OUVIR Aldina Duarte é, mais do que esse prazer doloroso a que se chama fado, uma experiência de vida. "Eu canto o que não encanta. O que não está bem. O que me revolta. Os meus ideais, a minha convicção e de mais alguém, acho eu", disse ela, numa entrevista ao programa de rádio "Vozes da Terra Pura", em 2006. Lembra-se de ter 15 anos e de se ter tornado uma pessoa diferente depois de ter ouvido Jorge Palma - entendo-a muito bem; aconteceu-me o mesmo, na mesma idade, depois de ter ouvido Sérgio Godinho (só mais tarde descobri Jorge Palma). Mas não é só pela música que Aldina Duarte se deixa transformar. Começou por ser jornalista, depois foi monitora num curso de formação profissional do Centro de Paralisia Cerebral e, em simultâneo, cantora pop - cantava num grupo intitulado As Piranhas. Aldina é uma leitora apaixonada, em particular de poesia. Nota-se no que escreve (tem feito inúmeras letras de canções, para si e para os outros), nota-se na forma como canta, nota-se, acima de tudo, na sua forma de estar na vida. Diz que ficou diferente depois de assistir ao "Stabat Mater" de Maria João Luís, numa encenação de Jorge Silva Melo - a quem deve, aliás, a sua entrada no mundo do fado: o encenador e realizador queria fazer um documentário sobre três fadistas, Aldina ficou curiosa, porque nunca tinha ido a uma casa de fado. Viu e ouviu então, e de muito perto (como o fado deve ser visto e ouvido), Beatriz da Conceição, que considera "a nossa Billie Holiday". E ficou para sempre presa a "uma espécie de tremor". Percebeu que nascera para provocar nos outros aquele estremecimento inexplicável, absoluto. Para o melhor ou para o pior - prefere que odeiem ouvi-la do que sentir o ruído paralisante da indiferença, o "modo funcionário de viver" de que falava Alexandre O'Neill.
Neste país onde as citações dos mortos se ostentam como casacos de pele e a gratidão aos vivos se guarda no cofre do ressentimento, Aldina distingue-se também pela arte da retribuição: nomeia recorrente e comovidamente aqueles que fizeram e fazem dela a pessoa e a artista que é. Em Aldina, as duas dimensões são indissociáveis, e é isso que faz a força e a singularidade da sua voz. Trata-se de uma voz simultaneamente gaiata e rugosa, a voz de uma mulher que não se deixou vergar aos rasgões da vida, e decidiu permanecer menina, levar até ao fim o combate da alegria. Na vida real, Aldina ri continuamente, com gargalhadas bravias. Ouvi-a uma vez dizer que não tinha paciência para ser infeliz; perante o espanto do grupo de mulheres que a ouvia dizer isto depois de ter chorado a ouvi-la cantar, Aldina explicava que a dor do mundo, a concentra na alma para a soltar na voz - e poder, assim, prosseguir no seu combate pela luz do mundo. Mas Aldina explicava isto de uma forma mais simples e mais exacta, com aquele rigor próprio de quem só tem compromisso com a busca da sua verdade.
Aldina lança agora um tratado em forma de CD sobre a feminina arte da sobreposição dos tempos, com o título "Mulheres ao Espelho". Cinco dos onze fados que o compõem têm letra dela; entramos pelo capítulo derradeiro, a persistência da busca depois do desalento ( "No Fim"), encontramos depois o reflexo do tempo nesse espelho que "muitas vezes foi partido/ prometido e proibido/ aos encantos do amor" ("Princesa Prometida"), e aprendemos a desenhar na mágoa o sentido do voo: "Se a medida do meu tempo/ É esperar-te até ao fim/ Quero ser a voz do vento/ Quando estás longe de mim" ("Uma Amante"). As palavras de Aldina concentram a clássica solidão das mulheres desenganadas e a fúria renovadora das mulheres que não se deixam tolher pelos desenganos. Não é um disco sobre esse mito conveniente chamado "A Mulher", nem sobre essa jóia vaga a que chamamos, em letra maiúscula, "A Saudade". O que a voz de Aldina nos oferece - acompanhada pelo talento de José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e de Carlos Manuel Proença (viola) - é uma viagem sentimental que desconstrói as ideias feitas sobre a paixão e a perda, a felicidade ou o desespero. É assim o seu "Paraíso Anunciado": "Onde as flores se tornam pão/ E os amores são água pura/ Sempre aberto o coração/ Ilumina a noite escura". Encerra o CD uma outra voz de mulher, a solo, sem música: a voz da magnífica poeta que é Maria do Rosário Pedreira (que assina as letras de dois outros fados deste "Mulheres ao Espelho"), dizendo um poema avassalador ("Mãe"). Há ainda uma outra voz de mulher neste disco: a de Maria João Seixas, que escreve sobre Aldina: "Caminhando o seu caminho, atenta ao ar do tempo e do lugar que habita, gulosa deles, foi apalpando as estrias da memória de si, com desassombro, mesmo (ou sobretudo) quando mais faziam doer. Aprendeu a olhar de frente as feridas e as cicatrizes, sorrindo-lhes para melhor as sarar." Aprendeu, e oferece-nos tudo o que aprendeu, até ao fundo, sem medo nem pose nem nada. Canta como vive, destemida e simplesmente. Como se apenas quisesse acrescentar uma espécie de tremor à vida. E acrescenta mesmo.
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