Por vezes, comparo as imagens de Frida Kahlo aos fantasmas que se passeiam pelas nossas cabeças. A pintora mexicana deixou no imponderável da sua arte a ideia de vitimização (por vezes satírica), de denúncia sarcástica ou de impotência quase irónica. Em linguagem de Rafael Bordalo Pinheiro, a arte de Frida teria espelhado sobretudo o logro das "esperanças vãs", tal como cantava António Mourão na época em que o tempo ainda "voltava para trás".
Só que hoje o tempo deixou de "andar" e de "voltar para trás": apenas emerge, explode e calcorreia a sua sina de instantaneidade. E o sentimento misto de vitimização, denúncia e impotência deixou de ter uma moeda de troca precisa. Por uma simples razão: estamos a viver uma revolução que abandonou - felizmente - a propensão ideológica de transformar o mundo para passar a abraçar a comunicação pela comunicação nesse fiat que, em cada ápice, liga a nossa liberdade (possível) aos acenos da tecnologia. Nunca uma revolução foi tão profunda, intensa e, ao mesmo tempo, tão invisível. É por isso, também, que a nossa sociedade se ressente com alguns fenómenos a que não sabe ainda como responder. E que, geralmente, silencia. E mortifica.
Por exemplo: tente acabar com a assinatura da TV Cabo. Eu conto uma experiência minha recente. Primeiro, apareceu uma senhora (com voz de Tágide simpática) que me encaminhou para um serviço dito "adequado". Depois, uma outra senhora ouviu a minha pretensão. E, claro, que não lhe deu seguimento. Ao invés, perguntou mil coisas à moda de Poirrot, uma delas realmente desconcertante: "Mas, se abandonar esse (...) apartamento, sabe quem o virá ocupar a seguir? Não estaria o novo (...) inquilino interessado em manter os nossos serviços?". Já terão passado quinze minutos e - após nova espera musical (com o objectivo de fazer crescer a impaciência) - a mesma voz pede-me, finalmente, que escreva uma carta à TV Cabo a "requerer o desligamento do serviço". Antes de conseguir terminar a conversa, há ainda tempo para ouvir uma litania doce que me tenta dissuadir (à moda dos pastores protestantes) e que propõe novos "produtos". Após quarenta e dois minutos de suave tortura - um rombo no meu telemóvel -, saio de casa e faço seguir a carta pelo correio.
Corre o dia 25 de Março e escrevo na minha agenda o que então ficou acordado: em Abril já não haverá factura e, no início de Maio, poderei suspender o "débito directo". Só que a TV Cabo não está pelos ajustes. Ao longo do mês de Abril, recebo no meu telemóvel três SMS (que rezam mais ou menos assim): "Ainda não conseguimos dar seguimento à sua pretensão". No dia 2 de Maio, verifico que não foram desligados os canais da TV Cabo e confirmo que tudo o que havia solicitado (num acto da minha livre vontade) foi ignorado de modo ostensivo e deliberado. Preparo-me agora a próxima etapa deste processo kafkiano: vou ao banco, cancelo o débito directo e, como já aconteceu há uns anos sem que absolutamente nada o justificasse, aguardarei que um advogado menor - a quem a TV Cabo confiará alguma "cobrança de dívida" - comunique comigo. Uma beleza.
É profundamente lamentável que, numa sociedade estruturada para a salvaguarda e garantia das liberdades, haja espaço para entidades que se sentem no céu. E que apoiadas na sua engenharia impessoal, fabricada em call centers, se recostem num trono divino imune à intrusão, ao cumprimento da palavra e sobretudo ao contraditório. E a verdade é que este novo modo (de esmagamento do outro) que relega o querer dos simples mortais para o vácuo... morre quase sempre no anonimato mortificado de cada um. Até quando? Frida Kahlo e António Mourão abanam os ombros. Não sabem. E eu, sinceramente, também não. Silenciado, ou quase.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor