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O mono

8:00 Segunda-feira, 4 de Ago de 2008
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CONFESSO que não estava à espera de me preocupar com o mono. Nas escarpas de Sagres, entre a travessa de robalo e o travo da amarguinha, uma pessoa até se esquece de Lisboa e da sujidade, dos monos, das petições e abaixo-assinados inúteis numa cidade entregue aos vigilantes da Emel, aos especuladores imobiliários e aos mil projectos de reabilitação de qualquer coisa, a Baixa, a Ribeirinha, o bairro da Liberdade, o que se quiser. Tenho a maior simpatia pelo Costa, como é conhecido o nosso presidente da Câmara, por causa da cidade miserável, débil e endividada que ele herdou da Câmara do PSD, mas, pela parte que me toca, a coisa está frouxa. Antes de rumar a sul recebi uma petição no computador, "Salvem o Largo do Rato". Confesso, todos os dias recebo petições inúteis, deixei passar. Pensei que se tratava de salvar o actual Largo do Rato, uma das praças amaldiçoadas de Lisboa, que serve de entreposto e escoamento de trânsito e que foi tão maltratada que se entenderia o desejo de salvar o Rato do Rato.

A sul, praia ao fundo, mostram-me um jornal com uma fotografia do mono, ou da maqueta do mono. E a notícia de que duas senhoras respeitáveis do PSD, de seus nomes Margarida Saavedra e Paula Teixeira da Cruz, estão muito incomodadas com o mono e pedem explicações ao actual presidente, o Costa, e ao Executivo municipal. Percebo, o que não é o mesmo que perceve, uma coisa que se come muito para estes lados, que o mono vai ser instalado algures entre o Palácio Palmela, a sinagoga de Lisboa e uma série de edifícios classificados, e que tem a assinatura dos arquitectos Valsassina e Aires Mateus, reputadíssimos. O mono é um monstro, parece uma prisão, é um monobloco brutal, totalmente desadequado no Largo do Rato, com uma altura calculada pela cércea da Alexandre Herculano e não da praça, o pobre Rato, e percebo que a petição era contra o monstro. Eu moro por ali e sou já contra o monstro, embora dois arquitectos reputados, Helena Roseta e Manuel Salgado, confessem uma certa simpatia pelo monstro. Não se ataca a corporação dos reputados arquitectos.

Faço uns telefonemas e pergunto, o mono vai mesmo ser aprovado? Segundo o jornal, o reputado "Público", só vão votar contra o mono o vereador Sá Fernandes e o PCP. O mono vai ser aprovado. E construído. Faço mais umas perguntas? Porquê? Porque há direitos adquiridos, expectativas dos construtores e promotores, e cancelar o mono significaria pagar indemnizações de milhões de euros que a Câmara não tem. Portanto, quando os moradores de Lisboa sabem de monos construídos na sua área de residência, sabem tarde demais e a conversa é esta: expectativas dos donos do projecto. Entre a Duarte Pacheco, as Amoreiras e a Artilharia Um, está prevista a construção de uma cidade dentro da cidade, outro mono monstruoso, com dezenas de milhares de fogos, que vai alterar toda a "envolvente". Os arquitectos preocupam-se muito com a envolvente dos outros e pouco com a envolvente dos projectos que eles assinam. E assim, contra os habitantes de Lisboa, Lisboa vai sendo assassinada por Valsassinas e quejandos, perdoe-se o trocadilho.

Deste mono tratarei mais tarde, quando regressar a Lisboa, já circulam petições. Inúteis, porque, adivinha-se, o projecto foi aprovado e existem as "expectativas" e etc. Faço mais perguntas, quem aprovou o mono do Rato em primeira instância, quem criou as tais expectativas, direitos adquiridos, etc.? Quem disse aos arquitectos e construtores e empresários, avancem, desenhem, projectem, está no papo, está aprovado? Quem quis assassinar o morto Largo do Rato? Certamente que não foi o PSD, agora tão enxofrado com o mono. E respondem-me que sim, que foi o PSD, exactamente, o PSD, o que estava na Câmara antes do Costa.

Deixa ver se eu percebo isto, embora os perceves estejam em extinção porque ninguém quer afrontar as escarpas para colher uns bichos feios como fungos e invulgarmente gostosos. Deixa ver se eu percebo e consigo fazer algum humor estival com a tragédia da nossa administração pública: O PSD deixou que os senhores que têm imensas expectativas e exigem milhões de contos de indemnizações se essas expectativas não forem satisfeitas chegassem a ter expectativas. E agora, o mesmo PSD vem exigir ao novo presidente da Câmara, o Costa, que contrarie as expectativas que eles mesmos criaram e aconchegaram. E a Câmara, falida por causa das dívidas do PSD, vê-se obrigada a satisfazer essas expectativas. O mono vai, portanto, com a suave bênção de arquitectos inteligentes que não entendem que o mono estaria muito bem em Chelas ou em Oeiras mas não está bem no coração de um bairro antigo e tradicional de Lisboa, ser construído.

É nestas alturas que eu tenho pena que a direita portuguesa não tenha um partido, um pensamento, uma posição conservadora, tradicional e absolutamente antiprogressista que apareça em situações destas e contrarie crimes destes e diga que os bairros antigos das cidades são para ser deixados em paz, reabilitados e mantidos longe das garras modernistas de arquitectos visionários que normalmente habitam bairros tradicionais, casas tradicionais, e jamais põem os pés como moradores e utilizadores nos monos que eles assinam. Gostam de paredes de pedra, vista para o rio, janelas de sacada e vidros com patine. Que faremos com este mono?

Palavras-chave  clara ferreira alves
16 comentários
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MONOPOLISMO
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 10:49 | Segunda-feira, 4 de Ago de 2008
Poderia responder, Clara. Poderíamos discutir, questionar, monopolizar o tema. Tínhamos até, imagine, na Edimpresa o lugar para o fazer. Agora só se dermos largas à conversa no dito largo. É, acho, um espaço livre. Este já não sei. A menos que não tarde o destino nos seja propício. Façamos por isso. Também Corto não tinha linha de sorte."No te preocupes, Niña" responde-lhe um dia. " A sorte, sou eu quem a faz". Parte a buscar a navalha do seu pai e traça um profundo sulco no local preciso da famosa linha. Gosto tanto tanto dessa linha.
João Miguel Figueiredo Silva
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
    TAL BALUARTE CHAMAVA-SE ARQUITECTURA & CONSTRUÇÃO    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:26 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    ESTEVE A MEU CARGO TODA UMA DÉCADA    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:27 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    FUI DESPEDIDO, Ó IRONIA, POR NEGAR FAZER UM MONO    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:28 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    "Deste mono tratarei mais tarde", Clara    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:33 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    "O SONO DA RAZÃO ENGENDRA MONSTROS"    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:44 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    É A OUTROS 'MONOS' E MONSTROS MAIS QUE ME REFIRO    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:45 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    joaomiguelfigueiredosilva.blogspot.com    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 8:47 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    Os belgas apodavam o Le Soir com imprimatur nazi..    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 10:53 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    Tal os monopolistas a história repete-se, Clara...    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 10:55 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    Tão vero quanto haver verdade e inverdades Claras    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 10:58 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
    VIDE EXPRESSO DESAFIO AO LEITOR. NÃO FIZ O 'MONO'    Ver comentário
joaomiguelfs (seguir utilizador), 1 ponto , 10:34 | Quinta-feira, 7 de Ago de 2008
Re: O mono
hmmsa (seguir utilizador), 1 ponto , 20:33 | Segunda-feira, 4 de Ago de 2008
Custa-me dizer isto, mas enquanto não fuzilarem três ou quatro isto não tem conserto ! Com "paninhos quentes" e tolerâncias a toda a hora a alarvice avança sem qualquer espécie de escrúpulos !
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o mono do rato
patricio branco (seguir utilizador), 1 ponto , 6:53 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
Mais um triste episódio de destrição e devoração duma cidade tão maltratada e especulada.
a lisboa central deve ter uma densidade populacional altíssima, muito para além do que seria desejavel e aconselhavel. para não falar na (des)harmonia entre a arquitectura classica, altura e estilo dos novos edificios, falta de jardins, de passeios decentes nas ruas, etc
Crónica de opinião bem escrita e argumentada, ao estilo de MST mas superando-o.
Não deixe o assunto do mono, pf. sra clara ferreira alves
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Mono do Rato
luismarquesdasilva (seguir utilizador), 1 ponto , 12:18 | Terça-feira, 5 de Ago de 2008
Apesar do projecto de arquitectura estar aprovado, na passada 4ª feira, dia 30 de Julho, a Câmara Municipal de Lisboa, reunida em reunião de executivo, indeferiu o licenciamento e, por consequência não irá emitir a respectiva licença de construção.
Surgem agora as dúvidas sobre quais serão as hipóteses que se seguem, para o presente assunto: Ou há a revogação expressa do acto proferido de deferimento de arquitectura e consequente assumpção por parte da autarquia de que este projecto, para aquele local, deverá ser definitivamente afastado, ou submete o mesmo projecto a discussão pública, podendo á posteriori, deferir o licenciamento, emitindo a respectiva licença de construção, ou também e por último, transferir a capacidade construtiva deste terreno para outro qualquer terreno fazendo uma permuta que, em termos legais, nada terá á partida de contrário.
No entanto deverá ser referido aqui, que o espectro da indemenização deverá ser reduzido á sua verdadeira e real expressão, não devendo este argumento servir para minorar o peso negocial de futuras negociações entre a câmara e o promotor. Isto porque o procedimento administrativo deferido (projecto de arquitectura), não deverá ser considerado como expectativa protegida, só o sendo a partir do licenciamento; os danos causados deverão ser considerados sempre hipotéticos e não efectivos, pelo que o valor indemenizatório será sempre baixo, relativamente ao custo dos efeitos produzidos na cidade com a construção deste edifício.
Eu defendo que neste local, o que melhor remata aquela esquina, será sempre um espaço verde, que permitisse fazer a ligação com o chafariz de Mardel, com a recuperação efectiva do edifício da centenária Associação Escolar de S.Mamede, isto independentemente de se abrir ou não a sinagoga á cidade, devendo ser a própria comunidade a decidir se pretende ou não esta solução para a sua sinagoga.
Não posso deixar de me congratular com as posições tomadas pelos vereadores de toda a oposição que assumiram corajosamente o indeferimento da proposta: Helena Roseta, argumentou aspectos técnico-legais para sustentar a sua posição e Margarida Saavedra apontou aquilo que é óbvio ao comum dos cidadãos, o excessivo peso da volumetria da proposta apresentada bem como o seu desenquadramento para o local.
Uma nota de apreço para a Junta de Freguesia de S Mamede, que aprovou, por unanimidade, a rejeição deste projecto para o local.
Fica também aqui e agora provado, que o acto de se ser cidadão passa pelo nosso empenho e dedicação ás causas em que acreditamos, devendo, se forem justas e leais, lutarmos por elas:
Na 4ª feira, ouviu-se a voz em uníssono de 4000 cidadãos de Lisboa a clamar contra o "Mono do Rato"... E, para já vencemos!

Luis Marques da Silva, arquitecto e co-autor da petição
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Tanto, tanto tempo...........
OBSERVADOR00 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:48 | Quarta-feira, 6 de Ago de 2008
Mas já não vinha aqui a esta Pluma, há já uma série de meses..... Dava pelo nick-name de OBSERVADOR então, assim como todos os "observadores" que por aqui têm andado têm sido meus. Quando estou uma semana ou duas sem cá vir, lá tenho que me registar de novo, e vou, naturalmente, criando variantes do "observador" original. Sei que as saudades foram grandes, e, por isso, saiu este artigozinho, somente para forçar o meu regresso. Como? Simples, mas funcionou. Sem hostilizar o "tempo da outra senhora"............. Até que enfim que vejo a pluma deitar tinta contra o status quo actual, e, imaginemos, o Costa e o PS................ Quem diria, hem? Será que poderei atrever-me a dizer que ou a "amarguinha" azedou ou a "douradinha" está estragada????? Penso que não... Penso que finalmente se atingiu o bom senso, a luz e a clarividência............ Se é do ar do Sul, fique por lá, escreve melhor, opina ainda melhor, e, obviamente, livra-se do mono....... e dos monos, e dos Costas................ Continue de férias que vai muito bem. Tchau, tchau.
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