Nunes Correia: "o Banco de Portugal não tem na sua missão pronunciar-se sobre o mix energético"
Miguel A. Lopes/Lusa
O ministro do Ambiente recusa o debate nuclear relançado pelo governador do Banco de Portugal: "Eu não falo de taxas de juro, acho que o Banco de Portugal não tem na sua missão pronunciar-se sobre o mix energético".
Nunes Correia, em entrevista à Lusa, desvalorizou a sugestão feita pelo governador do Banco de Portugal durante a apresentação do Boletim Económico de Verão, terça-feira, na Assembleia da República, tendo o ministro do Ambiente considerado que Vítor Constâncio, embora com "legitimidade enquanto cidadão", não o terá feito no exercício do seu cargo, mas apenas como "um aparte, que não deve ser empolado nem sequer encarado como uma recomendação ao governo".
Nunes Correia citou a propósito o primeiro-ministro, José Sócrates, para garantir que o debate nuclear "não está na agenda do governo", dilatando a questão no tempo: "Se me perguntar se em 2050 estará na agenda a minha resposta é que terá de perguntar ao ministro dessa altura".
A posição do ministro do Ambiente é explicada pela defesa da opção estratégica do governo nos campos da poupança energética e das energias renováveis, mas também pelas desvantagens que aponta à opção nuclear: "Há problemas ambientais, mas também muitos outros" na opção nuclear, defende Nunes Correia, apontando o "impacto na rede, que obrigaria a enormes investimentos muito para além daqueles que se atribuem a uma central nuclear propriamente", lembrando ainda estarem "longe de serem resolvidos" os problemas relacionados com os resíduos perigosos, para os quais actualmente considera haver "apenas paliativos", tais como o enterro a grandes profundidades.
Embora reconheça que o avanço tecnológico permite actualmente discutir a energia nuclear de uma forma que "não é igual ao que era há décadas atrás", o ministro do Ambiente prefere reforçar a opção pelas energias renováveis: "Para o horizonte temporal que estamos a decidir, as duas frentes muito importantes que estamos a atacar são as da poupança energética e a das energias renováveis, todas elas, sem excepção, até aquelas que ainda estão numa fase de desenvolvimento tecnológico, como é a da energia das ondas".
Lembrando que países como a Espanha e a Alemanha estão a fazer "fasing out" nuclear, Nunes Correia aponta metas de médio prazo ambiciosas para o conjunto das energias renováveis em Portugal, na ordem dos 40 por cento da energia eléctrica e dos 30 por cento da energia total consumida no país, recusando a crítica do carácter residual das renováveis no plano energético nacional.