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Agricultura biológica

Árvores com "chip" incorporado

Inovação. No Fundão, o maior produtor de cereja biológica da Europa desenvolveu tecnologia de ponta para gerir o seu pomar.

Conceição Antunes
16:00 Terça-feira, 12 de Ago de 2008
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Carlos Mendes, agricultor, confere no PDA os tratamentos a realizar no seu cerejal de quase 120 hectares
Carlos Mendes, agricultor, confere no PDA os tratamentos a realizar no seu cerejal de quase 120 hectares
Alberto Frias

Parecem rubis a brilhar ao sol radioso da Cova da Beira. As últimas cerejas do ano são colhidas sob o controlo atento do agricultor Carlos Mendes. Nos seus quase 120 hectares de cerejal no Fundão, a produção é 100% biológica. "Esta é a maior área de produção de cereja biológica da Europa", faz notar Carlos Mendes, que está habituado a exportar cerejas para países como França, Inglaterra, Alemanha e até Brasil. "Para vender no Norte da Europa, é fundamental estar certificado. E em 2009, quero estar a exportar 90% da produção".

Aquele vasto cerejal do Fundão já deixou de ser gerido "a olhómetro". As árvores têm um "chip" incorporado e todas as operações de rega, colheita ou colocação de adubos são controladas ao milímetro, sendo a informação continuamente encaminhada para um sistema central. "Agora, as árvores podem falar comigo", refere o agricultor.

Dar uma voz à Natureza

O sistema no pomar biológico de Carlos Mendes está em fase de construção, prevendo-se a sua conclusão até ao final do ano. Vai incorporar um conjunto variado de tecnologias, envolvendo também investigação da Universidade de Coimbra. Para desenvolver esta nova plataforma de "software", o agricultor português juntou-se ao informático e consultor belga Paul Raoul Gailly na criação de uma empresa comum, a SSIAgri, que está a funcionar no Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã.

"Sempre tive o problema de conseguir gerir uma área que excede a minha capacidade humana", reconhece o produtor de cereja do Fundão. E acrescenta: "E sou obrigado a fazer o controlo dos produtos que envio para os supermercados europeus".

Segundo Paul Raoul Gailly, "o carácter inovador do sistema está em dotar a Natureza de uma voz. Numa produção biológica há mais regras que são impostas, e o grau de rastreabilidade do sistema ultrapassa de longe as regras mais exigentes".

Quando estiver finalizado, o sistema permite gerir as colheitas em função da previsão de chuvas ou outras condições de clima adverso que podem danificar as cerejas. "Como numa fábrica, posso informar o meu cliente na Bélgica ou na Alemanha que dentro de xis dias tenho xis quilos de cerejas colhidas. É o que sempre quis fazer e nunca consegui", salienta Carlos Mendes. Ao vender para cadeias como Jumbo e El Corte Inglés, o produtor também reforça o "casamento com a grande distribuição", ajudando ao controlo da fruta que entra nos armazéns.

O consumidor também terá acesso, pela Internet (e com o código de barras da embalagem), a toda a informação sobre tratamentos feitos na cerejeira que deu os frutos que vai comer. A 'cereja em cima do bolo' é poder ver imagens da própria árvore, através de câmaras móveis a instalar no pomar. "O que está em causa é a segurança alimentar e a credibilização de origem. Não ficam dúvidas para o consumidor que as cerejas são da Cova da Beira, contrariamente à questão que se fala de pôr fruta espanhola nas casas portuguesas", sublinha o agricultor.

"Este sistema foi algo que pensei para mim. Mas aplica-se a qualquer produção, tanto biológica como convencional", frisa Carlos Mendes, referindo que além da cereja, o sistema pode ser aplicado à produção de azeite, vinho, hortofrutícolas e até à floresta, com vista a obter ganhos de eficiência em várias frentes. "Vamos criar um conceito de agricultura para conseguir produtos mais baratos".

A meta da SSIAgri é "criar um produto português com uma patente" e exportá-lo para vários países. Numa primeira fase, já em 2009, o alvo é a Península Ibérica, além de Itália, França ou Grécia. "O nosso caminho vai ser evoluir para um prestador de serviços global e um parceiro na gestão florestal", adianta Carlos Mendes. "E aqui já estamos no domínio da inovação pura".

Compensa uma produção 100% biológica? "A cereja desenvolve-se em dois meses e requer muito menos intervenções fito-sanitárias que as batatas ou as cenouras, por exemplo", explica o agricultor. "A Mãe-Natureza é a minha grande sócia. É ela que faz 90% das coisas", sublinha.


Gestão inteligente do cerejal

Árvores com "chip"
O sistema-piloto neste cerejal do Fundão agrega um conjunto de tecnologias que permitem a rastreabilidade total dos frutos desde o campo ao armazém. Cada linha de árvores tem um "chip" incorporado, com informação actualizada sobre todas as operações mecânicas e manuais, ligado a um sistema central

Agricultor 'fala' com as cerejeiras
No campo, o agricultor, munido com um PDA (terminal móvel multifunções), interage com cada cerejeira que lhe 'diz', em tempo real, todas as operações já feitas ou a fazer ao nível de adubagem e outros tratamentos, rega, colheita, etc

Erros de campo reduzidos a zero
Os erros mais comuns da agricultura 'a olhómetro', como a dupla adubação, são rejeitados à partida pelo sistema - que regista os nomes dos trabalhadores que asseguraram cada operação

Rega controlada por fitomonitorização
O sistema mede a humidade da árvore, que varia ao longo do dia em função do ciclo de seiva, para controlar a rega e as necessidades nutricionais da planta

Biosensores avaliam a fruta
O grau de maturação da fruta é avaliado por biosensores, permitindo determinar a altura ideal da colheita em cada árvore

Colheita sob previsão meteorológica
Uma ferramenta previsional com informação meteorológica permite gerir as colheitas e informar os clientes sobre a calendarização das encomendas

Supermercados fiscalizam "online"
Os clientes retalhistas podem controlar online as especificações da produção

Consumidores vêem o pomar
Através de câmaras instaladas no pomar, o consumidor pode ver na Internet, pela indicação do código de barras da caixa, imagens em tempo real da árvore de onde vieram os frutos que está a comer

Produção mais barata
Ao eliminar as ineficiências do processo agrícola, economizando energia, água e tratamentos, além de afinar toda a cadeia logística, o objectivo do sistema é obter uma produção mais barata

Bases para uma nova certificação
Além de dotar as entidades certificadoras de informação mais apurada, o sistema visa ele próprio abrir o caminho para uma nova certificação, contando com o apoio de parceiros e de fornecedores

Um sistema para exportar
A meta é patentear o sistema, aplicável a toda a produção agrícola e florestal, e comercializá-lo em vários países


Comprar com segurança: Selos de certificação
Árvores com 'chip' incorporado
A partir de agora, o consumidor pode deparar com dois tipos de certificação (que aqui reproduzimos) sempre que procurar bens alimentares resultantes do modo de produção biológico. Ambos lhe darão a garantia de que, perante eles, estará a comprar um produto genuinamente biológico. Ou produzido em qualquer outro país da União Europeia ou em Portugal.

A marca Portugal Bio é gerida pela Interbio em acordo com os organismos de certificação. Mas, como fazem questão de sublinhar os responsáveis daquele organismo, está aberta a todos os operadores, sejam ou não associados da Interbio.
Árvores com 'chip' incorporado

Reunidos há pouco mais de um mês no seu segundo congresso, os agricultores de modo biológico deixaram claro que é necessário uniformizar os critérios e procedimentos das entidades certificadoras. Por outro lado, sempre que forem aplicadas sanções, elas deverão ser divulgadas e tornadas públicas. É que, segundo Alfredo Cunhal, vice-presidente da Interbio, o pior que poderia acontecer ao sector era uma crise de falta de credibilidade.

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Miguel Martins, Editor de Multimédia do Expresso

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