Bush veio de mãos a abanar
Mustafa Kamal /EPA
O mês de Maio de 2008 vai ficar na história do cidadão comum americano como o momento do choque psicológico. Finalmente, o americano da rua deu-se conta - na bomba da gasolina, no sofá em frente da TV e na primeira página do seu mais importante jornal - que a era do petróleo barato acabou mesmo.
Na bomba de gasolina, o automobilista americano surpreendeu-se com o galão (não confundir com o café com leite) a chegar aos 4 dólares e começou a entrar em pânico (apesar de, ao câmbio actual, ser, ainda, menos de metade do preço do litro em Portugal!). Pela primeira vez, começou a perceber que o impacto real do barril de crude acima dos 100 dólares (barreira que foi ultrapassada em Fevereiro deste ano) também lhe toca.
CNN assusta com "Out of Gas"
A CNN passou um documentário de choque intitulado "Out of Gas" ficcionando uma crise dramática, económica, social e geopolítica, para o final de 2009, uma prenda envenenada para o próximo inquilino da Casa Branca. A poderosa estação televisiva abraçou o ponto de vista de que a alta do preço do barril tem razões estruturais (o famoso "pico da produção do petróleo" e a mudança na cena geopolítica com o fim provável do estatuto de "hegemonista sozinho" dos EUA) e não meramente conjunturais (sejam elas, acontecimentos fortuitos que sempre ocorrerão, como aconteceu agora com o terramoto na China, ou a "bolha" de especulação financeira nas "commodities").
O diário 'Wall Street Journal' divulgou que a Agência Internacional de Energia irá rever, em Novembro, os seus prognósticos sobre a oferta futura de petróleo, especulando que a revisão será em baixa - o aumento progressivo de produção estimado estará muito abaixo de atingir o patamar dos 116 milhões de barris diários em 2030 (actualmente está nos 87). Ou seja, a agência embarcou, também, na corrente "pessimista", comenta o jornal. Apesar do "rascunho" do relatório ainda estar a ser teclado nos computadores com base na investigação nos 400 campos petrolíferos existentes, o efeito das suas prováveis conclusões estatísticas fez já tremer tanto os "traders" como o leitor mais ligado a estes temas.
Mercado de futuros atacado pelo vírus do "contango"
O mês de Maio tem visto os noticiários televisivos e as manchetes "online" repetir diariamente que os "máximos históricos" foram ultrapassados, o que, de tanto ser repetido, já é uma banalidade.
O acaso, ainda por cima, resolveu dar um empurrão negativo - o terramoto na China ocorreu numa região (Sichuan) que produz 22% do gás natural e que detém imensas barragens e estações eléctricas (396) e minas de carvão (no conjunto de Sichuan, Chongquing e Gansu há 22 minas importantes). Tudo está paralisado.
Estima-se que, para além dos Jogos Olímpicos de Beijing, o efeito acumulado com esta paragem forçada provocada pelo terramoto naquelas regiões obrigará a um aumento excepcional da procura chinesa de crude. A situação é ainda mais dramática no campo dos destilados - o aumento da procura de gasóleo por parte da China deverá disparar justamente numa altura em que os "stocks" deste destilado são escassos face à procura, particularmente na Europa e na Ásia, alertou, esta semana, a Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás (ASPO) dos Estados Unidos.
A questão fundamental é que o petróleo - como "commodity" não renovável que é - entrou desde 1999 numa nova fase da sua formação de preço, em que os constrangimentos estruturais da oferta determinarão que se comporte como um mercado liderado pelos vendedores (que poderão reforçar o seu papel de cartel) em que estes terão condições de impor os seus preços e as suas estratégias... até que a "commodity" em causa deixe de ser crítica em termos de consumo (nomeadamente para todo o sistema mundial de transportes).
Tudo indica que o preço do barril se consolidará no patamar dos 130 dólares durante o próximo mês e que a barreira dos 150 dólares poderá ser galgada no segundo semestre deste ano. A Goldman Sachs vaticinou, como média, 135 dólares no terceiro trimestre e 145 no último trimestre de 2008.
Convém, o leitor ter em conta que o comportamento do preço desta mercadoria é oscilante - sobe de um modo "não linear", ou seja parece-se com um io-iô. O facto de estar hoje nos 130 dólares não significa que nas próximas semanas não possa descer, para depois retomar o patamar anterior, e disparar para cima. Tendo triplicado de preço nos últimos cinco anos, o preço do barril poderá continuar a ter uma subida de longo prazo similar, com várias oscilações mais ou menos pronunciadas.
Provavelmente mais técnico - e por isso menos óbvio para o leitor comum - é o facto do preço no mercado de futuros do crude ter entrado numa dinâmica de "contango" (uma corrupção dos termos continuação e contingência, um palavrão técnico inventado no século XIX em Inglaterra), ou seja, apresenta preços progressivamente mais altos do que os no mercado de entrega imediata (chamado de "spot"). O que significa que os "traders" já interiorizaram que o disparo dos preços veio para ficar.
O petróleo não vai nascer para todos
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| O americano da rua deu-se conta que a era do petróleo barato acabou mesmo |
| Don Ryan/AP |
Apesar do marketing intenso (para efeitos de valorizações bolsistas ou ganhos de posição geopolítica) em torno de muitas novas descobertas de reservas petrolíferas, a questão crítica é a sua extracção, produção e destilação rentáveis. E, sobretudo, o seu efeito liquido na oferta global (ou seja, à medida que alguns são descobertos ou iniciam exploração, muitos outros poços vão ficando esgotados - o que conta é o saldo).
Diversos estudos apontam para um facto incontornável - o pico de produção do petróleo poderá ocorrer antes de 2010 e, segundo as previsões mais optimistas, até 2025. A aproximação deste tecto provoca uma escalada altista, facto histórico já observável nos ciclos de outras "commodities" não-renováveis. O investigador Ugo Bardi, da Universidade de Florença, demonstrou um comportamento similar para o caso do óleo de baleia no século XIX.
O que o pico significa é que, numa fase imediatamente seguinte, a produção não chegará para o aumento muito superior da procura, até que o efeito dos preços altos contraia drasticamente a própria procura. Um "equilíbrio" entre oferta e procura será atingido - mas a um nível muito mais baixo, e sem que o preço da "commodity" baixe significativamente. O que é que isto significa? Que não haverá petróleo para todos e que não serão muitos os que terão dinheiro para o pagar!
Não será de estranhar, por isso, que se generalize, nesta fase de ocaso, a prática da troca directa de petróleo por outros produtos sem intervenção de divisas - o que tecnicamente se chama de "barter", uma prática comercial típica de mercados com "rigidez" e em épocas de hiperinflação ou desvalorizações massivas.
Ilusões de "intervenção" política
O mês de Maio assistiu nos Estados Unidos ao "ensaio" geral de todos os argumentos sobre a forma do poder político "intervir" na situação.
A Administração Bush foi ao Médio Oriente ver se "extraía" mais petróleo. Mas, em troca, recebeu uma promessa sem grande impacto (300 mil barris por dia da parte da Arábia Saudita), e uma contra-resposta do cartel dos produtores: de que a culpa era dos especuladores financeiros e da imposição de impostos elevados sobre os destilados pelos países consumidores.
O cartel da OPEP não quer admitir publicamente que a sua galinha dos ovos de ouro atingiu um tecto e que, por isso, terá de gerir o que resta de um modo muito apertado. A intervenção militar para "regular" o assunto, também se mostra muito cara financeira e geopoliticamente (vide caso do Iraque), e sem grande impacto na oferta. Uma intervenção mais "soft", através da Organização Mundial do Comércio pressionando o cartel, esbarra com lacunas legais e dúvidas de eficácia.
Restam, por isso, os outros argumentos "domésticos" de emergência, muito esgrimidos na contenda das primárias das presidenciais norte-americanas.
O efeito da especulação financeira é inferior a 15% do preço actual. E, mesmo que parasse, o impacto em baixa seria transitório, refere o investigador Pedro de Almeida, 49 anos, especialista nos mercados financeiros e de "commodities", professor na Universidade da Beira Interior. Mais: "Quaisquer medidas que se tomem contra os ditos especuladores financeiros apenas tenderão a reduzir a liquidez dos mercados mundiais de crude, limitando as possibilidades de utilização desses mercados para que os produtores e consumidores efectivos façam os seus negócios em boas condições", sublinha o investigador e consultor. Acresce, ainda, que face à tendência de declínio das bolsas e à desvalorização do dólar, os investidores encontram nas "commodities" uma zona de refúgio - é uma "lei de ferro" da finança. Não há política "voluntarista" que lhe valha.
Devido à pressão política no Congresso dos Estados Unidos, a Administração Bush travou os fornecimentos adicionais de crude para a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos. Uma medida que não tem impacto significativo nos preços (como se está a observar), servindo apenas para "desdramatizar" a situação. E que poderá ser um erro estratégico desguarnecendo uma reserva que poderá ser vital para os EUA.
Finalmente, o discurso dos impostos sobre os combustíveis. Jack Nilles, o "pai" do teletrabalho, foi dos poucos gurus americanos que teve a coragem de ir contra a corrente, e de fazer uma afirmação politicamente incorrecta. Afirmou explicitamente que realizar uma isenção populista de impostos na gasolina, durante as férias por exemplo, é um erro estratégico que só atrasa o necessário incentivo à reconversão urgente (e inevitável) do sistema de transportes norte-americano. Pedro de Almeida, por seu lado, refere: "Os Estados Unidos terão dificuldade em reduzir ainda mais os impostos numa conjuntura de défices públicos. São ideias que passam bem nos votantes, mas só defensáveis por políticos inconscientes, que comprometerão ainda mais a evolução futura da economia americana".
Paradoxalmente, é provável que uma reversão da política da Reserva Federal (FED) - que continua a insistir em manter taxas de juro negativas (ou seja, que empresta o dinheiro aos bancos a um juro muito inferior à inflação, obrigando os contribuintes a pagar esse subsídio encoberto à alta finança) - "trave", a partir de certo ponto, a espiral dos preços do petróleo. Luis de Sousa, outro especialista em petróleo, e membro da ASPO portuguesa, comenta: "Antes de se chegar a valores astronómicos do barril, é provável que haja uma intervenção monetária no sentido da que Paul Volcker [presidente da FED entre 1979 e 1987] fez em 1982".