Há quase três décadas que não víamos o que se passou esta semana um pouco por todo o país: filas gigantescas de automobilistas em frente às bombas de gasolina para obter um pouco de combustível que permita manter em funcionamento as respectivas viaturas.
Mas ao contrário do que aconteceu nos anos de brasa de 1977-79 e 1983-85, em que à crise social se juntava a iminente ruptura de pagamentos externos, agora as razões são diferentes e radicam na paralisação de centenas de pequenas e médias empresas de camionagem, em protesto contra o aumento do preço dos combustíveis e exigindo apoios do Governo para enfrentar a situação.
Mesmo dentro deste universo, há clivagens. Predominam as microempresas, algumas delas só com um trabalhador, e entre as 8500 empresas associadas da ANTRAM, apenas 4,2% operam com 20 veículos ou mais, enquanto quase 6000 trabalham com menos de cinco veículos. Ora são obviamente estas que mais dificuldades têm para suportar o aumento do preço dos combustíveis (o preço do gasóleo duplicou nos últimos quatro anos, mas só desde Junho de 2007 subiu mais de 40%!).
Não é, por isso, de estranhar que tenham sido alguns dos patrões destas microempresas, que não sentem os seus interesses suficientemente defendidos pela ANTRAM, a desencadear o movimento, através de mensagens por telemóvel. Mas é também por isso que um movimento deste tipo, sem uma estrutura institucional representativa, é tão imprevisível e perigoso.
Que o caso é preocupante mostram-no os dados estatísticos: o peso da rodovia no transporte nacional de mercadorias é esmagador, ultrapassando os 94%. Nas trocas comerciais com a União Europeia representa 61%. No total, o sector representa mais de 3% do PIB e movimenta 4000 milhões de euros.
Quer isto dizer, portanto, que as economias ocidentais estão presas em duas armadilhas: são petróleo-dependentes e rodovio-dependentes. Em relação ao primeiro caso, o bloco europeu registou vários avanços, bem maiores que os dos Estados Unidos, no sentido de reduzir o consumo de combustíveis por parte dos veículos automóveis, além de diversificar as fontes energéticas, diminuindo assim um pouco a dependência do ouro negro. Mas no que toca à segunda dependência, a Europa em geral, e Portugal em particular, seguiu uma política sistemática de construção de grandes infra-estruturas rodoviárias, que estimularam decisivamente o transporte de mercadorias por esta via. Nos últimos anos arrepiou-se caminho, está-se a apostar cada vez mais na ferrovia, mas ainda há um longo caminho a percorrer até a sociedade europeia deixar de estar na mão de grupos de camionistas que resolvem bloquear as estradas ou os acessos às principais cidades.
É por isso que é um erro Portugal lançar novas troços de auto-estradas e de SCUT; e é por isso que faz todo o sentido apostar na ferrovia e na revitalização dos portos, bem como na da nossa frota comercial.
Isso, contudo, só dará frutos a prazo. Para já, há que negociar e ceder para evitar que a situação se torne incontrolável. Como é óbvio, tudo o que os camionistas conseguirem será pago por todos os contribuintes, o que levanta a questão de saber porque devem ser subsidiados pelo Estado certos grupos socioprofissionais com grande capacidade de pressão sobre o Governo e a sociedade e não outros bem mais frágeis, como idosos ou pessoas de muito baixos rendimentos, que proporcionalmente sofrem muito mais com esta crise do que os camionistas.
Mas em tempo de guerra não se limpam armas. O Governo negociou e fez bem, porque a situação ameaçava lançar o pânico social. Agora, há que retirar os ensinamentos da situação, preparando o futuro e diversificando dependências, para que não se volte a repetir esta sensação incómoda de que um país inteiro está nas mãos de duas ou três pessoas que ninguém conhece.
A casa do Ronald
Foi inaugurada a 3 de Julho a primeira Casa Ronald McDonald em Portugal, um conceito desenvolvido pelo fundador da cadeia de hamburgueres McDonald's e posto em prática nos Estados Unidos e Europa. Em Lisboa, a Casa está instalada junto ao Hospital D. Estefânia e oferece, gratuitamente, apoio e estada a familiares de baixos rendimentos das crianças que se deslocam de diversos pontos do país para receber tratamento prolongado a vários tipos de cancro. A McDonald conseguiu ainda a contribuição de instituições e empresas portuguesas para concretizar este projecto - que melhora quem dele beneficia, mas também quem o apoia.
65 horas semanais
Delícias da globalização: agora é o Conselho Europeu dos ministros do Trabalho e dos Assuntos Sociais que aprovam uma proposta de directiva, que permite aos Estados-membros alargarem o limite do horário semanal de trabalho até às 65 horas (contra as 48 horas actuais).
Ou seja, em matéria laboral, está a ganhar claramente o lado negro da força, aquele em que se trabalha muitas horas por pouco dinheiro, com reduzidas garantias quanto aos vínculos laborais e onde os direitos dos trabalhadores se vão fragilizando face à entidade patronal.
Para quem esperava que fosse ao contrário, que fosse o mundo asiático a adoptar os padrões europeus, a prova está feita. E também é interessante ver como a Organização Mundial de Comércio é cúmplice desta evolução.
Quanto a Portugal, más notícias. O nosso horário laboral de 40 horas não vai resistir a esta nova vaga. Vamos trabalhar mais pelo mesmo dinheiro.
Nicolau Santos