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Sobre o fim da blogosfera

23:24 Sábado, 15 de Nov de 2008
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As pessoas, incluindo os profissionais de jornalismo, lêem o que cérebro os deixa ler. Um título de uma peça tem um duplo objectivo: sintetizar o assunto, ou teor, do artigo e chamar a atenção para ele.

No início da semana, recebi o mail de Rogério Santos a lembrar-me, gentilmente, o IV encontro de blogs na sexta-feira, pedindo o título da minha apresentação para o colocar no blog do encontro. Dei as minhas voltas. Já sabia sobre o que iria falar mas faltava-me ainda uma linha de força. Passado um determinado tempo, respondi-lhe: "A minha comunicação terá por título "O fim da blogosfera". É um título provocativo e jogo com os sentidos da palavra fim, não tanto como no fim de um livro, mas mais no fim da margem de um lago - chegar a uma fronteira. É uma metáfora para o fim da fase das borbulhas da blogosfera, que entra numa idade madura - como aliás fazia notar a The Economist [...].
Nessa idade madura está a ligação ao tema do painel - cultura e negócio
"

E passados mais uns minutos, decidi-me. Era simplesmente irresistível fazer, no meu blog pessoal, um post intitulado o fim da blogosfera. Um post normal, informando do IV encontro a escassos dias da sua realização, e dando notícia do teor da minha apresentação.

Bem. Só não caiu o Carmo e a Trindade na blogosfera porque, a bem dizer, já não há (energia na) blogosfera. Um título destes em 2006 teria pegado fogo à blogosfera, que então existia, em todo a energia das suas juvenis borbulhas.

Foi, no entanto, curioso ver algumas reacções. Desde logo, e em primeiro lugar, o Rogério Santos, organizador do IV encontro, professor e blogger histórico. Rogério Santos admite (links no final deste artigo): "parece que a ideia romântica da blogosfera - onde cada um escreve o que pensa ser útil e o partilha com outros, formando uma comunidade - está rapidamente a desaparecer.

No "5 Dias" Luís Rainha dá uma lição de como citar fontes relevantes e escreve: "desta forma, a "ascensão de uma nova forma de comunicação socializada: a auto-comunicação em massa" celebrada por Castells redundaria sempre numa multidão de profetas a clamar em desertos electrónicos, vendo apenas ao longe as luzes das cidades hospitaleiras, ocupadas e geridas pelos happy few do costume".

João Pedro Pereira, no Tecnopólis, concorda: "Como cada vez menos se diferencia do resto dos sites, a blogosfera tende para o desaparecimento. Algo que não é diferente do que o rodeia não existe por si"

Paulo Pinto Mascarenhas, no Atlântico, joga forte demais na antecipação: "posso estar enganado, mas presumo que Paulo Querido irá defender que os blogues hoje não existem ou estarão à beira do fim sem o recurso a outro tipo de ferramentas e instrumentos, como o Twitter, por exemplo". Espero que não tenhas feito disso uma aposta, Paulo :) Na realidade, há cada vez mais blogues e estou relativamente seguro que o ritmo de publicação não diminuirá nos próximos anos.

O Paulo escreve ainda isto: "Fora da blogosfera, sobretudo quando falo com outros jornalistas, apesar de as conversas se iniciarem quase sempre com críticas ao blogue x ou ao autor y, apercebo-me de que nunca a blogosfera foi tão forte e tão influente nos meios de comunicação tradicional. O mesmo acontece com os bloggers com quem me dou mais".

Ora, eu concluo o contrário. É precisamente porque essa proximidade aumentou que posso falar no fim da blogosfera. Como desenvolvi na apresentação no IV encontro (ver slides de apoio mais abaixo), parte das características essenciais da blogosfera perderam-se. A noção de blogosfera pressupunha, inclusivé, um antagonismo face aos jornalistas. Ou no mínimo um corpo comunicacional alternativo aos media, que até dava notícias, que marcava a agenda, obrigando os jornalistas a trabalhar naquilo que supostamente era o interesse "dos cidadãos".

Exemplos disto foram, nomedamente, os casos Portugal Profundo e o diploma de José Sócrates. Eram "nós", os bons, os puros, os bloggers, os cidadãos, contra "eles", os jornalistas, vendidos, impuros, incompetentes, distantes.

De há já algum tempo a esta parte essa consciência colectiva de alternativa desapareceu. Uma boa parte dos bloggers que se distinguiram tem hoje funções remuneradas nos jornais. São pagos para escrever nos media. Republicam os seus artigos nos seus blogs, fazem links dos seus blogs para os artigos que escrevem a soldo dos jornais.

Representam uma fatia estatisticamente irrelevante da blogosfera, é um facto. Outro facto é que a miscigenação entre mainstream media (MSM) e social media é muito mais ampla. Hoje, é difícil distinguir entre uma boa parte dos blogs do que são sites noticiosos e informativos. As fronteiras que delimitavam os dois campos esbateram-se, quase desapareceram.

Não apenas porque o número de publicações profissionais aumentou muito na Internet graças, em parte, à tecnologia do blog, à demografia do blog e às audiências da blogosfera.

Também porque - inevitavelmente - os jornais em geral já se aproximaram dos formatos narrativos que emergiram dos blogs (vistos como laboratório). Também porque um número impressionante de bloggers optou por se aproximar do estilo dos jornais, da função dos jornais - e dos modelos de negócio dos jornais.

Acresce que tanto na inclusão de diferentes formatos - o multimedia: texto, imagem, video - como ao nível do design a generalidade dos blogs se aproximou desse "centro ideal" para o qual convergiram os jornais online com a adopção das "modas" triunfadoras na blogosfera.

Não se trata de futurologia. Estou a descrever o presente e o passado próximo. As mudanças operadas na comunicação online nos últimos meses. Tal como fizeram Andreas Kluth (o autor do artigo da Economist que, já agora, explicou o título no seu blog pessoal), Nicholas Carr (no seu blog, bem como na Britannica) e Paul Boutin na Wired de Novembro.

Dirão - mas mudanças não significam fim.

Direi - bastariam estas mudanças para justificar o título "o fim da blogosfera" numa comunicação onde se pretenda... apresentá-las, acrescidas de argumentos, para discorrer sobre este assunto.

Tratando-se de mudanças relativamente profundas, embora graduais (o que serve de atenuante para os bloggers não se terem antecipado aos jornalistas no engatilhamento do assunto), faz todo sentido falar em fim de ciclo, passagem para outro nível - e contra mim falo, porque o título assim começa a perder parte da sua graça, a graça de envolver o leitor pela controvérsia.

Contudo, na apresentação não me fiquei por aí. Apresentei 2 sinais - entre outros que nos rodeiam - para reforçar a tese do fim de algo mais que um ciclo. Sinais que, no caso da blogosfera portuguesa, vêm sido detectados desde 2006. Mas aflorei ainda aspectos que contribuem para tirar impacto aos blogues (e energia aos autores e leitores). O surto das redes sociais e da participação dos indivíduos nelas, bem como as alternativas editoriais como o microblogging, que é onde agora está a acção.

Eis, então, os slides que suportaram a apresentação.



Faço notar que são apenas slides. O que contêm são pontos de partida para as explicações orais. No geral, os factos são apresentados como estão. Num caso (o slide com logotipos dos serviços, em 2004 e 2008) optei pela acentuação da diferença através do exagero.

Para complemento e compreensão dos ciclos, recomendo este Hype Cycle for Social Software, da Gartner. Percebe-se onde está hoje a blogosfera: saiu da fase de desilusão (isto nos EUA: em Portugal estaremos em pleno centro dessa fase) e caminha para a fase em que se firmará como respeitável negócio, perdidos nas profundezas do Google os relatos dos pioneiros e a memória dos entusiasmos com o primeiro meme, com o link num blog de topo, com as guerras travadas "contra" os jornais.

 

Links
Blogues - chão que deu uvas? , Manuel Pinto, dia 15
As notícias da morte da blogosfera são manifestamente exageradas , Paulo Pinto Mascarenhas, dia 14
Quem matou a blogosfera? , Sílvio Meira, dia 14
Ainda sobre a morte da blogosfera , Rogério Santos, dia 13, 09:00.
Morte da blogosfera? Não creio , Rogério Santos, dia 13, 12:46
O fim da blogosfera, lá longe , Luís Rainha, dia 13.
A morte da blogosfera , João Pedro Pereira, dia 12
Twitter, Flickr, Facebook Make Blogs Look So 2004 , Paul Boutin, Wired de Novembro
Who killed the blogosphere? , Nicholas Carr, dia 7
The "death" of blogging , Andreas Kluth, dia 6
Oh, grow up , The Economist, dia 6

9 comentários
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Talvez sim, talvez não!
joaoespinho (seguir utilizador), 1 ponto , 19:39 | Segunda-feira, 17 de Nov de 2008
O mundo da blogosfera tem várias realidades. É verdade que a blogosfera intimista tem o seu público de muitos comentadores/visitantes (por razões óbvias) e não se lhe adivinha grande evolução. Também é verdade que os A's (sobre)vivem dos seus círculos de amigos e dos links que fazem de si próprios. Tudo isto, e mais algumas coisas apresentadas nos slides, é uma realidade. Mas há uma blogosfera, porque territorialmente na província, que continuará a sobreviver e a servir como ferramenta essencial de comunicação. Esta blogosfera tenderá a aperfeiçoar-se, assim percebam os seus editores o papel que podem desempenhar, e procurará fazer algum do trabalho por vezes "ignorado" pelos media. Fale-se, então, das relações entre blogs e o poder local. Lisboa? Milhões de parágrafos "perdidos" em tudo o que é página online. Mas fale-se dos problemas de uma pequena freguesia ou mesmo de uma cidade do interior e perceberemos o papel dos blogs. Vivemos no mundo à parte? Não, também estamos na blogosfera e temos consciência das consciências que podemos agitar.
João Espinho
http://www.pracadarepubli...
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Re: Sobre o fim da blogosfera
Colaborador (seguir utilizador), 1 ponto , 0:07 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
João, obrigado pela achega.

A existência de blogs sobre os assuntos da província é de grande importância.

A existência de blogs pessoais, de diários íntimos publicados na Internet, é um fenómeno social com impacto no relacionamento das pessoas.

A argumentação de que faço eco, e à qual junto alguns pontos, não vai contra o aumento previsível do número de blogs -- embora, como sabes, os números do crescimento já não me impressionam porque NUNCA vejo ninguém referir os números da mortantade, dos blogs abandonados, inactivos, que cumpriram o objectivo e se esgotaram, etc etc.

É claro que subsistem nichos -- como o das políticas locais e dos blogs de cultura, para dar outro exemplo -- onde os traços marcantes da cultura da blogosfera subsistem, perenes.

Mas o grosso dessa atitude, dessa cultura, perdeu-se, no meio dos interesses pessoais (o blog é marcadamente invidualista) e do movimento, lento mas inexorável, dos media e do tecido empresarial a caminho da publicação na web.

A somar a isso, tens a dispersão. Toma-me como exemplo: publico no Expresso Multimedia e no Ceertamente!, o meu webzine pessoal, mas num caso como no outro uso outras correntes de distribuição, como é o caso do Twitter, do Facebook e do LinkedIn (o português Star Tracker não conta para nenhum totobola destes, não passa da função de massajador de ego para principiantes e combinação de jantares ao melhor estilo do IRC). Mas também me podes seguir no FriendFeed, ver as minhas escolhas no DoMelhor, ler-me numa das 2 newsletters que emito, a diária e a semanal.

É claro que eu serei um experimentalista, dirás tu. Óptimo. A avaliar pelo que sucedeu antes, isso significa que dentro de 2, 3 anos toda a gente estará a distribuir-se, e aos seus conteúdos e opiniões, por diversas redes e ninguém mais falará em blogosfera -- ou se falar, estará a referir-se a uma realidade bem diferente do que era a blogosfera em 2003-2006.

As pessoas não têm ideia, por isso aqui ficam 1 número e 1 estimativa.

Tenho 2.000 leitores regulares e deliberados (isto é, que explicitamente me querem ler) só entre Feedburner, newsletters, Twitter e FriendFeed. A interacção (incluindo hipertexot) dá-se sem a intermediação do blog. E ainda que o WordPress, uma ferramenta de blogging, seja por mim usada para publicar, esta audiência está quase sempre fora do espaço do blog.

A estimativa, projectada a partir dos números até este momento: quando este mesmo artigo chegar às 1.000 visitas (o contador visível é, digamos, modesto demais... ), cerca de 50% terá vindo de fora, a saber: o lançamento do artigo no meu blog terá enviado cerca de 20%, do Twitter (onde promovi e debati o tema) e dos seus "afilhados" (como o Netvibes) terão cá chegado outros 200 pares de olhos.

Apesar de o assunto ser a blogosfera e de eu ter activamente mencionado o artigo a meia dúzia de blogs, incluindo nos comentários (com o link), dela terão cá chegado menos de 2% dos leitores -- praticamente a mesma percentagem que vem da web social (Facebook sobretudo, o que me admirou) -- e bastante menos que os 50 leitores enviados pela Google (inclui pesquisas, reader e mail) ou os 7% vindos de correio (assinantes da newsletter diária).

O que aqui é de estarrecer -- e até a mim surpreende -- é a diminuição do contributo da blogosfera para o "sangue" da web: os links. Tu és do tempo em que nos blogs produzíamos (e meto-me nela) centenas de links.

As lições antigas deviam fazer-nos reflectir. A rádio não morreu -- pelo contrário, é seguro afirmar que o número de rádios activas e de ouvintes cresceu exponencialmente, mas a rádio hoje nada tem a ver com o espírito da rádio nos anos 40, isto para não falar da sua importância na infoesfera.

Para não sair da Internet: há 15 anos o tópico quente eram os newsgroups -- havia cerca de 4.500 deles em todo o mundo e cresciam a uma velocidade espantosa. Hoje, são mais de 70.000, ninguém sabe ao certo quantos são, nem quantas pessoas lá publicam diariamente -- aliás, a maioria dos leitores e bloggers nem sabe o que é um newsgroup ou ouviu vagamente falar.

Os newsgroups "morreram" para toda a gente excepto para quem os produz e lê.

Há pesquisas que faço e que ainda me levam a páginas pessoais -- as famosas homepages, que ainda se podem fazer, pelo mesmíssimo processo dispinibilizado há 10 anos, nalguns servidores. Mais: alguma delas continuam a ser actualizadas e fornecem materiais que não temos na blogosfera (ou o Google "preferiria" dar-me resultados de blogs, em vez de homepages antiquadas e não optimizadas para ele).

Ora, é disto que falamos quando falamos do fim da blogosfera. Ela entrou no mainstream, como diz The Economist, deixou de ser sexy como diz a Wired, continua a crescer a elevado ritmo com a entrada das empresas, dos jornais, do gato e do cão, funde-se no espaço (ou no ruído) comunicacional e, como escreveu o João Pedro Pereira no Tecnopólis, algo que não é diferente do que o rodeia não existe por si.

Eu continuo a publicar em blogs e a acarinhá-los, com a noção clara do seu valor enquanto instrumento editorial. Mas o networking -- aquilo que fazia os bloggers em 2004 e 2005 visitarem-se mutuamente, cruzarem conversas livremente -- é hoje feito praticamente todo fora da blogosfera.

João: quantos links tens hoje no Praça da República que não sejam de cortesia? Quantos tinhas há 2 anos?

A terminar: os nichos (como o da política/sociedade locais) são outro sinal dessa pulverização do conceito de blogosfera.
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Engano de identidades
Exp_PauloQuerido (seguir utilizador), 1 ponto , 0:19 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
Como está bem de ver, o comentário acima é meu, e não da minha colega do Expresso Maria Romero. Um engano na janela do browser. Até o engano ser emendado, fica a informação.
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ProAm
danielcarrapa (seguir utilizador), 1 ponto , 0:44 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
Caro Paulo,

Gostei bastante desta tua análise, apesar de discordar da segmentação ProAm na definição do que é a A-list e a B-list. A definição existe na blogosfera mas refere-se geralmente à expressão que um blog tem dentro da rede e não necessariamente para o exterior. Ou seja, estar na A-list não significa necessariamente ter expressão nos media tradicionais. E a definição que fica – do que resta – para a B-list é tão genérica que deixa de ter significado.
Seja como for, a ideia de fim da blogosfera faz sentido como a colocas. O blogging deixou de existir numa esfera ou círculo fechado para passar a funcionar de forma mais invasiva, disseminando-se por outras plataformas de comunicação.
O texto do Andreas Kluth para o The Economist é interessante – bem mais do que o da Wired – porque coloca a questão da ascenção do blogging ao mainstream – perdendo alguma espontaneidade e o carácter subversivo que originalmente lhe estava atribuído. E com isso alguma contundência. Mas a estabilização da plataforma parece-me bastante forte. Os blogs poderão – e irão por certo – sofrer mutações no futuro, mas a função blog persistirá como um novo espaço público pessoal que fará parte das nossas vidas – tanto a nível pessoal como profissional.
A divisão que o Evan Williams faz é por isso bem mais interessante, da existência de uma blogosfera comercial e uma blogosfera pessoal. São simplificações e dentro de cada uma cabe um mundo inteiro, mas é aí que está a ocorrer parte dessa estabilização. Vale a pena reter um dado do artigo da Wired – que a maioria dos 100+ da lista do Technorati já não são páginas individuais mas blogs corporativos, magazines online, páginas profissionais. Mas é importante perceber que a blogosfera é bem mais que aqueles 100+. E a força da blogosfera – uso o termo actual por falta de outro melhor – reside na coesão da rede, ou das muitas redes que existem cá dentro. E a título de exemplo – e uma imprecisão do último slide – estará o case study Barack Obama. Aquilo a que chamas de site institucional teve como um dos motores mais fortes a secção blog. Na verdade, a própria página se assumiu como agregador de blogs, convidando os apoiantes a abrir a sua própria janela lá dentro. E muita da sua mensagem na rede circulou via blogs e não apenas nas ferramentas de web-social.
Para concluir – e voltar ao ponto inicial – dizer apenas que um dos problemas com a tua tese resulta em misturar uma análise da realidade blog nacional e a discussão gerada pelos artigos que referenciaste do Boutin e do Kluth. Porque nós não temos blogosfera comercial. Dizer que a A-list são os prós e a B-list são os amadores é incorrecto porque são todos amadores – nós não temos blogosfera profissional. Mais grave do que isso, desvalorizamos a importância da rede como valor em si mesmo. Na blogosfera de elite a credibilidade funciona como uma bolsa de valores, uma meritocracia imperfeita mas de onde surgiram nomes que se tornaram referências robustas e altamente reconhecidas. Por cá esse mercado da credibilidade funciona de forma muito débil e o sucesso não conduz a nenhuma capacidade de profissionalização. Ou seja, estamos todos na lista B.

Nota: quanto ao número de blogs inactivos ou abandonados recomendo a leitura do estudo State of the Blogosphere 2008 no Technorati.
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A auto-edição é bem maior que o blogging
Exp_PauloQuerido (seguir utilizador), 1 ponto , 5:21 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
danielcarrapa, boa análise, saúdo a estimulante participação!

Não é intenção associar os profissionais à A-list e os "amadores" à B-list. O que mostrei, com o slide, foi a existência dessas duas dicotomias: profissionais e amadores, A-listers e B-listers (esta segunda foi, eventualmente, a primeira dicotomia da blogosfera, lembro-me dessa categorização desde 2003).

Na verdade é hoje seguro entre os principais analistas que a evolução dos meios -- e falo tanto da blogosfera como do jornalismo -- passa precisamente pelo caldinho ProAm, com os profissionais a receberem ajuda (?) dos amadores. Ora, o que diziam os bloggers em 2003 e mais adiante é que o amadorismo ia atirar o profissionalismo pela borda fora.

O texto da The Economist, como o do Nicholas Carr para a Britannica, é mais sério, digamos assim, enquanto o da Wired é mais solto, mais provocativo.

O teu é um mau exemplo: o top 100 do Technorati é maioritariamente profissional desde há 3 anos, não é de agora (verificar via web.archive.org).

Desculpar-me-ás, mas não vi, como tu, que o forte da campanha de Obama passasse pelo blog de campanha. Em que te baseias para usar o termo imprecisão? Não é isso uma questão de opinião?

O site funcionou como um agregador das várias acções reticulares da candidatura -- sendo a sua função principal a de mealheiro. A segunda função foi a de alojar e orientar o recrutamento do exército de voluntários para as acções in real world. As mensagens foram distribuídas pelo Facebook, MySpace, Twitter -- sendo que neste residiu o "coração" da mensagem forte, o "change". O número de followers de Obama no Twitter em Março disparou -- e nas semanas seguintes ele derrotou Clinton, cuja presença no Twitter era muito mais débil.

Os portugueses estão blogocêntricos ainda, o que se compreende. Mas a blogosfera já não representa, nos EUA, a mudança, a inovação.

Eu, pelo contrário, não vejo que a plataforma esteja estabilizada. Continua a evoluir a olhos vistos -- não falo, obviamente, das plataformas de segunda e terceira linha, como as nacionais, mas sim do WordPress e do Movable Type. Este último, nomeadamente, procura ter um papel activo no futuro do próprio jornalismo... Tecnicamente a evolução não abrandou. Hoje os motores de blogging aceitam muito mais tralha em cima do que antes, e a incorporação parece, de resto, a sua única saída para se manterem competitivos face aos serviços de web social como o Facebook e ao microblogging. Ao mesmo tempo, afastam-se da função inicial: publicar textos sequencialmente em ordem cronológica.

Atenção: nem isto é uma tese, nem a ideia é propriamente minha, ou nova. O debate sobre o fim da blogosfera já circulava nos meios mais reconditos da cibercultura e o que Carr e a Economist fizeram foi tirar-lhe os pormenores e dar-lhe um sentido capaz de a levar à correnteza. Palvras simples, conceitos simples.

É verdade, como dizes, que as duas realidades -- portuguesa e americana -- estão ainda diferenciadas e a minha apresentação não estabeleceu as suas fronteiras.

Não é menos verdade que, cá como lá, o blog perdeu a exclusividade enquanto ferramenta de auto-edição online, lutando agora pela sobrevivência num meio densamente competitivo. E a função de socialização (a pertença a um grupo, ou grupos) sofreu um abalo ainda maior. A quantidade de portugueses que este ano entraram no mundo da partilha e da socialização profissional em rede sem nunca na vida terem escrito um post é tudo menos desprezível, seja numericamente, seja estatisticamente. Seja, até, do ponto de vista da relevância. Talvez uns 80% (e a aumentar) dos meus contactos nas redes sociais estão nessas circunstâncias.

Desculpa ter de te contradizer de novo, mas porque afirmas que não há uma blogosfera comercial? Há, sim senhor, e relativamente pujante. O que não despontou em Portugal foi nenhum Techcrunch ou Huffingtonpost -- por razões que ficam para outra altura. E é claro que o mercado da língua portuguesa para Portugal (que é muito diferente da lingua portuguesa para o Brasil, infelizmente para o nosso empreenderismo na Internet) é pequeno demais. Mas atrevo-me a dizer que a proporção de blogs comerciais para não comerciais não será diferente da proporção americana.

Curiosamente -- e aqui reside outra diferença para com a realidade estadounidense -- há um grande desfasamento entre os bloggers comerciais e os A-List. Não me lembro de nenhuma coincidência. Todos os comerciais são B-List. Embora alguns bloggers profissionais (onde foste buscar a ideia que não os há?) sejam A-list.

(Separo aqui o blogging profissional dos blogues comerciais porque as duas existem; tens autores que vivem do que escrevem e da presença na web, e tens bloggers que essencialmente comercializam as páginas, não se distinguindo em particular o valor da sua escrita ou publicação -- nalguns casos, meras cópias e repetições circulares).

O estudo de David Sifri é do melhor que há, nisso estamos de acordo. E esta última versão 2008 é ainda melhor que as anteriores.
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Blogosfera comercial e profissional
danielcarrapa (seguir utilizador), 1 ponto , 15:32 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
Admito a minha ignorância - a sério, sem ironias - mas repito as minhas dúvidas. Estou na blogosfera há cinco anos e não sei onde está a blogosfera comercial portuguesa. Não estou a falar de comércio nos blogs, de pessoas a vender artesanato ou mesmo blogs com alguns anúncios, mas de blogs suportados por uma estrutura empresarial, com colaboradores profissionalizados, cuja actividade blog seja capaz de gerar "revenue" auto-sustentável.

Como não sei onde estão os nossos bloggers profissionais . Não estamos a falar de bloggers que são profissionais dos media - que escrevem nos jornais e têm um blog. Ou bloggers que são secretários numa qualquer sede de partido e não devem ter mais nada que fazer do que passar o dia sentado à secretária a escrever "posts". Estou novamente a falar de bloggers que tenham no blog a sua principal fonte de rendimento. Que vivem dos blogs e das receitas de publicidade que geram lá dentro. Existem? Quero exemplos.

E esta questão é muito importante porque mostra o oceano que nos divide do fenómeno da blogosfera internacional de topo, de onde vêm estes artigos. Podemos usar a mesma ferramenta, mas somos tolos se nos convencemos que andamos a fazer as mesmas coisas.

[abarrigadeumarquitecto.blogspot.com]
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    Re: Blogosfera comercial e profissional    Ver comentário
Exp_PauloQuerido (seguir utilizador), 1 ponto , 17:44 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
    Re: Blogosfera comercial e profissional    Ver comentário
danielcarrapa (seguir utilizador), 1 ponto , 19:38 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
    Re: Blogosfera comercial e profissional    Ver comentário
Exp_PauloQuerido (seguir utilizador), 1 ponto , 22:06 | Terça-feira, 18 de Nov de 2008
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