02/00/0 actualizado às 0:00
Luís Carmelo Mann, Visconti e o caso Casa Pia  «  Luís Carmelo  «  Blogues  « Página Inicial |

Mann, Visconti e o caso Casa Pia

8:00 Quinta-feira, 22 de Mai de 2008
Deixe aqui o seu comentário 1 comentário   [2444 visitas]
Aumentar Texto Diminuir Texto Link para esta página Imprimir Enviar por email
del.icio.us technorati digg facebook myspace reddit google search.live newsvine

Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, "Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade" (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de "teatralizar o quotidiano", o "estupendo sentido de metamorfose" e a "desenvoltura irreverente" sempre "capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável". Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado "numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa" (entre as que tinham uma dimensão nacional).

O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra "engrenagem" não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.

Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a "teoria da cabala" e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue "Muito Mentiroso"), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).

Quando soletro muito devagar a palavra "engrenagem", estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza - 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade com que vivi a obra de Visconti, à época, teve a sua origem em vínculos estéticos puros e em nada mais.

Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou 'não permissivo') de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz - pela primeira vez - de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor

1 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
visconti, mann
patricio branco (seguir utilizador), 1 ponto , 8:17 | Sábado, 24 de Mai de 2008
a luz de durão barroso estava na grand place, ao fim do tunel que ia da politica nacional à politica europeia. Hoje, dou razão a D B, não desertou, foi para onde devia ir.
por outro lado, não parece necessário fazer declaração aclaratória sobre as razões porque a morte em veneza agrada.
quanto a EPC, perdeu uma ocasião para escolher outra personalidade rosto do s.xx português. antes de herman josé está p.ex. vasco santana, um actor muito melhor e sem tiques, e antes de vs estão muitos outros rostos em vários sectores, do politico ao intelectual ao niversitário ao artistico.
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
1 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Arquivo


Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade no Expresso
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado. O registo é gratuito e demora pouco mais de 30 segundos.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo. Depois disso, poderá comentar qualquer conteúdo.

Clique aqui  para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para novosite@expresso.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.

Miguel Martins, Editor de Multimédia do Expresso

Presidenciais: Lavazza vs. pasta medicinal Couto

0:00 Quarta-feira, 27 de Jan de 2010,
[179 visitas]

Repto aos jornalistas do Expresso

0:00 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010,
[526 visitas]

Os donos do tempo

0:00 Quarta-feira, 30 de Dez de 2009,
[416 visitas]

Portugal é o país popota

0:01 Quarta-feira, 16 de Dez de 2009,
[631 visitas]

Portugal é o país do rato mickey

0:01 Quarta-feira, 2 de Dez de 2009,
[623 visitas]

Santana Lopes como personagem romanesco

8:00 Domingo, 15 de Nov de 2009,
[525 visitas]

António Costa como personagem romanesco

8:00 Domingo, 1 de Nov de 2009,
[437 visitas]

Jerónimo de Sousa como personagem romanesco

8:00 Domingo, 18 de Out de 2009,
[517 visitas]

Louçã como personagem romanesco

8:00 Domingo, 4 de Out de 2009,
[515 visitas]
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
Primus Inter Pares
Grupo ImpresaACAP