Há coisas terrivelmente simples. Se duas pessoas armadas agarram duas pessoas desarmadas e lhes encostam armas de fogo à cabeça, a polícia tem de disparar, com irrepreensível pontaria, sobre aqueles que se preparam para disparar sobre os inocentes desarmados. Foi isto o que aconteceu no assalto a uma dependência bancária, em Lisboa, há semanas: depois de oito horas de tentativas de negociação, os sequestradores encostaram-se à porta envidraçada com armas encostadas à cabeça das suas vítimas. A escolha era matar os assaltantes ou deixar que eles matassem as vítimas. A escolha, na verdade, foi feita pelos assaltantes, quando ergueram as armas, não deixando à polícia outra opção - a não ser que se entenda que deixar assassinar os reféns pudesse ser uma opção. Quem assim pensa deve assumir as consequências deste modo de pensar, que conduz a uma sociedade sem lei, nem justiça, nem a mínima noção de segurança: a sociedade do salve-se quem puder. E deve então mudar-se para um país onde a protecção dos cidadãos indefesos não signifique nada (o Sudão, por exemplo) e tentar sobreviver por lá.
Se não formos capazes de responder com uma firmeza clara nos momentos terríveis, as coisas terrivelmente simples tornam-se apenas terríveis. Incontroláveis. O cronista do "Diário de Notícias" João Miranda insurge-se contra a utilização de "snipers" para a resolução deste assalto, escrevendo (16/8/2008): "A força usada pela polícia contra cidadãos que se presumem inocentes não pode ser superior à que os tribunais usam contra condenados." Escapa-me como se pode presumir a inocência de dois cidadãos que têm armas apontadas à cabeça de outros dois cidadãos.
Esta é mesmo uma daquelas situações em que o Bem e o Mal se manifestam em todo o esplendor do seu contraste e sem lugar para dúvidas - quem ousa colocar reticências às prioridades a ter em conta num momento assim não pode queixar-se da falta de valores, porque não os tem. Sim, importa defender a vida dos inocentes face aos que, com ou sem presunção, se preparam para acabar com ela. E se a defesa dessas vidas inocentes implicar, em última instância, a perda das vidas dos que atentam contra elas, não há que hesitar. Sob pena de deixarmos de ser capazes de distinguir o bem e o mal. É mais importante proteger a vida das vítimas do que a dos carrascos - há que ter a coragem de o afirmar. A tolerância para com a barbaridade torna-nos bárbaros, baralha-nos as ideias, torna-nos medrosos e receptivos às demagogias. Os assaltos a bancos duplicaram, em Portugal, no primeiro semestre deste ano. O medo é contagioso, e muitíssimo perigoso; cria monstros imaginários que acabam por se colar à pele das pessoas e gerar nelas ideias monstruosas.
A complacência da esquerda democrática para com a banalidade do mal, a sua incapacidade de proclamar a possibilidade e a superioridade do bem tem conduzido ao crescimento da direita autoritária por toda a Europa (o caso de Itália é eloquente). A violência cresce, impante, nos bairros suburbanos, e os mais pobres desistem de acreditar na solidariedade dos burgueses bem pensantes que lhes repetem que todos os cidadãos - mesmo os que roubam e sequestram e violam e aterrorizam - são inocentes até prova em contrário. Os pobres, tal como os polícias (que também estão longe de ser ricos e protegidos pelo Estado), estão fartos de ser a inútil e morta prova em contrário.
Uma criança de 13 anos morre, apanhada por um tiro da polícia contra uma carrinha em fuga, depois de um assalto.
Acusa-se de imediato a polícia que atirou aos pneus da carrinha que se recusou a parar - e o agente que atirou é constituído arguido e acusado de homicídio. A ninguém parece ocorrer que o culpado da morte do rapaz é o pai, que inicialmente se deu por padrasto, com um nome falso - para que a polícia não o reconhecesse como o foragido da prisão que de facto ele é, desde há oito anos. Que a polícia tenha libertado um condenado evadido sem se ter dado conta da sua identidade é, isso sim, verdadeiramente trágico - porque sinaliza o grau de insegurança do país em virtude da falta de meios das autoridades (ausência de dados informáticos, por exemplo). Este pai que levou o filho para um assalto e o condenou à morte, continua, à hora a que escrevo, em liberdade. Espero que não tenha mais nenhum filho para usar como escudo humano no próximo assalto. Procurando defender a inocência dos assaltantes - o pai e o tio do rapaz que, além do material roubado, tinham na carrinha uma arma e munições -, um primo veio alegar ("Público", 13/8/2008) que "é um hábito dos ciganos, qualquer cigano tem uma arma para se poder defender". Ainda bem que é um elemento da família a invocar esta especificidade como tradição cultural específica da sua comunidade; parece-me urgente explicar a esta família que os hábitos de cada comunidade portuguesa têm de se conformar à legislação estabelecida, que é igual para todos.E que, numa sociedade democrática, as armas estão nas mãos da polícia, que deve proteger a vida e os bens dos inocentes desarmados.
Inês Pedrosa