Aos 65 anos, não há nela qualquer sinal de cansaço. Determinada, Armandina Soares quer continuar a ser professora até aos 70. Já lá vão 36 anos, mas a sua atitude contraria a maré de professores que têm pedido a reforma antecipada, desiludidos e cansados com as reformas no ensino feitas por este Governo.
Mas não é só na atitude face à reforma que esta docente contraria a corrente dominante. Ela é uma das 13 vozes que há cerca de uma semana comunicaram à ministra da Educação o seu apoio ao modelo de avaliação de desempenho. E até defende a versão original, mais do que a simplificada, pois considera que "a componente científico-pedagógica e os resultados dos alunos devem contar".
Há cerca de um mês decidiram que "era preciso dar espaço às pessoas submersas na onda" e que, "mesmo sendo uma minoria silenciosa", não podiam continuar calados, com medo de se exprimirem. Por isso, pediram uma audiência à ministra da Educação, que acabou por acontecer a 12 de Dezembro, entre as duas últimas reuniões (sem acordo) da equipa de Maria de Lurdes Rodrigues com a Plataforma Sindical.
Armandina faz parte de uma minoria não só a nível nacional como na sua própria escola, a cujo Conselho Executivo preside há 11 anos. Na EB 2,3 de Vialonga os professores aprovaram por maciça maioria uma moção a pedir a suspensão deste modelo de avaliação e cerca de 90% aderiram à última greve. Do alto do seu metro e meio de altura, Armandina encara a situação com normalidade: "Respeito a posição dos outros e espero que respeitem a minha". O que nem sempre tem acontecido, como revelam os insultos anónimos que recebeu.
Na sala de professores da escola, apesar de o processo de cisão "ser doloroso", respira-se respeito pelo trabalho feito por esta senhora condecorada pelo Presidente da República Jorge Sampaio em 2001; e galardoada com o Prémio Liderança, do Ministério da Educação, em 2007, pelo trabalho feito nesta escola difícil dos subúrbios da Grande Lisboa, integrada no programa dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Conseguiu estabilizar a rotatividade de professores, melhorar o desempenho dos alunos e até criar uma orquestra com 140 crianças e jovens.
Convicta de que a avaliação de professores vai concretizar-se, considera que "os conselhos executivos que se recusam a fazê-la devem demitir-se". Confessa, porém, que na sua escola pouco se fez até agora. Diz que teve "outras prioridades" e que a entrega dos objectivos individuais ficou adiada para Janeiro e que terão de definir ainda os indicadores (fases onde muitas escolas se depararam com o "monstro burocrático"). Admite que "o primeiro concurso para titulares foi cego, como é o concurso nacional de professores", mas não avança com mais críticas.
Armandina diz ter "mau feitio" e garante que não defende este modelo de avaliação por agradecimento aos apoios que a escola tem recebido do Ministério. Admira a "seriedade" de Lurdes Rodrigues, que só conhece institucionalmente. Curiosamente, os discursos de ambas são idênticos em defesa das reformas.
Apesar de ter aceitado o convite para discursar no último encontro das Novas Fronteiras, assegura não ser militante socialista, nem ansiar por qualquer lugar de gabinete. "Gosto muito do trabalho no terreno e a minha resposta a qualquer convite será não.
A favor e contra
13
professores, que dizem representar 'centenas', apresentaram uma moção em defesa desta avaliação
120
mil professores manifestaram-se a 8 de Novembro contra esta avaliação e o Estatuto da Carreira Docente
450
agrupamentos e escolas não agrupadas aprovaram moções a exigir a suspensão desta avaliação
NOVAS MEDIDAS
Governo tenta dividir para reinar
Entre a espada e a parede, com a guerra instalada no sector da educação, o Governo decidiu avançar com um novo pacote de medidas de modo a tentar conquistar os professores. Ou, pelo menos, alguns. Nesse sentido, fez aprovar no último Conselho de Ministros o regime 'simplex' da avaliação para este ano (já anunciado em Novembro) e avançou com mais umas "prendas no sapatinho". Entre estas estão a dispensa de avaliação de pelo menos cinco mil professores (que se reformam até 2011 ou não estão na carreira docente); e um aumento do suplemento de ordenado (de 40 a 46%) para os futuros directores das escolas, cujo complemento pode subir até €700. A ideia é compensá-los face "ao acréscimo de responsabilidades" com o novo regime de gestão escolar, justificou o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos. Foram ainda aprovadas novas regras que abrem "um número histórico de vagas nos quadros de escola" (30 mil), aumentam o tempo de colocação dos docentes de três para quatro anos e permitem a sua substituição em 24 horas. Em reacção, Mário Nogueira, da Fenprof, lembra que "esta simplificação é um veneno, pois continua assente na hierarquização da carreira e nas quotas" e que a dispensa de avaliados "é uma vigarice", já que os docentes que se vão reformar em 2011 nunca seriam avaliados no próximo biénio. O dirigente sindical lembra ainda que "nos últimos três anos não houve concurso de professores, nem entradas nos quadros". A greve convocada para 19 de Janeiro mantém-se e a guerra continua.
C.T.
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Dezembro de 2008