos passaram pelas aulas do Mestre Lagoa Henriques. Eu tive o grande privilégio de ele me ter encaminhado para as minhas primeiras aulas de desenho de estátua, por ironia da vida, naquela precisa tarde de 1972, em que o seu atelier ardeu por completo. Eu tinha-lhe batido à porta minutos antes, ninguém respondeu, e bastou ter atravessado o largo entre o atelier e a estação de Belém para ver uma nuvem enorme de fumo a sair do antigo pavilhão da Exposição do Mundo Português, feito em estafe, e de alguém que gritava aos murros à porta.
Corri amedrontado, ainda fiz algumas fotografias com uma Leica IIIG e depois... foi a confusão total. No dia seguinte o jornal A Capital trazia uma foto pungente na primeira página, do fotógrafo Alberto Peixoto: Lagoa salvara das chamas o objecto para ele mais precioso, o retrato da sua mãe.
Com ele aprendi a entender a estrutura dos objectos, a perceber as texturas, os volumes, a luz e a sombra, a desenhar percebendo e não copiando. Com ele percebi o ridículo do bonitinho, do giro, do jeitoso. Percebi sim, que a criação começa no entendimento, na interpretação, na capacidade do gesto expressar sentimentos, intenções. A relação da palavra e da imagem, a importância do ritmo gráfico, do enquadramento, na ousadia do traço, tudo conceitos de que ele impregnou várias gerações de artistas e arquitectos.
Foi ele que olhou para as minhas fotografias e viu nelas uma intenção e entendeu que havia uma história intrínseca. Pegou num trabalho e levou-o ao escritor Carlos de Oliveira, um conjunto de fotografias, desenhos e textos sobre o livro Uma Casa na Duna. Um atrevimento académico, quando nos anos setenta os alunos se limitavam a fazer bem o trabalhinho de desenho pedido.
Depois fui-o encontrando ao longo dos anos, muitas vezes com o Carlos Amado, o seu companheiro de sempre. A última vez que o vi foi perto da Universidade Autónoma, onde então ele dava aulas no curso de arquitectura e eu no curso de comunicação social. O Mestre Lagoa estava parado junto a uma porta pintada com graffitis e admirava-a com especial atenção. Para ele a arte começava na rua, na capacidade de olhar, o que tem tudo a ver com fotografia e com aquela curiosidade intensa de que falava Henri Cartier-Bresson: a curiosidade surrealista.
Tudo o que eu escreva será pouco sobre o que sinto, e o que muitos sentem hoje, com a morte do Mestre Lagoa. Foi uma referência inesquecível. Uma pessoa sensível, de humor inconstante, com muito mau feitio, com um abençoado mau feitio. E com um sentido de humor extraordinário. A seguir ao 25 de Abril, não o deixaram ensinar em arquitectura por ele não ter uma cadeira qualquer. Ele não esteve com meias medidas: inscreveu-se como aluno e passou a ir às aulas de que deveria ser ele o professor. Como te compreendo meu querido Mestre!...
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0:28 Terça-feira, 20 de Jan de 2009
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Quando daqui a horas Obama tomar posse vai ter por perto um olhar atento e especial: Pete Souza, 54 anos
, português dos Açores, estará em tensão à espera dos melhores momentos para registar na sua máquina fotográfica digital, onde por vezes prefere o modo black and white.
O nosso conterrâneo é um fotojornalista renomeado na América, com um curriculum extenso e obra notável. É professor de fotojornalismo na Universidade de Ohio, e quando Robert Gibbs, futuro secretário de imprensa de Obama, o convidou para ser o fotógrafo oficial do Presidente, o português não hesitou em abandonar logo o seu lugar de fotojornalista do Chicago Tribune.
O anúncio do novo fotógrafo do Presidente foi feito pela Associação norte-americana de fotojornalistas (imagina-se isto em Portugal?) e Souza fez questão em afirmar que aceitava ser fotógrafo do Presidente na condição de documentar "em nome da história".
Como fotojornalista do Chicago Tribune, Pete Souza fotografou durante um ano Obama no Senado e segui-o em 7 viagens por diversos países. Apostou desde 2005 numa vitória de Barack Obama. Teve fé e acertou.
Souza já tinha sido fotógrafo de Ronald Reagen, conhece portanto a Casa Branca, e tem experiência neste tipo de trabalho que, sendo exercido como o de qualquer fotojornalista, exige uma disciplina rigorosa e uma postura por vezes mais intimista.
As fotografias de Souza são do melhor que tenho visto em fotojornalismo. Ele consegue conciliar essas duas dificeis vertentes do fotojornalismo: o rigor gráfico e o rigor narrativo. As suas fotografias têm lá a escola toda de Henri Cartier-Bresson ou de Sebastião Salgado (dois mestres que ele gosta de citar). Estamos perante um fotojornalista que viajou pelos confins do Mundo, em territórios de guerra e por multidões pela paz.
O seu portfolio é um rosário de instantes fortes, bem intencionados, um longo caminho visual de memórias da História. Pete assume uma das qualidades cada vez mais raras no exercício da profissão por "jovens habilidosos" que é o exercício da memória, o empenho pela verdade, a composição como uma das belas-artes.Humanista à flor do olhar, convicto e leal na hora do disparo, Pete trabalha com meios simples, eficazes, luz natural mas bem dominada, com a vénia de uma dádiva de Deus, usa do humor e reflecte comoção.
Se Obama é o anjo que parece ter descido à Terra, Pete Souza, com o seu olhar de fotojornalista humanista, não podia ter sido mais bem escolhido.
Era bom aproveitarmos por cá, para reflectirmos no papel do fotojornalismo, e na dignidade que a profissão desperta nas sociedades cultas e nas instituições superiores. Obama não escolheu um bate-chapas nem um estafeta da imagem, quis um fotojornalista.
Sendo assim, junto-me à obamamania.
Luiz Carvalho, fotojornalista do EXPRESSO
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12:09 Sexta-feira, 16 de Jan de 2009
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A foto de Janis Krums feita com o seu iPhone
Janis Krums
A queda de um avião ontem, no Rio Hudson, em Nova Iorque, foi fotografada pela Janis Krums- uma cidadã desconhecida- que passados minutos estava a colocar no seu espaço do Twitter a primeira foto, feita pelo seu iPhone.
Os cliques começaram a cair ao ponto de ter deixado o servidor entupido e de um reforço ter sido feito passado pouco tempo.
Foi a primeira imagem do acidente, batendo sites, rádios e televisão.
A fotografia de Janis é na verdade uma imagem perfeita de jornalismo. O enquadramento narra bem o que estava a suceder, mostrando os passageiros no momento de abandonarem a cabine do avião são e salvos. Janis viajava num barco que estava próximo do local da queda do avião- tão perto que foi possível com a grande angular do iPhone fazer uma fotografia com pormenor- e consta que ela própria ainda acabou por dar uma ajuda no salvamento dos sinistrados.
É nestas circunstâncias que o chamado jornalismo do cidadão faz todo o sentido e é assim que ganha uma força informativa brutal. Se nos lembramos de algumas imagens de acontecimentos recentes em Portugal, como o tiroteio na Quinta da Fonte, ou de um prédio que ardeu na Graça, terão sido das imagens mais impressionantes que passaram nas televisões. Eram imagens de cidadãos, jornalismo na primeira velocidade. Depois é preciso de alguém que chegue e saiba meter as mudanças seguintes. O jornalista.
Luiz Carvalho, fotojornalista do EXPRESSO.
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15:25 Segunda-feira, 22 de Dez de 2008
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O que têm em comum personalidades como António Barreto, Rui Veloso, José Walenstein, Souto Moura ou Herman José ? Muita coisa decerto; Mas há entre eles uma actividade recente que os comove: a fotografia. Na passada semana tendo estado com alguns deles, em circunstâncias diferentes, o tema da fotografia logo prevaleceu nas nossas conversas. Claro que tudo começa a discutir-se pelas máquinas fotográficas, esse objecto de culto fetichista que parece entusiasmar mais os amadores da imagem fixa do que os automóveis perante um grupo de quarentões mimados.
A fotografia digital converteu devotos ocasionais de cliques em amadores avançados.Fotografam tudo o que mexe à volta, tratam as fotos em programas de edição, puxam pelas cores, revertem a realidade em preto e branco, classificam as imagens, e muitos têm conta no Flickr onde exibem para o público em geral e amigos as suas habilidades fotográficas.
O conceito de partilha está implementado, com egos afagados em comentários de tribos, que gostam de gabar e marcar nos seus favoritos as imagens mais extraordinárias.Os meus interlocutores estavam numa fase de deslumbramento fotográfico e nem eram as novas plataformas de divulgação das imagens que os moviam. Era o puro prazer por fotografar com ferramentas que se afirmaram como máquinas amigas do utilizador, quer pelo preço, quer pela fiabilidade que demonstram." Se quiseres uma objectiva tenho ali!"- dizia-me um deles, enquanto outro confirmava, com o tom de quem tem alguma autoridade cultural, a qualidade da obra de Catrica...
A discussão sobre as vantagens da Lumix Lx3 sobre a Ricoh GR, ou da Canon G10 sobre a Sony, ou a simplicidade do iPhoto sobre o Photoshop, acaba por fazer aquecer o debate. O problema é que a evolução das máquinas foi de tal forma significativa nos últimos meses, que máquinas que se tinham afirmado na vanguarda das pequenas snapshots, acabou por tornar algumas ultrapassadas.
A democratização permitida pela fotografia digital é comparável à revolução industrial trazida pelo famoso Ford T ou se quisermos ser menos radicais, pelo Volkswagen Carocha. A facilidade com que se compra uma reflex munida de zoom com grande angular e tele, permite que cada curioso se sinta um fotógrafo.
Uma colega jornalista, com quem comentei este fenómeno de tanta figura pública se estar a tornar em fotógrafo ocasional, respondeu:" é uma loucura a fotografia. Anda tudo doido por fotografar e...cantar fado! Com o fado passa-se o mesmo: gravam-se todas as semanas dezenas de discos em Portugal!". Bom, já se sentia na fotografia um lado sentimental e o preto e branco, tão preferido pela maioria dos praticantes, acaba por ter um tom melancólico e saudosista, o mesmo que o fado acaba por transmitir.
Perante este entusiasmo fotográfico, só falta mesmo começarmos a ter uma cultura fotográfica, referências e critérios de avaliação, como existem mais ou menos estabelecidos, para as outras formas de expressão.
Um 2009 muito fotográfico.
Luiz Carvalho, fotojornalista do Expresso
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13:42 Terça-feira, 18 de Nov de 2008
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Num debate na semana passada a propósito do lançamento da revista Imag, em que estavam Cândida Pinto, Rui Ochôa, Mafalda Lopes da Costa e Mário Soares, uma das questões levantadas foi a de saber até que ponto um fotografado pode ser ou não vítima de uma fotografia.
Por detrás dos convidados estava a fotografia de Mário Soares a ser espancado em 1987 na Marinha Grande e que, depois de ser publicada no Expresso, teve uma influência considerável na vitória do candidato à Presidência. Então, Soares ia com uma expectativa de dez por cento de votos do eleitorado e o incidente acabou por criar uma dinâmica de vitória, só possível pelas imagens captadas pela RTP e pelas fotografias do único fotógrafo presente.
Nem sempre uma imagem pode levar à glória o protagonista. Há fotografias que se tornaram ícones de uma causa, de uma tragédia, de uma luta, e que transformaram a vida de quem aparece num inferno. E por vezes o fotógrafo apanha por tabela. E se muitas fotografias permitiram que a vida do retratado mudasse para sempre e em glória, caso da vítima Mário Soares às mãos dos desvairados comunistas, noutros casos os fotografados passaram a andar com a fotografia às costas para todo o sempre.
A fotografia do vietcong a ser morto a tiro de pistola pelo chefe da Polícia americana em Saigão, feita por Eddie Adams da AP, Prémio Pullitzer, nunca mais deixou descansado o fotógrafo que acabou por sentir um fardo toda a vida: ele achava que tinha acabado por destruir a vida do oficial. Acabou amigo dele.
A fotografia de Eugene Smith feita em Minamata a uma mãe com o filho deformado pela contaminação de mercúrio acabou por ser interdita, por vontade do fotógrafo mas com o pedido da mãe, por estar a infernizar ainda mais a vida daquela pobre gente.
Essa sensibilidade para avaliarmos dos efeitos secundários das nossas imagens na vida dos que retratamos é fundamental. É uma questão ética que só a nossas consciência pode regular e nunca uma entidade burocrática. Mas deverá ser uma das preocupações constantes, um dos itens da check list que usamos diariamente no terreno da reportagem.
Curiosamente, uma das situações em que as pessoas geralmente não se querem fotografar é quando elas sentem que a sua integridade pode ser posta em causa. Há dias numa reportagem sobre compra de ouro português num hotel do Estoril, os vendedores que ali estavam com as jóias de uma vida, símbolos do orgulho familiar, olharam-me amedrontados quando me viram passar de máquina fotográfica.
Claro que ali nem se podia pôr a questão de fotografar. Era um lugar que exigia recato, respeito e alguma intimidade, embora se tratasse de um sítio público. Mesmo de costas, bastava um daqueles clientes reconhecer-se para já se tratar de uma fotografia que violava algo de confidente.
Noutras ocasiões em que a publicação de uma imagem pode até ser de serviço público, mesmo que quem é fotografado se sinta denunciado, aí não deverá haver hesitações em fotografar.
Vista como um espelho de nós ou no contra-campo como uma panorâmica sobre o Mundo, a fotografia tem um alcance social e pessoal que por vezes nós jornalistas não conseguimos sentir no instante, no calor da reportagem.
Luiz Carvalho, fotojornalista do Expresso
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13:11 Quinta-feira, 6 de Nov de 2008
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Os fotógrafos portugueses estão zangados com Sócrates. Ou melhor: ficaram nervosos depois de terem sido os últimos a saber que o ministro Pinho se preparava para adjudicar mais uma vez a um fotógrafo estrangeiro uma campanha sobre Portugal que iria custar um milhão de euros. Apanhado há dias atrás pela TVI, o ministro virou costas e deixou cair um murmúrio de que "isso é com o turismo". Mais tarde negou mesmo que houvesse algum contrato com um fotógrafo estrangeiro.
A verdade é que vai haver campanha de promoção sobre Portugal para a Primavera e o ministro Pinho já mostrou que adora campanhas como a do West Coast com fotógrafos lá de fora, na moda, pagos a peso de ouro.
Ora bem: os fotógrafos portugueses, que são em geral muito ciumentos, não acreditam que Pinho não resista a contratar mais um fotógrafo de bandeirada alta e decidiram pôr a correr na internet um abaixo-assinado para entregarem a Sócrates, protestando contra a falta de protecção do governo aos fotógrafos nacionais.
Escrevi várias vezes, mesmo aqui no Flagrante deleite, sobre a campanha West Coast. Sem ter sido nada original, sempre achei que a campanha era pouco eficaz, não dava uma ideia emblemática de Portugal, um país não pode nunca ser vendido como uma marca e as fotografias eram um truque fácil de photoshop. Vindo de um fotógrafo algo irreverente como Nick Knight, aquelas fotografias eram uma pastelaria pegada, um resultado de mau gosto a roçar o academismo. Quem não conhecia os heróis de Portugal continuava a não os conhecer, e mesmo quem os conhecia não era à primeira que reconhecia o Ronaldo ou o Mourinho. Uma campanha péssima, cara e quase inútil: tirando uma ou outra página da Time a campanha só era vista nas empenas dos prédios de Lisboa. Portanto: estava-se a "vender" um produto a quem já o tinha comprado: os estrangeiros que já estavam em Portugal.
O abaixo-assinado que corre na internet traz de novo à discussão o corporativismo de classe. Acho mal que os fotógrafos portugueses se indignem porque há um fotógrafo estrangeiro a trabalhar cá. Deviam antes ficar incomodados porque as fotografias que foram apresentadas na campanha West Coast eram más, banais e caras. Se o Nick Knight fosse português a crítica deveria ser exactamente a mesma.
Se os fotógrafos portugueses vão por este caminho do proteccionismo então nunca poderão trabalhar no estrangeiro, pelas mesmas razões que agora imploram ao primeiro-ministro. A fotografia é uma profissão sem pátria, os fotógrafos são mais do que quaisquer outros profissionais, cidadãos do Mundo. Por este princípio nem o arquitecto da Pirâmide do Louvre podia ser japonês nem o Robert Capa húngaro... os exemplos nunca mais acabariam. No limite até se pode considerar uma atitude xenófoba.
Este tique de queixinhas que os portugueses gostam de cultivar acaba por reflectir depois a sua condição de inferioridade. É como os arquitectos portugueses terem feito tudo (e conseguiram) para o projecto de Ghery para o Parque Mayer não ter ido avante. Preferem sempre os caixotes à anos setenta, o Bonjour Tristesse, o cinzentismo, a panelinha.
Este abaixo-assinado faz lembrar os protestos do antigamente e não vai alterar em nada o gosto do ministro Pinho pela chamada fotografia artística que alimenta o BesPhoto e que ele gosta de pendurar nas paredes. O protesto (a que até se associaram os comerciantes de material fotográfico!) não é sequer alternativa aos Nick Nights desta vida.
Defender nos dias de hoje este tipo, ou outro, de corporativismo não é nada saudável. Isola-nos e faz-nos ainda mais pequeninos. Lamentável.
Luiz Carvalho, fotojornalista do Expresso
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19:14 Quarta-feira, 29 de Out de 2008
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Um professor de economia confessava-me esta semana, durante uma sessão de fotografia, que a história da sua infância que mais o comovia era a de um elefante que tinha comido um despertador e que nunca mais teve sossego. A máquina fazia-lhe o estômago e a vida numa permanente palpitação. E, como professor de economia, fazia logo a analogia com o que está a acontecer com empresas dos dias hoje, que gostam de comer outras mais pequenas (por vezes até maiores) sem terem cuidado em desmontar antes a papa em secções mais ou menos difíceis de digerir.
Que tem isto a ver aqui num blogue sobre fotografia? Muito. Infelizmente. A forma como as agências de fotografia têm sido devoradas por gigantes glutões como a Getty ou a Corbis, que adoram fotografias ao pequeno almoço e acabam o dia ceando portfólios de fotógrafos, até há pouco tempo afirmados como independentes, tem mudado o panorama do fotojornalismo mas também de outras áreas da fotografia de moda, publicidade, ilustração...todos os géneros que sabemos e queiramos inventar.
Este crescimento global da Getty e da Corbis criou uma rede de hipermercados da fotografia, um Lydl de imagens, compradas por vezes a custos zero e vendidas por três vinténs. O negócio está na quantidade movimentada, milhões de fotografias de arquivo, de fotografias sem pai nem mãe, de amadores ávidos por verem publicadas as suas habilidades, de profissionais falidos ou de jovens desempoeirados que dão tudo por uma oportunidade. Tudo regras da vida, mas que levadas a cabo com uma almofada financeira até agora confortável, tem permitido o ofuscamento de agências como a Gamma, a Sipa ou a Sygma (esta última facturava milhões de francos franceses há meia dúzia de anos), e começam a pôr em causa a rentabilidade de agências mais elitistas como a Magnum, a Seven ou a Noor.
Tal como na vida financeira, as grandes agências existem acima dos custos e conseguem impôr-se aos clientes da imprensa e de empresas porque praticam preços baixos com fotografias bonitas mas sem alma nem carácter, um fast-food de imagens. Os jornais, agora apertados pelos orçamentos baixos, preferem comer happy meal em vez de bife do lombo.
A forma muito fácil de importar fotografias destas agências também permite a existência de um mercado favorável.Ora, no meio desta confusão a Digital Railroad era um site muito interessante, um oásis fotográfico, que permitia o alojamento de fotógrafos independentes e de agências pequenas com uma produção original, muitas vezes com trabalhos comprometidas política e socialmente. Agências de referência como as americanas Redux e Seven ou como a Noor, para não citar fotógrafos portugueses e agências, ou o New York Times, que têm tido lá o seu arquivo pronto a comercializar na hora, acabam todos de levar a maior banhada ao saberem que a Digital Railroad acaba de falir. E todos os arquivos que lá estavam nos servidores estão neste momento indisponíveis. Para os proprietários e para os clientes!... Um apagão de fotografias.
Faliu. O negócio não deu, apesar de representarem milhares de clientes.
Um fotógrafo da Noor dizia-me em Perpignan, no mês passado, que a maioria das fotos que a agência vendia continuavam a ser comercializadas por...telefone. Parece que na hora os clientes preferem falar a fazerem um download e pagarem com o cartão de crédito.
Esta falência é um rombo monumental, porventura o maior até agora neste novo mundo da fotografia digital com todo o tipo de ferramentas acessíveis e rápidas para divulgar, vender e comprar imagens.
A Digital Railroad era a primeira e talvez a última esperança dos fotógrafos independentes e das agências de nicho não serem comidas pelo papão da Getty. A esperança morreu.
Luiz Carvalho, fotojornalista do EXPRESSO
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18:20 Terça-feira, 21 de Out de 2008
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A campanha Portugal "West-Cost"já tinha dado grande polémica e escândalo. Houve então uma natural indignação ao saber-se que o governo português, pela mão do ministro Manuel Pinho, tinha pago uma soma astronómica ao fotógrafo Nick Knight por umas fotografias trabalhadas em photoshop, sobre retratos de portugueses famosos. A campanha terá custado à volta de 1 milhão de euros e dava de Portugal não a imagem de um país, mas a imagem de uma marca.
O conceito era retorcido e o resultado gráfico decepcionante: mal se reconheciam as caras dos portugueses de excelência num trabalho frio, sem referências à identidade de Portugal.
Os fotógrafos portugueses ficaram irritados. Foram trocados por um estrangeiro e deixaram de receber uma fatia generosa do Ministério da Economia. Também se algum português tivesse ficado com a encomenda jamais teria tido a lata suprema de pedir tais honorários.
Manuel Pinho é um amador de fotografia, conhece e convive com alguns fotógrafos portugueses e a sua mulher é em grande parte responsável pelo BesPhoto. Percebe-se que tenha ido buscar uma truta estrangeira para fotografar Portugal. Por prestígio, gosto, e um evidente novo-riquismo pago cá pelos contribuintes.
Já Duarte Pacheco nos anos cinquenta contratou o célebre fotógrafo Cecil Beaton para o fotografar no seu gabinete de Ministro das Obras Públicas, no Terreiro do Paço. O corporativismo não pode vingar neste tipo de opções, nem noutras claro. Mas quando depois o resultado é um desastre, alguém deveria assumir as responsabilidades. E aquela campanha foi desastrosa. Bastaria o pequeno pormenor de a campanha ter passado apenas em Portugal, estando a promover o país para estrangeiros que já cá estavam, para o seu objectivo ser de um ridículo atroz.
Agora, parece que Manuel Pinho vai repetir a dose com outro fotógrafo que, porventura para não ficar atrás de Nick, vai facturar outro milhão!...
Apanhado pela TVI na rua, Manuel Pinho começou às voltas sobre si próprio, como o senhor Faísca do Noddy, evitando responder à pergunta do repórter maçador. Balbuciou que era assunto do turismo e conseguiu sair à pressa da meada feita pelo jornalista.
Perante tanta atrapalhação é de crer que vamos ter mais uns retratos extraordinários com um preço extraordinário. É verdade que a qualidade dos fotógrafos, e não só, não se mede ao retrato, nem a peso, nem a metro, mas uma campanha fotográfica de um milhão ultrapassa tudo o que se passa em produções fotográficas, mesmo em Hollyood. E para estar na moda, e brincar ao photoshop sobre umas fotos mal amanhadas, há por cá uma rapaziada que faz melhor e mais barato. E fica tudo em família.
Luiz Carvalho, fotojornalista do EXPRESSO
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17:37 Segunda-feira, 13 de Out de 2008
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O Primeiro-ministro a bofar de cansaço no final da conferência sobre a crise
foto de Luiz Carvalho
Chegar a um país falido, entrar no táxi para fazer o trajecto aeroporto-hotel, ouvir em directo na rádio o discurso do primeiro-ministro a acalmar os ânimos, enquanto à volta se vislumbra uma paisagem tranquila como se os duendes da Islândia estivessem a fazer a sesta, não é muito habitual. Acontece por vezes a repórteres imprevisíveis.
Já aterrei em países endividados-crónicos, em ex-colónias na maior das misérias económicas e humanas, mas nunca tinha aterrado num país arrumado como se uma orgulhosa dona de casa tivesse cada coisa no seu lugar e cada lugar na sua coisa, um país aparentemente próspero, com cidadãos montados em belas máquinas rolantes (daquelas com duzentos cavalos para cima e no mínimo com 6 cilindros), com mulheres lindas que souberam polir o diamante que nasceu com elas, uma terra com evidentes sinais exteriores de riqueza e...pura e simplesmente falida.
Falo da Islândia (reportagem esta semana no Expresso) que depois da crise financeira em que caiu mais parece uma aristocrata que já teve melhores dias, mas que ainda não interiorizou que tudo a abastança levou, entre créditos mal parados numa economia que deve doze vezes o produto interno bruto.
Para um fotógrafo a aproximação a um primeiro-ministro nem sempre é evidente. Mas, tal como contava no início, depois do táxi me ter deixado no hotel, encontro-me com o meu colega Daniel do Rosário e avançámos para a tal conferência de imprensa do primeiro-ministro. Chegámos e veio a primeira desilusão: a conferência tinha acabado. Os jornalistas, muitos e estrangeiros, já guardavam o material. Mas a experiência e persuasão do Daniel fez com que a assessora do primeiro-ministro nos tivesse pedido para esperarmos um pouco. Passados cinco minutos estávamos a entrevistar o já cansado primeiro. Éramos os últimos jornalistas a falar com ele e este mostrou-se de uma total disponibilidade. Bom, uma situação destas era impossível nos dias de hoje em Portugal, ou noutro país com líderes demasiado ocupados para responderem a entrevistas a solo. Não percebi se era sintoma de país falido ou pura e simplesmente de um país onde a comunicação é importante.
No final a foto do primeiro-ministro a bocejar mostrava bem o enfado de quem tinha de explicar uma crise aguda e um futuro incerto.
Luiz Carvalho, fotojornalista do Expresso
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