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Queixa por negligência médica ainda sem despacho do MP

Irene Sabino quer 500 mil euros de indemnização

'É possível renascer', livro da autoria de Edite Esteves lançado hoje em Lisboa, conta a história da portuguesa que aos 35 anos teve os braços e pernas amputados por alegada negligência médica.

Maria Luiza Rolim
19:32 Sexta-feira, 21 de Nov de 2008
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Irene Sabino perdeu os quatro membros por alegada negligência médica
Irene Sabino perdeu os quatro membros por alegada negligência médica
Jorge Simão

Um ano e meio depois, o Ministério Público (MP) ainda não se pronunciou sobre a queixa-crime contra o Hospital do Montijo, apresentada em meados de 2007 por uma utente.

Irene Sabino, que perdeu os quatro membros por alegada negligência médica, interpôs agora uma acção no Tribunal Administrativo de Almada (TAA). Desta vez, para pedir uma indemnização de 500 mil euros aos hospitais do Barreiro e do Montijo, a que recorreu em 2005.

Irene voltou a andar

A amputação dos membros não tirou a força a esta mulher de 37 anos que, ao fim de 70 dias em estado de coma, se viu confrontada com o novo corpo e a difícil tarefa de renascer.

Irene Sabino voltou a andar. Coisa que era impensável em Outubro do ano passado, quando foi entrevistada pelo Expresso. Conseguiu-o contrariando todos prognósticos médicos.

Apoiada em próteses, caminha dentro de casa (um apartamento num 2.º andar de um prédio sem elevador, que teve de ser adaptado) e no local de trabalho.

Na rua, porém, continua presa a uma cadeira de rodas eléctrica. A Câmara Municipal do Montijo mandou arranjar o percurso até ao emprego e assinalar as passadeiras para que possa deslocar-se sozinha.

A vida profissional voltou quase à normalidade. Hoje, trabalha das 9h às 16h. Desempenha as mesmas tarefas anteriores à tragédia, como secretária de recursos humanos de um gabinete de contabilidade.

Foi no Centro de Reabilitação de Alcoitão que reaprendeu a comer, escrever, vestir, despir e, ainda, utilizar o computador e o telefone. Tarefas extremamente difíceis para quem tem próteses no lugar dos braços e ganchos ao invés de mãos. Mas que consegue executar com surpreendente destreza.

Utilizando os ganchos, voltou também a fazer pontos de cruz, o que constitui para si outra grande vitória.

De uma coisa, porém, ressente-se: "Não consigo fazer nada em casa". Nem a extrema força de vontade nem as horas longas de fisioterapia conseguiram devolver-lhe a capacidade de cozinhar e limpar o apartamento onde vive com o marido e a filha. Foi acontecer logo a ela, que se orgulha de, anteriormente, nunca ter tido empregada doméstica, como conta ao Expresso.

Antibiótico podia ter evitado amputação

O caso remonta a 31 de Outubro de 2005, quando Irene Sabino foi à urgência do Hospital de Montijo queixando-se de fortes dores abdominais. Dizem-lhe que tem uma infecção num ovário e dão-lhe alta no mesmo dia, depois de medicada.

A 2 de Novembro, com o agravar dos sintomas, voltou ao hospital. Desta vez com indicação do médico do Centro de Saúde de que deveria ser vista com urgência por um cirurgião. É-lhe administrado soro e faz uma colheita de sangue. Dizem-lhe que tem uma infecção. Depois, é reencaminhada para o Hospital do Barreiro, para fazer uma ecografia.

A 3 de Novembro, tem uma paragem cardíaca e é transferida para o Hospital de S.José, em Lisboa. A equipa da urgência constata um choque séptico, com insuficiência respiratória.

É submetida a uma cirurgia abdominal para detectar o foco da infecção. A equipa liderada pelo médico Luís Rebelo, do Hospital de S. José, bem que tentou. Mas os antibióticos de última geração já não foram a tempo de travar a bactéria.

O sangue deixou de circular nas mãos e nos pés. A amputação foi a única solução encontrada para lhe salvar a vida. Irene acordoui dois meses depois - sem braços nem pernas.

Hospital do Montijo não comenta

A acção cível contra os hospitais do Barreiro e do Montijo deu entrada há poucos dias no Tribunal Administrativo de Almada TAA). O processo encontra-se agora na fase de contestação, após ter sido notificada a administração dos dois hospitais (por sinal, a mesma).

Segundo o advogado da paciente, Paulo Jorge Silva, a lei não estabelece prazos. Isso significa que o processo - ainda em fase de inquérito e, portanto, em segredo de justiça - pode levar anos até à conclusão.

Um parecer da Ordem dos Médicos "lamenta a falta de entendimento entre os hospitais". Porém, no entender do Instituto de Medicina Legal de Coimbra, "a actuação dos médicos foi correcta", acrescenta Paulo Jorge da Silva. "À falta de outros elementos", diz o advogado, "o risco é que o caso acabe por ser arquivado".

Questionada pelo Expresso, a presidente do Conselho de Administração dos hospitais do Barreiro e do Montijo confirma ter recebido no passado dia 3 a notificação do Tribunal de Almada.

Isabel Pinto Monteiro diz que "não tece qualquer comentário à acção posta pela utente Irene Sabino". A administradora acrescenta que a contestação ainda não está concluída, mas que não divulgará qualquer documento "que se encontre em segredo de justiça e para mais elaborado por ordem de um Tribunal".

 

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Miguel Martins, Editor de Multimédia do Expresso

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