Nas universidades portuguesas, podemos ver cartazes que convocam, pela enésima vez, o "regresso de Marx". Para marxistas, neomarxistas e pseudomarxistas, Marx será sempre um Dom Sebastião redentor pronto a sair da poeira levantada pela derrocada da muralha capitalista. Mas tenho de confessar uma coisa: este revivalismo do marxismo lusitano, apesar de tudo, dá-me uma certa pena. Um professor doutor a agir como uma beata de aldeia é um espectáculo que apela à piedade. É que a beata analfabeta e o marxista doutorado partilham a mesma emotividade religiosa. De forma irracional, a beata reza aos seus santinhos; de forma igualmente irracional, o beato vermelho faz colóquios sobre a actualidade de Marx. E isto é comovente. É enternecedor ver tanto desnudamento sentimental num colóquio de gente sofisticada. O marxismo continua a ter aquele apelo religioso que deixa as pessoas 'despidas' em público. Há quem fique irritado com este "striptease" marxista. Eu acho este "striptease" assaz tocante. Ver um doutorado a acreditar numa fé impossível (que causou milhões de mortos no século XX) é algo que desperta em mim uma imensa ternura. A fragilidade humana é uma coisa linda, sobretudo num marxista com estrelas académicas no ombro.
Esta reabilitação de Marx serve os propósitos carreiristas de muitos generais académicos. O tal 'regresso de Marx' é uma maneira de perpetuar o domínio da geração de 1976 nas universidades portuguesas. Desta forma, novos autores como John Rawls, Charles Taylor ou Michael Walzer (e só estou a falar de autores de esquerda) ficarão na gaveta, e as universidades continuarão com a cabeça enterrada na areia marxista que beneficia os professores instalados.
O muro caiu em 1989. Mas o muro não caiu nas universidades portuguesas. Os marxistas portugueses que defendiam a URSS e outros regimes similares permaneceram nos departamentos de humanidades, e continuaram a fabricar mentiras. Além de não assumirem os seus erros históricos, os nossos marxistas contribuíram para a propagação da maior mentira dos últimos 20 anos: a globalização é horrível porque enriquece o Ocidente e empobrece o Resto do Mundo. Esta mentira foi a base de muitas disciplinas académicas durante os longos anos 90 (1989-2008). Como se sabe, a dita globalização enriqueceu o Resto do Mundo e retirou poder relativo ao Ocidente. E, hoje, mais uma vez, os marxistas não admitem que andaram a mentir durante duas décadas. Porquê? Porque já estão a inventar o embuste dos próximos 20 anos: a actual crise, dizem, justifica o regresso de Marx. Os marxistas são assim: saltam de mentira em mentira, tal como um sapo salta de nenúfar em nenúfar.
Sarkozy
Em 'Testemunho' (Guerra & Paz), Nicolas Sarkozy anuncia uma visão do mundo adequada ao nosso tempo. Perante a ascensão das potências asiáticas, o Presidente francês percebeu duas coisas: (1) a Europa está em declínio relativo, logo, (2) Paris deve aproximar-se de Washington. Sarkozy sabe que o antiamericanismo gaulista é um luxo ideológico de uma época eurocêntrica já ultrapassada. Este raciocínio revela um político europeu epistemologicamente preparado para o mundo pós-europeu.
Henrique Raposo