Perante uma audiência repleta de empresários, académicos, alguns políticos e estudantes, Joseph Stiglitz traçou um retrato cru da crise financeira. Sem meias palavras, o Nobel da Economia de 2001 - que partilhou com George Akerlof e Michael Spence - , um dos oradores convidados da conferência Desafios Globais, Respostas Locais que decorre até amanhã no Centro de Congressos do Estoril, apontou o dedo a todos aqueles que considera responsáveis pela actual situação.
Começou pelo sector financeiro e pela forma como este se relaciona com o poder político. É aquilo a que chama "corrupção ao estilo americano", ou seja, um lobby contínuo da indústria financeira, através de contribuições para os partidos, junto das esferas do poder em Washington. "O sector não foi muito bom a escolher os investimentos financeiros mas foi muito bom a fazer investimentos políticos", lançou com ironia.
Na sua opinião, foram estas relações de proximidade que permitiram aos EUA, o epicentro da crise, manter legislação demasiado laxista que ajudou a alimentar o problema. Mas os reguladores e os legisladores não foram os únicos culpados.
Stiglitz, aliás, fez questão de o frisar ao brincar com a ideia que, o facto de alguém cometer um crime por não ter um polícia por perto, não faz dele menos criminoso. Uma mensagem dirigida aos bancos americanos que aproveitaram para cavalgar a onda. "Esqueceram-se de fazer o que o sistema financeiro deve fazer", sublinha o economista. E lembra os processos de concentração e o forte aumento dos lucros, sublinhando que cerca de um terço de todos os lucros das empresas nos EUA virem deste sector.
Um dos mitos que o Nobel fez questão de desmontar foi a enorme capacidade de inovação das instituições financeiras. "Os bancos não foram muito inovadores e até resistiram à inovação". Inovaram, isso sim, segundo o economista, na capacidade de contornar a regulação e na contabilidade.
E usa mesmo expressões duras como "depravação moral das instituições financeiras" para classificar o comportamento dos bancos que, na sua opinião, "roubaram os sonhos e o dinheiro de muitas pessoas".
Sobre o papel dos bancos centrais, não tem dúvidas que a ideia de controlar apenas a inflação com recurso a taxas de juro de curto prazo falhou e apresenta um cenário negro sobre o futuro da economia mundial. Há duas hipóteses possíveis: "entrar num problema ao estilo japonês" ou uma "nova série de colapsos no sector financeiro".
Em relação a Portugal, o Nobel reconhece que a participação na moeda única retirou instrumentos, mas lembra que há outras alternativas. Em declarações aos jornalistas, referiu que "uma deles é melhorar a disponibilidade de crédito" e tomar medidas para reduzir os spreads (diferenciais) cobrados pelos bancos. Stiglitz chama ainda a atenção para as pequenas e médias empresas (PME): "Numa altura destas, é preferível emprestar às PME que aos grandes bancos".