António Nóvoa: "
Portugal tem de decidir, de uma vez por todas, se quer ou não quer ter grandes universidades"
Pedro Pina/Lusa
António Nóvoa abriu o Ano Académico da Universidade de Lisboa, aproveitando a sessão solene e a presença das mais altas individualidades para disparar toda a sua artilharia pesada de críticas ao Governo.
Falando nos actuais "tempos de incerteza, quando interesses ilegítimos tomam conta das nossas sociedades", o reitor ganhou força ao longo do discurso para acusar directamente o poder político de "mergulhar as instituições numa interminável burocracia", de "escrutinar à lupa" as universidades e de, pelo quarto ano consecutivo cortar o financiamento estatal às universidades.
"O Orçamento é distribuído de forma a favorecer a Ciência e a prejudicar as universidades. Como se a formação de base dos portugueses fosse um tema menor", acrescentou.
"Portugal tem de decidir, de uma vez por todas, se quer ou não quer ter grandes universidades. O que depende de nós tem sido feito. Mas há muito que não depende de nós, mas sim das opções políticas", disse o reitor da Universidade de Lisboa.
O tom do discurso de António Nóvoa ganha ainda mais impacto, em plena guerra aberta entre reitores e o poder político, depois de, no passado sábado os dirigentes máximos das universidades terem enviado uma carta ao Presidente da República e ao primeiro-ministro salientando a situação de asfixia financeiras das instituições.
Sem papas na língua, o reitor de Lisboa denuncia "a estratégia da arrogância e do medo, do controlo e da ameaça" que, na sua opinião, "até poderá ter sucesso a curto prazo, mas destruirá por muitos anos as forças vivas que existem nas universidades".
Recados dados ao poder político, o reitor termina o discurso de oito páginas (ver link no final deste artigo) anunciando a sua demissão. Nóvoa diz que o faz "com toda a serenidade" e justifica a sua atitude com o facto de terem sido renovados todos os órgãos da universidade, à luz do novo regime jurídico que rege as instituições do ensino superior.
"Ninguém compreenderia que tudo mudasse e que o reitor se mantivesse, escudando-se numa norma legal que lhe permite completar o mandato", explicou.
Assim, o reitor sai pelo seu próprio pé e até assume que apresentará nova candidatura. O importante, diz, é que o próximo reitor tenha "uma legitimidade sem mácula". Isto é, precisa de reforçar a sua posição.