1 Neste momento, o PSD não passa de um clone do PS. E, por amor de deus, nenhum país - nem mesmo o Burundi - precisa da caridade de dois partidos socialistas. O PSD tem de concorrer às eleições de 2009 com um projecto alternativo em relação ao PS (peço desculpa ao leitor por este inocente "wishful thinking" - isto passa com a idade).
2 A 'seriedade' não é um projecto político. Ferreira Leite pode ser a rainha da seriedade, mas, se for incapaz de transformar o PSD, será uma rainha inconsequente. A corridinha matinal não pode ser a única diferença entre Ferreira Leite e Sócrates.
3 A liberalização do código laboral é um factor de justiça entre gerações. Os jovens portugueses são 'falsos recibos verdes' porque os seus colegas mais velhos (os 'efectivos') são intocáveis. Regulamentar os recibos verdes vai prejudicar ainda mais os jovens que, hoje, não conseguem melhores condições de trabalho porque as empresas e instituições não podem despedir os trabalhadores incompetentes que vivem à sombra dos direitos adquiridos. O problema não está na leveza dos recibos verdes; o problema está na rigidez das ligações laborais dos 'efectivos'.
4 O Estado não pode ser o Luís Figo e o Pierluigi Colina ao mesmo tempo; é necessário privatizar as empresas que ainda estão na posse do Estado.
5 Os 'laranjinhas' devem usar cravo no 25 de Abril (e boina vermelha no 25 de Novembro).
6 O Estado deve redireccionar o orçamento destinado à educação para o financiamento directo às famílias (cheque-ensino).
7 A lei das rendas tem de ser alterada. Para um jovem, sair de casa dos pais não pode ser sinónimo exclusivo de empréstimo bancário para a compra de casa.
8 Tem de haver liberdade de escolha na saúde: o Estado deve gastar dinheiro em cheques-saúde (para os doentes) e não em salários (para médicos e enfermeiros).
9 O PSD não pode tratar os portugueses da mesma forma que um gestor trata os clientes. Um país não é uma empresa. A 'direita' não pode ser construída apenas com a fé - ao domingo - e com a máquina de calcular - durante a semana. Há qualquer coisa entre a fé e a tecnocracia: chama-se patriotismo liberal. A contenção do défice e a preservação dos bons costumes não são desígnios nacionais. Desígnio nacional é construir uma sociedade assente no trabalho e mérito individual, bem longe das abstracções progressistas (Povo, Igualdade) e reaccionárias (Tradição, Nação) que destruíram o século XX português.
10 Se o PSD não cumprir estes nove pontos, então, sobra apenas um caminho para esta agremiação política: cometer haraquiri. O PSD não serve para nada se não tiver a coragem para defender estas e outras ideias. E ninguém deve chorar sobre o cadáver laranja.
Duas versões do Mal
Em 'Europa em Guerra' (Edições 70), o historiador Norman Davies provoca dois deliciosos curto-circuitos na sensibilidade da Europa Ocidental. Primeiro: a derrota de Hitler foi provocada pela URSS e não pelos aliados. Segundo: a URSS foi um regime tão maléfico como a Alemanha Nazi. A II Guerra Mundial não foi o confronto entre o Bem e o Mal; a última grande guerra foi um duelo entre duas versões do Mal.
Henrique Raposo