09/02/2010 actualizado às 22:01
Luís Carmelo Saramago e Pinto da Costa: o mesmo mito  «  Luís Carmelo  «  Blogues  « Página Inicial |

Saramago e Pinto da Costa: o mesmo mito

8:00 Quinta-feira, 15 de Mai de 2008
Deixe aqui o seu comentário Comente   [2684 visitas]
Aumentar Texto Diminuir Texto Link para esta página Imprimir Enviar por email
del.icio.us technorati digg facebook myspace reddit google search.live newsvine

Os mitos não são coisas do passado. Tal como as nuvens, os mitos estão sempre a reaparecer e a transformar-se. E nem sempre são encarnados por personalidades previsíveis. Por outras palavras: a mitologia passeia-se melhor em protagonistas vincados, polémicos e que dividem rebanhos como quem pega fogo a metade do mundo. O mito nada tem que ver com a razão, nem tem um rosto fixo que possa ser descrito de alto a baixo. No entanto, as pessoas precisam de mitos como o mar precisa das suas espécies. E eis como o que aparenta ser distante e mesmo irreconciliável se torna, na arena dos mitos, como algo que se aproxima quase intimamente. É por isso que Saramago e Pinto da Costa são, de algum modo, pilotos da mesma nave. Vejamos porquê:

Fantasias históricas

Toda a performance de Pinto da Costa é atravessada por uma pretensa questão fundacional: como se a "História" fosse uma régua rigorosamente linear, o Norte impor-se-ia ao Sul mouro e as virtudes originais de um contrastariam com as corruptelas da arraia menor (conquistada) do outro. Uma rivalidade fantasiosa que só é vista e entendida no lado de quem a imagina. No caso Saramago, a questão postulada é a ibérica. Não a Norte-Sul e fundacional, mas a que perpassa a sobrevivência do país ao longo de séculos. Para os patrioteiros e para os continuadores doentios do tempo dos "Vencidos da Vida", a fractura voltou a expor-se. Quer Saramago, quer Pinto da Costa adoram expor as fracturas. Com grande ostensão. Diria mesmo: com algum exibicionismo.

Apego tribal

À ideia seminal de região, no caso de Pinto da Costa, corresponde, em Saramago, um outro tipo de região: a ideológica. Uma e outra são esquemáticas, razoavelmente a 'preto e branco' e tendencialmente viradas para a criação de exclusões naturais. Há sempre os "de fora" e os "de dentro" do campo que é apregoado. Um tal maniqueísmo entre os que estão "contra" e os que estão "a favor" é o alicerce, para não dizer a essência, de ambas as mitologias.

Ressentimentos vários

No caso Saramago, foi a idiotice de um governo de Cavaco que lhe deu o pretexto para a queixa sem fim. Precisa dela como água no deserto. Questão de marketing, como se diz em certos meios. No caso Pinto da Costa, a questão é mais endémica: o modo de afirmação do dirigente portista tem como base a necessidade de demonstrar que consegue superar uma perseguição também sem fim. E o objecto perseguidor pode variar, embora tenha que ser omnipresente e todo-poderoso: os media, Lisboa, a justiça, etc.

Domínio dos meios

'Não olhar a meios': eis um lema muito repetido. No caso do mundo futebolístico, a procissão está sempre no adro e a disputa passa por todo o lado e não apenas pelo relvado. Tudo e todos, incluindo a inércia dos tribunais, legitimam este perene estado de coisas. Em Saramago o lóbi é mais sereno... até porque a literatura se vê a si própria - agora já vai acontecendo menos, felizmente - como algo quase sagrado. Um nobel só é nobel por denotar inevitáveis qualidades e, também, por se inserir num imenso mar de influências. Nem sempre essa influência coincide com a arbitragem certa, mas avizinhar-se-á dela. Resumindo: quer Pinto da Costa, quer Saramago são hábeis nos tabuleiros dos respectivos jogos. Habilidades que transcendem (e de que modo) a natureza dos próprios jogos jogados.

Mitos do amor

O clímax destes vários paralelismos, caro leitor, está, de facto, na tradição mais fecunda da espécie. Repare-se: se Saramago herda o mito do amor eterno, cortês e nobre (o tabu de Inês de Castro vs. Pilar - ambas 'não portuguesas' - é evidente), já os folhetins de Pinto da Costa, que incendeiam o país com um fogo mais visceral e menos subtil, reflectem a tradição medieval de uma cidade onde a nobreza não podia entrar (salvo com autorização especial): o Porto. De um lado, o amor proibido e imposto como destino; do outro lado, o amor errante e popular... imposto como forma de inconformismo e de irascibilidade.

Enfim: dois Portugais, mas os mesmíssimos mitos. A mesma respiração transfigurada.

Luís Carmelo

Professor universitário e autor

PUB
 
Arquivo


Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade no Expresso
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado. O registo é gratuito e demora pouco mais de 30 segundos.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo. Depois disso, poderá comentar qualquer conteúdo.

Clique aqui  para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para novosite@expresso.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.

Miguel Martins, Editor de Multimédia do Expresso

Presidenciais: Lavazza vs. pasta medicinal Couto

0:00 Quarta-feira, 27 de Jan de 2010,
[183 visitas]

Repto aos jornalistas do Expresso

0:00 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010,
[526 visitas]

Os donos do tempo

0:00 Quarta-feira, 30 de Dez de 2009,
[416 visitas]

Portugal é o país popota

0:01 Quarta-feira, 16 de Dez de 2009,
[631 visitas]

Portugal é o país do rato mickey

0:01 Quarta-feira, 2 de Dez de 2009,
[623 visitas]

Santana Lopes como personagem romanesco

8:00 Domingo, 15 de Nov de 2009,
[526 visitas]

António Costa como personagem romanesco

8:00 Domingo, 1 de Nov de 2009,
[437 visitas]

Jerónimo de Sousa como personagem romanesco

8:00 Domingo, 18 de Out de 2009,
[517 visitas]

Louçã como personagem romanesco

8:00 Domingo, 4 de Out de 2009,
[515 visitas]
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
Primus Inter Pares
Grupo ImpresaACAP