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Saída da crise: Tudo ao contrário?

João Cantiga Esteves, Professor de Finanças do ISEG-Instituto Superior de Economia e Gestão
18:00 Sexta-feira, 9 de Jan de 2009
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Após as medidas iniciais de combate à Crise, instala-se a convicção de que a solução passa por políticas diametralmente opostas às adoptadas, no que respeita à taxa de juro e inflação.

Governos e Bancos Centrais decidiram combater a Crise através da descida abrupta das taxas de juro e, consequentemente, da inflação,  criando até o espectro da deflação.

Ora, é perfeitamente consensual de que o grande problema, talvez o maior, da Crise é a falta de liquidez no Sistema Financeiro, em geral, e no Bancário, em particular.

Aqui convém lembrar que o Sistema Financeiro, em geral, e o Bancário, em particular, são compostos por duas grandes funções. De um lado, o Sistema (os bancos) capta dinheiros (poupanças) através de todo o tipo de depósitos e, do outro lado, com esses dinheiros, concede empréstimos (créditos) aos agentes económicos (empresas e famílias).

A ordem das duas funções não é arbitrária, isto é, primeiro o Sistema precisa de captar os depósitos e só depois é que pode conceder empréstimos.

O que verificamos é que Bancos Centrais e Governos baixaram a taxa de juro, de forma rápida, mas assistimos às queixas continuadas de que os Bancos não disponibilizam créditos às empresas e, quando concedem esses empréstimos, fazem-no de forma cara, a taxas muito elevadas.

Contraditório? Nem por isso. Os Bancos não emprestam porque não têm dinheiro e, quando emprestam, dado que o dinheiro é escasso, a procura por parte das empresas e famílias é fortíssima e o risco presente nas empresas e na economia real é muito elevado e crescente, aplicando taxas cada vez mais altas. Óbvio!

A terapia actual não funciona! E não funciona porque não se está a resolver o problema original da falta de liquidez. É preciso começar por "trazer" liquidez para os Sistemas Financeiro e Bancário e a liquidez só se atrai, só se consegue captando dinheiros com a subida das taxas de juro. Sem isso, o Sistema não recomeça a funcionar e, sem ele, não há solução. Governos e Bancos Centrais pensaram que, através das suas injecções de dinheiro no sistema, a situação se resolvia. Errado! Por muitíssimo dinheiro que Bancos Centrais e Governos criem e injectem no Sistema, não deixará de ser sempre uma "gota de água" no enorme Oceano que representa hoje o mercado financeiro actual, mesmo em crise.

Observa-se que os Bancos não emprestam uns aos outros e, muito menos, aos agentes da economia real (empresas e famílias). Ora, a descida das taxas de juro só piorou, isto é, os Bancos não emprestavam quando as taxas de juro estavam a 4 e 5% e vão emprestar agora com as taxas a 1 e 2%? Absurdo! Claro que não.

E assistimos a malabarismos perigosos. A taxa do BCE baixou abruptamente e, neste momento, a taxa EURIBOR também acompanha essa descida rápida, o que é uma má notícia pois isso acontece porque o mercado interbancário não está a funcionar. A EURIBOR desce porque o actual mercado se limita ao BCE a "falar sozinho", ou com as instituições bancárias, porque entre estas continua a não haver transacções e, quando existem, aplicam-se "spreads" bem elevados, como os bancos portugueses bem têm sentido.

Conclui-se que a taxa EURIBOR passou a ser uma taxa "fantasma" determinada por Bancos Centrais e Governos e não pelo mercado interbancário na sua plenitude, actualmente inexistente, limitando-se a vincar a política deliberada de descida da taxa de juro formulada pelos Bancos Centrais e Governos, sendo depois contrariada, na prática, com a sua subida através do aumento dos "spreads", por parte dos bancos!

Novamente, sem o mercado interbancário a funcionar, não há solução. E este só voltará a funcionar quando as taxas de juro forem atractivas.

Assim, passando a solução da Crise pela subida das taxas de juro, o problema será o do ressurgimento da inflação. Sendo verdade, importa dizer que, face à dimensão da Crise e da gravidade e profundidade dos diversos problemas, impõe-se definir prioridades e, neste momento, uma subida de inflação, que possa ir até aos  5-6%, será, seguramente, o mal menor que o mundo pode enfrentar.

Aqui, importa relembrar outro factor determinante da actual Crise, que se encontra por resolver, os elevados e insustentáveis preços do imobiliário, um pouco por todo o  mundo e que precisam de ser corrigidos. Repare-se que os designados activos financeiros clássicos já fizeram um ajustamento substancial dos seus preços, em 2008, com as Bolsas, incluindo a Portuguesa, a cairem cerca de 50%. Ora, no imobiliário nada semelhante aconteceu e, possivelmente, não pode acontecer mas um ajustamento significativo tem de ser feito. A história económica das Crises mostra-nos a solução. Como é insuportável para famílias, empresas e bancos a descida substancial dos preços do imobiliário, o aparecimento de inflação será a forma menos dolorosa para todos de fazer depreciar o valor real dos activos imobiliários, sem o recurso à queda abrupta dos preços que poderá ter de acontecer, caso não haja inflação.

Claro que, para as empresas e famílias, a subida do custo do dinheiro não é uma boa notícia porém, neste momento, a opção não é, infelizmente, entre ter acesso a dinheiro mais caro ou mais barato, mas entre ter ou não acesso a dinheiro! 

 

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Nota
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