Angel Diaz/ EPA
O Partido Popular vive a fase mais dolorosa da sua história. A descoberta de um esquema de corrupção que afecta dezenas de dirigentes cava divisões internas e desgasta a liderança nacional, incapaz de se demarcar dos corruptos.
No centro do caso, os negócios realizados, desde há dez anos, por Francisco Correa (actualmente detido), figura da alta sociedade de Madrid, que teceu uma rede de contactos em municípios e comunidades autónomas governados pelo Partido Popular. Através de subornos e presentes caros Correa conseguia que lhe fosse adjudicada a organização de eventos do partido, bem como negócios imobiliários. Os lucros iam parar a contas secretas e paraísos fiscais.
A polícia interveio em Novembro de 2007, devido à denúncia de José Luis Peñas, vereador do PP numa localidade próxima de Madrid, que entregou aos investigadores 15 cassetes com gravações comprometedoras.
Em Fevereiro deste ano ficou clara a dimensão da rede. O Ministério Público e os juízes deram ao caso o nome de código 'Gürtel' (que significa correia em alemão). A polícia encontrou documentação com os nomes dos subornados e os montantes recebidos.
A lista inclui presidentes de câmara e vereadores de autarquias prósperas próximas da capital do país (Pozuelo, Majadahonda, Arganda del Rey, Boadilla del Monte). Há ministros de governos autónomos, de Madrid, Valência e Castela-Leão. Sem esquecer figuras nacionais do PP, como o seu tesoureiro, Luis Bárcenas, hoje afastado do cargo. Envolvidos estão, também, deputados e presidentes de Governos autónomos, como Francisco Camps, da Comunidade Valenciana. Sobre este último incidem todos os olhares, por ter introduzido a rede 'Gürtel' na região e ter desenvolvido actividades no quadro desta.
A instrução do processo sugere que Correa e seus seguidores tenham arrecadado milhões de euros. Há sinais de financiamento ilegal do PP. E de envolvimento de pessoas próximas do ex-presidente do partido, José María Aznar, caso do seu genro, Alejandro Agag. O casamento deste com a filha de Aznar, no palácio do Escorial, foi organizado por Correa.
Dentro e fora do partido chovem críticas sobre Mariano Rajoy, líder do PP, por tardar em ordenar uma drástica limpeza interna. A estratégia seguida até há pouco foi desacreditar a instrução, rotulando-a de manobra do PSOE e do primeiro-ministro Zapatero, para desviar as atenções da crise económica e prejudicar eleitoralmente o PP.
Esta estratégia caiu por terra, quando dirigentes importantes, como a presidente da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, rival de Rajoy, não hesitaram em afastar da sua equipa os suspeitos de corrupção.
Esta semana, Rajoy destituiu o 'número dois' do PP em Valência, Ricardo Costa, bode expiatório do presidente da Comunidade, Francisco Camps. Costa é referido na instrução como protector do delegado de Correa na Comunidade Valenciana, Álvaro Pérez, e suspeito de receber presentes valiosos.
O PP poderá apostar na anulação dos processos judiciais, baseando-se em irregularidades da instrução, como a gravação das conversas entre detidos e advogados, ordenadas pelo juiz Baltasar Garzón.
Apanhados
- Automóveis de luxo, viagens em 1ª classe, orgias com prostitutas, relógios de ouro, grandes quantias em numerário. Correa e os seus colaboradores mais próximos não olhavam a gastos, para satisfazer a vaidade dos amigos
- A abertura da instrução preparatória do 'caso Gürtel' põe a claro comportamentos degradantes de subornadores e subornados, conversas indecorosas entre uns e outros, bem como conluios para cometer delitos
- Camps foi acusado de ter recebido três fatos como presente da rede. Esta acusação preliminar foi mandada arquivar pelo Tribunal Superior de Justiça de Valência, cujo titular é amigo confesso do presidente da Comunidade Valenciana
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009